terça-feira, 31 de março de 2015

cê: dois

(...)
comecei a escrever este livro porque perdi minha mãe.
esses sustos que nos pegam pelo calcanhar, de costas, despreparados. era uma tosse, em seguida, uma dor na nuca, uma febre que não passava, e o sorriso sem graça agora é meu, depois de dias de internação e de diagnósticos confusos. quando me contaram o que era, não me restou nada a fazer se não ficar assim catatônica. é tradicional, não é? pelo menos é o que dizem sobre a normalidade em ficarmos fora do ar ao recebermos notícias traumáticas, precisar de amparo, contatar os parentes. aí eles vieram. os parentes. lá de longe. porque eu sou bem sozinha, agora ainda mais, afinal, éramos só eu e minha mãe, há bastante tempo. mais precisamente, há vinte e dois anos, desde que meu pai foi embora – dizem que até já casou e tem uma filha. mas não apareceu no velório de minha mãe. mora longe, acho.
durante esses dias todos, eu ficava ali na sala, sentada no sofá de onde minha mãe não saía. são três os sofás na sala, três sofás velhos, cuja sujeira fica disfarçada pela manta que cobre cada um. são três sofás e uma televisão preta e branca. sobre ela, uma bíblia. a bíblia que minha mãe lia sempre, todo dia. ela assistia ao terço das seis da manhã e ao das seis da tarde e, sempre depois de assistir ao terço, ela fazia o sinal da cruz e beijava a bíblia. nunca reparei se era a mesma página. agora eu tirei a bíblia de sobre a tv e a deixei no sofá, local onde me sento quando não estou aqui na cozinha escrevendo. fico perguntando-me quando conseguirei abrir aquela bíblia amarelada e ler o que minha mãe lia. penso que talvez isso me aproxime dela, possibilite a mim senti-la viva novamente.
mas ainda sou incapaz disso.
eu sou do tipo de pessoa que abre cartas de desconhecidos, quando endereçadas a mim – apenas uma vez na minha vida, é verdade. mas não consigo abrir a bíblia beijada por minha mãe. ainda, há uma pilha de contas atrasadas aqui na mesinha do abajur da sala, ao lado do braço de um dos sofás, já deve fazer mais de mês. minha mãe ficou internada por trinta e nove dias. eu contei. eu vinha em casa, tomava um banho, descansava uma ou duas horinhas na cama e voltava para o hospital. eu sou professora. pedi licença na prefeitura assim que o médico me disse que o caso da minha mãe era sério e que poderia ser irreversível. engraçado são os médicos, não é? eles sabem exatamente o que vai acontecer, ou o que já aconteceu, mas sabem como ninguém dar uma informação que não diz nem sim nem não. e aí nos deixam assim, desnorteada, com cara de assustada, mas precisando mostrar uma segurança que não existe. foi assim que cheguei à escola e falei que precisava de trinta dias de licença para cuidar da minha mãe. e quando me perguntaram o que ela tinha, eu fiquei muda. eu travei. e caí num choro. na frente da diretora da escola, que precisou chamar uma outra professora e trazer-me um copo com água e açúcar para acalmar-me e para que eu pudesse dizer aquilo que eu não sabia.
            então eu percebi que num texto literário eu posso verbalizar direitinho o que eu não sei, fazendo dessa incongruência o traço mais marcante na relação entre mim e a literatura. nós escrevemos para contar aquilo que é nosso, aquilo que nos acontece, aquilo que acreditamos ser a nossa vida, mas na verdade a gente acaba descrevendo aquilo que não sabemos, aquilo que não-é-nosso-mas-nós-pensamos-que-é. a gente se escancara para um outro, mas pouco percebe que a gente se escancara também é para nós mesmos, através da escrita.

            talvez este livro eu esteja escrevendo para meu pai. tenho medo de que ele não saiba sobre a morte de minha mãe. 
(...)

