sábado, 3 de janeiro de 2015

eu sou mais feliz quando domino os dois pauzinhos do hashi do que quando jogo sinuca

não sei me parece que aquele taco torto e grande e úmido não me dá o poder que os dois pauzinhos de hashi me dão tão retilíneos e levemente pontudos tão suaves e ainda assim difíceis de serem manejados bem mais difíceis que um taco de sinuca junto ao qual é só agarrar com firmeza na sua extremidade mais larga e fazer o movimento de ir e vir o movimento mais básico mais clichê mais papai e mamãe que se pode querer fazer com um objeto esférico em mãos o ir e vir e então ser bom de mira e de ângulo matemática é fundamental para saber jogar sinuca mas matemática é fácil todos sabem matemática desde a quinta série assim como para estudar música a matemática é fundamental e música também é muito fácil de aprender é só saber matemática com isso jogar sinuca saber matemática e ser músico são três atividades que não se comparam a segurar os dois pauzinhos do hashi com uma só mão sem aquele elástico desaforado aquele símbolo brochante símbolo de incapacidade similar ao jogador de sinuca que joga a bola feita de porcelanato para fora da mesa ao tentar encaçapá-la com excesso de força a partir de alguma tacada mais brusca de algum movimento muito bruto de ir e vir por parte deste jogador de sinuca cujo propósito através dessa ação é o de sentir-se soberano o melhor no jogo de bilhar o botequeiro chegando à ridícula posição de ser frouxo ao usar o hashi e ao jogar sinuca por isso eu prefiro pegar nos dois pauzinhos do hashi com uma só mão e com eles levar a comida à boca o mesmo prazer e a mesma sensação de poder que eu tenho ao beber um vinho ao degustá-lo e listar as características nele presentes vinho tinto seco amadeirado safra de quando meu bisavô iniciou sua produção vinícola em garibaldi e as pessoas babam diante das minhas palavras enaltecem a mim me desejam e eu nem preciso fazer força para isso não preciso tacar com força uma bola na outra não preciso solar notas em um instrumento não preciso destrinchar uma equação algébrica a mim cabe apenas segurar em uma das mãos a taça com o vinho da produção vinícola iniciada pelo meu avô e na outra os dois pauzinhos sem elástico do hashi para com isso me sentir o ser mais desejado do planeta superando assim a carência que me impuseram meu pai e minha mãe durante os vinte e quatro anos em que morei com eles e me senti abandonado recebendo picadas de mosquitos a cada noite quente no meu quarto sem ar condicionado que me levava a dormir de janela aberta e ainda assim com um lençol para ser menos picado pelos mosquitos que só no meu quarto existiam porque nos quartos dos meus pais e do meu irmão mais velho havia condicionador de ar aquele aparelho informalmente chamado de ar condicionado porque meu irmão era o mais velho e por isso o merecedor daquele aparelho que lhe evitava amanhecer suado e picado e eu se tivesse ficado em casa também ganharia um para o meu quarto mas eu não quis vinte e quatro anos foram suficientes para que eu me sentisse um entulho de mosquitos e suor e por isso eu vim morar nessa quitinete onde eu não tenho televisão mas tenho ar condicionado e assim não preciso abrir a única janela aqui presente muito menos dormir com um lençol eu posso usar um cobertor afinal fica bastante frio e eu gosto de frio gosto de escuro gosto de pedir pelo telefone sashimis, huramakis, hossomakis, nigiris e futomakis abrir o vinho lá de garibaldi e comer tendo em uma mão uma taça com o vinho do meu avô e na outra o hashi sem elástico sem brutalidade sem matemática sem música

ítalo puccini

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