segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

o amor é hiperquântico,

calcanhotto.
sim senhora.
aquele plano para esquecer alguém, não é mesmo? esqueçamos. a uma hora dessas, por onde vagará nossos pensamentos? esqueçamos até nos esquecermos de que gostaríamos de esquecer dela, ou dele, ou de ambos. e, ainda, após o esquecimento vem o remorso – que é deles – quando se percebe que encontramos alguém que só pensa em nos beijar, a nós, adriana, a mim e a você, somente beijos e alguém que só pensa em nos querer. ao outro? que se ajoelhe. iremos fazer falta, numa dada hora. onde? longe, leme, luanda. ou na nossa cama.
e pode ser então que seja tarde demais. vai saber.
ainda, pensam que sabem mentir os homens e mulheres que amamos. humpf. ainda há o perfume deles pela sala, o cheiro dentro dos livros. eles acreditam que nos enganamos. no mais, deixamos de ser quem éramos quando fomos deixados. agora, vamos à lapa decotados, viramos todas, beijamos bem. pouco nos importa que a nova namorada seja linda, versátil e hábil com a língua: ela não samba. ela não quebra. ela não balança. ela não judia. isso mostra que às vezes o acaso pode estar num bom dia para nós e emaranhar por capricho tempo e espaço.
sejamos simbolistas, adriana: sendas de grutas ignotas. só quando sabemos os nomes mais secretos, quando penetramos noites escuras, cavando e extraindo estrelas nuas. e a montanha insiste em ficar lá: parada. em volta de um assunto, uma lente. o paramgolé pamplona a gente mesmo faz, uma canção por acaso. é só dançar, é só deixar a cor tomar conta do ar. cobalto, no alto o azul marinho. branco no branco no preto nu:
vamos comer caetano, adriana?
sendo salgado, gelado ou azul, será só linguagem: passagem de átomo à paisagem. vestidos de advogado, de garçom, de jogador, seríamos tudo isso. de dia fiel escravo, à noite seu predador. a vida voa, baixinho. de bandeja nós daríamos a eles ou a elas, se a nosso alcance estivessem: o lance da alegria, o presente desse instante. faríamos o chá, lavaríamos a louça. eles ainda dizem não lembrar do que não sabemos esquecer, porém, sabemos o quanto o amor gosta muito de mudar.
banquete-ê-mo-nos. abram seus poros e papilas e pupilas. uma música sem som. uma fábrica do poema. sonhamos o poema de arquitetura ideal. metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros, sumidos no sorvedouro. não deve adiantar grande coisa permanecer à espreita, não é? lá mesmo nos esquecemos de que o destino sempre nos quis só. porque agora, justo agora, logo agora, perguntaram por nós, adriana. então, eis aqui chocolate, gato, chão, espelho, luz, calção, tudo no seu lugar, para quando eles chegarem.
degluti-lo, mastigá-lo, vamos lamber a língua. fizemos sambas, demos carinhos, as fantasias despimos, devagarinho. agora, está na nossa hora, momento em que não moramos mais em nós. deixemos a geladeira cheia e sem promessas, isso. findo o carnaval, estamos de volta. afinal, o amor eterno vai até a quarta-feira. 
já reparô?

ítalo puccini.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

tou com sintomas de saudade, marisa monte

e no meio de tanta gente eu encontrei você – tanta gente chata, sem nenhuma graça. você veio. agora, deixa eu dizer que te amo. deixa eu pensar em você. isso me ajuda a viver. como em um vilarejo, ali, onde areja um vento bom, pra acalmar o coração, afinal, lá o mundo tem razão e há um verdadeiro amor, para quando você for. você que descobriu o mundo e soube vê-lo de um ângulo mais bonito. você que conhece a índia e o japão, despreocupa-se e pensa no essencial.
eu era tão feliz e não sabia, amor.
há tempos tento encontrar um bom momento, alguma ocasião propícia para que eu possa pegar sua mão, olhar nos olhos, encontrar com você em seu infinito particular. quem foi que me deixou no limite do amor? você. só ao seu lado seu telhado me faz feliz de novo. e eu desejo saber o quanto amar alguém só pode fazer bem – embora soma cause divisão, amar alguém só pode fazer bem, eu desejo saber.
no meio do fio, na corda bamba, é o amor.
tarde, já de manhã cedinho, e eu pensando em passar pela vida com você. todo mundo tem um canto de tristeza, marisa. porém, nada vai permanecer no estado em que está. coisas vão se transformar, para desaparecer. geleiras vão derreter, estrelas vão se apagar. então, o que me importa seu carinho agora, se é muito tarde para amar você? depois de sonhar tantos anos, de fazer tantos planos de um futuro pra nós? em vão. tu viraste-me as costas. mas um dia eu vou estar à toa e você vai estar na mira. um dia eu vou estar contigo e você vai estar na minha. eu sei, eu sei. eu sei, meu bem.
até parece que não lembra, que não sabe o que passou, não é mesmo?
eu ainda lembro o que passou. em você, em qualquer lugar. novo dia, sigo pensando. olha pra mim. beija eu, rompe com a gramática e molha eu, seca eu, deixa que eu seja seu. e se será, será. também, que atire a primeira pedra quem não sofreu, quem não morreu por amor: todo corpo que tem um deserto, tem um olho de água por perto. de quem lava os cabelos com shampoos diferentes. deixa o amanhã dizer.
com esta carta de amor que o professor me ensinou, a sede de ti prossegue. toda vez que eu saio, preparo-me para talvez te ver. eu só queria que você soubesse que estive pensando em você, que você leia esse texto e saiba que eu te adoro e te quero sempre mais. e te quero livre também. pra ser sincero, meu remédio é te amar, te amar. pois não adianta, sem amor a vida não traz felicidade. só traz saudade de você.
dentro de cada pessoa tem um cantinho escondido, decorado de saudade. no meu, apagaram tudo, pintaram tudo de cinza.
eu não sinto bucolismo. eu me sinto tomás antônio gonzaga ultrarromântico escrevendo à sua marília. preso numa masmorra. o meu canário já não canta, com certeza se desgostou. o silêncio é uma tortura, alguma coisa se perdeu. você já não me olha como antes com ternura, só falta me dizer adeus. sendo assim, vou fazer minha dor dançar, porque sei o que eu quero saber, de verdade. afinal, se você me deixou, a dor é minha, não é de mais ninguém. a dor é de quem tem. descalço no parque, sozinho eu estou, a esperar por você, meu amor. afinal, só porque disse que não me quer, não quer dizer que não vá querer.