ítalo puccini

sábado, 28 de março de 2015

vamo, ítalo, porra


saiu no jornal do sábado passado,
mas só agora eu lembrei de postar aqui.

eu a escrevi toda em minúsculas, do modo que eu gosto de escrever,
mas o jornal resolveu publicá-la com as iniciais maiúsculas em cada começo de frase.
paciência.


ítalo puccini

entre poemas e contos, da bahia a florianópolis

            isso porque gregório de matos é baiano e franklin cascaes é manezinho da ilha. aquele, nascido e falecido no século xvii, doutor em direito pela universidade de coimbra, tornou-se o escritor mais representativo do barroco brasileiro, no que diz respeito ao texto literário. este, morador da ilha de nossa senhora do desterro, três séculos à frente de gregório, escritor, professor e escultor e desenhista, aprofundou-se no estudo sobre os costumes ilhéus, sendo considerado o artista mais completo da capital catarinense.
            um livro de poemas de gregório de matos – organizado por josé miguel wisnik – está na lista de livros obrigatórios da universidade federal do paraná – ufpr – e um livro de contos de franklin cascaes se encontra, como não poderia deixar de ser, na lista da universidade federal de santa catarina – ufsc. e eu, cumprindo com minhas funções docentes, tenho trabalhado em sala de aula tais obras, aprofundando o estudo a respeito dos autores, das suas características textuais e dos contextos nos quais eles produziram.
assim, numa bela tarde de quarta-feira, entre livros, provas e redações, eu pensei na possibilidade de escrever uma croniqueta – não haverá análise literária acadêmica aqui, é bom que se deixe claro – relacionando estes dois escritores, não somente devido aos textos de ambos, relação esta que ocorre através de elementos diferentes entre si, mas ao fato de que há, nessas literaturas, um importante aspecto: o reconhecimento cultural de dois estados brasileiros, distantes territorialmente, mas quem sabe próximos em afinidades culturais.
cada um à sua maneira, gregório e cascaes se valeram da arte literária – e cascaes de outras também, conforme já dito – para apresentarem aos leitores um pouco do que se vivia em salvador e em florianópolis nas respectivas épocas dos dois. desse modo, à medida que lemos os poemas satíricos e religiosos do poeta baiano, por exemplo, apropriamo-nos das críticas dirigidas pelo boca do inferno – o seu singelo apelido – ao governo do estado, à sociedade e à igreja naquele século, da mesma forma que se torna possível a nós conhecermos com riqueza de detalhes o linguajar do morador do interior da ilha de santa catarina, seus costumes, suas crenças e superstições em figuras míticas, tais quais lobisomens, bruxas e até o diabo, representado pela figura do anjo lúcifer.
sobre gregório, eu converso com meus alunos salientando a relevância cultural do seu texto, afinal, vivemos hoje quatro séculos à frente do momento retratado por ele, e ainda assim sua veia satírica se mantém atual, significando a ausência de avanços comportamentais no que diz respeito a nós, seres humanos. basta, para isso, a leitura de um poema tal qual este a seguir, no qual está exposta nossa atitude curiosa e egoísta:
A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha;
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.

Em cada porta um bem frequente olheiro,
Que a vida do vizinho e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,
Para o levar à praça e ao terreiro.

Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos sob os pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia,

Estupendas usuras nos mercados,
Todos os que não furtam muito pobres:
E eis aqui a cidade da Bahia.

