sexta-feira, 13 de março de 2015

a metalinguagem da necessidade fisiológica

é bom às vezes não colocar o mata mosquito no banheiro afinal quando surge com força a vontade de fazer cocô naquelas vezes em que não há tempo de pegar algo e levar pra ler a ausência do mata mosquito tem como consequência a presença de alguns desses bichinhos em tal lugar eles entram através da janela do duto o único caminho de ventilação ou seja não há como mantê-lo fechado o banheiro fede demais então eu prefiro lidar com os insetos a lidar com o mau cheiro e até mesmo é uma maneira de me ocupar durante aquela ação naquele espaço uma vez que sem livro ou palavras cruzadas e com o celular largado em algum cômodo da casa a presença dos mosquitos torna o momento bastante interativo por exemplo eu pego a toalha de rosto pendurada ao lado do bacio e do granito da pia porque tudo no banheiro é compacto ao extremo e com ela eu inicio minhas tentativas de fazer morrer aqueles seres ariscos que quanto mais são acertados menos cambaleiam parecem saber da existência de uma guerra ali estabelecida eles escapam das toalhadas voam para trás de mim de modo a impossibilitar-me de acertá-los e às vezes se escondem dentro do box lugar onde eu não os alcanço com a toalha dessa forma eu aproveito para descansar um pouco relaxar curtir o momento contar azulejos eu e os azulejos temos uma relação numérica eu os vejo e já começo a contá-los seja na diagonal, na horizontal ou na vertical até que percebo um mosquito pousando em um deles em um dos azulejos paro imediatamente a minha contagem afinal depois eu posso reiniciá-la me é sempre um prazer contar azulejos é uma mania é motivo para tratar em terapia quem sabe e eu recomeço as toalhadas em direção aos bichinhos interativos eu repito os meus movimentos eles repetem os seus movimentos eu repito palavras neste texto propondo assim uma metalinguagem não só literária como fisiológica uma reflexão sobre o ato da escrita advindo de uma vontade de fazer cocô que vem com força e me impossibilita pegar algo pra ler e realmente não há nenhum material de leitura no banheiro porque o banheiro é muito compacto apartamentos hoje em dia são compactos o casal não pode mais dialogar no banheiro enquanto um toma banho ou outro faz xixi ou cocô por exemplo isso não acontece mais nos apartamentos modernos feitos para a classe média assim não há espaço para algum suporte onde caibam livros revistas palavras cruzadas qualquer material de leitura o que é uma pena afinal ler no banheiro traz consigo a certeza de que não haverá ninguém fazendo perguntas tal qual o que é que você está lendo porque uma das situações mais deselegantes a serem vivenciadas envolve uma pessoa um livro e uma outra pessoa quanto esta última chega e interrompe a concentração daquela primeira com a típica pergunta o que é que você está lendo e no banheiro não há como algo assim ocorrer principalmente nesses apartamentos modernos onde tal lugar é um cubículo onde tudo é muito compacto e justamente em função disso que não há material de leitura para eu ler enquanto faço cocô sendo assim me resta matar os mosquitos quando o mata mosquito não está colocado na tomada e como houve um aumento excessivo na conta de energia elétrica nos últimos meses eu não posso abusar desse elemento químico cuja ação envolve o assassinato animal portanto haverá sim muita interatividade durante esses momentos do meu dia-a-dia garantindo quem sabe a produção de futuros textos posso até não escrever resenhas de livros que li no banheiro mas quem sabe eu me torne um escritor de narrativas metalinguísticas envolvendo as necessidades fisiológicas

ítalo puccini

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