sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

a elegância de clara

            clara é o nome da nossa vira-lata, que há vinte dias está conosco, presente recebido da mãe da amanda, da própria amanda e do marco vasques – isto porque sobram cães e gatos na casa da dona maria, a mãe da amanda, e, num domingo qualquer, almoçando por lá uma deliciosa carne preparada pelo chef literário vasques, a rafa bateu o olho nessa princesa de apenas quatro meses, de pelagem preta, com as patas, o peito e traços da cabeça em tom amarronzado, e uma barriguinha saliente, rosada, um charme a mais nesse corpinho miúdo de patas grandes, que dia-a-dia vem espichando, parecendo uma mistura de rottweiler e basset, sendo na verdade uma vira-lata puríssima, de pai e mãe vira-latas, ambos de tamanho médio, o que me leva a afirmar a todos que não, ela não vai dar muito grande, ela não será uma rottweiler, ela poderá conviver conosco em nosso apartamento-com-jardim por muitos e longos e gostosos anos.
            uma das orelhas dela insiste em ficar dobrada para trás.
inicialmente, demos a ela um nome composto: clara nunes. porém, a referência é muito forte, cuja história de vida contém marcas que, a nosso ver, não caberiam a este tisco de cão. assim, abreviamos, chama-se, agora: clara. nos momentos de puro-amor ela é clarinha, cuti-cuti, ai mo deuzo, amor da nossa vida; entretanto, quando apronta, o tom de voz aumenta e a chamada é: clara, não!alternância esta que ocorre com bastante frequência ao longo do dia, por exemplo: quando ela desembesta a correr pra lá e pra cá, pulando, latindo, devido às provocações que fazemos, ou quando ela dorme, tão linda, aninhada aos nossos pés, ela é nossa clarinha; diferentemente dos momentos em que cava buracos no gramado, tenta morder chinelos, tapetes ou almofadas ou faz manha para dormir, deixando de ser a cachorrinha (no diminutivo) e tornando-se uma simples cachorra que merece apanhar e ficar de castigo.
porque o amor e o ódio se imanam nas fogueiras das paixões, já cantava a elis.
e agora durante as férias um pouco da rotina – sobre dormir e acordar – tem sido assim: dormir no nosso quarto, amarrada a guia à coleira e ao cabideiro, deitada sobre um tapete, aninhada a um ursinho igualzinho a ela, de cor preta com manchas em marrom. clara dorme presa à guia devido a uma simples razão: não ficar durante a madrugada andando pelo apê, fazendo tec-tec-tec-tec com as compridas unhas, barulho este realçado pelo piso amadeirado cá de casa. e ela dorme que é uma beleza, até umas 6h ou 7h da manhã, quando uns baixinhos sons de choro podem ser ouvidos por mim: é o momento de levantar, tirá-la da guia e ir com ela para a parte externa, o gramado. enquanto ela come a ração e bebe a água e depois faz suas necessidades, eu preparo umas torradas com geleia e me sento também lá fora, a ler e a comer, lutando bravamente contra os mosquitos ainda presentes ao raiar do dia. minutos depois, é hora de voltarmos a dormir. ela entra sozinha em casa e já se dirige ao quarto, para onde também vou. assim temos mais umas três ou quatro horas de sono, a depender da hora em que acordará o vitinho, pois é ele quem vai ao nosso quarto soltá-la e começar a algazarra do dia, tão bem feita pelos dois.
bola de meia, bola de gude, o solitário não quer solidão.
e a clarinha muito menos. onde nós estamos, lá está ela – agora que escrevo, por exemplo, tenho-a deitada sobre meu pé, dormindo profundamente. enquanto preparamos o café, o almoço ou a janta: deitada no tapete ao pé da pia. enquanto assistimos às séries e aos filmes na televisão da sala: deitada nos nossos pés, no chão, no pufe ou no sofá, entre nós. quando nos levantamos para ir a outro cômodo: tec-tec-tec-tec, lá vem ela atrás. paramos de andar, ela para e senta. voltamos aonde estávamos, ela volta também. vou lá fora jogar o lixo, ela chora dentro de casa. houve uma manhã, inclusive, em que eu, caindo de sono, deixei-a na parte externa do apê, fechei a porta e voltei a dormir. levantei-me perto das dez, fui procurá-la e cadê? (aí vem o desespero: tum-tum-tum!). corri pelo prédio, a procurá-la. rafa a encontrou, em poucos minutos, quando a vizinha do lado abriu a porta e a trouxe. disse que a encontrou presa na grade que divide nossos jardins, tentando passar para o lado dela. ou seja, quando se viu sozinha, bateu o desespero do abandono, fugiu para a família ao lado – não sem antes muito chorar e latir.
agora, ela vai lá fora, senta e olha.
e o título desta croniqueta-quase-ensaio é oriundo do livro que tou lendo nessas duas semanas de rotinas-com-a-clara: a elegância do ouriço, de muriel barbery, cuja história envolve duas narradoras: paloma, adolescente de 12 anos que promete suicidar-se no dia do seu próximo aniversário, e renée, zeladora do prédio onde paloma e outras tantas personagens vivem, no centro de paris. o objetivo de vida de ambas é o mesmo: apagar os traços de suas existências. os capítulos se alternam entre estas duas vozes narrativas que tão bem escrevem e conversam com o leitor, propondo uma série de reflexões existenciais, a partir da realidade frívola que as cerca, isto através de uma ironia gostosa, descrições divertidas sobre o comportamento de cada personagem, coincidências que envolvem variadas manifestações artísticas e cenas cotidianas junto às quais o leitor pode muitas vezes se reconhecer. é, a meu ver, um livro que pede uma leitura mais lenta, espaçada, um pouco por dia. senti isso desde que comecei a lê-lo e dessa forma tenho feito, aproveitando-me do despertar matinal de clara para isso, para ler algumas páginas e então parar, voltar a dormir, quem sabe durante o dia ler mais. parece-me que há livros para serem lidos assim, o ato de levantar a cabeça após a leitura, proposto por barthes, o mesmo movimento que faz clara ao ir para a área externa do apartamento: ela anda um pouco, para diante da comida, olha, sente o cheiro, senta e então começa a comer. a seguir, levanta-se, anda outro pouco e senta-se no limiar do piso com o gramado, olha, sente o cheiro, para só depois andar pelo próprio gramado, procurando o melhor lugar para fazer suas necessidades.
eis a elegância de clara.

