sexta-feira, 17 de julho de 2015

cê: cinco

(...)
eu já me apaixonei, sim. faz tempo, mas já me apaixonei. acho que foi só uma vez mesmo. não dou importância aqui às paixonites da infância e da adolescência – porém, por vezes penso que devesse importar-me com isso, sim, pela beleza e pela sutileza e pela pureza daquelas paixões. mas prefiro tratar aqui das paixões já depois de adulta. quer dizer, ali quase adulta, saindo da adolescência, que é quando a gente passa a ter mais controle sobre os próprios atos, a equilibrar melhor o que pensamos e a forma com que agimos.
bom, mas eu me apaixonei foi por um cara mais velho que eu. mesmo que eu more sozinha há bastante tempo (morar com a própria mãe é quase que morar sozinha, sim. eu pelo menos assim considero) gosto da ideia de ser cuidada por alguém mais velho – um cuidado do qual sinto falta. gosto da ideia de ter alguém em quem me apoiar nos momentos de queda, de fraqueza, de tristeza. vejo os relacionamentos como algo assim, uma vida a dois, não cada um cuidando de sua própria vida, e sim dois que cuidam de uma vida a dois. talvez por isso eu esteja há tanto tempo sozinha. quem sabe?
mas eu não fui sempre uma mulher sozinha, não. posso estar sozinha há bastante tempo, mas não desde sempre. eu já namorei, por exemplo. já namorei por sete anos. com esse homem pelo qual fui perdidamente apaixonada. eu gostava muito do marcos. nós nos conhecemos na faculdade: eu cursava pedagogia, ele, marketing. pelos corredores universitários nos conhecemos. não foram amigos que nos apresentaram, não. eu nunca tive uma vida social ativa. o marcos, sim, o marcos vivia entre amigos e amigas. e por tanto nos encontrarmos sem querer pelos corredores da universidade, um dia ele parou e me cumprimentou, perguntou que curso eu fazia, em que fase eu estava, e outras perguntas das quais eu não me recordo agora. mas eu lembro da minha reação naquele momento, um misto de felicidade e de medo. é possível perceber o quanto sou insegura, não é? lembro-me de ter falado pouco para o marcos naquele dia. coitado, deve ter ficado assustado, algo assim. nunca perguntei a ele o que ele achou de mim naquele primeiro contato.
depois daquele dia, encontramo-nos mais vezes pela universidade. por outros corredores. era engraçado, até. ríamos assim que nos víamos de longe. e parávamos o que estávamos fazendo para conversar. em pé mesmo. nos corredores mesmo. não me recordo agora por quanto tempo ficamos assim, nessas gostosas conversas. do que me lembro foi do dia em que o marcos me pediu se eu não gostaria de sair com ele no final de semana. comer uma pizza, ele sugeriu. eu achei ótimo. eu adoro pizza. e ele me parecia, de fato, uma excelente companhia para comer uma pizza. aceitei na hora. e naquele final de semana fomos à pizzaria. era uma sexta-feira, sei disso. e no sábado nos vimos novamente. e no domingo já estávamos namorando. foi tão bonito. foi tão legal. depois de um mês, então, de saídas aos fins de semana e de “esbarrões” pela faculdade, apresentei o marcos à minha mãe. e pouco tempo depois fui apresentado à família dele. ele, apesar de mais velho que eu, ainda morava com os pais. eram somente os três.
namorei por sete anos. talvez eu pudesse contar como foram esses sete anos de namoro. como foi o primeiro ano, depois o segundo, e assim contando ano a ano, para quem sabe entender porque não namoro mais, porque meu namoro de sete anos acabou. mas não vou contar agora porque e como meu namoro acabou. fico satisfeita de ter dito que já me apaixonei, sim, que já namorei, sim. que foi bom, foi muito bom enquanto durou. as dores consequentes de um rompimento amoroso eu deixo para escrever em outro momento.
vou dizer agora que gostaria de me apaixonar novamente, sim. gostaria muito, muito. mas eu pouco me relaciono com as pessoas para conseguir isso. eu tenho poucos amigos, talvez já tenha sido possível percebido. tenho duas amigas mais próximas, assim, com quem converso pelo telefone. e tenho um amigo só, que é mais distante. é escritor, vive ocupado, dá aula em universidade, vive lendo, escrevendo, rodeado de amigos chiques, de pessoas conhecidas, inteligentes. ele até me convidava bastante para acompanhá-lo nesses eventos no começo de nossa amizade. mas eu sempre neguei. um pouco, devido ao ciúme do marcos. o marcos morria de ciúme dele. mas um pouco por mim mesma. eu tenho muito medo de gente. tenho medo de parecer burra. tenho medo de ser inconveniente, de estar atrapalhando algo. por isso não procuro as pessoas para sair, não. no máximo minhas duas amigas, para um café da tarde aqui no apartamento, mas já faz tanto tempo. elas gostavam muito da minha mãe. davam-se super bem. ajudaram-me bastante nos últimos meses. agora se afastaram um pouco. tadinhas. vai ver cansaram também de dar conta de mais uma vida assim. eu as entendo.

mas, então, como eu ia dizendo, tenho bastante vontade de me apaixonar novamente, mas não sinto disposição para aquele processo de conhecer alguém, de pisar em ovos para não desagradar tal pessoa, de se esconder muitas vezes para só mais tarde revelar-se por completo. não gosto disso. tenho medo mesmo. logo, prefiro minha quietude (eu gosto tanto dessa palavra). prefiro meu silêncio aqui. meus cadernos de aula, meus livros didáticos. meu rádio ligado na estação de rádio aqui da cidade. uma vez ou outra algum livro como companhia. sou feliz assim. acho que sou feliz assim. contudo, quem sabe eu não pudesse ser mais feliz se eu saísse, se eu me dispusesse a conhecer pessoas novas, a circular por outros meios, a fazer outros caminhos, a sair mais de casa. quem sabe?
(...)

ítalo puccini 

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