já cascaes faz uso constante de uma linguagem cuja preocupação reside no registro da língua falada pelos moradores de florianópolis quando a cidade ainda era denominada nossa senhora do desterro, uma língua, portanto, marcada por peculiaridades fonéticas, morfossintáticas, semânticas e lexicais:
“– Primo Nicolau! Vossa mecê acardita memo de vredade naquelas istória que o nosso povo lá das ihias dos Açôri (i) contavo prá nóis como vredaderas?
Ah!... Sim, acardito de vredade, sim, minha prima! E inté agora me veio uma delas, no bestunto da minha cabeça e que eu acho ela memo munto inzata. Como tu bem sabes e vancês todos que tão aqui me osvindo, aquelas ihia dos Açôri, de ondi os nosso avó, foram sempre munto infestada por muhié bruxa que roubam embarcação prá móde fazê viagem inté a Índia em quatro horas; que dão nóis nos rabo e crinas dos cavalo; chupo sangue de criancinha; intico com as pessoa grande e pratico mil malas-arte.”
no entanto, também há um viés crítico nos contos do escritor catarinense, como por exemplo através da negação ao uso do nome florianópolis, uma vez que o autor era contrário à politicagem inserida no projeto de modernização e urbanização da querida ilha de nossa senhora da conceição, vocativo utilizado pelo narrador tantas vezes ao longo do livro.

ainda, são múltiplos os caminhos a serem percorridos a partir da leitura dos textos desses dois escritores, conforme eu converso com meus alunos. gregório, por exemplo, fez uso reiterado de figuras de linguagem e de inversões sintáticas nos seus poemas, transitando pelo gênero lírico ao descrever a mulher amada e uma vida amena ao lado dela – inclusive, retomando o carpe diem, essência da estética clássica e neoclássica – enquanto cascaes explorou a riqueza sonora da linguagem açoriana, assim como, o imaginário popular na constituição cultural de um povo. com isso, da bahia a florianópolis, entre poemas e contos, é possível a nós conhecermos um pouco mais de nossa cultura brasileira.

ítalo puccini 

sexta-feira, 20 de março de 2015

cãimbra

uma crônica em forma de poema eu escrevi pros meus amigos do
grupo “udesc ou itapema?” que eu criei essa semana no whatsap
depois que eu comprei um iphone rosa
grupo composto por três pessoas um grupo aliás fonte de inspiração
por exemplo para esta espécie de crônica em forma de poema
que eu disse a eles que escreveria depois de lhes fazer a seguinte pergunta
vcs já sentiram cãimbra na uretra
assim mesmo com til e m e palavra abreviada
porque eu me recuso a escrever formal ou corretamente em chats
na verdade eu me liberto nesses espaços de interação virtual
eu que sempre fui fechado à ideia de modernidade tecnológica
agora percebo o quanto minha produção escrita advém de tais veículos
mas também muito disso se deve à intimidade que tenho
com algumas pessoas com as quais dialogo por ali
inclusive acho que vou falar disso na análise
é uma contradição interessante
mistura repulsa com criação poética
eu tou há meses querendo escrever um poema e nada consigo
agora com cinco dias de whatsap este poema mesmo que quase narrativo
assim me brota
uma aberração poética na verdade fonte de críticas por parte dos críticos literários
online
é uma raça bastante numérica que deve sentir cãimbra na uretra ao mijar
para a qual eu não dou a mínima afinal se eu fosse escrever pensando em quem vai ler
eu jamais escreveria algo eu iria sei lá lecionar literatura
então que a minha escrita não se preocupa com o leitor
ao contrário de brás cubas que se dirigia aos seus de maneira agressiva
eu faço pouco caso eu sou displicente
eu escrevo poemas enquanto assisto a jogos de futebol
eu escrevo poemas com versos clichês
enquanto vejo o meu ídolo messi fazer poesia com a bola nos pés
mas esta metalinguagem da qual me utilizo é apenas recurso estilístico para desconversar
para tergiversar
para irritar
para não pensar na cãimbra que sinto na uretra
vcs também a sentem
ponto de interrogação

