sexta-feira, 26 de junho de 2015

os sentinelas

I

sinto medo de ir dormir e, ao acordar, ser notícia,
estar nas manchetes dos sites e dos jornais impressos,
culpado por ter falado durante o sono
ou por ter ido dormir de meia branca,
sendo que o chão da casa estava sujo.

sinto medo de sair de casa e, ao voltar, ser barrado
por repórteres, cinegrafistas, curiosos, no portão da minha casa,
questionando-me por que fui trabalhar sem
gravata, justo hoje que todos haviam combinado
em vestir-se com traje fino.

sinto medo de abrir meu e-mail ou minhas contas em redes sociais
e ler pessoas escrevendo em caixa alta
para anunciar a venda do caixão que era do bisavô – agora cremado –
ou para defender uma opinião:
“MAS ISSO É SÓ UMA PIADA!”

agora, com esses medos, sei porque minha dor de ouvido não passa.
são essas exclamações ao final de cada frase,
são as palavras em caixa alta,
são as frases que eu digo ou escrevo no dia-a-dia
e que se tornam manchete ou piada em grupos de whatsap.

se eu não soubesse ler, não me incomodaria com isso,
e, também, não sentiria medo ao acordar ou dormir.
tudo é culpa da leitura, da minha ânsia pelas letras,
do meu desejo de ler, reler, transler e sentir
cada átomo de vida que se encontra ao redor de mim.

se somos aquilo que desejamos,
meu medo é fruto de meu sentimento de culpa,
meu medo vem dos poemas que li,
porém, com eles me defenderei
de tudo o que corta, morde e fura.

ao meu lado estarão:
drummond e seu tempo de homens partidos,
joão cabral e a faca só lâmina,
hilda e seus desejos,
manoel de barros e a natureza que é palavra,
leminski e o destino com o qual não se discute.

ítalo puccini

quinta-feira, 18 de junho de 2015

com festa, bolo e brigadeiro

“a gente quer um canto sossegado, a gente quer um canto de sossego”.
assim canta o renato russo, na música “o descobrimento do brasil”, e assim eu me sinto na maior parte dos meus dias, desejando um canto de sossego – expressão maravilhosa, que me remete ao maneca e à sua literatura em torno de árvores, silêncios e palavras.
e esse sentimento se acentua quando no meu dia de aniversário, pelo qual passei no último domingo. dispenso a festa, o bolo e os brigadeiros por preferir a quietude da companhia de poucas pessoas e o almoço da mãe – nesse último, um escondidinho delicioso, com uma torta de bolacha de sobremesa, propositalmente remetendo à infância e assim acentuando a passagem e a reflexão sobre mais um ano de vida.
dispensei, inclusive, o parabéns pra você e sua rima tão bem elaborada, afinal, consegui desvirtuar o assunto no momento em que a mãe cogitou cantá-lo. contudo, mesmo o dia catorze de junho tendo caído num domingo, na segunda-feira, em sala de aula, eu não escapei daquele momento em que você fica igual ao robinson crusoé: ilhado – porém em meio a muitas pessoas.
no meu caso, além de me sentir assim, eu enrubesço – ainda bem. mais ainda: eu fico tão vermelho a ponto de causar preocupação nos outros: “professor, tá tudo bem? não vai passar mal, né?”. não, não passei mal, mas senti vontade de fugir daquela exposição toda. se houvesse um bolo com uma vela acesa, a ser apagada, eu desejaria muito estar na minha casa, em silêncio. mas não me trouxeram um bolo, foi só a barulheira desritmada e as vozes risonhas de quem sente prazer simultâneo em: demonstrar carinho e zoar o outro.
sim, porque antes do gesto carinhoso presente no parabéns pra você por parte dos alunos há o prazer maior de zoar com o professor. é o momento em que eles, imagino eu, sentem-se superiores, subvertem a hierarquia previamente estabelecida nessa relação docente-discente e assim alcançam o ápice da alegria escolar. e, por mais que esta croniqueta talvez não pareça – afinal, através das entrelinhas muitos sentidos estão implícitos – eu fiquei grato junto à bagunça organizada pelas crias a quem leciono.
aliás, deparei-me com algumas variações interessantes: teve turma que levou consigo um outro professor, pediu licença, interrompeu minha aula e cantou o parabéns, somando vozes e palmas à turma na qual eu estava; os mais velhos, os do terceirão, não esconderam a satisfação em tornar tênue esse misto de alegria e subversão e cantaram-me parabéns nos dias quinze e dezesseis – tudo bem, com menos intensidade neste último; e em uma turma de segundo ano eu recebi de presente um quadro repleto de desenhos e frases e tudo o que era possível registrar a mim. foi um presente maravilhoso para simbolizar a passagem da data de aniversário: é apagar o quadro, antes bater uma foto, e seguir a aula em frente.
       passou o dia catorze, hoje já é dia dezoito, agora, mais um ano pela frente, para novamente lidar com essa angústia existencial que muito se faz presente, a sentir pelas conversas com outras pessoas, em mim e em tantos outros. a registrar, por fim, o presente que eu não me dei: uma camisa da argentina, número dez, do messi. a rafa temeu por mim, argumentou a possibilidade de eu até ser agredido em algum lugar ao qual fosse vestido com aquela lindeza de azul e branco, e o fox foi muito sincero comigo ao dizer que, ao me ver naquele traje, sentiria vontade de me dar um soco na cara. sendo o braço dele bastante grande e forte, e não desejando causar angústia à rafa, declinei do meu presente-próprio, substituindo, até o momento, por nada.

