quarta-feira, 22 de julho de 2015

fios de barba e de memória

            há quem deseje apagar da memória uma lembrança, esta sendo geralmente triste, associada à dor emocional ou física, relacionada a abalos psicológicos, uma vez que lidar com o sofrimento é uma arte para a qual nascemos sem aptidão. entretanto, existem pessoas cuja vontade seria a de eliminar da memórias traços vividos em êxtase de alegria e contentamento, como se fosse possível, então, reviver aquelas energias positivas, na mesma – ou talvez até em maior – intensidade, como se fosse a primeira vez.
            “brilho eterno de uma mente sem lembranças” me levou a pensar nisso. e então lancei uma pergunta, no facebook e no twitter: “se você pudesse apagar de sua memória uma lembrança, qual você apagaria?”. uma pergunta capciosa, obviamente, digna de não ser respondida, pois quem é que vai abrir-se nas redes sociais para responder a algo íntimo? mas justo por esse motivo a lancei, a pergunta, envolta em uma tênue linha de esperança, de me deparar com algo sincero e corajoso.
            recebi, pois, algumas poucas respostas, a maioria apontando o não-apagar das memórias, sejam boas ou ruins, sob o argumento de, assim, não excluir da vida as experiências vividas, sendo estas constituintes da formação do indivíduo enquanto sujeito. respostas, portanto, fluidas, contornando a pergunta, porém não a respondendo, afinal, conforme argumentado acima, ao respondê-la, escancara-se uma individualidade por si só subjetiva e, nesses momentos, a timidez assume o lugar da autopromoção, característica humana acentuada pelas redes sociais.
            ainda, no mesmo dia em que terminei de assistir ao filme no qual jim carrey e kate winslet lindamente protagonizam o amor e seu entorno – eu costumo dormir ao assistir a filmes, então, faço isso em etapas – eu finalizei a leitura do “barba ensopada de sangue”, do daniel galera, cujo resultado foi um despertar desta croniqueta, partindo do pressuposto de que a tentativa de apagar da memória a existência da pessoa amada – o ponto central da película – se apresenta como oposta à busca protagonizada pelo personagem barbudo do romance livresco, focado no objetivo de acrescentar vivências à sua memória; no caso, descobrir mais sobre o avô, a ele desconhecido a não ser pelas palavras proferidas pelo próprio pai, um dia antes de suicidar-se.
            é esse o mote da narrativa tensa desenvolvida pelo escritor gaúcho, na qual me senti mergulhado, ora identificando-me com a reclusão do personagem principal, ora sendo tomado pela curiosidade oriunda do suspense em torno justamente desse desejo do personagem em encontrar o avô e, por consequência, acrescentar vivências, emoções e informações à sua memória. de fato, o professor de natação – o protagonista do romance – quer experimentar algo como sendo a primeira vez. nem mesmo a sua face ser semelhante à do avô o satisfaz, ele pressente a necessidade – ainda que somente intuitiva, sem certeza concreta de algo – de ver o pai de seu pai para então compreender-se. e, independente dos acontecimentos futuros – não vou lançar spoilers –, o personagem não deseja apagar da memória suas vivências, e nesse contexto se insere sua segurança em não exercer o perdão, por exemplo.  
            essa contradição, a meu ver presente nas duas histórias – o desejo em apagar algo da memória e o instinto em viver descobertas familiares –, apontou-me algum caminho para pensar o ato de reler um livro e de assistir novamente a um filme, peça teatral ou espetáculo musical, destacando a quantidade de vezes nas quais nossa intenção é a de voltar a uma história já conhecida, seja para lembrar de detalhes narrados, ou até mesmo com o objetivo de reviver aqueles sentimentos vividos enquanto nos deparávamos (pela primeira vez) com tal referência cultural. como se fosse possível vivenciar exatamente tais sentires.
digo isso porque tenho comigo a crença de que novamente deparar-se com uma obra de arte acaba sendo uma nova primeira vez, afinal, constituímo-nos diariamente enquanto sujeitos, ou seja, somos formados por nosso entorno, concomitantemente modelando-o – ideia filosófica do materialismo dialético concebido por nosso amigo marx – e, assim, a cada nova interpretação construída junto a algum elemento artístico, é um novo eu a ler ou assistir àquele elemento. portanto, não existe em mim o desejo de, por exemplo, apagar da memória romances já lidos ou assistidos, porque o ato de reler ou rever é, por si só, inovador, a primeira vez é sempre.
       e, finalizando momentaneamente esta conversa, a rafa bem lembrou: recordar vem do latim “re-cordis”, ou seja, tornar a passar pelo coração – frase presente no “livro dos abraços”, do eduardo galeano – o que ratifica o argumento central desta croniqueta. sendo assim, logo, logo eu voltarei ao brilho eterno e ao barba ensopada, do mesmo modo como há pouco tempo entrei novamente na trama de “os meninos da rua paulo” e de “apenas uma vez”, ressignificando-os, pela primeira vez.

ítalo puccini 

sexta-feira, 17 de julho de 2015

cê: cinco

(...)
eu já me apaixonei, sim. faz tempo, mas já me apaixonei. acho que foi só uma vez mesmo. não dou importância aqui às paixonites da infância e da adolescência – porém, por vezes penso que devesse importar-me com isso, sim, pela beleza e pela sutileza e pela pureza daquelas paixões. mas prefiro tratar aqui das paixões já depois de adulta. quer dizer, ali quase adulta, saindo da adolescência, que é quando a gente passa a ter mais controle sobre os próprios atos, a equilibrar melhor o que pensamos e a forma com que agimos.
bom, mas eu me apaixonei foi por um cara mais velho que eu. mesmo que eu more sozinha há bastante tempo (morar com a própria mãe é quase que morar sozinha, sim. eu pelo menos assim considero) gosto da ideia de ser cuidada por alguém mais velho – um cuidado do qual sinto falta. gosto da ideia de ter alguém em quem me apoiar nos momentos de queda, de fraqueza, de tristeza. vejo os relacionamentos como algo assim, uma vida a dois, não cada um cuidando de sua própria vida, e sim dois que cuidam de uma vida a dois. talvez por isso eu esteja há tanto tempo sozinha. quem sabe?
mas eu não fui sempre uma mulher sozinha, não. posso estar sozinha há bastante tempo, mas não desde sempre. eu já namorei, por exemplo. já namorei por sete anos. com esse homem pelo qual fui perdidamente apaixonada. eu gostava muito do marcos. nós nos conhecemos na faculdade: eu cursava pedagogia, ele, marketing. pelos corredores universitários nos conhecemos. não foram amigos que nos apresentaram, não. eu nunca tive uma vida social ativa. o marcos, sim, o marcos vivia entre amigos e amigas. e por tanto nos encontrarmos sem querer pelos corredores da universidade, um dia ele parou e me cumprimentou, perguntou que curso eu fazia, em que fase eu estava, e outras perguntas das quais eu não me recordo agora. mas eu lembro da minha reação naquele momento, um misto de felicidade e de medo. é possível perceber o quanto sou insegura, não é? lembro-me de ter falado pouco para o marcos naquele dia. coitado, deve ter ficado assustado, algo assim. nunca perguntei a ele o que ele achou de mim naquele primeiro contato.
depois daquele dia, encontramo-nos mais vezes pela universidade. por outros corredores. era engraçado, até. ríamos assim que nos víamos de longe. e parávamos o que estávamos fazendo para conversar. em pé mesmo. nos corredores mesmo. não me recordo agora por quanto tempo ficamos assim, nessas gostosas conversas. do que me lembro foi do dia em que o marcos me pediu se eu não gostaria de sair com ele no final de semana. comer uma pizza, ele sugeriu. eu achei ótimo. eu adoro pizza. e ele me parecia, de fato, uma excelente companhia para comer uma pizza. aceitei na hora. e naquele final de semana fomos à pizzaria. era uma sexta-feira, sei disso. e no sábado nos vimos novamente. e no domingo já estávamos namorando. foi tão bonito. foi tão legal. depois de um mês, então, de saídas aos fins de semana e de “esbarrões” pela faculdade, apresentei o marcos à minha mãe. e pouco tempo depois fui apresentado à família dele. ele, apesar de mais velho que eu, ainda morava com os pais. eram somente os três.
namorei por sete anos. talvez eu pudesse contar como foram esses sete anos de namoro. como foi o primeiro ano, depois o segundo, e assim contando ano a ano, para quem sabe entender porque não namoro mais, porque meu namoro de sete anos acabou. mas não vou contar agora porque e como meu namoro acabou. fico satisfeita de ter dito que já me apaixonei, sim, que já namorei, sim. que foi bom, foi muito bom enquanto durou. as dores consequentes de um rompimento amoroso eu deixo para escrever em outro momento.
vou dizer agora que gostaria de me apaixonar novamente, sim. gostaria muito, muito. mas eu pouco me relaciono com as pessoas para conseguir isso. eu tenho poucos amigos, talvez já tenha sido possível percebido. tenho duas amigas mais próximas, assim, com quem converso pelo telefone. e tenho um amigo só, que é mais distante. é escritor, vive ocupado, dá aula em universidade, vive lendo, escrevendo, rodeado de amigos chiques, de pessoas conhecidas, inteligentes. ele até me convidava bastante para acompanhá-lo nesses eventos no começo de nossa amizade. mas eu sempre neguei. um pouco, devido ao ciúme do marcos. o marcos morria de ciúme dele. mas um pouco por mim mesma. eu tenho muito medo de gente. tenho medo de parecer burra. tenho medo de ser inconveniente, de estar atrapalhando algo. por isso não procuro as pessoas para sair, não. no máximo minhas duas amigas, para um café da tarde aqui no apartamento, mas já faz tanto tempo. elas gostavam muito da minha mãe. davam-se super bem. ajudaram-me bastante nos últimos meses. agora se afastaram um pouco. tadinhas. vai ver cansaram também de dar conta de mais uma vida assim. eu as entendo.

mas, então, como eu ia dizendo, tenho bastante vontade de me apaixonar novamente, mas não sinto disposição para aquele processo de conhecer alguém, de pisar em ovos para não desagradar tal pessoa, de se esconder muitas vezes para só mais tarde revelar-se por completo. não gosto disso. tenho medo mesmo. logo, prefiro minha quietude (eu gosto tanto dessa palavra). prefiro meu silêncio aqui. meus cadernos de aula, meus livros didáticos. meu rádio ligado na estação de rádio aqui da cidade. uma vez ou outra algum livro como companhia. sou feliz assim. acho que sou feliz assim. contudo, quem sabe eu não pudesse ser mais feliz se eu saísse, se eu me dispusesse a conhecer pessoas novas, a circular por outros meios, a fazer outros caminhos, a sair mais de casa. quem sabe?
(...)

ítalo puccini 

sexta-feira, 26 de junho de 2015

os sentinelas

I

sinto medo de ir dormir e, ao acordar, ser notícia,
estar nas manchetes dos sites e dos jornais impressos,
culpado por ter falado durante o sono
ou por ter ido dormir de meia branca,
sendo que o chão da casa estava sujo.

sinto medo de sair de casa e, ao voltar, ser barrado
por repórteres, cinegrafistas, curiosos, no portão da minha casa,
questionando-me por que fui trabalhar sem
gravata, justo hoje que todos haviam combinado
em vestir-se com traje fino.

sinto medo de abrir meu e-mail ou minhas contas em redes sociais
e ler pessoas escrevendo em caixa alta
para anunciar a venda do caixão que era do bisavô – agora cremado –
ou para defender uma opinião:
“MAS ISSO É SÓ UMA PIADA!”

agora, com esses medos, sei porque minha dor de ouvido não passa.
são essas exclamações ao final de cada frase,
são as palavras em caixa alta,
são as frases que eu digo ou escrevo no dia-a-dia
e que se tornam manchete ou piada em grupos de whatsap.

se eu não soubesse ler, não me incomodaria com isso,
e, também, não sentiria medo ao acordar ou dormir.
tudo é culpa da leitura, da minha ânsia pelas letras,
do meu desejo de ler, reler, transler e sentir
cada átomo de vida que se encontra ao redor de mim.

se somos aquilo que desejamos,
meu medo é fruto de meu sentimento de culpa,
meu medo vem dos poemas que li,
porém, com eles me defenderei
de tudo o que corta, morde e fura.

ao meu lado estarão:
drummond e seu tempo de homens partidos,
joão cabral e a faca só lâmina,
hilda e seus desejos,
manoel de barros e a natureza que é palavra,
leminski e o destino com o qual não se discute.

ítalo puccini

quinta-feira, 18 de junho de 2015

com festa, bolo e brigadeiro

“a gente quer um canto sossegado, a gente quer um canto de sossego”.
assim canta o renato russo, na música “o descobrimento do brasil”, e assim eu me sinto na maior parte dos meus dias, desejando um canto de sossego – expressão maravilhosa, que me remete ao maneca e à sua literatura em torno de árvores, silêncios e palavras.
e esse sentimento se acentua quando no meu dia de aniversário, pelo qual passei no último domingo. dispenso a festa, o bolo e os brigadeiros por preferir a quietude da companhia de poucas pessoas e o almoço da mãe – nesse último, um escondidinho delicioso, com uma torta de bolacha de sobremesa, propositalmente remetendo à infância e assim acentuando a passagem e a reflexão sobre mais um ano de vida.
dispensei, inclusive, o parabéns pra você e sua rima tão bem elaborada, afinal, consegui desvirtuar o assunto no momento em que a mãe cogitou cantá-lo. contudo, mesmo o dia catorze de junho tendo caído num domingo, na segunda-feira, em sala de aula, eu não escapei daquele momento em que você fica igual ao robinson crusoé: ilhado – porém em meio a muitas pessoas.
no meu caso, além de me sentir assim, eu enrubesço – ainda bem. mais ainda: eu fico tão vermelho a ponto de causar preocupação nos outros: “professor, tá tudo bem? não vai passar mal, né?”. não, não passei mal, mas senti vontade de fugir daquela exposição toda. se houvesse um bolo com uma vela acesa, a ser apagada, eu desejaria muito estar na minha casa, em silêncio. mas não me trouxeram um bolo, foi só a barulheira desritmada e as vozes risonhas de quem sente prazer simultâneo em: demonstrar carinho e zoar o outro.
sim, porque antes do gesto carinhoso presente no parabéns pra você por parte dos alunos há o prazer maior de zoar com o professor. é o momento em que eles, imagino eu, sentem-se superiores, subvertem a hierarquia previamente estabelecida nessa relação docente-discente e assim alcançam o ápice da alegria escolar. e, por mais que esta croniqueta talvez não pareça – afinal, através das entrelinhas muitos sentidos estão implícitos – eu fiquei grato junto à bagunça organizada pelas crias a quem leciono.
aliás, deparei-me com algumas variações interessantes: teve turma que levou consigo um outro professor, pediu licença, interrompeu minha aula e cantou o parabéns, somando vozes e palmas à turma na qual eu estava; os mais velhos, os do terceirão, não esconderam a satisfação em tornar tênue esse misto de alegria e subversão e cantaram-me parabéns nos dias quinze e dezesseis – tudo bem, com menos intensidade neste último; e em uma turma de segundo ano eu recebi de presente um quadro repleto de desenhos e frases e tudo o que era possível registrar a mim. foi um presente maravilhoso para simbolizar a passagem da data de aniversário: é apagar o quadro, antes bater uma foto, e seguir a aula em frente.
       passou o dia catorze, hoje já é dia dezoito, agora, mais um ano pela frente, para novamente lidar com essa angústia existencial que muito se faz presente, a sentir pelas conversas com outras pessoas, em mim e em tantos outros. a registrar, por fim, o presente que eu não me dei: uma camisa da argentina, número dez, do messi. a rafa temeu por mim, argumentou a possibilidade de eu até ser agredido em algum lugar ao qual fosse vestido com aquela lindeza de azul e branco, e o fox foi muito sincero comigo ao dizer que, ao me ver naquele traje, sentiria vontade de me dar um soco na cara. sendo o braço dele bastante grande e forte, e não desejando causar angústia à rafa, declinei do meu presente-próprio, substituindo, até o momento, por nada.

