terça-feira, 31 de março de 2015

cê: dois

(...)
comecei a escrever este livro porque perdi minha mãe.
esses sustos que nos pegam pelo calcanhar, de costas, despreparados. era uma tosse, em seguida, uma dor na nuca, uma febre que não passava, e o sorriso sem graça agora é meu, depois de dias de internação e de diagnósticos confusos. quando me contaram o que era, não me restou nada a fazer se não ficar assim catatônica. é tradicional, não é? pelo menos é o que dizem sobre a normalidade em ficarmos fora do ar ao recebermos notícias traumáticas, precisar de amparo, contatar os parentes. aí eles vieram. os parentes. lá de longe. porque eu sou bem sozinha, agora ainda mais, afinal, éramos só eu e minha mãe, há bastante tempo. mais precisamente, há vinte e dois anos, desde que meu pai foi embora – dizem que até já casou e tem uma filha. mas não apareceu no velório de minha mãe. mora longe, acho.
durante esses dias todos, eu ficava ali na sala, sentada no sofá de onde minha mãe não saía. são três os sofás na sala, três sofás velhos, cuja sujeira fica disfarçada pela manta que cobre cada um. são três sofás e uma televisão preta e branca. sobre ela, uma bíblia. a bíblia que minha mãe lia sempre, todo dia. ela assistia ao terço das seis da manhã e ao das seis da tarde e, sempre depois de assistir ao terço, ela fazia o sinal da cruz e beijava a bíblia. nunca reparei se era a mesma página. agora eu tirei a bíblia de sobre a tv e a deixei no sofá, local onde me sento quando não estou aqui na cozinha escrevendo. fico perguntando-me quando conseguirei abrir aquela bíblia amarelada e ler o que minha mãe lia. penso que talvez isso me aproxime dela, possibilite a mim senti-la viva novamente.
mas ainda sou incapaz disso.
eu sou do tipo de pessoa que abre cartas de desconhecidos, quando endereçadas a mim – apenas uma vez na minha vida, é verdade. mas não consigo abrir a bíblia beijada por minha mãe. ainda, há uma pilha de contas atrasadas aqui na mesinha do abajur da sala, ao lado do braço de um dos sofás, já deve fazer mais de mês. minha mãe ficou internada por trinta e nove dias. eu contei. eu vinha em casa, tomava um banho, descansava uma ou duas horinhas na cama e voltava para o hospital. eu sou professora. pedi licença na prefeitura assim que o médico me disse que o caso da minha mãe era sério e que poderia ser irreversível. engraçado são os médicos, não é? eles sabem exatamente o que vai acontecer, ou o que já aconteceu, mas sabem como ninguém dar uma informação que não diz nem sim nem não. e aí nos deixam assim, desnorteada, com cara de assustada, mas precisando mostrar uma segurança que não existe. foi assim que cheguei à escola e falei que precisava de trinta dias de licença para cuidar da minha mãe. e quando me perguntaram o que ela tinha, eu fiquei muda. eu travei. e caí num choro. na frente da diretora da escola, que precisou chamar uma outra professora e trazer-me um copo com água e açúcar para acalmar-me e para que eu pudesse dizer aquilo que eu não sabia.
            então eu percebi que num texto literário eu posso verbalizar direitinho o que eu não sei, fazendo dessa incongruência o traço mais marcante na relação entre mim e a literatura. nós escrevemos para contar aquilo que é nosso, aquilo que nos acontece, aquilo que acreditamos ser a nossa vida, mas na verdade a gente acaba descrevendo aquilo que não sabemos, aquilo que não-é-nosso-mas-nós-pensamos-que-é. a gente se escancara para um outro, mas pouco percebe que a gente se escancara também é para nós mesmos, através da escrita.

            talvez este livro eu esteja escrevendo para meu pai. tenho medo de que ele não saiba sobre a morte de minha mãe. 
(...)

ítalo puccini

Nenhum comentário: