quinta-feira, 18 de junho de 2015

com festa, bolo e brigadeiro

“a gente quer um canto sossegado, a gente quer um canto de sossego”.
assim canta o renato russo, na música “o descobrimento do brasil”, e assim eu me sinto na maior parte dos meus dias, desejando um canto de sossego – expressão maravilhosa, que me remete ao maneca e à sua literatura em torno de árvores, silêncios e palavras.
e esse sentimento se acentua quando no meu dia de aniversário, pelo qual passei no último domingo. dispenso a festa, o bolo e os brigadeiros por preferir a quietude da companhia de poucas pessoas e o almoço da mãe – nesse último, um escondidinho delicioso, com uma torta de bolacha de sobremesa, propositalmente remetendo à infância e assim acentuando a passagem e a reflexão sobre mais um ano de vida.
dispensei, inclusive, o parabéns pra você e sua rima tão bem elaborada, afinal, consegui desvirtuar o assunto no momento em que a mãe cogitou cantá-lo. contudo, mesmo o dia catorze de junho tendo caído num domingo, na segunda-feira, em sala de aula, eu não escapei daquele momento em que você fica igual ao robinson crusoé: ilhado – porém em meio a muitas pessoas.
no meu caso, além de me sentir assim, eu enrubesço – ainda bem. mais ainda: eu fico tão vermelho a ponto de causar preocupação nos outros: “professor, tá tudo bem? não vai passar mal, né?”. não, não passei mal, mas senti vontade de fugir daquela exposição toda. se houvesse um bolo com uma vela acesa, a ser apagada, eu desejaria muito estar na minha casa, em silêncio. mas não me trouxeram um bolo, foi só a barulheira desritmada e as vozes risonhas de quem sente prazer simultâneo em: demonstrar carinho e zoar o outro.
sim, porque antes do gesto carinhoso presente no parabéns pra você por parte dos alunos há o prazer maior de zoar com o professor. é o momento em que eles, imagino eu, sentem-se superiores, subvertem a hierarquia previamente estabelecida nessa relação docente-discente e assim alcançam o ápice da alegria escolar. e, por mais que esta croniqueta talvez não pareça – afinal, através das entrelinhas muitos sentidos estão implícitos – eu fiquei grato junto à bagunça organizada pelas crias a quem leciono.
aliás, deparei-me com algumas variações interessantes: teve turma que levou consigo um outro professor, pediu licença, interrompeu minha aula e cantou o parabéns, somando vozes e palmas à turma na qual eu estava; os mais velhos, os do terceirão, não esconderam a satisfação em tornar tênue esse misto de alegria e subversão e cantaram-me parabéns nos dias quinze e dezesseis – tudo bem, com menos intensidade neste último; e em uma turma de segundo ano eu recebi de presente um quadro repleto de desenhos e frases e tudo o que era possível registrar a mim. foi um presente maravilhoso para simbolizar a passagem da data de aniversário: é apagar o quadro, antes bater uma foto, e seguir a aula em frente.
       passou o dia catorze, hoje já é dia dezoito, agora, mais um ano pela frente, para novamente lidar com essa angústia existencial que muito se faz presente, a sentir pelas conversas com outras pessoas, em mim e em tantos outros. a registrar, por fim, o presente que eu não me dei: uma camisa da argentina, número dez, do messi. a rafa temeu por mim, argumentou a possibilidade de eu até ser agredido em algum lugar ao qual fosse vestido com aquela lindeza de azul e branco, e o fox foi muito sincero comigo ao dizer que, ao me ver naquele traje, sentiria vontade de me dar um soco na cara. sendo o braço dele bastante grande e forte, e não desejando causar angústia à rafa, declinei do meu presente-próprio, substituindo, até o momento, por nada.

ítalo puccini 

Um comentário:

Regina Carvalho disse...

Parabéns atrasados, lindinho! E saudades! bj