ítalo puccini 

quarta-feira, 17 de junho de 2015

sexta-feira, 12 de junho de 2015

nunca consigo comer uma maçã na íntegra

nem que eu fosse uma mistura de ney matogrosso renato russo e mick jagger ou os três simultaneamente no mesmo corpo na mesma cabeça nas mesmas atitudes por mais que eles ajam de modo parecido eu fico em casa conectado ao meu computador um daqueles modelos tão antigos que se for desligado nunca mais funcionará então eu não aperto no botão do estabilizador eu o deixo sonecando durante o tempo em que não o utilizo se bem que quando tou em casa eu tou conectado a ele e nele eu fico assistindo a apresentações dos três do ney do renato e do mick e observo as semelhanças nas atuações de palco de cada um e tenho comigo a certeza de querer ser os três ao mesmo tempo um dia eu vou ser mas primeiro um dia eu serei capaz de sair de dentro desse meu apartamento desse lugar que não recebe uma luz externa há mais de três anos desde que minha ex terminou comigo ela morava aqui vivia reclamando da bagunça desse lugar mas gostava muito de mim eu estava certo de que ela nunca se separaria de mim e um dia ela arrumou o pouco de pertences dela e disse vou embora abriu a porta e saiu e eu fiquei deitado na minha cama olhando pra porta durante mais de doze horas sem entender o encadeamento dos fatos eu travei desde aquele dia eu não consigo lembrar do que aconteceu antes de ela falar eu vou embora e aos poucos eu me afastei das pessoas ainda próximas a mim não convidei mais ninguém a vir aqui nem mesmo o entregador de pizzas amigo meu que gastava um tempo aqui dentro enquanto o patrão ligava desesperado e ele dizia que tava preso num engarrafamento eu troquei de pizzaria e agora peço apenas três vezes por semana pizza de lombo com catupiry e metade portuguesa como eu moro sozinho mesmo fodam-se os peidos que eu dou aqui dentro enquanto eu assisto aos meus artistas preferidos necessidades fisiológicas gosto muito de escrever sobre isso nos blogs que eu assino como se fossem meus tenho uma infinidade de seguidores em cada blog coitados eles acreditam que eu sou aquele perfil lá apresentado não imaginam o lugar onde eu moro as minhas fobias os traumas familiares isso vem desde a minha adolescência eu escrevia como se não fosse eu e sim um outro qualquer a mim e a todos desconhecido justamente desse modo eu passei a entender a literatura os seus meandros o viés pelos quais somos conduzidos em um texto literário foi o momento em que me apaixonei pela primeira vez depois veio a minha ex e os três anos nos quais fomos felizes ao menos eu considerava assim agora eu a odeio e continuo amando a literatura explorando-a suas arestas suas veredas leio muitos novos escritores não na íntegra seus livros cansam ainda não há uma escrita segura neles mas me agrada conhecer seus textos imaginar quem são porém não há nada que se aproxime dos clássicos por isso os releio frequentemente são mais do que fonte de inspiração literária eles a mim representam o ápice da leitura a ser feita sobre a vida e eu sinto que se não fosse escritor eu seria o ney o renato e o mick em uma só pessoa e encantaria a todos sobre um palco e ganharia muito dinheiro porém não saberia usá-lo devidamente eu provavelmente me endividaria e precisaria ser socorrido por algum familiar que bufasse a cada ligação ou visita minha nesse sentido eu fico feliz com o fato de meu pai ter sobrevivido ao câncer de boca assim ele continua pagando minhas contas faz questão de sempre dizer que nunca colocará dinheiro na minha mão mas ele não sabe que eu também me contento com isso o discurso dele me é vazio mesmo que a ele seja imponente eu não tenho uma cédula na carteira há cinco anos já mas também não há dívidas em meu nome na verdade é tudo no nome dele do meu pai este apartamento os móveis que eu comprei para mobiliá-lo as esporádicas faturas a conta no banco e não há nada mais justo afinal meu pai nunca me ensinou a lidar com dinheiro então ele que continue bancando tudo mantendo a vida nos trilhos como ele costuma dizer todo mês quando brevemente nos falamos pelo telefone porque segundo ele conversa virtual não faz sentido é uma injúria da sociedade moderna nossa o discurso do meu pai é recheado de clichês eu sei que ele tem uma conta no facebook eu descobri é uma prova que eu tenho para um dia jogar na cara dele o quanto a sua hipocrisia me dá nojo mas eu aguardo não quero precipitar-me está tudo tão bem tão calmo eu sei esperar eu aprendi a saber esperar eu por exemplo aguardo a sexta-feira como aguardo o final do mês como aguardo o final de um ano ou o término de um dia é o momento em que eu sinto a vida reiniciar é tudo muito simbólico talvez eu seja um dos poucos a sentir isso apesar de todos aguardarem por isso também nunca fui capaz de explicar porque eu me sentia tão feliz numa sexta-feira ou num dia trinta ou trinta um ou à noite mesmo e eu sofro por não saber colocar palavras nesse sentimento a mim é uma frustração se eu soubesse a causa dela eu me sentiria mais pleno eu talvez soubesse viver sem me lembrar do dia em que minha ex saiu pela porta desse lugar e nunca mais eu soube dela eu agora sinto cada final de dia semana mês ou ano como sendo uma possibilidade de mudança a mais repentina mudança que os filmes de ficção podem oferecer parece-me que um relógio será desligado e iniciaremos uma nova vida todos nós seres humanos em um outro espaço tempo no qual não existirá a comunicação do modo como a conhecemos e vivenciamos hoje no qual não existirá a angústia humana fruto dessa forma de comunicação a que chegamos no qual eu sinto que serei o ney o renato e o mick numa só pessoa e conseguiremos todos comermos junto uma maçã na íntegra

ítalo puccini 

quinta-feira, 21 de maio de 2015

na cruz


silenciei escuros
em quartos de dor.

cruzei pernas, braços e dedos
em ritual
desconhecido;
cruzei espinhos no peito.

cruzaram-me o olhar;
prenderam-me numa cruz:
estado de coma.

entre poros,
clamo por libertação. 

ítalo puccini

sábado, 16 de maio de 2015

no jardim atrás de nossa casa

ver o filho ser mandado para fora de casa talvez tenha sido a maior dor da sua vida.
sempre submissa a uma voz masculina que, de maneira grosseira e autoritária, demarcava o ambiente familiar, helena recebera educação formal de seus pais – ele militar, ela dona de casa. jamais pôde desligar-se de uma rotina que incluía afazeres domésticos, desde arrumar o quarto do irmão a encerar o piso dos cômodos do lar, inclusive sendo responsável por limpar os janelões, estes que, para ela, simbolizavam o lá fora, aquele espaço-tempo ausente. tão bonito deve ser olhar de lá para cá, pensava ela, cuja vida sempre fora por entre os cômodos da enorme casa da família, de onde nunca saíra, senão quando se casou – o pai chegou para jantar, naquela noite, acompanhado de um amigo, dono de uma fábrica de roupas no centro da cidade. este, bem apessoado, de cabelos grisalhos e sorriso sedutor, contador de causos envolvendo as famílias mais conhecidas da região e opinador sobre assuntos políticos e econômicos, encantou a todos os presentes na ceia, menos à helena: tão boçal quanto meu pai.
- minha filha, venha conhecer o seu futuro marido. certamente, um homem que a tratará com o melhor que uma mulher como você pode querer.
uma mulher como ela.
ser mãe tornou-se um processo natural. assim como fora casar-se com joão roberto filho – natural porque obrigatório. joão exigira que a criança tivesse o seu nome, também nome do seu pai. devido a isso, acrescentara neto ao filho: joão roberto neto. e um eco que perturbava helena, mesmo que ela não tivesse consciência de que os calafrios que sentia ao ouvir o nome do filho se devessem a essa cacofonia, fruto de mais uma ação ególatra do seu marido – além dos jantares dos quais somente ele participava, das viagens individuais a trabalho e do escritório, espaço destinado somente a ele. eu mesmo o limpo, semanalmente, orgulhava-se.
a única escolha que coubera a helena fora a do nome a ser dado à filha do casal, prevista para nascer dali a cinco meses. esta criança – fruto de uma relação sexual ocorrida a partir do estado embriagado e, por consequência, violento do marido: só assim para ele tocar-me, pensava ela, prensada contra a cama por aquela forma desengonçada, que, após três minutos de contato físico, levantou-se e foi limpar-se no banheiro – era, para a mãe, a possibilidade de ter uma companhia novamente, de amenizar a dor deixada pela saída de joão, por quem ela chorava baixinho diariamente, há dois meses: vou protegê-la desse mundo cruel, eu juro que vou. para o pai, mais uma a contribuir com o serviço doméstico: agora você vai ter uma pessoa a te ajudar a manter essa casa limpa. vê se a educa direito, para não perdê-la também.
- ela vai se chamar maria.
- ok.
joão e maria. e a originalidade do casal.
porque fora de joão roberto filho a ordem para que joão roberto neto saísse de casa, e não volte nunca mais a pisar os pés nessas terras que são minhas, seu fedelho, metido a intelectualzinho, caia já fora daqui, eu não acredito que coloquei em você o meu nome, o nome do meu pai, de pessoas trabalhadoras como nós, que batalham dia após dia para o enriquecimento da família, para colocar o pão na mesa, para ampliar nossos poderes nessa sociedade hipócrita e gananciosa como é a nossa, e agora você me dá esse desgosto, de ter um filho metido nos grupos sociais, em estudo sociológicos, revolucionários, e ainda por cima baitola!
ver o filho ser mandado para fora de casa.
joão não respondera aos gritos do pai. no centro da sala de jantar, onde estavam, ele via o peito do velho subir e descer com força e rapidez. imaginou, inclusive, que presenciaria um novo infarto, infelizmente não acontecido, pensava, enquanto se dirigia para fora da propriedade da família. porém, antes de virar as costas para a casa onde vivera seus vinte anos, caminhou até a presença de helena – postada rigidamente no canto da sala, segurando o choro e a dor que lhe apertavam o peito, cujos olhos diziam não vá, meu filho, por favor, não vá, não me abandone aqui – deu-lhe um beijo no rosto, abraçou-a com ternura e disse-lhe, olhando naqueles olhos já embaçados, eu volto, mãezinha. eu volto para buscar você e minha irmã.
encarou, então, mais uma vez seu pai, o homem que se orgulhava do patrimônio que construíra, o homem que fora pioneiro no êxodo urbano ocorrido no país nas últimas três décadas, que se tornara tão influente a ponto de mandar prender, soltar e matar quem quisesse na cidade. não sabia, joão, se dirigia àquele homem alguma palavra ou se apenas se virava e saía; estava em dúvida entre ignorá-lo ou partir pra cima dele, surrá-lo – até que algum segurança viesse afastá-lo dali; pensava também em quebrar os objetos decorativos, que tanto orgulhavam ao pai. mas não foi capaz de mexer-se. concentrou-se no que sentia, na presença de sua mãe ali no ambiente, na força que precisaria ter para viver longe dela por algum tempo indefinido, sem a certeza de que ela suportaria aquela separação.
não adianta mandar alguém atrás de mim, seu assassino. eu estarei bem longe daqui, fique sossegado. mas eu volto, estando você vivo ou não, doente ou saudável. eu volto. para buscar o que é de minha mãe, estas terras de que você tanto se orgulha, que somente são suas porque você as roubou dela, do pai dela, meu avô materno, da mesma forma como você fez com as terras dos seus irmãos, inclusive mandando matar o tio flávio em um passeio de barco. não tente fazer igual. eu vou saber de tudo o que acontece aqui nessa casa que você construiu com sangue e roubo.
um juramento. um silêncio.
a maior dor da sua vida.
nem mesmo a dor do parto normal com que tivera o filho – ela insistira tanto por uma cesárea, sempre negada pelo marido, para quem o primogênito deveria nascer dentro da residência da família – sobrepusera-se àquela cena, ocorrida há três meses. daquele dia em diante, helena vivera arrastando-se pelos cantos da casa. abandonara o serviço doméstico, alimentava-se apenas porque era obrigada pela cozinheira e nem mesmo reagia às investidas violentas do marido, que a cada dia bebia mais e, nesses momentos, maltratava-a, chamando-a pelo nome do filho. eu não me importo de apanhar pelo meu filho, eu não me importo, gritava ela, por dentro, sem emitir um só gemido.

 foi inevitável que maria viesse a falecer antes mesmo de nascer. o que não levou joão roberto filho a desfazer-se da ideia de que cabia à mãe o primeiro beijo na filha à quem tivera a oportunidade – a única escolha que coube a ela – de dar um nome. beije agora a sua maria, helena. beije a menina que nasceria para ajudá-la nos serviços da casa. tome-a no colo, antes que eu a enterre no jardim atrás de nossa casa, ao lado de onde está enterrado, há um mês, o seu outro filho, o joão roberto neto.

