sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

eu quero, joão nogueira,

        um canto pra anunciar o dia. afinal, ninguém faz samba só porque prefere, e melhor é viver cantando as coisas do coração. o poeta, na verdade, deixa-se levar por uma magia, de onde o verso vem vindo e vem vindo uma melodia, esta que o povo começa a cantar. samba que samba no bole que bole.
       o nome a obra imortaliza.
       um canto pra amenizar a noite. a brisa trazendo a música, que na vida é sempre a luz mais forte. com o seu agradecimento ao wilson, geraldo e noel, uma brisa e uma luz que chegam de repente, com a rapidez de uma estrela cadente, acendendo a mente e o coração, ajudando o mundo a viver em paz. ai, se não fosse o violão.
       uma súplica: que vontade de tocar viola de verdade.
       um canto também contra a tirania. nó na madeira, lenha na fogueira que já vai pegar. a vida é mesmo uma missão, correr da polícia tem que ter coragem: malandro que dorme vai cedo pro céu. o corpo a morte leva. um dia de tristeza, quando falta o velho, e com ele a lembrança do dia em que um chute errado numa bola machucou o dedo.
      um canto para aliviar o pranto. de quem já tanto sofreu. e agora, drummond?, pergunta você, caro joão. que será de josé? se você voltasse, se você escrevesse. se josé pudesse ver a sua face. mas drummond foi mesmo embora, que tristeza, então. e agora, drummond? quem sabe, andar e pilotar um pássaro de aço.
     continuação do poder da criação é você, joão nogueira, você que é madeira. momento em que força nenhuma no mundo interfere, caro mensageiro da música. uma vida ao cantar, um canto para viver. de quem vai assim crescendo e se criando sozinho. ora um bambambam da esquina, ora um poeta de boca beijada pelo verso.
não tema o espelho se quebrar, afinal, olhando seu filho você vê que ele é o espelho do espelho que é você. pois quando o espelho é bom ninguém jamais morreu. todos temos qualquer coisa repetida, um pedaço de quem nos concebeu. a sabiá que nos diga, não é mesmo? que falta faz sua alegria.

ítalo. 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

mini croniqueta (ou: um causo de família)

minha tia me pediu o grande sertão veredas emprestado, imaginando que eu o tivesse. não o tenho, mas tá. aí eu disse a ela que era uma obra dificílima de ser lida, algo que, para minha surpresa, ela não sabia. o desejo dela em ler o livro se deve ao fato de ter ouvido, nos últimos dias, muitas pessoas falando do livro e do autor. então, eu sugeri a ela que começasse pelos contos do "primeiras estórias", para familiarizar-se com a linguagem do bicho, o rosa, ao que ela me respondeu: - eu já tenho mais de cinquenta anos, né, ítalo.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

um poema de hilda, um de drummond, um de maneca: tornando-me leitor

há poemas de que eu gosto eu:
1) não sou capaz de explicar esse gostar,
2) não sou capaz de entendê-los.
e ainda’ssim gosto.
como explicar?


por exemplo este da hilst, a hilda:
“Águas. Onde só os tigres mitigam a sua sede.
Também eu em ti, feroz, encantoada
Atravessei as cercaduras raras
E me fiz máscara, mulher e conjetura.
Águas que não bebi. Crepusculares. Cavas.
Códigos que decifrei e onde me vi mil vezes
Inconexa, parca. Ah, toma-me de novo
Antiquíssima, nova. Como se fosses o tigre
A beber daquelas águas.”

parece-me que há uma profundidade maravilhosa aí, não alcançada por mim, talvez devido ao fato de eu não conseguir respirar lá tão embaixo. metáfora pobre, eu sei. porém sincera, no sentido de que sinto no poema uma escrita a ser admirada, uma verve (palavra estranha) poética que eu, enquanto leitor, ainda não internalizo, quiçá sinto.
talvez faltam-me leituras para isto, algo elementar, uma vez que nossa caminhada como leitores depende de uma coragem para encarar textos novos, difíceis, estranhamente estranhos para aquele nosso momento.
há dez anos, eu lia Drummond na escola e não compreendia como aquilo era considerado boa literatura, algo que me permite, agora sendo professor, entender a revolta de meus alunos diante dos mesmos textos que outrora eu abominava. e hoje eu leio um poema como “a flor e a náusea” e me deleito com tamanha sensibilidade crítica de um poeta cujo desejo era vomitar, através da palavra – ou de uma flor – o enjoo da época vivida, um tempo de fezes e de surdez:


“Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belo, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”

eu hoje sinto essa flor a cada vez que leio este poema. e sinto-a sempre de uma maneira diferente, uma vez que sou um leitor diferente a cada leitura feita.
outro exemplo: a metalinguagem do maneca, o manoel de barros, no “matéria de poesia” não me era compreensível nos primeiros anos da faculdade e, de tanto lê-lo, é-me um poema/livros que, de tão internalizado em mim, com frequência envolvo-o em minhas aulas de literatura e de redação, tentando fazer com que um chevrolet gosmento grude nos meus alunos:


“Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para a poesia

O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia

Terreno de 10×20, sujo de mato – os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia

Um chevrolet gosmento
Coleção de besouros abstêmios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia

As coisas que não levam a nada
têm grande importância

Cada coisa ordinária é um elemento de estima

Cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral

O que se encontra em ninho de joão-ferreira:
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia

As coisas que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia

As coisas que os líquenes comem
- sapatos, adjetivos –
têm muita importância para os pulmões
da poesia

Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia

Os loucos de água e estandarte
servem demais
O traste é ótimo
O pobre-diabo é colosso

Tudo que explique
o alicate cremoso
e o lodo das estrelas
serve demais da conta
Pessoas desimportantes
dão para poesia
qualquer pessoa ou escada

Tudo que explique
a lagartixa de esteira
e a laminação de sabiás
é muito importante para a poesia

O que é bom para o lixo é bom para poesia

Importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
sabe a destroços

As coisas jogadas fora
têm grande importância
- como um homem jogado fora
Aliás, é também objeto de poesia saber
qual o período médio que um homem jogado fora
pode permanecer na Terra
sem nascerem em sua boca
as raízes da escória

As coisas sem importância
são bens de poesia
pois é assim
que um chevrolet gosmento
chega ao poema
e as andorinhas de junho.”

voltando à hilda, li o livro “do desejo” (editora globo) sem sublinhar nenhum verso, sem rabiscar palavra alguma nas laterais das páginas, não compreendendo a maioria dos poemas. e não há desespero em mim, muito menos a triste ideia de tempo perdido. há, sim, este olhar reflexivo que fez brotar esta croniqueta (escrita enquanto a rafa canta, aqui no bar – faz favor, leitor, vai lá e lê a croniqueta anterior).

sendo assim, hilda, eu volto a ti daqui uns anos – no que diz respeito à tua poesia, pois nas crônicas nos entendemos muito bem, entre cascos e carícias (inclusive, esta é uma croniqueta inspirada pelas tuas, ou seja, repleta de versos e poemas) – com tantos livros a mais na minha bagagem leitora. tu me esperarás, eu sei. e o papo será muito bom.

ítalo. 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

lugar de ler é no bar


antes que se levante a falsa ideia, talvez sugerida pelo título, de que esta croniqueta é uma apologia à romantizada junção entre literatura e boemia, esclareço que a conversa seguirá por outro viés, devido, entre alguns fatores que agora desconheço, ao meu comportamento pacato em ambientes públicos, como se poderá observar a seguir.
sempre gostei da ideia de que lugares como bar e restaurante são também excelentes oportunidades de leitura – e faço uso deste advérbio “também” porque esta ideia não exclui nenhuma outra: em bares e restaurantes a gente come, bebe e joga muita conversa fora, flerta ou pensa na vida, assim como, é possível sentar-se e ler um livro, ou até fazer palavras cruzadas.
é meu lema, é minha prática, digamos assim, uma vez que acompanhando a rafa nos toques porraí, eu intercalo momentos de pura admiração diante daquela maravilha de rosto e de voz (viva a rasgação de seda pela namorada!) com muitas horas de leitura, e daí advém meu sentimento de realização e minha defesa pela opinião apresentada já no título.
dessa forma, passei a prestar mais atenção às músicas lindamente cantadas por ela, porque desde que me tornei leitor de livros, na prática, lá pelos idos da adolescência (como se eu tivesse passado por essa fase há muito tempo mesmo), tenho o costume de, simultaneamente, ler e ouvir música, sem que uma ação atrapalhe a outra.
então, entre um poema e um conto, ou entre uma palavra cruzada, uma crônica ou um capítulo de romance, atento-me a versos outrora conhecidos porém não internalizados ou simplesmente a canções que eu desconhecia por completo, como por exemplo aquele samba triste que assim começa: meu moreno fez bobagem. é de assis valente, e me ganha pelo primeiro verso, como se aquela voz estivesse convidando-me a ouvir a continuação do seu sofrimento: maltratou meu pobre coração / aproveitou a minha ausência / e botou mulher sambando no meu barracão.
que tristeza. que só se acentua: quando eu penso que outra mulher / requebrou pro meu moreno ver / nem dá jeito de cantar / dá vontade de chorar / e de morrer. e nem mesmo o final da música, em que a mulher diz que por causa dele dançou rumba e fox-trote pra inglês ver, atenua tal sofrimento. foxtrote, aliás, que foi ritmo musical por mim conhecido através do repertório cantado pela rafa, uma vez que é expressão presente em sambas assim antigos.
tal qual a expressão pão com banana, título de um samba de 1939, cuja autoria é de cícero nunes e portelo júnior, um descontraído olhar para a fome: lá em casa dona cris está segura / faz uma semana que ninguém pega gordura / pão com banana é a nossa refeição / néris de arroz / nerusca de feijão / quando não há grana pra banana / a gente come sanduíche / de pão com pão / um pão francês e um alemão. (...) / o açougueiro nem os ossos ele manda / já não há mais conversa para o dono da quitanda / o salomão, turco da prestação / já jurou pra deus /que não fia mais tostão // se eu não arranjar colocação lá em casa todo mundo vai morrer de inanição / se não morrer de indigestão.
sem contar, por fim, os sambas de noel rosa, este o maior sambista-cronista, ou o contrário. são músicas como, por exemplo, conversa de botequim, cujas letras parecem crônicas, de tão cotidianas, daí também que não me incomodam durante a leitura dos livros, afinal de contas, o ato de ler vai além da palavra escrita, imbricando-se às palavras cantadas e aos acordes de um violão sete cordas.

