segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

o amor é hiperquântico,

calcanhotto.
sim senhora.
aquele plano para esquecer alguém, não é mesmo? esqueçamos. a uma hora dessas, por onde vagará nossos pensamentos? esqueçamos até nos esquecermos de que gostaríamos de esquecer dela, ou dele, ou de ambos. e, ainda, após o esquecimento vem o remorso – que é deles – quando se percebe que encontramos alguém que só pensa em nos beijar, a nós, adriana, a mim e a você, somente beijos e alguém que só pensa em nos querer. ao outro? que se ajoelhe. iremos fazer falta, numa dada hora. onde? longe, leme, luanda. ou na nossa cama.
e pode ser então que seja tarde demais. vai saber.
ainda, pensam que sabem mentir os homens e mulheres que amamos. humpf. ainda há o perfume deles pela sala, o cheiro dentro dos livros. eles acreditam que nos enganamos. no mais, deixamos de ser quem éramos quando fomos deixados. agora, vamos à lapa decotados, viramos todas, beijamos bem. pouco nos importa que a nova namorada seja linda, versátil e hábil com a língua: ela não samba. ela não quebra. ela não balança. ela não judia. isso mostra que às vezes o acaso pode estar num bom dia para nós e emaranhar por capricho tempo e espaço.
sejamos simbolistas, adriana: sendas de grutas ignotas. só quando sabemos os nomes mais secretos, quando penetramos noites escuras, cavando e extraindo estrelas nuas. e a montanha insiste em ficar lá: parada. em volta de um assunto, uma lente. o paramgolé pamplona a gente mesmo faz, uma canção por acaso. é só dançar, é só deixar a cor tomar conta do ar. cobalto, no alto o azul marinho. branco no branco no preto nu:
vamos comer caetano, adriana?
sendo salgado, gelado ou azul, será só linguagem: passagem de átomo à paisagem. vestidos de advogado, de garçom, de jogador, seríamos tudo isso. de dia fiel escravo, à noite seu predador. a vida voa, baixinho. de bandeja nós daríamos a eles ou a elas, se a nosso alcance estivessem: o lance da alegria, o presente desse instante. faríamos o chá, lavaríamos a louça. eles ainda dizem não lembrar do que não sabemos esquecer, porém, sabemos o quanto o amor gosta muito de mudar.
banquete-ê-mo-nos. abram seus poros e papilas e pupilas. uma música sem som. uma fábrica do poema. sonhamos o poema de arquitetura ideal. metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros, sumidos no sorvedouro. não deve adiantar grande coisa permanecer à espreita, não é? lá mesmo nos esquecemos de que o destino sempre nos quis só. porque agora, justo agora, logo agora, perguntaram por nós, adriana. então, eis aqui chocolate, gato, chão, espelho, luz, calção, tudo no seu lugar, para quando eles chegarem.
degluti-lo, mastigá-lo, vamos lamber a língua. fizemos sambas, demos carinhos, as fantasias despimos, devagarinho. agora, está na nossa hora, momento em que não moramos mais em nós. deixemos a geladeira cheia e sem promessas, isso. findo o carnaval, estamos de volta. afinal, o amor eterno vai até a quarta-feira. 
já reparô?

ítalo puccini.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

tou com sintomas de saudade, marisa monte

e no meio de tanta gente eu encontrei você – tanta gente chata, sem nenhuma graça. você veio. agora, deixa eu dizer que te amo. deixa eu pensar em você. isso me ajuda a viver. como em um vilarejo, ali, onde areja um vento bom, pra acalmar o coração, afinal, lá o mundo tem razão e há um verdadeiro amor, para quando você for. você que descobriu o mundo e soube vê-lo de um ângulo mais bonito. você que conhece a índia e o japão, despreocupa-se e pensa no essencial.
eu era tão feliz e não sabia, amor.
há tempos tento encontrar um bom momento, alguma ocasião propícia para que eu possa pegar sua mão, olhar nos olhos, encontrar com você em seu infinito particular. quem foi que me deixou no limite do amor? você. só ao seu lado seu telhado me faz feliz de novo. e eu desejo saber o quanto amar alguém só pode fazer bem – embora soma cause divisão, amar alguém só pode fazer bem, eu desejo saber.
no meio do fio, na corda bamba, é o amor.
tarde, já de manhã cedinho, e eu pensando em passar pela vida com você. todo mundo tem um canto de tristeza, marisa. porém, nada vai permanecer no estado em que está. coisas vão se transformar, para desaparecer. geleiras vão derreter, estrelas vão se apagar. então, o que me importa seu carinho agora, se é muito tarde para amar você? depois de sonhar tantos anos, de fazer tantos planos de um futuro pra nós? em vão. tu viraste-me as costas. mas um dia eu vou estar à toa e você vai estar na mira. um dia eu vou estar contigo e você vai estar na minha. eu sei, eu sei. eu sei, meu bem.
até parece que não lembra, que não sabe o que passou, não é mesmo?
eu ainda lembro o que passou. em você, em qualquer lugar. novo dia, sigo pensando. olha pra mim. beija eu, rompe com a gramática e molha eu, seca eu, deixa que eu seja seu. e se será, será. também, que atire a primeira pedra quem não sofreu, quem não morreu por amor: todo corpo que tem um deserto, tem um olho de água por perto. de quem lava os cabelos com shampoos diferentes. deixa o amanhã dizer.
com esta carta de amor que o professor me ensinou, a sede de ti prossegue. toda vez que eu saio, preparo-me para talvez te ver. eu só queria que você soubesse que estive pensando em você, que você leia esse texto e saiba que eu te adoro e te quero sempre mais. e te quero livre também. pra ser sincero, meu remédio é te amar, te amar. pois não adianta, sem amor a vida não traz felicidade. só traz saudade de você.
dentro de cada pessoa tem um cantinho escondido, decorado de saudade. no meu, apagaram tudo, pintaram tudo de cinza.
eu não sinto bucolismo. eu me sinto tomás antônio gonzaga ultrarromântico escrevendo à sua marília. preso numa masmorra. o meu canário já não canta, com certeza se desgostou. o silêncio é uma tortura, alguma coisa se perdeu. você já não me olha como antes com ternura, só falta me dizer adeus. sendo assim, vou fazer minha dor dançar, porque sei o que eu quero saber, de verdade. afinal, se você me deixou, a dor é minha, não é de mais ninguém. a dor é de quem tem. descalço no parque, sozinho eu estou, a esperar por você, meu amor. afinal, só porque disse que não me quer, não quer dizer que não vá querer.

eis o melhor e o pior de mim.

ítalo puccini.