ítalo puccini

domingo, 10 de maio de 2015

cê: quatro

(...)
eu também preferia não saber o que é cirrose.
cirrose deve ser algo muito mundano mesmo. eu imagino que sim. é palavra que minha mãe dizia a mim sempre que eu perguntava pelo meu pai. era assim: “mãe, você não sabe por onde está o meu pai?” no que ela me respondia: “deve de estar por esse mundo afora morrendo de cirrose”. e então eu não perguntava mais nada. ficava quieta por um tempo, pensando no meu pai, sabendo ser inútil tentar qualquer outra pergunta a ela sobre isto. eu tinha quinze anos quando desisti de perguntar. e minha mãe, sem medo algum, desde que ele saiu de casa, quando eu tinha recém-completado onze anos, dizia a mim a frase que eu escrevi acima. e eu não sei lhe escrever se era algo muito forte de se dizer a uma criança, uma quase adolescente. uma menina tímida em excesso, quase muda em sala de aula, de cabelos compridos sempre presos e de óculos.
meus óculos, durante os meus estudos de quinta à oitava séries, era, em primeiro lugar, apertado. eu falei para a minha mãe, quando o estávamos comprando, que ele me apertava atrás das orelhas. ela falou que ele logo amaciaria (sim, eu lembro exatamente da palavra que ela utilizou para justificar a compra daquela armação). e, além de apertado, ele era redondo. mas não um redondo discreto. um redondo grande. um óculos com aro redondo e vermelho. um vermelho brilhante. e com a armação em amarelo. um amarelo-ouro. e apertado, muito apertado. quando eu o tirava, ficava quase que o desenho dele em minha face. e eu era ridicularizada por isto na escola, é claro. mas eu pouco me importava. ridicularizavam-me, sim, e muito, às vezes. porém, eu nunca voltei para casa triste em função disso. eu era indiferente ao que pensavam ou falavam sobre mim. eu era indiferente à escola, na verdade. àquela escola, o que pouco importava para a minha mãe. segundo ela, era uma ótima escola para a minha educação, e que iria me preparar muito bem para os estudos após a oitava série, quando eu deveria já escolher o que eu gostaria de estudar para seguir profissão.
a minha mãe me ensinou também a comer uma fatia de pão, e depois mais uma fatia de pão. somente duas fatias de pão. foi o que ela me ensinou a comer. é o que eu como desde sempre. claro que não comi só pão com nata e açúcar na minha vida. lembro-me da minha adolescência e dos pães com margarina e doce de leite que eu adorava. e eu gostava ainda mais quando era minha mãe quem fazia. não porque o pão ficava muito diferente, não. mas só a ação de minha mãe estar fazendo por mim me deixava mais satisfeita do que o normal.
e sobre o pai – parece-me que crio aqui um diálogo entre meus pais – às vezes eu me pego pensando que já posso ter passado por ele nas ruas dessa cidade, ou de alguma outra cidade próxima a pedra branca – porque para mais longe do que as cidades ao redor de pedra branca eu nunca viajei. e não sei se pretendo um dia. viajar não é algo que me agrada. gosto do meu canto e não gosto de ter que arrumar mala, tanto para ir quanto para voltar. portanto, nas poucas vezes em que resolvo sair de pedra branca, pego um ônibus que circula pelas cidades vizinhas. gasto domingos assim, uma vez ou outra. um domingo ou outro, melhor dizendo. mas poucos, bem poucos. e em alguns momentos eu penso de modo mais extremo ainda. penso que meu pai pode ser o pai de uma das crianças lá da escola. o meu pai pode ser o pai de um aluno meu. um absurdo de se pensar? será? creio que não. afinal, meu pai era novo quando saiu de casa. não sei lhe precisar a idade que ele tinha, mas eu tinha onze anos, e eu sei que ele foi pai cedo. minha mãe deixou isso escapar uma vez. e se agora já são mais de vinte anos de ausência, ele pode muito bem ter se casado novamente e formado nova família. e pode estar sendo um ótimo pai para esta família. e pode, portanto, ser pai de um dos meus alunos, sim, pois são poucos os pais que vão à escola. na escola em que leciono, é característica a presença de mães, seja para levar ou para buscar, seja nas reuniões propostas entre professores e pais. e é claro também que meu pai pode ter mudado de identidade, pode ser uma outra pessoa agora.
e me é engraçado – talvez eu esteja fugindo de encarar isso com medo – pensar em quem poderia ser meu pai hoje em dia me. faz-me forçar a memória para lembrar de quem era meu pai até meus onze anos. até o dia em que ele viveu conosco em casa. não era neste apartamento que morávamos, era em uma casa, numa cidade em outro estado. mais pra cima ainda desse país. uma casa grande, com jardim e tudo. havia muito sol naquela cidade também. eu vivia no gramado lá de casa. correndo, pulando, rindo. eu ria muito quando era criança. muito, muito. eu me lembro. assim como me lembro de quando meu pai voltava para casa. era quase início de noite. eu era pequena ainda. lembro-me bem dos meus cinco, seis anos. depois disso só consigo lembrar-me dos meus onze anos, já neste apartamento. já somente eu e minha mãe. mas antes, naquela outra casa, papai chegava e vinha me abraçar. eu corria para o colo dele. brincávamos por um tempo, depois ele ia tomar banho e então jantávamos. mamãe nessa época conversava bastante conosco, eu lembro. eu gostava muito mais do meu pai. acho que mamãe sentia um pouco.
meu pai sempre foi de beber. toda noite, ele tomava dois copos de uísque, em casa. nós éramos quase ricos naquela época. tínhamos até uísque em casa. e papai também bebia muito com os amigos. uma vez por semana jogava futebol com eles, no clube. e voltava para casa cheirando a cerveja. eu me lembro do cheiro do meu pai até hoje, de quando ele voltava suado do futebol, e cheirando a cerveja. e mesmo assim eu o abraçava bem forte, e então ia dormir. eu sempre tentava esperá-lo chegar. às vezes o sono me vencia. mas sei que ele vinha me dar um beijo de boa noite. mamãe me falava no outro dia. ela ficava o tempo todo em casa, era uma verdadeira dona do lar. a casa tinha sempre um cheiro de limpa.

era. hoje este meu apartamento não tem cheiro. é inodoro e insípido. mas isso pouco me incomoda. eu não exijo da vida que ela seja sempre da mesma forma. E pouco me incomodo se ela mudar de repente. eu sigo o ritmo que tem que seguir. eu tento é cuidar de mim, da maneira mais silenciosa possível, sem contar nada a ninguém. talvez esta minha escrita seja para falar de uma vez só tudo o que guardo comigo há anos, tudo o que não tenho coragem de verbalizar através da fala. e também assim eu revivo momentos importantes da minha vida.
(...)

ítalo puccini.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

casca

minha arrogância
eu a sinto diariamente
e fico feliz quando consigo escondê-la –
principalmente de mim mesmo.

minha arrogância
eu a disfarço por meio da timidez:
bicho acuado de cabeça baixa e olhar superior,
incapaz de abrir-se ao novo.

minha arrogância
eu a herdei de meu pai
numa tentativa inconsciente
de me manter próximo a ele.

minha arrogância
eu a alimento através da ironia
duas armas com as quais me defendo  
daquilo que não quer me atacar.