ítalo puccini

quarta-feira, 18 de março de 2015

cê: um

(...)
eu gosto de cores claras. por isso os azulejos aqui de casa são agora – desde a reforma – de fundo branco com detalhes em azul. um tom de azul não muito claro, mas longe de ser escuro. esses detalhes em azul quase que formam um desenho. e eu escolhi assim por sugestão da cláudia. ela foi comigo comprar os azulejos, junto com o marido dela e o amigo-pedreiro que fez a reforma aqui para mim. eles sugeriram, eu acatei. não por falta de coragem de dizer que eu não havia gostado, mas sim porque eu havia gostado, sim, da indicação. e desde então, olhando bem para os azulejos, sinto-me tão em paz. gostei muito da forma como eles ficaram. passei inclusive a tirar fotos deles, mas até hoje elas continuam na máquina fotográfica. de vez em quando eu as revejo, passando uma a uma e lembrando-me daqueles dias em que saí de férias e deixei a minha casa sem mim, sendo habitada por outras pessoas, durante dez dias.
na área de serviço aqui do apartamento os detalhes em azul estão em menor quantidade. o pedreiro acabou colocando a maioria dos azulejos com esses detalhes aqui na cozinha. esta cozinha que se tornou o meu escritório. é nessa mesa que eu escrevo, preparo aulas, corrijo os textos dos meus alunos. além da cozinha, há, uma sala, um quarto, um banheiro e uma lavanderia. não tenho escritório, não gosto da sala, meu quarto é meu lugar de descanso, então esta mesa na qual me alimento é também a mesa na qual trabalho, quando em casa. e eu gostei da forma como eles ficaram, essa concentração de azulejos com detalhes em azul aqui na cozinha. a área de serviço ficou ainda mais branca, mais clara. parece até mais arejada.
            e ontem aqui mesmo eu bebi. bebi vinho. eu não sei o que é estar bêbada, por exemplo. nunca fiquei. quer dizer, uma vez já, mas faz muito tempo. e nem foi bêbada-bêbada. aquela coisa de menina adolescente que bebe a primeira vez. lembro-me, era uma festinha de aniversário de uma amiga. amiga, não, colega. havia uma bebida que eles chamavam de batida. era gostosa, lembro-me. tomei alguns copos de batida. de maracujá. e fiquei bem tonta. mas foi só. sentei-me no sofá da sala dela e esperei a tontura passar. os pais dela não estavam em casa. alguns colegas vieram me perguntar por que eu não estava lá na garagem com os demais, e eu desconversei, dizendo que estava só descansando um pouco, que logo voltaria para o “agito”. mentira. aproveitei uma desatenção de todos – ou uma atenção concentrada a uma música e a uma dança com coreografia – e fui embora. caminhei por quase uma hora até chegar em casa. e não senti medo. pedra branca sempre foi cidade calma, sem oferecer muitos perigos aos seus habitantes. meu medo maior era o de minha mãe descobrir que eu havia bebido. mas quando eu cheguei em casa – não me recordo do horário – ela estava dormindo sentada no sofá, com a televisão ligada, com volume bem baixinho. antes de acordá-la, fui ao banheiro e escovei meus dentes. depois fui ao meu quarto, e troquei minha roupa. vesti um pijama. então fui à sala para acordá-la. então fomos dormir.
            eis a descrição da primeira e única vez em que fiquei bêbada.
       e ontem eu novamente bebi. com cláudia e seu marido, as duas pessoas que representam o máximo de intimidade que tenho com alguém. ontem foi a primeira vez que bebemos vinho juntos. anteriormente, só jantávamos. eu tomava longos goles de água gelada. ele, cerveja, ela, vinho. cláudia me convidou para sair com ela e o marido. eu aleguei cansaço, como sempre alego, e ela afirmou então que eles viriam para cá, eu querendo ou não. eis a intimidade.
        trouxeram uma garrafa de vinho e eu aceitei beber uma taça. e então jantamos. pizzas. de quatro queijos e de frango com catupiry. gosto muito de massas, mas não costumo variar sabores. depois da janta, sobrou vinho, e júnior, o marido de cláudia, serviu mais uma taça para cada um de nós. e ainda bebemos uma terceira taça. bebi três taças de vinho em uma única noite, em um único jantar. fiquei tonta, claro. alegre? não sei. a conversa por si só estava animada. júnior contava muitos causos vividos em seu trabalho. ele é dono de uma funerária aqui na cidade. só sei que foi muito gostosa a sensação, aquele momento na companhia dos dois, a comida saborosa, o vinho, que acompanhou tão bem. no momento de ir embora, ainda, júnior saiu cantando “ando com minha cabeça já pelas tabelas”. ele cantava e ria, relacionando esta frase a uma morte de que ele ficou sabendo. mas eu guardei mesmo foi a frase da canção que ele cantava. porque eu me sentia com a cabeça já pelas tabelas. com a cabeça já pelas taças de vinho. é gostoso rir.
(...)

