quinta-feira, 21 de maio de 2015

na cruz


silenciei escuros
em quartos de dor.

cruzei pernas, braços e dedos
em ritual
desconhecido;
cruzei espinhos no peito.

cruzaram-me o olhar;
prenderam-me numa cruz:
estado de coma.

entre poros,
clamo por libertação. 

ítalo puccini

sábado, 16 de maio de 2015

no jardim atrás de nossa casa

ver o filho ser mandado para fora de casa talvez tenha sido a maior dor da sua vida.
sempre submissa a uma voz masculina que, de maneira grosseira e autoritária, demarcava o ambiente familiar, helena recebera educação formal de seus pais – ele militar, ela dona de casa. jamais pôde desligar-se de uma rotina que incluía afazeres domésticos, desde arrumar o quarto do irmão a encerar o piso dos cômodos do lar, inclusive sendo responsável por limpar os janelões, estes que, para ela, simbolizavam o lá fora, aquele espaço-tempo ausente. tão bonito deve ser olhar de lá para cá, pensava ela, cuja vida sempre fora por entre os cômodos da enorme casa da família, de onde nunca saíra, senão quando se casou – o pai chegou para jantar, naquela noite, acompanhado de um amigo, dono de uma fábrica de roupas no centro da cidade. este, bem apessoado, de cabelos grisalhos e sorriso sedutor, contador de causos envolvendo as famílias mais conhecidas da região e opinador sobre assuntos políticos e econômicos, encantou a todos os presentes na ceia, menos à helena: tão boçal quanto meu pai.
- minha filha, venha conhecer o seu futuro marido. certamente, um homem que a tratará com o melhor que uma mulher como você pode querer.
uma mulher como ela.
ser mãe tornou-se um processo natural. assim como fora casar-se com joão roberto filho – natural porque obrigatório. joão exigira que a criança tivesse o seu nome, também nome do seu pai. devido a isso, acrescentara neto ao filho: joão roberto neto. e um eco que perturbava helena, mesmo que ela não tivesse consciência de que os calafrios que sentia ao ouvir o nome do filho se devessem a essa cacofonia, fruto de mais uma ação ególatra do seu marido – além dos jantares dos quais somente ele participava, das viagens individuais a trabalho e do escritório, espaço destinado somente a ele. eu mesmo o limpo, semanalmente, orgulhava-se.
a única escolha que coubera a helena fora a do nome a ser dado à filha do casal, prevista para nascer dali a cinco meses. esta criança – fruto de uma relação sexual ocorrida a partir do estado embriagado e, por consequência, violento do marido: só assim para ele tocar-me, pensava ela, prensada contra a cama por aquela forma desengonçada, que, após três minutos de contato físico, levantou-se e foi limpar-se no banheiro – era, para a mãe, a possibilidade de ter uma companhia novamente, de amenizar a dor deixada pela saída de joão, por quem ela chorava baixinho diariamente, há dois meses: vou protegê-la desse mundo cruel, eu juro que vou. para o pai, mais uma a contribuir com o serviço doméstico: agora você vai ter uma pessoa a te ajudar a manter essa casa limpa. vê se a educa direito, para não perdê-la também.
- ela vai se chamar maria.
- ok.
joão e maria. e a originalidade do casal.
porque fora de joão roberto filho a ordem para que joão roberto neto saísse de casa, e não volte nunca mais a pisar os pés nessas terras que são minhas, seu fedelho, metido a intelectualzinho, caia já fora daqui, eu não acredito que coloquei em você o meu nome, o nome do meu pai, de pessoas trabalhadoras como nós, que batalham dia após dia para o enriquecimento da família, para colocar o pão na mesa, para ampliar nossos poderes nessa sociedade hipócrita e gananciosa como é a nossa, e agora você me dá esse desgosto, de ter um filho metido nos grupos sociais, em estudo sociológicos, revolucionários, e ainda por cima baitola!
ver o filho ser mandado para fora de casa.
joão não respondera aos gritos do pai. no centro da sala de jantar, onde estavam, ele via o peito do velho subir e descer com força e rapidez. imaginou, inclusive, que presenciaria um novo infarto, infelizmente não acontecido, pensava, enquanto se dirigia para fora da propriedade da família. porém, antes de virar as costas para a casa onde vivera seus vinte anos, caminhou até a presença de helena – postada rigidamente no canto da sala, segurando o choro e a dor que lhe apertavam o peito, cujos olhos diziam não vá, meu filho, por favor, não vá, não me abandone aqui – deu-lhe um beijo no rosto, abraçou-a com ternura e disse-lhe, olhando naqueles olhos já embaçados, eu volto, mãezinha. eu volto para buscar você e minha irmã.
encarou, então, mais uma vez seu pai, o homem que se orgulhava do patrimônio que construíra, o homem que fora pioneiro no êxodo urbano ocorrido no país nas últimas três décadas, que se tornara tão influente a ponto de mandar prender, soltar e matar quem quisesse na cidade. não sabia, joão, se dirigia àquele homem alguma palavra ou se apenas se virava e saía; estava em dúvida entre ignorá-lo ou partir pra cima dele, surrá-lo – até que algum segurança viesse afastá-lo dali; pensava também em quebrar os objetos decorativos, que tanto orgulhavam ao pai. mas não foi capaz de mexer-se. concentrou-se no que sentia, na presença de sua mãe ali no ambiente, na força que precisaria ter para viver longe dela por algum tempo indefinido, sem a certeza de que ela suportaria aquela separação.
não adianta mandar alguém atrás de mim, seu assassino. eu estarei bem longe daqui, fique sossegado. mas eu volto, estando você vivo ou não, doente ou saudável. eu volto. para buscar o que é de minha mãe, estas terras de que você tanto se orgulha, que somente são suas porque você as roubou dela, do pai dela, meu avô materno, da mesma forma como você fez com as terras dos seus irmãos, inclusive mandando matar o tio flávio em um passeio de barco. não tente fazer igual. eu vou saber de tudo o que acontece aqui nessa casa que você construiu com sangue e roubo.
um juramento. um silêncio.
a maior dor da sua vida.
nem mesmo a dor do parto normal com que tivera o filho – ela insistira tanto por uma cesárea, sempre negada pelo marido, para quem o primogênito deveria nascer dentro da residência da família – sobrepusera-se àquela cena, ocorrida há três meses. daquele dia em diante, helena vivera arrastando-se pelos cantos da casa. abandonara o serviço doméstico, alimentava-se apenas porque era obrigada pela cozinheira e nem mesmo reagia às investidas violentas do marido, que a cada dia bebia mais e, nesses momentos, maltratava-a, chamando-a pelo nome do filho. eu não me importo de apanhar pelo meu filho, eu não me importo, gritava ela, por dentro, sem emitir um só gemido.