ítalo puccini 

segunda-feira, 13 de abril de 2015

eu não gosto de ler texto teatral

     inclusive, eu teria um desgosto profundo se houvesse apenas texto teatral no mundo. ele me cansa, ele me confunde, ele não tem narrador. são diálogos, diálogos, diálogos. e algumas rubricas, com o objetivo de orientar o leitor, mas, primeiramente, aqueles que atuarão na peça. logo, ao ler um texto assim, meus olhos ficam procurando as referências características nesse gênero textual: quem está falando, a quem, com que tom, em que local, entre outras.
     mas eu gosto é de narrativas, de parágrafos longos, análise psicológica, narrador em primeira ou terceira pessoa, até mesmo com diálogos. estes me agradam, porém desde que não conduzam a história inteira. uma vez, por exemplo, eu experimentei ler um romance todo dialogado, foi o “nada me faltará”, do lourenço mutarelli, a quem assisti, em dois mil e dez, na feira do livro de jaraguá do sul. gostei da fala dele, das respostas que ele dirigiu às perguntas sobre sua escrita, suas leituras e afins. comprei o referido livro, li-o e dei-o de presente ao edu, por considerar ser mais a cara dele do que a minha, aquela obra. lembro-me de ter gostado da história, mas de ter me cansado durante sua leitura.
     ainda assim, aquele livro foi menos chato do que uma peça teatral. porque um romance dialogado não apresenta as marcações tradicionais de um texto do gênero dramático, afinal, este é feito para a encenação, aquele, para a leitura do leitor. e dessa vez eu vivi a experiência de ler uma peça do ariano suassuna, intitulada “o santo e a porca”. é da década de cinquenta, a peça, com características do teatro cômico, se é assim que se fala, e se mantém atual, em função do seu caráter crítico. li, gostei da história, porém me cansei bastante, devido aos detalhes já citados.
     e então fiquei encucado com esse desgosto profundo. tou perguntando-me até agora o porquê de tal aversão a um estilo de texto, entretanto, ainda não encontrei respostas, nem mesmo durante a escrita desta croniqueta. em últimos casos, eu falarei disso em terapia, se eu me lembrar, uma vez que entrar no consultório terapêutico significa desorientar o consciente, cedendo lugar ao inconsciente, portanto, não mais controlando a fala, de acordo com o desejo ou a ordem antes prenunciada.  
     ainda, sei dizer do meu gosto em assistir a peças teatrais, isso, sim. vou pouco ao teatro, é verdade, mais por preguiça em sair de casa do que por outro motivo, mas sinto prazer quando vou, assim como, interesso-me em ler sobre apresentações de companhias. contudo, este detalhe não me leva ao outro, o que talvez se apresente como contraditório, e, se assim for, que seja. sou da opinião de que o uso da palavra, por si só, é uma contradição à qual nascemos imbrincados, portanto, cabe-nos um olhar de análise a respeito disso que sentimos, justamente o que me leva a esta escrita, mesmo que, agora ao final dela, eu não consiga encontrar resposta à afirmação inicial.
    contradição, aliás, a me fazer lembrar de gregório de matos e do barroco. contradição, ou seja, dualidade, aquela marcante no período literário da nossa gênese literária: matéria versus espírito, tão recorrente na literatura do século xvii. contradição esta a essência da peça de suassuna. e, talvez por gostar dos poemas do boca do inferno, eu gostei da história de “o santo e a porca”, das personagens ali presentes, do absurdo de cada cena – um absurdo irônico e crítico, refinado – mas nada que me levasse a uma sensação de prazer durante a sua leitura.
     sobre isso, a jozi – que, devido à sua desatenção constante, também não gosta de texto teatral – sugeriu que tal gênero textual fosse lido a dois, ou mais, cada um lendo em voz alta a fala do personagem correspondente, assim contribuindo para o entendimento do enredo. pode ser, eu disse a ela, mas sou chato, não me agrada algo que mais parece um ensaio para uma dramatização. logo, cá estou eu, no que diz respeito à leitura de textos dramáticos, novamente sem caminho alternativo, porém resignando-me a este desgosto, a partir de agora aprendendo melhor a lidar com ele.

ítalo puccini 

sábado, 11 de abril de 2015

prefácio de ariano suassuna em "o santo e a porca"