ítalo puccini.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

são vírgulas

as pernas, inclusive, têm vida própria, elas não sossegam, mesmo o corpo assim estando, parado, como exemplo, ao sentar-se para um lanche, uma refeição, alguma atividade de estudo ou trabalho, este corpo citado às vezes relaxa, mas elas, as pernas, as irrequietas pernas, balançam ao ritmo de algo que apenas a elas compete saber, parecem dançar ao som de alguma música, por ninguém mais ouvida, somente por elas, levando-as a se abrir e fechar-se, frenética  ou calmamente, entrecruzadas ou espaçadas, juntas-batendo-joelho-com-joelho, a um lado e ao outro, ritmadas, ou, enquanto uma descansa, a outra sacode para cima e para baixo, para cima e para baixo, descontroladamente, como se em poucos segundos fosse desgrudar-se do corpo e sair quicando, ainda ritmadamente, ainda ao som daquela música que lhes é própria, ou, também, há a perna que balança quando sobrecruzada à outra, típica posição culturalmente imposta às mulheres, porém tão comum aos homens, aos que são capazes de realmente cruzar uma perna sobre a outra e deixá-la a balançar, como se ali coubesse uma criança ou um cachorro ou um gato recém-nascidos, dependurados nesta perna que, da mesma forma, com igual ritmo, sobe e desce, sobe e desce, talvez assim descansando, talvez simbolizando a inquietação daquele a quem elas pertencem, ou são eles que a elas pertencem, não se sabe, mas elas não param, as pernas, enquanto parado está o corpo, há um movimento contínuo, independente, comum a todos os seres humanos, em alguns mais frenético, em outros menos perceptíveis, porém existentes, constantes, apesar das mudanças de posições e de ritmos, são gestos entre vírgulas, condutores de uma linearidade rítmica ao corpo no momento deste levantar-se, quase uma intervenção artística, uma espécie de empurrão justamente para este ato de levantar-se, algo inclusive com nome próprio, a síndrome das pernas inquietas, ou síndrome de ekbom, diagnosticada clinicamente, cujos sintomas envolvem alteração de sensibilidade e agitação motora involuntária, palavras bonitas, mas que não alcançam o significado preciso deste ato, ao contrário, podem até mesmo distorcê-lo, através da alegação de uma qualidade de vida comprometida ou da sensação de desconforto, outras expressões consideradas importantes, porém irrisórias, não há dores, não há formigamentos, não é predisposição genética ou ausência de dopamina e ferro em áreas motoras do cérebro que provocam este balançar das pernas, a ciência não alcança o que a arte faz acontecer com elas, as pernas, essa música própria, essas vírgulas, esse gesto espalhafatoso, deve ser realmente bom balançá-las,