ítalo puccini 

domingo, 15 de março de 2015

uma paixão: grupo de leitura

          uma dificuldade: fazê-lo acontecer. 
uma lembrança: há cinco anos eu organizei um círculo de leitura. foi assim: elaborei um projeto de pesquisa de iniciação científica, que foi aprovado, e, com isso, pude iniciar a pesquisa cujo objetivo era o de despertar a sensibilidade crítica do acadêmico do curso de letras licenciatura da universidade da região de joinville – univille – para a multiplicidade de sentidos do texto literário, focando diferentes formas de leitura e de escrita, objetivando a divulgação em blog dos textos produzidos pelos participantes, uma vez que a leitura e a escrita só fazem sentido a partir das experiências de vida, conscientes e inconscientes, atribuindo ao lido marcas da memória, intelectual e emocional. ainda, esta pesquisa se justificou pela necessidade de ampliar o espaço da leitura e da escrita do texto literário no contexto universitário, porque as obras literárias, sendo arte, constituem-se como ferramentas para a formação ética e social ao proporcionar ao sujeito-leitor a possibilidade de reavaliar visões de mundo.
            em outras palavras, a hipótese levantada pela pesquisa era de que o trabalho com círculos de leitura e de produção escrita poderia propiciar a reconstrução do olhar do aluno sobre o texto literário, devido à sistematização de leituras do gênero. e assim foi: houve uma interação bastante rica entre os participantes – éramos cerca de dez por encontro – da mesma forma que ocorreu um movimento de identificação dos participantes junto aos textos lidos. lemos, por exemplo: trechos do livro “formas breves”, do ricardo piglia, e do livro “e a história começa”, do amós oz; contos de luiz vilela, lucia bettencourt, drummond, caio fernando abreu e machado de assis, além de narrativas curtas de tim burton, marcelino freire e gonçalo m. tavares.
reuníamos duas vezes ao mês, durante cinco meses, e a cada encontro eu escrevia um relato, sobre como fora a leitura, a interação e as trocas advindas daqueles momentos. fiz inclusive um blog, no qual relatei tudo: http://circulodeleituraeescrita.blogspot.com.br e há pouco tempo, relendo aqueles textos sobre o círculo, perguntei-me: como é que conseguimos manter uma frequência durante tanto tempo? foi muito bonito mesmo, até intrigante. havia gosto em participar. imagina só, sábados às 9h da manhã já estávamos lá reunidos, rodeados por trechos de livros, em busca de leituras e dizeres. um compromisso com a paixão, em primeiro lugar – se é que existe uma ligação entre essas duas palavras.
