domingo, 15 de março de 2015

uma paixão: grupo de leitura

          uma dificuldade: fazê-lo acontecer. 
uma lembrança: há cinco anos eu organizei um círculo de leitura. foi assim: elaborei um projeto de pesquisa de iniciação científica, que foi aprovado, e, com isso, pude iniciar a pesquisa cujo objetivo era o de despertar a sensibilidade crítica do acadêmico do curso de letras licenciatura da universidade da região de joinville – univille – para a multiplicidade de sentidos do texto literário, focando diferentes formas de leitura e de escrita, objetivando a divulgação em blog dos textos produzidos pelos participantes, uma vez que a leitura e a escrita só fazem sentido a partir das experiências de vida, conscientes e inconscientes, atribuindo ao lido marcas da memória, intelectual e emocional. ainda, esta pesquisa se justificou pela necessidade de ampliar o espaço da leitura e da escrita do texto literário no contexto universitário, porque as obras literárias, sendo arte, constituem-se como ferramentas para a formação ética e social ao proporcionar ao sujeito-leitor a possibilidade de reavaliar visões de mundo.
            em outras palavras, a hipótese levantada pela pesquisa era de que o trabalho com círculos de leitura e de produção escrita poderia propiciar a reconstrução do olhar do aluno sobre o texto literário, devido à sistematização de leituras do gênero. e assim foi: houve uma interação bastante rica entre os participantes – éramos cerca de dez por encontro – da mesma forma que ocorreu um movimento de identificação dos participantes junto aos textos lidos. lemos, por exemplo: trechos do livro “formas breves”, do ricardo piglia, e do livro “e a história começa”, do amós oz; contos de luiz vilela, lucia bettencourt, drummond, caio fernando abreu e machado de assis, além de narrativas curtas de tim burton, marcelino freire e gonçalo m. tavares.
reuníamos duas vezes ao mês, durante cinco meses, e a cada encontro eu escrevia um relato, sobre como fora a leitura, a interação e as trocas advindas daqueles momentos. fiz inclusive um blog, no qual relatei tudo: http://circulodeleituraeescrita.blogspot.com.br e há pouco tempo, relendo aqueles textos sobre o círculo, perguntei-me: como é que conseguimos manter uma frequência durante tanto tempo? foi muito bonito mesmo, até intrigante. havia gosto em participar. imagina só, sábados às 9h da manhã já estávamos lá reunidos, rodeados por trechos de livros, em busca de leituras e dizeres. um compromisso com a paixão, em primeiro lugar – se é que existe uma ligação entre essas duas palavras.
agora, um desejo: fazer acontecer um grupo de leitura. um grupo pequeno, com amigos próximos, somente de seis pessoas, sem nenhum objetivo acadêmico ou profissional. mas como está sendo difícil. o ano letivo começou há um mês e eu já me sinto engolido por ele. rafa, edu, jozi, diego – falta uma última pessoa – já me falaram do interesse em participar, porém, ainda não fui capaz de propor a primeira leitura e marcar o encontro inicial. aliás, a dificuldade em reunir um grupo de pessoas – café, cerveja, almoço, jantar, passeio – é um dos mistérios a serem analisados pelas gerações futuras, pelas pessoas que viverão um mundo diferente, talvez menos agitado como este em que vivemos hoje. sabe, imaginar que o movimento cíclico da terra faça com que no futuro a vida volte ao ritmo cadenciado de outrora, daquela época sobre a qual temos conhecimento apenas através dos relatos históricos. talvez lá na frente volte a ser assim, talvez o ser humano atinja o ápice da sua capacidade interativa consigo mesmo e com o mundo e precise retornar do ponto de onde partiu, de uma vida cujos compromissos não o engulam. quem sabe nessa outra vida seja possível organizarmos um círculo de leitura e realizarmos encontros periódicos para conversarmos sobre os livros que lemos.
inclusive, sobre isso, há um filme cujo nome é “o clube de leitura de jane austen”, dirigido por robin swicord, no qual seis pessoas se reúnem, uma vez por mês, durante seis meses, para conversar a respeito de seis obras da jane austen, sob a alegação de que os livros desta autora são excelentes para que cada um possa curar suas dores, acumuladas ao longo da vida. os livros lidos são: "mansfield park", "emma", "a abadia de northanger", "orgulho e preconceito", "razão e sensibilidade" e "persuasão". cada participante fica responsável pela condução da conversa sobre um dos livros, estes que são lidos por todos. o filme é uma comédia romântica, com típicas cenas de tal gênero, ou seja, divertido e bobo ao mesmo tempo, talvez com pitadas de alguma reflexão a quem assiste a ele. é um filme do qual eu gosto muito, também em função dessa proposta de fazer acontecer um grupo de leitura, através do qual cada personagem é capaz de observar as mudanças ocorridas consigo mesmo ao longo da vida, a partir dos livros lidos.
e há uma outra peculiaridade sobre um grupo assim: a gente acaba por ler algo que não leríamos a não ser que fosse sugerido por alguém pertencente ao grupo do qual participamos. por exemplo, eu nunca li jane austen, mas me sentiria com vontade de lê-la, caso fosse escolhida por um dos integrantes. é um motivo bastante forte para nos abrirmos ao novo, o que talvez signifique um dos porquês das mudanças ocorridas conosco ao longo da participação em um grupo assim de leitura.
é dessa forma que eu ainda acredito que conseguiremos, rafa, edu, jozi, diego e anônimo. será um desafio e tanto marcarmos um horário e uma data e um lugar onde nos encontrarmos para conversarmos sobre os livros lidos. creio que lê-los será o mais fácil, afinal, temos prazer nessa prática, a da leitura. entretanto, pode ser que sejamos engolidos por outras leituras – acadêmicas, profissionais, pessoais. enfim, com o tempo saberemos disso, da realização ou do término do grupo antes mesmo de se ter iniciado. até lá, vamos pensando nos livros que queremos ler.

ítalo puccini


Um comentário:

Tequila Mockingbird disse...

eu (enzo falando!) acabei encerrando este mês o clube de leitura aqui em Itajaí. A gente tava sempre em três (uma vez por semana), daí quando alguém tinha de faltar eu achava melhor cancelar (porque encontro literário a dois parece monólogo); em janeiro e fevereiro tivemos alguns cancelamentos, daí teve a semana de carnaval e tudo desandou. Não pretendo fazer mais tão cedo um grupo. Ando com vontade de fazer resenhas no youtube, é bom demais ouvir (e não ler) crítica de livro: é mais natural, mais leve, me parece mais real... Num tem troca como em um grupo de leitura, mas se não tem grupo de leitura também não tem troca. kkkk