domingo, 30 de novembro de 2014

mudei de apê, comprei uma tv

mudamos. eu e rafa e vitinho. eu saí do apartamento no qual morei por dois anos e tanto. ela e ele saíram da casa dos avós e bisavós, respectivamente, onde viviam até esta mudança. e agora nós três compramos a primeira televisão de nossas vidas, o que amplia o significado desta palavra: mudança.
de casa, de rotina, de hábitos. não somente o fato de passarmos a viver juntos – posso dizer que quase três anos morando sozinho fazem o indivíduo fincar raízes no quesito manias – como há uma outra novidade, a televisão própria, quase tão marcante quanto a casa própria. isto porque eu vivo sem a dita cuja desde que saí da aba da minha mãe, no começo de 2012, momento quando aluguei um apê e lá fiquei, sem qualquer televisor. e a rafa até tinha uma na casa dela, ainda daqueles modelos de tubo, pegando um ou dois canais, ou seja, servindo apenas para conectar o dvd.
então, há poucos meses, apê comprado, dentre as gostosas conversas sobre de que forma iríamos mobiliá-lo, o vitinho se antecipou: meu quarto vai ter vídeo-game e televisão. ai, ai, como sonham as crianças. foi preciso trazê-lo de volta a essa tal realidade, na qual há agora, sim, um vídeo-game e uma tv, mas na sala, no espaço central do lar, para que todos possam usufruir e compartilhar de momentos junto aos eletrônicos, seja individualmente ou em família.
(aliás, tá quase novela do manoel carlos essa croniqueta, eu sei).
e, fazendo jus a isto, é hora do clichê: em tudo na vida há dois lados, cabendo a cada um a escolha de qual caminho seguir. sendo assim, podemos lembrar do gabriel, o pensador e dos titãs, respectivamente: “a televisão existe pra manter você na frente / na frente da tv / que é pra te entreter / que é pra você não ver que / o programado é você” e “a televisão me deixou burro / muito burro demais”, e: batermos continência a esses versos ou ressignificarmos o modo de utilizar o aparelho televisor, fazendo dele um meio de interatividade tecnológica através da qual exerçamos efetivamente nosso poder de escolha.
pensando nisso, compramos uma smart tv e temos nos deliciado assistindo a algo no youtube ou no netflix, a dvd’s e blu-rays através do play station também, e, ainda, usufruindo dos canais de música da tv a cabo. logo, para nós, comprar uma tv está sendo também aprender que arbitrariedade e submissão não se apresentam mais como sinônimos de tal aparato tecnológico.
e, por fim, será a mim uma oportunidade de pensar em novas respostas às insistentes perguntas dos alunos: professor, assistiu ao jornal/novela/jogo/debate/programa ontem? isto porque, sempre que perguntado sobre algo relacionado à tv, eu respondia: não tenho televisão. e era uma das respostas mais legais – também porque sinceras – de dirigir a alguém, levando-se em conta não somente a quebra de expectativa relacionada a ela, como o susto inibidor despertado no interlocutor. ainda, responder aquilo era como declamar um poema, assim, inesperadamente, em meio a várias pessoas: nada fazia sentido a quem escutasse, e eu sou muito apegado ao que não faz sentido:

- professor, assistiu ao debate ontem?
- não tenho televisão.
- [espanto]
- [silêncio]
- [frase entrecruzada por gagueira e uma risada nervosa]: como assim não tem televisão?
- não tendo. não tenho.
- ah, para, tá me zoando, né?
- (silêncio)
- como tu vive, professor?
- (gargalhada)
- a gente faz uma vaquinha pra ti.

- risos.

ítalo puccini

terça-feira, 11 de novembro de 2014

tudo dói, caetano

faço nascer em mim um câncer,
instante no qual
ao outro não perdoo:
exímio rancoroso que sou. 

faço desse sentimento
um sinônimo da arrogância - 
momento em que estufo o peito
e empino o queixo

para mostrar
a inexistência, em mim, da dor:
mentira que alimento diariamente.