agora, um desejo: fazer acontecer um grupo de leitura. um grupo pequeno, com amigos próximos, somente de seis pessoas, sem nenhum objetivo acadêmico ou profissional. mas como está sendo difícil. o ano letivo começou há um mês e eu já me sinto engolido por ele. rafa, edu, jozi, diego – falta uma última pessoa – já me falaram do interesse em participar, porém, ainda não fui capaz de propor a primeira leitura e marcar o encontro inicial. aliás, a dificuldade em reunir um grupo de pessoas – café, cerveja, almoço, jantar, passeio – é um dos mistérios a serem analisados pelas gerações futuras, pelas pessoas que viverão um mundo diferente, talvez menos agitado como este em que vivemos hoje. sabe, imaginar que o movimento cíclico da terra faça com que no futuro a vida volte ao ritmo cadenciado de outrora, daquela época sobre a qual temos conhecimento apenas através dos relatos históricos. talvez lá na frente volte a ser assim, talvez o ser humano atinja o ápice da sua capacidade interativa consigo mesmo e com o mundo e precise retornar do ponto de onde partiu, de uma vida cujos compromissos não o engulam. quem sabe nessa outra vida seja possível organizarmos um círculo de leitura e realizarmos encontros periódicos para conversarmos sobre os livros que lemos.
inclusive, sobre isso, há um filme cujo nome é “o clube de leitura de jane austen”, dirigido por robin swicord, no qual seis pessoas se reúnem, uma vez por mês, durante seis meses, para conversar a respeito de seis obras da jane austen, sob a alegação de que os livros desta autora são excelentes para que cada um possa curar suas dores, acumuladas ao longo da vida. os livros lidos são: "mansfield park", "emma", "a abadia de northanger", "orgulho e preconceito", "razão e sensibilidade" e "persuasão". cada participante fica responsável pela condução da conversa sobre um dos livros, estes que são lidos por todos. o filme é uma comédia romântica, com típicas cenas de tal gênero, ou seja, divertido e bobo ao mesmo tempo, talvez com pitadas de alguma reflexão a quem assiste a ele. é um filme do qual eu gosto muito, também em função dessa proposta de fazer acontecer um grupo de leitura, através do qual cada personagem é capaz de observar as mudanças ocorridas consigo mesmo ao longo da vida, a partir dos livros lidos.
e há uma outra peculiaridade sobre um grupo assim: a gente acaba por ler algo que não leríamos a não ser que fosse sugerido por alguém pertencente ao grupo do qual participamos. por exemplo, eu nunca li jane austen, mas me sentiria com vontade de lê-la, caso fosse escolhida por um dos integrantes. é um motivo bastante forte para nos abrirmos ao novo, o que talvez signifique um dos porquês das mudanças ocorridas conosco ao longo da participação em um grupo assim de leitura.
é dessa forma que eu ainda acredito que conseguiremos, rafa, edu, jozi, diego e anônimo. será um desafio e tanto marcarmos um horário e uma data e um lugar onde nos encontrarmos para conversarmos sobre os livros lidos. creio que lê-los será o mais fácil, afinal, temos prazer nessa prática, a da leitura. entretanto, pode ser que sejamos engolidos por outras leituras – acadêmicas, profissionais, pessoais. enfim, com o tempo saberemos disso, da realização ou do término do grupo antes mesmo de se ter iniciado. até lá, vamos pensando nos livros que queremos ler.