 foi inevitável que maria viesse a falecer antes mesmo de nascer. o que não levou joão roberto filho a desfazer-se da ideia de que cabia à mãe o primeiro beijo na filha à quem tivera a oportunidade – a única escolha que coube a ela – de dar um nome. beije agora a sua maria, helena. beije a menina que nasceria para ajudá-la nos serviços da casa. tome-a no colo, antes que eu a enterre no jardim atrás de nossa casa, ao lado de onde está enterrado, há um mês, o seu outro filho, o joão roberto neto.

ítalo puccini

domingo, 10 de maio de 2015

cê: quatro

(...)
eu também preferia não saber o que é cirrose.
cirrose deve ser algo muito mundano mesmo. eu imagino que sim. é palavra que minha mãe dizia a mim sempre que eu perguntava pelo meu pai. era assim: “mãe, você não sabe por onde está o meu pai?” no que ela me respondia: “deve de estar por esse mundo afora morrendo de cirrose”. e então eu não perguntava mais nada. ficava quieta por um tempo, pensando no meu pai, sabendo ser inútil tentar qualquer outra pergunta a ela sobre isto. eu tinha quinze anos quando desisti de perguntar. e minha mãe, sem medo algum, desde que ele saiu de casa, quando eu tinha recém-completado onze anos, dizia a mim a frase que eu escrevi acima. e eu não sei lhe escrever se era algo muito forte de se dizer a uma criança, uma quase adolescente. uma menina tímida em excesso, quase muda em sala de aula, de cabelos compridos sempre presos e de óculos.
meus óculos, durante os meus estudos de quinta à oitava séries, era, em primeiro lugar, apertado. eu falei para a minha mãe, quando o estávamos comprando, que ele me apertava atrás das orelhas. ela falou que ele logo amaciaria (sim, eu lembro exatamente da palavra que ela utilizou para justificar a compra daquela armação). e, além de apertado, ele era redondo. mas não um redondo discreto. um redondo grande. um óculos com aro redondo e vermelho. um vermelho brilhante. e com a armação em amarelo. um amarelo-ouro. e apertado, muito apertado. quando eu o tirava, ficava quase que o desenho dele em minha face. e eu era ridicularizada por isto na escola, é claro. mas eu pouco me importava. ridicularizavam-me, sim, e muito, às vezes. porém, eu nunca voltei para casa triste em função disso. eu era indiferente ao que pensavam ou falavam sobre mim. eu era indiferente à escola, na verdade. àquela escola, o que pouco importava para a minha mãe. segundo ela, era uma ótima escola para a minha educação, e que iria me preparar muito bem para os estudos após a oitava série, quando eu deveria já escolher o que eu gostaria de estudar para seguir profissão.
a minha mãe me ensinou também a comer uma fatia de pão, e depois mais uma fatia de pão. somente duas fatias de pão. foi o que ela me ensinou a comer. é o que eu como desde sempre. claro que não comi só pão com nata e açúcar na minha vida. lembro-me da minha adolescência e dos pães com margarina e doce de leite que eu adorava. e eu gostava ainda mais quando era minha mãe quem fazia. não porque o pão ficava muito diferente, não. mas só a ação de minha mãe estar fazendo por mim me deixava mais satisfeita do que o normal.
e sobre o pai – parece-me que crio aqui um diálogo entre meus pais – às vezes eu me pego pensando que já posso ter passado por ele nas ruas dessa cidade, ou de alguma outra cidade próxima a pedra branca – porque para mais longe do que as cidades ao redor de pedra branca eu nunca viajei. e não sei se pretendo um dia. viajar não é algo que me agrada. gosto do meu canto e não gosto de ter que arrumar mala, tanto para ir quanto para voltar. portanto, nas poucas vezes em que resolvo sair de pedra branca, pego um ônibus que circula pelas cidades vizinhas. gasto domingos assim, uma vez ou outra. um domingo ou outro, melhor dizendo. mas poucos, bem poucos. e em