ítalo puccini 

quarta-feira, 17 de junho de 2015

sexta-feira, 12 de junho de 2015

nunca consigo comer uma maçã na íntegra

nem que eu fosse uma mistura de ney matogrosso renato russo e mick jagger ou os três simultaneamente no mesmo corpo na mesma cabeça nas mesmas atitudes por mais que eles ajam de modo parecido eu fico em casa conectado ao meu computador um daqueles modelos tão antigos que se for desligado nunca mais funcionará então eu não aperto no botão do estabilizador eu o deixo sonecando durante o tempo em que não o utilizo se bem que quando tou em casa eu tou conectado a ele e nele eu fico assistindo a apresentações dos três do ney do renato e do mick e observo as semelhanças nas atuações de palco de cada um e tenho comigo a certeza de querer ser os três ao mesmo tempo um dia eu vou ser mas primeiro um dia eu serei capaz de sair de dentro desse meu apartamento desse lugar que não recebe uma luz externa há mais de três anos desde que minha ex terminou comigo ela morava aqui vivia reclamando da bagunça desse lugar mas gostava muito de mim eu estava certo de que ela nunca se separaria de mim e um dia ela arrumou o pouco de pertences dela e disse vou embora abriu a porta e saiu e eu fiquei deitado na minha cama olhando pra porta durante mais de doze horas sem entender o encadeamento dos fatos eu travei desde aquele dia eu não consigo lembrar do que aconteceu antes de ela falar eu vou embora e aos poucos eu me afastei das pessoas ainda próximas a mim não convidei mais ninguém a vir aqui nem mesmo o entregador de pizzas amigo meu que gastava um tempo aqui dentro enquanto o patrão ligava desesperado e ele dizia que tava preso num engarrafamento eu troquei de pizzaria e agora peço apenas três vezes por semana pizza de lombo com catupiry e metade portuguesa como eu moro sozinho mesmo fodam-se os peidos que eu dou aqui dentro enquanto eu assisto aos meus artistas preferidos necessidades fisiológicas gosto muito de escrever sobre isso nos blogs que eu assino como se fossem meus tenho uma infinidade de seguidores em cada blog coitados eles acreditam que eu sou aquele perfil lá apresentado não imaginam o lugar onde eu moro as minhas fobias os traumas familiares isso vem desde a minha adolescência eu escrevia como se não fosse eu e sim um outro qualquer a mim e a todos desconhecido justamente desse modo eu passei a entender a literatura os seus meandros o viés pelos quais somos conduzidos em um texto literário foi o momento em que me apaixonei pela primeira vez depois veio a minha ex e os três anos nos quais fomos felizes ao menos eu considerava assim agora eu a odeio e continuo amando a literatura explorando-a suas arestas suas veredas leio muitos novos escritores não na íntegra seus livros cansam ainda não há uma escrita segura neles mas me agrada conhecer seus textos imaginar quem são porém não há nada que se aproxime dos clássicos por isso os releio frequentemente são mais do que fonte de inspiração literária eles a mim representam o ápice da leitura a ser feita sobre a vida e eu sinto que se não fosse escritor eu seria o ney o renato e o mick em uma só pessoa e encantaria a todos sobre um palco e ganharia muito dinheiro porém não saberia usá-lo devidamente eu provavelmente me endividaria e precisaria ser socorrido por algum familiar que bufasse a cada ligação ou visita minha nesse sentido eu fico feliz com o fato de meu pai ter sobrevivido ao câncer de boca assim ele continua pagando minhas contas faz questão de sempre dizer que nunca colocará dinheiro na minha mão mas ele não sabe que eu também me contento com isso o discurso dele me é vazio mesmo que a ele seja imponente eu não tenho uma cédula na carteira há cinco anos já mas também não há dívidas em meu nome na verdade é tudo no nome dele do meu pai este apartamento os móveis que eu comprei para mobiliá-lo as esporádicas faturas a conta no banco e não há nada mais justo afinal meu pai nunca me ensinou a lidar com dinheiro então ele que continue bancando tudo mantendo a vida nos trilhos como ele costuma dizer todo mês quando brevemente nos falamos pelo telefone porque segundo ele conversa virtual não faz sentido é uma injúria da sociedade moderna nossa o discurso do meu pai é recheado de clichês eu sei que ele tem uma conta no facebook eu descobri é uma prova que eu tenho para um dia jogar na cara dele o quanto a sua hipocrisia me dá nojo mas eu aguardo não quero precipitar-me está tudo tão bem tão calmo eu sei esperar eu aprendi a saber esperar eu por exemplo aguardo a sexta-feira como aguardo o final do mês como aguardo o final de um ano ou o término de um dia é o momento em que eu sinto a vida reiniciar é tudo muito simbólico talvez eu seja um dos poucos a sentir isso apesar de todos aguardarem por isso também nunca fui capaz de explicar porque eu me sentia tão feliz numa sexta-feira ou num dia trinta ou trinta um ou à noite mesmo e eu sofro por não saber colocar palavras nesse sentimento a mim é uma frustração se eu soubesse a causa dela eu me sentiria mais pleno eu talvez soubesse viver sem me lembrar do dia em que minha ex saiu pela porta desse lugar e nunca mais eu soube dela eu agora sinto cada final de dia semana mês ou ano como sendo uma possibilidade de mudança a mais repentina mudança que os filmes de ficção podem oferecer parece-me que um relógio será desligado e iniciaremos uma nova vida todos nós seres humanos em um outro espaço tempo no qual não existirá a comunicação do modo como a conhecemos e vivenciamos hoje no qual não existirá a angústia humana fruto dessa forma de comunicação a que chegamos no qual eu sinto que serei o ney o renato e o mick numa só pessoa e conseguiremos todos comermos junto uma maçã na íntegra

ítalo puccini