quarta-feira, 5 de novembro de 2014

sobre como, perante o outro, não somos quem somos enquanto sozinhos


em primeiro lugar, agradeço à crônica por existir, enquanto gênero textual, possibilitando a escritores com criatividade limitada a oportunidade de intitular o próprio texto de uma forma assim confusa.
em segundo lugar, o tema desta croniqueta: há uma temática bastante recorrente na literatura brasileira – e muito provavelmente na mundial também, mas, como não sou conhecedor desta, limito-me a falar daquela – que diz respeito a uma dualidade, talvez tornada clichê justamente devido à recorrência citada: aparência versus essência.
machado de assis, por exemplo, abordou-a em variados romances e contos. a citar, creio que valem os contos “o enfermeiro” e “um homem célebre”, além do romance introdutor do realismo no brasil “memórias póstumas de brás cubas”, afinal, nestas três histórias os personagens – principais e secundários – preocupam-se com o que aparentam aos outros, movendo-se, em busca dessa obsessão, por vezes em caminhos contrários à essência que os constituía.
em “o enfermeiro”, por exemplo, o personagem principal, narrador, após a morte do homem rude de quem cuidava, felisberto, sofre um drama de consciência, intensificado pela herança do enfermo, e a culpa o atormenta, num primeiro instante, ao colocar em dúvida a possibilidade de ficar ou não com tal dinheiro, uma vez que: fora ele quem matara o velho, após uma briga corporal, porém as pessoas, não sabendo da causa mortis, elogiavam-no, por ter aguentado durante tanto tempo cuidar de alguém tão rabugento. já o personagem de “um homem célebre”, pestana, vive e morre frustrado, em função de que, sendo um compositor de polpas, nunca assim se satisfez. queria mais, seu maior desejo era criar obras clássicas. o destino lhe mostra que nascera para aquilo de que não gostava. morre bem com os homens e mal consigo mesmo.
e, continuando a reflexão sobre tal dualidade, vale mencionar dois poemas que, na poesia brasileira, alcançam o ponto alto do assunto: “mal secreto”, de raimundo correia, e “ante um cadáver”, de murilo mundes, sendo que o primeiro, poeta parnasiano, preocupado com o rigor formal do texto, escreve sobre o quanto a necessidade de ser socialmente aceito leva o indivíduo a agir de forma dissumulada:
“Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja a ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!”

enquanto o segundo, poeta modernista, mais afeito à liberdade formal, apresenta um olhar relacionando a aparência ao que há de inútil em nós, e a essência à solidão, afinal, é quando estamos sós que temos a oportunidade de sermos quem de fato somos:
“Quando abandonaremos a parte inútil decorativa do nosso ser ?
Quando nos aproximaremos com fervor da nossa essência,
Partindo nosso pobre pão com o Hóspede
Que está no céu e está próximo a nós?



Para que esperar a morte a fim de nos conhecermos...
É em vida que devemos nos apresentar a nós mesmos.
Ainda agora essas coroas, esses letreiros, essas flores
Impedem de se ver o morto na verdade.
Estendam numa prancha o homem nu definitivo
E o restituam enfim à sua prometida solidão.”

(poemas apresentados na íntegra, cada verso em uma linha, cada estrofe devidamente separada, para que o edu não tenha uma crise existencial).
e é nesse viés em que me encontro – há bastante tempo: de solidão, de estar e querer estar só cada vez mais, de quem foge do outro para tentar alcançar uma compreensão de si mesmo, sendo um modo de agir bastante kamikaze, sem dúvida, do qual não consigo livrar-me até hoje. e haja análise terapêutica para isso, para compreender esta dualidade tão cara a nós, humanos, afinal, uma vez isolados, portanto sinceros – de acordo com as obras e poemas citados – a falta do outro será bastante sentida por nós e, uma vez em contato com os demais, como manter tal essência, sendo que existe dentro de nós um bichinho (qual nome conferimos a ele? ego?), uma carência inata, um desejo de ser visto, falado e bem aceito. como viver, enfim?
apego-me, portanto, à literatura – à identificação com alguns escritos, à tentativa de escrever – da mesma forma que eu poderia abraçar-me à bebida, ou aos encontros sociais. no fundo, são apenas escolhas nossas, atreladas a renúncias. porque abraçar o mundo, ainda bem, não nos é possível.

ítalo puccini. 

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