SERÁ QUE UMA OBRA DE ARTE precisa mesmo de explicações do autor para enfrentar o público? Será que a visão que o autor tem de sua obra não é a mais deformada de todas? Não sei, mas acredito que é muito difícil, sem traição a ela, explicar ou ordenar os múltiplos aspectos e sentidos que tem — ou pelo menos deve ter — uma peça de teatro. O fato é que a peça é um tumulto, e as opiniões que se formam em torno dela é outro; o que, de certa forma, nos autoriza a procurar, na medida do possível, um sentido para aquilo que talvez nenhum sentido claro possua.
Com isso, não quero dizer que, ao escrever a peça, tenha conseguido fazer tudo o que pretendi ao imaginá-la. E quem o consegue? A obra que se apresenta ao público, qualquer que seja ela, é o resultado de duas derrotas: a primeira, porque o artista jamais conseguirá se equiparar à mobilidade, à vida, à riqueza, à contínua invenção da realidade; a segunda, porque depois de inventar sua obra — que não é senão uma tentativa de resposta domada, clarificada e ordenada ao que o mundo contém de feroz, de disperso e selvagem — nunca consegue ele imprimir na obra tudo o que desejou e entreviu no momento da criação.
Mal saído dessas duas derrotas, o artista entrega a obra ao público e à crítica. E ei-lo diante de algo misterioso, terrível e perturbador, porque absolutamente imprevisível. Às vezes, a obra é aceita pelo público e recusada pela crítica, às vezes acontece o contrário, às vezes ambos se juntam, a favor ou contra. Às vezes, depois de um julgamento que parecia definitivo, ambos se arrependem.
Na maioria dos casos, porém — e isso é, para mim, o mais incompreensível —, tanto o público como a crítica se dividem. Uma vez, um amigo me mandou um recorte de jornal com o resultado de uma estatística dessas que certas organizações costumam fazer com inquéritos, junto ao público, na saída dos espetáculos. O resultado foi, para mim, algo surpreendente e terrificante. Eu nunca vira nenhuma delas; aceitaria de bom grado que as opiniões fossem unânimes, contra ou a favor. Mas nada disso acontecia. A peça considerada melhor pela estatística apresentava o seguinte resultado: 58 pessoas tinham dito que ela era ótima, 34 que era boa, três que era simplesmente regular e cinco que era decididamente ruim. Da peça considerada estatisticamente pior, o resultado era o seguinte: 18 pessoas tinham-na considerado má, 31 regular, 33 boa e 18 ótima.
Meu Deus, que misterioso critério de julgamento levou aquelas cinco pessoas a considerarem mau um espetáculo que outras 58 diziam ser ótimo e outras 34 diziam ser bom? E que outra imprevisível escala de apreciação levou, no segundo caso, aquelas 18 pessoas a acharem ótima uma peça que outras 18 achavam decididamente má? 
É para nos desanimar, é mesmo para tirar conclusões pouco democráticas, no domínio da arte. Mas assim vai o mundo, e, ao que parece, pior do que o escuro em que nos debatemos é a mania de ser dono da luz. Assim, confessando que talvez esteja ainda mais no escuro do que os outros sobre o que faço, tento aqui a ordenação — ou uma das ordenações possíveis — para o mundo tumultuoso que inventei, não sei bem por que nem para quê.
Para isso, gostaria de esclarecer que, em certo sentido — e somente assim, porque, no fundo, isto é uma simples história —, O santo e a porca apresenta a traição que a vida, de uma forma ou de outra, termina fazendo a todos nós. A vida é traição, uma traição contínua. Traição nossa a Deus e aos seres que mais amamos. Traição dos acontecimentos a nós, dentro do absurdo de nossa condição, pois, de um ponto de vista meramente humano, a morte, por exemplo, não só não tem sentido, como retira toda e qualquer possibilidade de sentido à vida.
É desta traição que Euricão Arábe subitamente se apercebe, é esta visão perturbadora e terrível que lhe aponta os homens como escravos — como escravos fundamentais e não só do ponto de vista social, como um crítico entendeu que eu apontava —, isto é, como eles próprios se veriam a cada instante, não fossem as preocupações, a cegueira voluntária e involuntária, as distrações e divertimentos, a covardia, tudo enfim que nos ajuda a “ir levando a vida” enquanto a morte não chega e que faz desta aventura — que se fosse sem Deus era sem sentido — um aglomerado suportável de cotidiano.
Para indicar isso, aproveitei, entre outras coisas, a circunstância de ser Euricão Engole-Cobra um estrangeiro, um “arábe”, como se diz, no sertão, dos sírios, árabes e turcos enraizados, e insinuei, através disso, nossa própria condição de desterrados: “Não temos, aqui, cidade permanente” (Hebreus 13,14). Detesto os símbolos: quando Euricão fala nisso, não está simbolizando nada nem ninguém, o que prejudicaria, a meu ver, sua vida de personagem de teatro; está aludindo a uma circunstância real, pelo que me permiti essa exceção que, não prejudicando a vida e a verdade do personagem Euricão, pôde servir para dar à perda da porca o sentido do absurdo de toda a vida. Porque a perda da porca é muito grave no caso particular dele. Euricão sacrificou toda a existência a ela — ao mundo, portanto, à segurança, à vida tranquila, feliz e rotineira —, furtando a sua própria alma, como ele mesmo diz repetindo seu modelo Euclião, personagem de Plauto; e o ídolo termina por traí-lo, deixando-o solitário e abandonado diante da morte. Como afinal acontece a todos nós, quando perdemos nossa casa, nossa fábrica, nosso automóvel, nosso nariz — como aconteceu ao personagem de Gogol —, nossa amante ou nossas pernas.
Isto, quanto à porca. Ela apresenta a vida como um impasse, cuja única saída é Deus. “Se Deus não existe, tudo é permitido”, dizia Ivan Karamázov, isto é, o mundo moral ficaria inteiramente destituído de sentido. E claro que não sou nenhum Dostoiévski nem estou, nem de longe, comparando as duas obras, mas sim comentando uma semelhança de situações; pois o que Euricão descobre, de repente, esmagado, é que, se Deus não existe, tudo é absurdo. E, com esta descoberta, volta-se novamente para a única saída existente em seu impasse, a humilde crença de sua mocidade, o caminho do santo, Deus, que ele seguiria num primeiro impulso, mas do qual fora desviado aos poucos, inteiramente, pela idolatria do dinheiro, da segurança, do poder, do mundo.
Mas, se possível, olhem esta peça — assim como o conjunto de meu trabalho de escritor, dentro do qual ela, como todas as outras, deve ser entendida — antes de tudo como uma história, contada por uma pessoa, mas que mantém um contato profundo e amoroso com a vida. Considero-me um realista, mas sou realista não à maneira naturalista — que falseia a vida — mas à maneira de nossa maravilhosa literatura popular, que transfigura a vida com a imaginação para ser fiel à vida. Não tem sentido, portanto, dadas as características de meu teatro, dizer como disseram alguns críticos ilustres, que é inverossímil que um avarento ignorasse uma operação bancária e perdesse, assim, seu tesouro. Em primeiro lugar, mesmo que isso fosse impossível na vida, não o seria em meu teatro, onde um cangaceiro se deixa enganar por uma flauta e um conto do vigário — no caso, o Padre Cícero — e onde os anjos se vestem de judeus e os diabos de frades ou de vaqueiros; e em segundo lugar, mesmo na vida, o caso é tão possível que aconteceu; foi em Taperoá, com uma pessoa avarenta, por sinal pertencente à minha família. Na agência do Banco do Brasil, em Campina Grande, onde ela foi trocar seu dinheiro, avisada por um tio meu, juntou gente para ver aquelas notas, guardadas durante tanto tempo que ninguém as conhecia mais.
O que eu procuro atingir, portanto, é, se não a verdade do mundo, a verdade de meu mundo, afinal inapreensível em sua totalidade, mas mesmo assim, ou por isso mesmo, tentador e belo, com seu sol luminoso e selvagem, tão selvagem que não podemos vê-lo. Procuro me aproximar dele com as histórias, os mitos, os personagens, as cabras, as pedras, o planalto seco e frio de minha região parda, pedregosa e empoeirada. Esta visão ardente — grosseira e harmoniosa, ao mesmo tempo — é o cerne para onde se dirige meu trabalho de escritor. Admito, a exemplo do que acontece com o público e com a arte popular de minha região — o mamulengo, o romanceiro —, a mentira geral do teatro para que isso me possibilite comunicar aos outros, na medida de minhas forças, a substância deste mundo. Nunca o teatro conseguirá reproduzir a vida, que se reinventa a cada instante. Assim, sem exageros que acabem a ilusão consentida do público, é melhor não apelar para as muletas do verismo nem esconder as traves da arquitetura teatral — sejam as do autor, as do encenador ou as dos atores, pois todos nós temos as nossas; assim o público, vendo que não pretendemos enganá-lo, que não queremos competir com a vida, aceita nossos andaimes de papel, madeira e cola e pode, graças a essa generosidade, participar de nossa maravilhosa realidade transfigurada. A vida e o mundo são os motivos, que aparecem transfigurados, no teatro. Meu teatro procura se aproximar da parte do mundo que me foi dada; um mundo de sol e de poeira, como o que conheci em minha infância, com atores ambulantes ou bonecos de mamulengo representando gente comum e às vezes representando atores, com cangaceiros, santos, poderosos, assassinos, ladrões, palhaços, prostitutas, juízes, avarentos, luxuriosos, medíocres, homens e mulheres de bem — enfim, um mundo de que não estejam ausentes — se não no teatro, que não é disso, mas na poesia ou na novela — nem mesmo os seres da vida mais humilde, as pastagens, o gado, as pedras, todo este conjunto de que o sertão está povoado.
Isto é o que venho procurando fazer. Sei que é um plano ambicioso, mas não posso estar pensando nisso, nem em se venho ou não conseguindo pô-lo em prática: terminaria ficando desesperado.
Assim, tendo dito o que quis fazer, entrego a peça aos leitores: que eles a julguem novamente, como já aconteceu com o público que a viu no palco. E, se o que disse aqui contribuiu para um maior entendimento entre nós, dou-me por satisfeito. 
A.S.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