alguns momentos eu penso de modo mais extremo ainda. penso que meu pai pode ser o pai de uma das crianças lá da escola. o meu pai pode ser o pai de um aluno meu. um absurdo de se pensar? será? creio que não. afinal, meu pai era novo quando saiu de casa. não sei lhe precisar a idade que ele tinha, mas eu tinha onze anos, e eu sei que ele foi pai cedo. minha mãe deixou isso escapar uma vez. e se agora já são mais de vinte anos de ausência, ele pode muito bem ter se casado novamente e formado nova família. e pode estar sendo um ótimo pai para esta família. e pode, portanto, ser pai de um dos meus alunos, sim, pois são poucos os pais que vão à escola. na escola em que leciono, é característica a presença de mães, seja para levar ou para buscar, seja nas reuniões propostas entre professores e pais. e é claro também que meu pai pode ter mudado de identidade, pode ser uma outra pessoa agora.
e me é engraçado – talvez eu esteja fugindo de encarar isso com medo – pensar em quem poderia ser meu pai hoje em dia me. faz-me forçar a memória para lembrar de quem era meu pai até meus onze anos. até o dia em que ele viveu conosco em casa. não era neste apartamento que morávamos, era em uma casa, numa cidade em outro estado. mais pra cima ainda desse país. uma casa grande, com jardim e tudo. havia muito sol naquela cidade também. eu vivia no gramado lá de casa. correndo, pulando, rindo. eu ria muito quando era criança. muito, muito. eu me lembro. assim como me lembro de quando meu pai voltava para casa. era quase início de noite. eu era pequena ainda. lembro-me bem dos meus cinco, seis anos. depois disso só consigo lembrar-me dos meus onze anos, já neste apartamento. já somente eu e minha mãe. mas antes, naquela outra casa, papai chegava e vinha me abraçar. eu corria para o colo dele. brincávamos por um tempo, depois ele ia tomar banho e então jantávamos. mamãe nessa época conversava bastante conosco, eu lembro. eu gostava muito mais do meu pai. acho que mamãe sentia um pouco.
meu pai sempre foi de beber. toda noite, ele tomava dois copos de uísque, em casa. nós éramos quase ricos naquela época. tínhamos até uísque em casa. e papai também bebia muito com os amigos. uma vez por semana jogava futebol com eles, no clube. e voltava para casa cheirando a cerveja. eu me lembro do cheiro do meu pai até hoje, de quando ele voltava suado do futebol, e cheirando a cerveja. e mesmo assim eu o abraçava bem forte, e então ia dormir. eu sempre tentava esperá-lo chegar. às vezes o sono me vencia. mas sei que ele vinha me dar um beijo de boa noite. mamãe me falava no outro dia. ela ficava o tempo todo em casa, era uma verdadeira dona do lar. a casa tinha sempre um cheiro de limpa.

era. hoje este meu apartamento não tem cheiro. é inodoro e insípido. mas isso pouco me incomoda. eu não exijo da vida que ela seja sempre da mesma forma. E pouco me incomodo se ela mudar de repente. eu sigo o ritmo que tem que seguir. eu tento é cuidar de mim, da maneira mais silenciosa possível, sem contar nada a ninguém. talvez esta minha escrita seja para falar de uma vez só tudo o que guardo comigo há anos, tudo o que não tenho coragem de verbalizar através da fala. e também assim eu revivo momentos importantes da minha vida.
(...)

ítalo puccini.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

casca

minha arrogância
eu a sinto diariamente
e fico feliz quando consigo escondê-la –
principalmente de mim mesmo.

minha arrogância
eu a disfarço por meio da timidez:
bicho acuado de cabeça baixa e olhar superior,
incapaz de abrir-se ao novo.

minha arrogância
eu a herdei de meu pai
numa tentativa inconsciente
de me manter próximo a ele.

minha arrogância
eu a alimento através da ironia
duas armas com as quais me defendo  
daquilo que não quer me atacar.

ítalo puccini