ítalo puccini


sexta-feira, 13 de março de 2015

a metalinguagem da necessidade fisiológica

é bom às vezes não colocar o mata mosquito no banheiro afinal quando surge com força a vontade de fazer cocô naquelas vezes em que não há tempo de pegar algo e levar pra ler a ausência do mata mosquito tem como consequência a presença de alguns desses bichinhos em tal lugar eles entram através da janela do duto o único caminho de ventilação ou seja não há como mantê-lo fechado o banheiro fede demais então eu prefiro lidar com os insetos a lidar com o mau cheiro e até mesmo é uma maneira de me ocupar durante aquela ação naquele espaço uma vez que sem livro ou palavras cruzadas e com o celular largado em algum cômodo da casa a presença dos mosquitos torna o momento bastante interativo por exemplo eu pego a toalha de rosto pendurada ao lado do bacio e do granito da pia porque tudo no banheiro é compacto ao extremo e com ela eu inicio minhas tentativas de fazer morrer aqueles seres ariscos que quanto mais são acertados menos cambaleiam parecem saber da existência de uma guerra ali estabelecida eles escapam das toalhadas voam para trás de mim de modo a impossibilitar-me de acertá-los e às vezes se escondem dentro do box lugar onde eu não os alcanço com a toalha dessa forma eu aproveito para descansar um pouco relaxar curtir o momento contar azulejos eu e os azulejos temos uma relação numérica eu os vejo e já começo a contá-los seja na diagonal, na horizontal ou na vertical até que percebo um mosquito pousando em um deles em um dos azulejos paro imediatamente a minha contagem afinal depois eu posso reiniciá-la me é sempre um prazer contar azulejos é uma mania é motivo para tratar em terapia quem sabe e eu recomeço as toalhadas em direção aos bichinhos interativos eu repito os meus movimentos eles repetem os seus movimentos eu repito palavras neste texto propondo assim uma metalinguagem não só literária como fisiológica uma reflexão sobre o ato da escrita advindo de uma vontade de fazer cocô que vem com força e me impossibilita pegar algo pra ler e realmente não há nenhum material de leitura no banheiro porque o banheiro é muito compacto apartamentos hoje em dia são compactos o casal não pode mais dialogar no banheiro enquanto um toma banho ou outro faz xixi ou cocô por exemplo isso não acontece mais nos apartamentos modernos feitos para a classe média assim não há espaço para algum suporte onde caibam livros revistas palavras cruzadas qualquer material de leitura o que é uma pena afinal ler no banheiro traz consigo a certeza de que não haverá ninguém fazendo perguntas tal qual o que é que você está lendo porque uma das situações mais deselegantes a serem vivenciadas envolve uma pessoa um livro e uma outra pessoa quanto esta última chega e interrompe a concentração daquela primeira com a típica pergunta o que é que você está lendo e no banheiro não há como algo assim ocorrer principalmente nesses apartamentos modernos onde tal lugar é um cubículo onde tudo é muito compacto e justamente em função disso que não há material de leitura para eu ler enquanto faço cocô sendo assim me resta matar os mosquitos quando o mata mosquito não está colocado na tomada e como houve um aumento excessivo na conta de energia elétrica nos últimos meses eu não posso abusar desse elemento químico cuja ação envolve o assassinato animal portanto haverá sim muita interatividade durante esses momentos do meu dia-a-dia garantindo quem sabe a produção de futuros textos posso até não escrever resenhas de livros que li no banheiro mas quem sabe eu me torne um escritor de narrativas metalinguísticas envolvendo as necessidades fisiológicas

