segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

lugar de ler é no bar


antes que se levante a falsa ideia, talvez sugerida pelo título, de que esta croniqueta é uma apologia à romantizada junção entre literatura e boemia, esclareço que a conversa seguirá por outro viés, devido, entre alguns fatores que agora desconheço, ao meu comportamento pacato em ambientes públicos, como se poderá observar a seguir.
sempre gostei da ideia de que lugares como bar e restaurante são também excelentes oportunidades de leitura – e faço uso deste advérbio “também” porque esta ideia não exclui nenhuma outra: em bares e restaurantes a gente come, bebe e joga muita conversa fora, flerta ou pensa na vida, assim como, é possível sentar-se e ler um livro, ou até fazer palavras cruzadas.
é meu lema, é minha prática, digamos assim, uma vez que acompanhando a rafa nos toques porraí, eu intercalo momentos de pura admiração diante daquela maravilha de rosto e de voz (viva a rasgação de seda pela namorada!) com muitas horas de leitura, e daí advém meu sentimento de realização e minha defesa pela opinião apresentada já no título.
dessa forma, passei a prestar mais atenção às músicas lindamente cantadas por ela, porque desde que me tornei leitor de livros, na prática, lá pelos idos da adolescência (como se eu tivesse passado por essa fase há muito tempo mesmo), tenho o costume de, simultaneamente, ler e ouvir música, sem que uma ação atrapalhe a outra.
então, entre um poema e um conto, ou entre uma palavra cruzada, uma crônica ou um capítulo de romance, atento-me a versos outrora conhecidos porém não internalizados ou simplesmente a canções que eu desconhecia por completo, como por exemplo aquele samba triste que assim começa: meu moreno fez bobagem. é de assis valente, e me ganha pelo primeiro verso, como se aquela voz estivesse convidando-me a ouvir a continuação do seu sofrimento: maltratou meu pobre coração / aproveitou a minha ausência / e botou mulher sambando no meu barracão.
que tristeza. que só se acentua: quando eu penso que outra mulher / requebrou pro meu moreno ver / nem dá jeito de cantar / dá vontade de chorar / e de morrer. e nem mesmo o final da música, em que a mulher diz que por causa dele dançou rumba e fox-trote pra inglês ver, atenua tal sofrimento. foxtrote, aliás, que foi ritmo musical por mim conhecido através do repertório cantado pela rafa, uma vez que é expressão presente em sambas assim antigos.
tal qual a expressão pão com banana, título de um samba de 1939, cuja autoria é de cícero nunes e portelo júnior, um descontraído olhar para a fome: lá em casa dona cris está segura / faz uma semana que ninguém pega gordura / pão com banana é a nossa refeição / néris de arroz / nerusca de feijão / quando não há grana pra banana / a gente come sanduíche / de pão com pão / um pão francês e um alemão. (...) / o açougueiro nem os ossos ele manda / já não há mais conversa para o dono da quitanda / o salomão, turco da prestação / já jurou pra deus /que não fia mais tostão // se eu não arranjar colocação lá em casa todo mundo vai morrer de inanição / se não morrer de indigestão.
sem contar, por fim, os sambas de noel rosa, este o maior sambista-cronista, ou o contrário. são músicas como, por exemplo, conversa de botequim, cujas letras parecem crônicas, de tão cotidianas, daí também que não me incomodam durante a leitura dos livros, afinal de contas, o ato de ler vai além da palavra escrita, imbricando-se às palavras cantadas e aos acordes de um violão sete cordas.

ítalo.  

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