quarta-feira, 18 de março de 2015

cê: um

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eu gosto de cores claras. por isso os azulejos aqui de casa são agora – desde a reforma – de fundo branco com detalhes em azul. um tom de azul não muito claro, mas longe de ser escuro. esses detalhes em azul quase que formam um desenho. e eu escolhi assim por sugestão da cláudia. ela foi comigo comprar os azulejos, junto com o marido dela e o amigo-pedreiro que fez a reforma aqui para mim. eles sugeriram, eu acatei. não por falta de coragem de dizer que eu não havia gostado, mas sim porque eu havia gostado, sim, da indicação. e desde então, olhando bem para os azulejos, sinto-me tão em paz. gostei muito da forma como eles ficaram. passei inclusive a tirar fotos deles, mas até hoje elas continuam na máquina fotográfica. de vez em quando eu as revejo, passando uma a uma e lembrando-me daqueles dias em que saí de férias e deixei a minha casa sem mim, sendo habitada por outras pessoas, durante dez dias.
na área de serviço aqui do apartamento os detalhes em azul estão em menor quantidade. o pedreiro acabou colocando a maioria dos azulejos com esses detalhes aqui na cozinha. esta cozinha que se tornou o meu escritório. é nessa mesa que eu escrevo, preparo aulas, corrijo os textos dos meus alunos. além da cozinha, há, uma sala, um quarto, um banheiro e uma lavanderia. não tenho escritório, não gosto da sala, meu quarto é meu lugar de descanso, então esta mesa na qual me alimento é também a mesa na qual trabalho, quando em casa. e eu gostei da forma como eles ficaram, essa concentração de azulejos com detalhes em azul aqui na cozinha. a área de serviço ficou ainda mais branca, mais clara. parece até mais arejada.
            e ontem aqui mesmo eu bebi. bebi vinho. eu não sei o que é estar bêbada, por exemplo. nunca fiquei. quer dizer, uma vez já, mas faz muito tempo. e nem foi bêbada-bêbada. aquela coisa de menina adolescente que bebe a primeira vez. lembro-me, era uma festinha de aniversário de uma amiga. amiga, não, colega. havia uma bebida que eles chamavam de batida. era gostosa, lembro-me. tomei alguns copos de batida. de maracujá. e fiquei bem tonta. mas foi só. sentei-me no sofá da sala dela e esperei a tontura passar. os pais dela não estavam em casa. alguns colegas vieram me perguntar por que eu não estava lá na garagem com os demais, e eu desconversei, dizendo que estava só descansando um pouco, que logo voltaria para o “agito”. mentira. aproveitei uma desatenção de todos – ou uma atenção concentrada a uma música e a uma dança com coreografia – e fui embora. caminhei por quase uma hora até chegar em casa. e não senti medo. pedra branca sempre foi cidade calma, sem oferecer muitos perigos aos seus habitantes. meu medo maior era o de minha mãe descobrir que eu havia bebido. mas quando eu cheguei em casa – não me recordo do horário – ela estava dormindo sentada no sofá, com a televisão ligada, com volume bem baixinho. antes de acordá-la, fui ao banheiro e escovei meus dentes. depois fui ao meu quarto, e troquei minha roupa. vesti um pijama. então fui à sala para acordá-la. então fomos dormir.
            eis a descrição da primeira e única vez em que fiquei bêbada.
       e ontem eu novamente bebi. com cláudia e seu marido, as duas pessoas que representam o máximo de intimidade que tenho com alguém. ontem foi a primeira vez que bebemos vinho juntos. anteriormente, só jantávamos. eu tomava longos goles de água gelada. ele, cerveja, ela, vinho. cláudia me convidou para sair com ela e o marido. eu aleguei cansaço, como sempre alego, e ela afirmou então que eles viriam para cá, eu querendo ou não. eis a intimidade.
        trouxeram uma garrafa de vinho e eu aceitei beber uma taça. e então jantamos. pizzas. de quatro queijos e de frango com catupiry. gosto muito de massas, mas não costumo variar sabores. depois da janta, sobrou vinho, e júnior, o marido de cláudia, serviu mais uma taça para cada um de nós. e ainda bebemos uma terceira taça. bebi três taças de vinho em uma única noite, em um único jantar. fiquei tonta, claro. alegre? não sei. a conversa por si só estava animada. júnior contava muitos causos vividos em seu trabalho. ele é dono de uma funerária aqui na cidade. só sei que foi muito gostosa a sensação, aquele momento na companhia dos dois, a comida saborosa, o vinho, que acompanhou tão bem. no momento de ir embora, ainda, júnior saiu cantando “ando com minha cabeça já pelas tabelas”. ele cantava e ria, relacionando esta frase a uma morte de que ele ficou sabendo. mas eu guardei mesmo foi a frase da canção que ele cantava. porque eu me sentia com a cabeça já pelas tabelas. com a cabeça já pelas taças de vinho. é gostoso rir.
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ítalo puccini 

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