quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

um convite, milton




um convite a um abraço apertado de quem tá chegando, a um aconchego. uma sensação de companhia, de ti que és do ouro, do mundo, das minas gerais. é o que tuas músicas me trazem. é o que sinto quando tu mandas notícias do mundo de lá, dos que ficam e dos que chegam. dos que a lembrança que o outro cantou faz viver. não à toa teu cantar diz que amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito, mesmo que o tempo e a distância digam não. mesmo que isso soe clichê, tal como nomear uma canção de maria, maria. tal como ter força, ter raça, ter gana sempre, misturar a dor e a alegria.

um convite, milton, sem medo, sem timidez, a entoar um lá lá lá lerererê lerererê lá lá lá lerererê lerererê. várias vozes comungando de um momento único, quase que um mantra. a espalhar-se por janelas laterais, por quartos de dormir. de onde vemos o que nossas vistas alcançam, que podem ser, sim, muros brancos ou voos de pássaros, cores mórbidas ou homens sórdidos. sempre há quem não queira acreditar, e nós sabemos o quanto isso é tão normal. fé cega, faca amolada.

nós, caçadores de nós mesmos, cada um a sua maneira. presos a canções como as suas, entregues a paixões sem um fim. afinal, não há nada a fazer senão esquecer o medo, não é mesmo? valendo a pena qualquer maneira de amar. quem sabe isso queira dizer amor, estrada de fazer o sonho acontecer, uma vez que todos queremos descobrir o que nos faz sentir, dentro de nossos corações de estudantes. porém, se um dia alcançarmos tal compreensão, quem sabe percamos a noção de viver. talvez essa eterna busca seja a nós necessária.

longe se vai, sonhando demais, não nos esqueçamos. todo dia é dia de viver.  

e há que se cuidar do broto, milton. para que a vida nos dê flor e fruto e amizades. para que momentos não sejam podados de ninguém. e o convite deve partir de nós também. o convite a aceitar o outro como o outro é, seja menino, seja moleque, seja adulto. que sejamos nós a estendermos a mão ao outro. porque se chamavam homens também se chamavam sonhos. e sonhos não envelhecem. assim como a alma vai além de tudo que o nosso mundo ousa perceber.

quisera eu também, milton, encontrar aquele verso menino, escrito tantos anos atrás. lapidar minha procura toda. até mesmo porque qual a palavra que nunca foi dita? diga. da mesma forma que todos temos passado em nosso presente. temos a lembrança de quem éramos. de quem somos. de nossas bolas de meia, de nossas bolas de gude.  assim, amanhã, de fato, nada será como antes. estando nós com o pé na estrada ou não. o importante é que estejamos com o pé na profissão, não levando em conta quem paga para nos ouvir. é como aquele verso: abelha fazendo o mel vale o tempo que não voou.

todo artista tem de ir aonde o povo está. tudo o que move é sagrado.

afinal, a hora do encontro é também despedida. como quem solta a voz nas estradas e já não quer parar.

ítalo puccini