domingo, 10 de maio de 2015

cê: quatro

(...)
eu também preferia não saber o que é cirrose.
cirrose deve ser algo muito mundano mesmo. eu imagino que sim. é palavra que minha mãe dizia a mim sempre que eu perguntava pelo meu pai. era assim: “mãe, você não sabe por onde está o meu pai?” no que ela me respondia: “deve de estar por esse mundo afora morrendo de cirrose”. e então eu não perguntava mais nada. ficava quieta por um tempo, pensando no meu pai, sabendo ser inútil tentar qualquer outra pergunta a ela sobre isto. eu tinha quinze anos quando desisti de perguntar. e minha mãe, sem medo algum, desde que ele saiu de casa, quando eu tinha recém-completado onze anos, dizia a mim a frase que eu escrevi acima. e eu não sei lhe escrever se era algo muito forte de se dizer a uma criança, uma quase adolescente. uma menina tímida em excesso, quase muda em sala de aula, de cabelos compridos sempre presos e de óculos.
meus óculos, durante os meus estudos de quinta à oitava séries, era, em primeiro lugar, apertado. eu falei para a minha mãe, quando o estávamos comprando, que ele me apertava atrás das orelhas. ela falou que ele logo amaciaria (sim, eu lembro exatamente da palavra que ela utilizou para justificar a compra daquela armação). e, além de apertado, ele era redondo. mas não um redondo discreto. um redondo grande. um óculos com aro redondo e vermelho. um vermelho brilhante. e com a armação em amarelo. um amarelo-ouro. e apertado, muito apertado. quando eu o tirava, ficava quase que o desenho dele em minha face. e eu era ridicularizada por isto na escola, é claro. mas eu pouco me importava. ridicularizavam-me, sim, e muito, às vezes. porém, eu nunca voltei para casa triste em função disso. eu era indiferente ao que pensavam ou falavam sobre mim. eu era indiferente à escola, na verdade. àquela escola, o que pouco importava para a minha mãe. segundo ela, era uma ótima escola para a minha educação, e que iria me preparar muito bem para os estudos após a oitava série, quando eu deveria já escolher o que eu gostaria de estudar para seguir profissão.
a minha mãe me ensinou também a comer uma fatia de pão, e depois mais uma fatia de pão. somente duas fatias de pão. foi o que ela me ensinou a comer. é o que eu como desde sempre. claro que não comi só pão com nata e açúcar na minha vida. lembro-me da minha adolescência e dos pães com margarina e doce de leite que eu adorava. e eu gostava ainda mais quando era minha mãe quem fazia. não porque o pão ficava muito diferente, não. mas só a ação de minha mãe estar fazendo por mim me deixava mais satisfeita do que o normal.
e sobre o pai – parece-me que crio aqui um diálogo entre meus pais – às vezes eu me pego pensando que já posso ter passado por ele nas ruas dessa cidade, ou de alguma outra cidade próxima a pedra branca – porque para mais longe do que as cidades ao redor de pedra branca eu nunca viajei. e não sei se pretendo um dia. viajar não é algo que me agrada. gosto do meu canto e não gosto de ter que arrumar mala, tanto para ir quanto para voltar. portanto, nas poucas vezes em que resolvo sair de pedra branca, pego um ônibus que circula pelas cidades vizinhas. gasto domingos assim, uma vez ou outra. um domingo ou outro, melhor dizendo. mas poucos, bem poucos. e em alguns momentos eu penso de modo mais extremo ainda. penso que meu pai pode ser o pai de uma das crianças lá da escola. o meu pai pode ser o pai de um aluno meu. um absurdo de se pensar? será? creio que não. afinal, meu pai era novo quando saiu de casa. não sei lhe precisar a idade que ele tinha, mas eu tinha onze anos, e eu sei que ele foi pai cedo. minha mãe deixou isso escapar uma vez. e se agora já são mais de vinte anos de ausência, ele pode muito bem ter se casado novamente e formado nova família. e pode estar sendo um ótimo pai para esta família. e pode, portanto, ser pai de um dos meus alunos, sim, pois são poucos os pais que vão à escola. na escola em que leciono, é característica a presença de mães, seja para levar ou para buscar, seja nas reuniões propostas entre professores e pais. e é claro também que meu pai pode ter mudado de identidade, pode ser uma outra pessoa agora.
e me é engraçado – talvez eu esteja fugindo de encarar isso com medo – pensar em quem poderia ser meu pai hoje em dia me. faz-me forçar a memória para lembrar de quem era meu pai até meus onze anos. até o dia em que ele viveu conosco em casa. não era neste apartamento que morávamos, era em uma casa, numa cidade em outro estado. mais pra cima ainda desse país. uma casa grande, com jardim e tudo. havia muito sol naquela cidade também. eu vivia no gramado lá de casa. correndo, pulando, rindo. eu ria muito quando era criança. muito, muito. eu me lembro. assim como me lembro de quando meu pai voltava para casa. era quase início de noite. eu era pequena ainda. lembro-me bem dos meus cinco, seis anos. depois disso só consigo lembrar-me dos meus onze anos, já neste apartamento. já somente eu e minha mãe. mas antes, naquela outra casa, papai chegava e vinha me abraçar. eu corria para o colo dele. brincávamos por um tempo, depois ele ia tomar banho e então jantávamos. mamãe nessa época conversava bastante conosco, eu lembro. eu gostava muito mais do meu pai. acho que mamãe sentia um pouco.
meu pai sempre foi de beber. toda noite, ele tomava dois copos de uísque, em casa. nós éramos quase ricos naquela época. tínhamos até uísque em casa. e papai também bebia muito com os amigos. uma vez por semana jogava futebol com eles, no clube. e voltava para casa cheirando a cerveja. eu me lembro do cheiro do meu pai até hoje, de quando ele voltava suado do futebol, e cheirando a cerveja. e mesmo assim eu o abraçava bem forte, e então ia dormir. eu sempre tentava esperá-lo chegar. às vezes o sono me vencia. mas sei que ele vinha me dar um beijo de boa noite. mamãe me falava no outro dia. ela ficava o tempo todo em casa, era uma verdadeira dona do lar. a casa tinha sempre um cheiro de limpa.

era. hoje este meu apartamento não tem cheiro. é inodoro e insípido. mas isso pouco me incomoda. eu não exijo da vida que ela seja sempre da mesma forma. E pouco me incomodo se ela mudar de repente. eu sigo o ritmo que tem que seguir. eu tento é cuidar de mim, da maneira mais silenciosa possível, sem contar nada a ninguém. talvez esta minha escrita seja para falar de uma vez só tudo o que guardo comigo há anos, tudo o que não tenho coragem de verbalizar através da fala. e também assim eu revivo momentos importantes da minha vida.
(...)

ítalo puccini.

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