sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

eu desejo, eu escolho, eu existo

            “eu desejo”, “eu desejo”, “eu desejo”. as primeiras cenas do filme “caminhos da floresta” apresentam esta frase. são quatro personagens que surgem na tela, revezando-se: joão deseja que sua vaca – milke white – dê leite;  cinderela deseja poder ir ao baile no palácio do rei; e o padeiro, mais sua esposa, desejam poder ter um filho. todos movem suas vidas a partir e em função destes desejos. ainda, um pouco mais pra frente neste musical surge a bruxa, cujo desejo é o de desfazer o feitiço lhe imposto pela própria mãe, o da feiura, que assim a transformou quando o pai do padeiro roubou delas os feijões mágicos.
            e dessa forma estes desejos e histórias de vida se entrelaçam na narrativa, tendo como trama paralela os contos de fadas “joão e o pé de feijão”, “chapeuzinho vermelho”, “cinderela” e “rapunzel”. da seguinte maneira: a bruxa diz ao padeiro e à esposa deste que eles somente poderão ter o filho que desejam caso consigam para ela quatro elementos no meio da floresta: uma vaca branca como leite, um capuz vermelho como sangue, uma mecha de cabelo amarela como milho e um sapatinho tão puro como ouro. pois o casal vai até a floresta e lá se depara com: joão e sua vaca branca, a quem dão feijões mágicos em troca do animal; chapeuzinho e seu capuz vermelho; rapunzel e seu cabelo amarelo; cinderela e o sapatinho de ouro.
            eis a trama deste musical, dirigido pelo mesmo diretor de “chicago”, rob marshall, que aqui alterna cenas cativantes com outras superficiais e até mesmo vergonhosas, tal qual a canção apresentada pelo príncipe e seu irmão. porém, a reflexão que mais me martelou a cabeça durante o filme vem daquela primeira frase: “eu desejo”, remetendo-me ao livro de jorge forbes, “você quer o que deseja?”, cujo princípio, tendo por base a psicanálise, é o de nos levar à pergunta-título: será que realmente queremos aquilo que desejamos?
            os personagens de “caminhos da floresta” percebem, mais para o final da narrativa, o quanto estavam equivocados com relação ao que desejavam, afinal, conforme lacan “desejar é sempre desejar outra coisa”. por exemplo: o padeiro se preocupa em ser um pai pobre e tão ruim quanto foi seu próprio pai, cinderela se desencanta com a vida no palácio e a bruxa descobre, com a juventude restaurada, ter perdido seus poderes. desse modo, eles repensam suas vidas e os caminhos que irão trilhar a partir daquele momento em que alcançaram aquilo que um dia haviam desejado.
este filme me fez relembrar de um livro que anualmente leio para algumas turmas minhas: “joão e os sete gigantes mortais”, de sam swope, cuja história apresenta um personagem chamado joão, um menino órfão, abandonado em uma aldeia quando bebê, e que lá cresceu, solitário, sendo odiado por todos e considerado um menino mau, mau, mau. porém, diferentemente dos personagens do filme de rob marshall, joão tinha um só desejo e uma certeza sobre este desejo: queria encontrar a sua mãe. pois bem, a história vai delineando-se para o leitor e mostrando caminhos pelos quais o personagem principal passou para quem sabe alcançar o seu desejo. o enredo, de modo básico, é: um dia, saindo da aldeia onde não era bem quisto, ele encontrou um homenzinho, dividiu com este sua maçã, e recebeu, em troca, um feijão mágico, com o qual joão fez um pedido: quero minha mãe. nesse momento, apareceu diante dele uma vaca, e com ela o menino seguiu em frente, enfrentando gigantes mortais que rondavam a aldeia.

joão, ao contrário dos personagens de “caminhos da floresta”, queria exatamente o que desejava. pediu a mãe, recebeu a vaca, e não desistiu, muito menos mudou de ideia. porém, o que há de semelhança entre eles é que todos, independentemente do que sentiram após as escolhas que fizeram, antes disso tomaram uma decisão, escolheram um caminho, por consequência abrindo mão de outro e de daquela vida que até então tinham. dessa forma, existindo, de acordo com a analogia a descartes, proposta por forbes: “para tomar decisão, é necessário que a pessoa se pense, ou seja, penso, logo existo”.

ítalo puccini

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