memórias póstumas de aniversários infantis

            antissocial por natureza – ou por marcas da vida em mim – considero as festas de aniversário infantil excelentes momentos dos quais não participar. nesse sentido, vivi um 2014 de plena realização, no qual participei da comilança de um bolo no aniversário do vitinho – meu enteado – e só. por outro lado, março de 2015 já posso considerar o mês do saco cheio.
foram quatro festas infantis, uma em cada final de semana, nas quais tive a oportunidade de exercer a paciência nos seus níveis mais profundos, afinal, um cenário onde crianças estão correndo, gritando, pulando, jogando-se ao chão enquanto alguma música de voz muito aguda preenche um espaço também ocupado pelas conversas dos adultos – em volume elevado, devido ao contexto – causa graves problemas ao cérebro das pessoas, comprometendo funções básicas da convivência, como por exemplo respirar.
como eu tento lidar com isso?
comendo.
sem dúvidas, cada um desses quatro momentos contribuiu no meu propósito de não regredir meu peso para menos de 70 quilos. na verdade, foram ótimas oportunidades para eu abrir uma margem de erro. agora com 72 quilos, tou tranquilo, curtindo esse peso ideal que ainda faz de mim um sujeito magro, porém menos esquálido.
também, aproveitando-me do meu novo iphone rosa, eu percebi que posso aprimorar meus escritos durante esses eventos top, por exemplo escrevendo croniquetas assim, ou poemas despretensiosos – e desde quando um poema se pretende a algo? por isso que gosto de croniquetas assim, como se fossem poemas, cuja pretensão é nula, e a ironia, muita.
este texto, por exemplo, eu comecei a escrever durante uma festinha à qual levei o vitinho. parei o texto, naquele momento, no parágrafo anterior, e agora resolvi continuá-lo, passando-o do celular para o computador. naquele lugar, eu não conhecia ninguém – era um aniversário de um coleguinha de escola do vi – e as pessoas de lá não foram muito receptivas, ou seja, ofereceram-me um refrigerante e ocuparam-se com suas conversas-fechadas. eu, portanto, passei a acompanhar o jogo do jec pelo twitter e a escrever, enquanto o vi se divertia à beça. chegou o momento da comilança e eu me senti plenamente realizado. enrolei mais uma meia hora e fomos embora.
com sinceridade, eu fico feliz pelas pessoas e por seus aniversários, principalmente pelas crianças, ansiosas, devido às promessas de presente e de brincadeiras com os amigos, mas acredito que na intimidade ainda seja a melhor maneira de se comemorar uma data. justamente em função disso, também, eu nunca escrevo a ninguém, via redes sociais, felicitações, afinal, não há nada mais frio do que este gesto automático, repetidamente banalizado, cujo valor simbólico se descaracterizou. da mesma forma, não entendo festas de aniversário para as quais um mar de gente é convidada, ainda mais envolvendo desconhecidos, gente nunca antes vista, afinal, pergunto-me, qual a lógica de receber um desconhecido para um momento tão único, tão particular?

prefiro o tête-à-tête, a janta com a esposa ou o marido, o passeio com os filhos ou os pais. e, de ante mão, relembrando um pouco o último capítulo de memórias póstumas de brás cubas – o de negativas – agradeço os próximos convites, parabenizo-os se houver oportunidade, e espero não poder ir ao aniversário do seu filho, caro leitor.

ítalo puccini 

terça-feira, 31 de março de 2015

cê: dois

(...)
comecei a escrever este livro porque perdi minha mãe.
esses sustos que nos pegam pelo calcanhar, de costas, despreparados. era uma tosse, em seguida, uma dor na nuca, uma febre que não passava, e o sorriso sem graça agora é meu, depois de dias de internação e de diagnósticos confusos. quando me contaram o que era, não me restou nada a fazer se não ficar assim catatônica. é tradicional, não é? pelo menos é o que dizem sobre a normalidade em ficarmos fora do ar ao recebermos notícias traumáticas, precisar de amparo, contatar os parentes. aí eles vieram. os parentes. lá de longe. porque eu sou bem sozinha, agora ainda mais, afinal, éramos só eu e minha mãe, há bastante tempo. mais precisamente, há vinte e dois anos, desde que meu pai foi embora – dizem que até já casou e tem uma filha. mas não apareceu no velório de minha mãe. mora longe, acho.
durante esses dias todos, eu ficava ali na sala, sentada no sofá de onde minha mãe não saía. são três os sofás na sala, três sofás velhos, cuja sujeira fica disfarçada pela manta que cobre cada um. são três sofás e uma televisão preta e branca. sobre ela, uma bíblia. a bíblia que minha mãe lia sempre, todo dia. ela assistia ao terço das seis da manhã e ao das seis da tarde e, sempre depois de assistir ao terço, ela fazia o sinal da cruz e beijava a bíblia. nunca reparei se era a mesma página. agora eu tirei a bíblia de sobre a tv e a deixei no sofá, local onde me sento quando não estou aqui na cozinha escrevendo. fico perguntando-me quando conseguirei abrir aquela bíblia amarelada e ler o que minha mãe lia. penso que talvez isso me aproxime dela, possibilite a mim senti-la viva novamente.
mas ainda sou incapaz disso.
eu sou do tipo de pessoa que abre cartas de desconhecidos, quando endereçadas a mim – apenas uma vez na minha vida, é verdade. mas não consigo abrir a bíblia beijada por minha mãe. ainda, há uma pilha de contas atrasadas aqui na mesinha do abajur da sala, ao lado do braço de um dos sofás, já deve fazer mais de mês. minha mãe ficou internada por trinta e nove dias. eu contei. eu vinha em casa, tomava um banho, descansava uma ou duas horinhas na cama e voltava para o hospital. eu sou professora. pedi licença na prefeitura assim que o médico me disse que o caso da minha mãe era sério e que poderia ser irreversível. engraçado são os médicos, não é? eles sabem exatamente o que vai acontecer, ou o que já aconteceu, mas sabem como ninguém dar uma informação que não diz nem sim nem não. e aí nos deixam assim, desnorteada, com cara de assustada, mas precisando mostrar uma segurança que não existe. foi assim que cheguei à escola e falei que precisava de trinta dias de licença para cuidar da minha mãe. e quando me perguntaram o que ela tinha, eu fiquei muda. eu travei. e caí num choro. na frente da diretora da escola, que precisou chamar uma outra professora e trazer-me um copo com água e açúcar para acalmar-me e para que eu pudesse dizer aquilo que eu não sabia.
            então eu percebi que num texto literário eu posso verbalizar direitinho o que eu não sei, fazendo dessa incongruência o traço mais marcante na relação entre mim e a literatura. nós escrevemos para contar aquilo que é nosso, aquilo que nos acontece, aquilo que acreditamos ser a nossa vida, mas na verdade a gente acaba descrevendo aquilo que não sabemos, aquilo que não-é-nosso-mas-nós-pensamos-que-é. a gente se escancara para um outro, mas pouco percebe que a gente se escancara também é para nós mesmos, através da escrita.

            talvez este livro eu esteja escrevendo para meu pai. tenho medo de que ele não saiba sobre a morte de minha mãe. 
(...)

ítalo puccini