ítalo puccini



quarta-feira, 5 de novembro de 2014

sobre como, perante o outro, não somos quem somos enquanto sozinhos


em primeiro lugar, agradeço à crônica por existir, enquanto gênero textual, possibilitando a escritores com criatividade limitada a oportunidade de intitular o próprio texto de uma forma assim confusa.
em segundo lugar, o tema desta croniqueta: há uma temática bastante recorrente na literatura brasileira – e muito provavelmente na mundial também, mas, como não sou conhecedor desta, limito-me a falar daquela – que diz respeito a uma dualidade, talvez tornada clichê justamente devido à recorrência citada: aparência versus essência.
machado de assis, por exemplo, abordou-a em variados romances e contos. a citar, creio que valem os contos “o enfermeiro” e “um homem célebre”, além do romance introdutor do realismo no brasil “memórias póstumas de brás cubas”, afinal, nestas três histórias os personagens – principais e secundários – preocupam-se com o que aparentam aos outros, movendo-se, em busca dessa obsessão, por vezes em caminhos contrários à essência que os constituía.
em “o enfermeiro”, por exemplo, o personagem principal, narrador, após a morte do homem rude de quem cuidava, felisberto, sofre um drama de consciência, intensificado pela herança do enfermo, e a culpa o atormenta, num primeiro instante, ao colocar em dúvida a possibilidade de ficar ou não com tal dinheiro, uma vez que: fora ele quem matara o velho, após uma briga corporal, porém as pessoas, não sabendo da causa mortis, elogiavam-no, por ter aguentado durante tanto tempo cuidar de alguém tão rabugento. já o personagem de “um homem célebre”, pestana, vive e morre frustrado, em função de que, sendo um compositor de polpas, nunca assim se satisfez. queria mais, seu maior desejo era criar obras clássicas. o destino lhe mostra que nascera para aquilo de que não gostava. morre bem com os homens e mal consigo mesmo.
e, continuando a reflexão sobre tal dualidade, vale mencionar dois poemas que, na poesia brasileira, alcançam o ponto alto do assunto: “mal secreto”, de raimundo correia, e “ante um cadáver”, de murilo mundes, sendo que o primeiro, poeta parnasiano, preocupado com o rigor formal do texto, escreve sobre o quanto a necessidade de ser socialmente aceito leva o indivíduo a agir de forma dissumulada:
“Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja a ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!”

enquanto o segundo, poeta modernista, mais afeito à liberdade formal, apresenta um olhar relacionando a aparência ao que há de inútil em nós, e a essência à solidão, afinal, é quando estamos sós que temos a oportunidade de sermos quem de fato somos:
“Quando abandonaremos a parte inútil decorativa do nosso ser ?
Quando nos aproximaremos com fervor da nossa essência,
Partindo nosso pobre pão com o Hóspede
Que está no céu e está próximo a nós?



Para que esperar a morte a fim de nos conhecermos...
É em vida que devemos nos apresentar a nós mesmos.
Ainda agora essas coroas, esses letreiros, essas flores
Impedem de se ver o morto na verdade.
Estendam numa prancha o homem nu definitivo
E o restituam enfim à sua prometida solidão.”

(poemas apresentados na íntegra, cada verso em uma linha, cada estrofe devidamente separada, para que o edu não tenha uma crise existencial).
e é nesse viés em que me encontro – há bastante tempo: de solidão, de estar e querer estar só cada vez mais, de quem foge do outro para tentar alcançar uma compreensão de si mesmo, sendo um modo de agir bastante kamikaze, sem dúvida, do qual não consigo livrar-me até hoje. e haja análise terapêutica para isso, para compreender esta dualidade tão cara a nós, humanos, afinal, uma vez isolados, portanto sinceros – de acordo com as obras e poemas citados – a falta do outro será bastante sentida por nós e, uma vez em contato com os demais, como manter tal essência, sendo que existe dentro de nós um bichinho (qual nome conferimos a ele? ego?), uma carência inata, um desejo de ser visto, falado e bem aceito. como viver, enfim?
apego-me, portanto, à literatura – à identificação com alguns escritos, à tentativa de escrever – da mesma forma que eu poderia abraçar-me à bebida, ou aos encontros sociais. no fundo, são apenas escolhas nossas, atreladas a renúncias. porque abraçar o mundo, ainda bem, não nos é possível.

ítalo puccini.