ítalo.  

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

eu, vitor ramil, o louco de cara

que pintei de verde a grama em dia claro. que archei ar parlarvrar virdar. crarvardar nar tuar carar. eu, que ando comigo mesmo pelo planeta, deixo em gelo fino meus sinais. que ninguém me eleja como guia. adiós, goodbye.
vamos sumir? vem, nada nos prende, ombro no ombro. sem idade, sem nome, apenas com nossa juventude, o que, sabemos, não é nada mal. vem comigo caminhar os sapatos em copacabana, atrás de livro algum pra lermos no fim de semana. vem. as imagens descem como folhas no chão da sala. são pequenas folhas, folhas de pura prata.
não importa que deus jogue pesadas moedas do céu ou vire sacolas de lixo, que os chineses e os negros lotem navios e decorem canções, que os vikins queimem as fábricas do cone sul: pega carona no carro que vem. e vem. mesmo que você deseje a cura com lacan, que procure os serviços de um xamã. você pode ser um pregador, chutar os santos do altar, você pode ter um bom discurso, você pode nem saber falar. vem.
na luz do dia, todas as coisas vão me perder. perco-me em uma canção: ares de milonga que me carregam por aí. pássaro tão só num fio de luz. eu me pareço com ele. eu canto pra me consumir.
é fogo. deixa o fogo todo queimar. afinal, é cedo. e não é céu sobre nós. é quarto de não dormir, é sala de não estar. porta de não abrir, pátio de sufocar. se mais nada existir, mesmo o que sempre chamamos real, e isso pra ti for tão claro que nem percebas, é sinal que valeu. e mais que tudo foi no mês que vem.
eu, o louco do chapéu azul, pela grama verde quero te ver passar. vem.
porque um dia você vai servir a alguém. você pode ser rei no país do futebol, pode ser viciado em bingo e nunca ver a luz do sol, você pode ser um mago e vender livros de montão, pode ser uma socialite, enriquecer vendendo pão, mas um dia vai servir a alguém. seja ao diabo, ou seja a deus, um dia você vai servir a alguém, seja sendo um incendiário a fazer um índio arder, seja sendo o índio vendo a chama acender.
eu, plantado no alto em mim, contemplo a ilusão da casa. sentindo hoje em satolep o que há muito não sentia. onde eu fico só com a minha voz. imortal, como meu poema e meu cavalo. com os livros no quintal, rezando pra chover.
eu sei. o tempo é meu lugar. o tempo é minha casa. e a casa é onde quero estar. eu sei. o rosto se perdeu, o gesto se desfez, pelo que já não sei. o amor é simples, fácil dizer. as estrelas se apagaram. elas que, mesmo tão só, nunca sofrem. brilham quase sem querer, deixam-se ser o que são. vãos e vens como um lampião, ao vento frio de um lugar qualquer. estrela, estrela, é bom saber que és parte de mim, assim como és parte das manhãs. tão bom quanto poder gozar da paz que trazes aqui.

eu canto, eu canto. e sei. a arte me ensinou a ter minha voz. o ronco da queda d’água me chama de louco e nadando em águas profundas revelo poemas aos peixes. esse silêncio transparente é a casa das canções.

ítalo.