ítalo puccini

sexta-feira, 6 de março de 2015

puta, que tragédia


            desaba sobre nós, tom zé. vivemos a era do etê dentro do agadê, eu quero é saber a quantas anda você, se está zen ou deprê, up to date ou demodée. somos o pós-humano, o antropomórfico. e os nossos ideias, quem diria, não é?, no mesmo camburão da burguesia. mas o povo querida querida ainda suspeita: masturba e deleita, grana e direita. um ódio que nos destrói, o sangue corre corrói, vida de porra, my boy. motoboy a motocar. porém, o ódio pega como planta que se rega, mas no peito que navega a pessoa fica cega.
            o povo querida querida há de sobrevivermos.
e, se o caso é chorar, tom zé, não é com esse disco homônimo nem através de qualquer outra canção tua que se consegue tal feito. porque essas tuas canções levam ao riso, mas não à gargalhada, não ao espalhafato, e sim àquele riso discreto, oriundo de sacadas irônicas, típicos versos que passam desapercebidos ao mais desatentos – e como eles existem, zé: gente que não sabe com quantos quilos de medo se faz uma tradição, com quantas mortes no peito se faz a seriedade; gente que não se apieda – nem os datilógrafos, nem os filósofos – daquele anão que morreu de susto e ficou dividido entre o rockfeller e a branca de neve, perguntando-se e perguntando-se e perguntando-se; gente que não percebe a patada que o hilton hotel dirige ao edifício itália, ao dizer: a mania de grandeza não te dá vantagem. e a resposta do edifício, então? que maravilha aquela porrada: a torre de pisa vestida de noiva. no fundo, no fundo, tom, é gente que não sabe plantar o abacaxi de irará, gente que manda a consciência junto com os lençóis pra lavanderia. e, nesse caso, tens razão, zé, só nos cabe chorar, sem o sonho colorido de um pintor, fazendo da dor nossa acolhida. se quiser, dê-nos a mão. vamos chamar a dor pra fazer um samba antigo, pra te arrumar um amor e uma mágoa. mas, menina, amanhã de manhã o sonho volta, e a felicidade vai desabar sobre os homens.
crb vai ser agora o novo rei da bola. ufa.
é como o discurso do papa, em 16 de maio de 2013, sala clementina, palácio apostólico do vaticano: senhores embaixadores, a humanidade vive agora um retrocesso na história. isso porque dinheiro vem tiranizar, dinheiro quer comandar, o dig dim di di di dinhê. afinal, o homem só vende consumo, o usado fica descartado; surrado, surrupiado. tropicália lixo lógico.
todas as figuras são assim, desenhos de luz, agrupamentos de pontos, de partículas, quadro de impulsos. e ela veio, lá atrás, e nos mostrou isso. hoje, cada dia mais esperta, a moleca desconcerta e concerta e já desconcerta, onde a cultura vige e o conhecimento exige. foi assim que ela casou o saber de aristóteles com a cultura do mouro, por exemplo. foi assim que saímos da nossa idade média nessa nau diretamente para a era do pré-sal. ali, era urgente sair da tunda, levar a gente para a segunda revolução industrial, capacitados à nova folia. tecnologia: a pequena suburbana naquela periferia, uma simples vira-lata no fundo da via láctea. sem nome e sem dinastia.
e assim dizem e recontam a vida, zé. a boca anda louca – o nariz é quem diz; o dente é muito valente – mas é a língua que xinga; o queixo se queixa, mas o bigode não pode; a cabeça que padeça, o olho fica de molho, cabelo criando piolho, pescoço afinando no osso. já da boca, dali nem saliva se livra da língua da vida da vizinha.
baila baila baila: tiroteio esquenta. antes de entrar no elevador é sempre bom lembrar de verificar se o mesmo se encontra parado neste andar. senão, surge o urubu que, no seu pouso, prepara e separa-nos do caroço, vestindo-nos com a peste para a festa do caroço. esgoto, aborto, arroto, roto. e de desgosto cobrimos o vosso rosto. mascararemos todo mundo no fuzuê que zelito e cheba vão puxar, pois a diferença entre esquerda e direita já foi muito clara, hoje não é mais. assim como o braço não é mais o braço erguido num grito de gol. agora o braço é o rascunho de um rascunho, descoberto de carne, por onde escorre todo o sangue.
mas o que salva a humanidade é que não há quem cure a curiosidade. isso mesmo. o homem fez o fogo, por curiosidade. o vento sopra a vela, por curiosidade. eva comeu a maçã, por curiosidade. e daqui a alguns anos, essa geração y vamos ter que governar. ai, ai, meu deus. ai, ai, galope. daqui a alguns anos, infelizmente governar. é o demo é o demo é a demó, a democracia. democracia que escorrega na regra, não se pendura na trégua, não se segura, aiô. a liberdade é um mistério, é traiçoeira que nem amor de menina, é vaidosa. é muito prosa, é azeite. e eu quero saber como está mesmo você, tom, se vai lembrar ou esquecer a nossa dor, nosso prazer. pelos ares ou quasares querem ter o azul que nos teus mares dá-se a ver.

            oh, oh, que porra!

ítalo puccini