quarta-feira, 8 de abril de 2015

memórias póstumas de aniversários infantis

            antissocial por natureza – ou por marcas da vida em mim – considero as festas de aniversário infantil excelentes momentos dos quais não participar. nesse sentido, vivi um 2014 de plena realização, no qual participei da comilança de um bolo no aniversário do vitinho – meu enteado – e só. por outro lado, março de 2015 já posso considerar o mês do saco cheio.
foram quatro festas infantis, uma em cada final de semana, nas quais tive a oportunidade de exercer a paciência nos seus níveis mais profundos, afinal, um cenário onde crianças estão correndo, gritando, pulando, jogando-se ao chão enquanto alguma música de voz muito aguda preenche um espaço também ocupado pelas conversas dos adultos – em volume elevado, devido ao contexto – causa graves problemas ao cérebro das pessoas, comprometendo funções básicas da convivência, como por exemplo respirar.
como eu tento lidar com isso?
comendo.
sem dúvidas, cada um desses quatro momentos contribuiu no meu propósito de não regredir meu peso para menos de 70 quilos. na verdade, foram ótimas oportunidades para eu abrir uma margem de erro. agora com 72 quilos, tou tranquilo, curtindo esse peso ideal que ainda faz de mim um sujeito magro, porém menos esquálido.
também, aproveitando-me do meu novo iphone rosa, eu percebi que posso aprimorar meus escritos durante esses eventos top, por exemplo escrevendo croniquetas assim, ou poemas despretensiosos – e desde quando um poema se pretende a algo? por isso que gosto de croniquetas assim, como se fossem poemas, cuja pretensão é nula, e a ironia, muita.
este texto, por exemplo, eu comecei a escrever durante uma festinha à qual levei o vitinho. parei o texto, naquele momento, no parágrafo anterior, e agora resolvi continuá-lo, passando-o do celular para o computador. naquele lugar, eu não conhecia ninguém – era um aniversário de um coleguinha de escola do vi – e as pessoas de lá não foram muito receptivas, ou seja, ofereceram-me um refrigerante e ocuparam-se com suas conversas-fechadas. eu, portanto, passei a acompanhar o jogo do jec pelo twitter e a escrever, enquanto o vi se divertia à beça. chegou o momento da comilança e eu me senti plenamente realizado. enrolei mais uma meia hora e fomos embora.
com sinceridade, eu fico feliz pelas pessoas e por seus aniversários, principalmente pelas crianças, ansiosas, devido às promessas de presente e de brincadeiras com os amigos, mas acredito que na intimidade ainda seja a melhor maneira de se comemorar uma data. justamente em função disso, também, eu nunca escrevo a ninguém, via redes sociais, felicitações, afinal, não há nada mais frio do que este gesto automático, repetidamente banalizado, cujo valor simbólico se descaracterizou. da mesma forma, não entendo festas de aniversário para as quais um mar de gente é convidada, ainda mais envolvendo desconhecidos, gente nunca antes vista, afinal, pergunto-me, qual a lógica de receber um desconhecido para um momento tão único, tão particular?

prefiro o tête-à-tête, a janta com a esposa ou o marido, o passeio com os filhos ou os pais. e, de ante mão, relembrando um pouco o último capítulo de memórias póstumas de brás cubas – o de negativas – agradeço os próximos convites, parabenizo-os se houver oportunidade, e espero não poder ir ao aniversário do seu filho, caro leitor.

ítalo puccini 

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