ítalo puccini. 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

urbano, demasiado urbano

cantam os pássaros nas árvores,
correm os carros nas ruas: 
fecha-se a janela do apartamento.

ítalo puccini

sábado, 3 de janeiro de 2015

eu sou mais feliz quando domino os dois pauzinhos do hashi do que quando jogo sinuca

não sei me parece que aquele taco torto e grande e úmido não me dá o poder que os dois pauzinhos de hashi me dão tão retilíneos e levemente pontudos tão suaves e ainda assim difíceis de serem manejados bem mais difíceis que um taco de sinuca junto ao qual é só agarrar com firmeza na sua extremidade mais larga e fazer o movimento de ir e vir o movimento mais básico mais clichê mais papai e mamãe que se pode querer fazer com um objeto esférico em mãos o ir e vir e então ser bom de mira e de ângulo matemática é fundamental para saber jogar sinuca mas matemática é fácil todos sabem matemática desde a quinta série assim como para estudar música a matemática é fundamental e música também é muito fácil de aprender é só saber matemática com isso jogar sinuca saber matemática e ser músico são três atividades que não se comparam a segurar os dois pauzinhos do hashi com uma só mão sem aquele elástico desaforado aquele símbolo brochante símbolo de incapacidade similar ao jogador de sinuca que joga a bola feita de porcelanato para fora da mesa ao tentar encaçapá-la com excesso de força a partir de alguma tacada mais brusca de algum movimento muito bruto de ir e vir por parte deste jogador de sinuca cujo propósito através dessa ação é o de sentir-se soberano o melhor no jogo de bilhar o botequeiro chegando à ridícula posição de ser frouxo ao usar o hashi e ao jogar sinuca por isso eu prefiro pegar nos dois pauzinhos do hashi com uma só mão e com eles levar a comida à boca o mesmo prazer e a mesma sensação de poder que eu tenho ao beber um vinho ao degustá-lo e listar as características nele presentes vinho tinto seco amadeirado safra de quando meu bisavô iniciou sua produção vinícola em garibaldi e as pessoas babam diante das minhas palavras enaltecem a mim me desejam e eu nem preciso fazer força para isso não preciso tacar com força uma bola na outra não preciso solar notas em um instrumento não preciso destrinchar uma equação algébrica a mim cabe apenas segurar em uma das mãos a taça com o vinho da produção vinícola iniciada pelo meu avô e na outra os dois pauzinhos sem elástico do hashi para com isso me sentir o ser mais desejado do planeta superando assim a carência que me impuseram meu pai e minha mãe durante os vinte e quatro anos em que morei com eles e me senti abandonado recebendo picadas de mosquitos a cada noite quente no meu quarto sem ar condicionado que me levava a dormir de janela aberta e ainda assim com um lençol para ser menos picado pelos mosquitos que só no meu quarto existiam porque nos quartos dos meus pais e do meu irmão mais velho havia condicionador de ar aquele aparelho informalmente chamado de ar condicionado porque meu irmão era o mais velho e por isso o merecedor daquele aparelho que lhe evitava amanhecer suado e picado e eu se tivesse ficado em casa também ganharia um para o meu quarto mas eu não quis vinte e quatro anos foram suficientes para que eu me sentisse um entulho de mosquitos e suor e por isso eu vim morar nessa quitinete onde eu não tenho televisão mas tenho ar condicionado e assim não preciso abrir a única janela aqui presente muito menos dormir com um lençol eu posso usar um cobertor afinal fica bastante frio e eu gosto de frio gosto de escuro gosto de pedir pelo telefone sashimis, huramakis, hossomakis, nigiris e futomakis abrir o vinho lá de garibaldi e comer tendo em uma mão uma taça com o vinho do meu avô e na outra o hashi sem elástico sem brutalidade sem matemática sem música

ítalo puccini