eis o melhor e o pior de mim.

ítalo puccini. 

domingo, 30 de novembro de 2014

mudei de apê, comprei uma tv

mudamos. eu e rafa e vitinho. eu saí do apartamento no qual morei por dois anos e tanto. ela e ele saíram da casa dos avós e bisavós, respectivamente, onde viviam até esta mudança. e agora nós três compramos a primeira televisão de nossas vidas, o que amplia o significado desta palavra: mudança.
de casa, de rotina, de hábitos. não somente o fato de passarmos a viver juntos – posso dizer que quase três anos morando sozinho fazem o indivíduo fincar raízes no quesito manias – como há uma outra novidade, a televisão própria, quase tão marcante quanto a casa própria. isto porque eu vivo sem a dita cuja desde que saí da aba da minha mãe, no começo de 2012, momento quando aluguei um apê e lá fiquei, sem qualquer televisor. e a rafa até tinha uma na casa dela, ainda daqueles modelos de tubo, pegando um ou dois canais, ou seja, servindo apenas para conectar o dvd.
então, há poucos meses, apê comprado, dentre as gostosas conversas sobre de que forma iríamos mobiliá-lo, o vitinho se antecipou: meu quarto vai ter vídeo-game e televisão. ai, ai, como sonham as crianças. foi preciso trazê-lo de volta a essa tal realidade, na qual há agora, sim, um vídeo-game e uma tv, mas na sala, no espaço central do lar, para que todos possam usufruir e compartilhar de momentos junto aos eletrônicos, seja individualmente ou em família.
(aliás, tá quase novela do manoel carlos essa croniqueta, eu sei).
e, fazendo jus a isto, é hora do clichê: em tudo na vida há dois lados, cabendo a cada um a escolha de qual caminho seguir. sendo assim, podemos lembrar do gabriel, o pensador e dos titãs, respectivamente: “a televisão existe pra manter você na frente / na frente da tv / que é pra te entreter / que é pra você não ver que / o programado é você” e “a televisão me deixou burro / muito burro demais”, e: batermos continência a esses versos ou ressignificarmos o modo de utilizar o aparelho televisor, fazendo dele um meio de interatividade tecnológica através da qual exerçamos efetivamente nosso poder de escolha.
pensando nisso, compramos uma smart tv e temos nos deliciado assistindo a algo no youtube ou no netflix, a dvd’s e blu-rays através do play station também, e, ainda, usufruindo dos canais de música da tv a cabo. logo, para nós, comprar uma tv está sendo também aprender que arbitrariedade e submissão não se apresentam mais como sinônimos de tal aparato tecnológico.
e, por fim, será a mim uma oportunidade de pensar em novas respostas às insistentes perguntas dos alunos: professor, assistiu ao jornal/novela/jogo/debate/programa ontem? isto porque, sempre que perguntado sobre algo relacionado à tv, eu respondia: não tenho televisão. e era uma das respostas mais legais – também porque sinceras – de dirigir a alguém, levando-se em conta não somente a quebra de expectativa relacionada a ela, como o susto inibidor despertado no interlocutor. ainda, responder aquilo era como declamar um poema, assim, inesperadamente, em meio a várias pessoas: nada fazia sentido a quem escutasse, e eu sou muito apegado ao que não faz sentido:

- professor, assistiu ao debate ontem?
- não tenho televisão.
- [espanto]
- [silêncio]
- [frase entrecruzada por gagueira e uma risada nervosa]: como assim não tem televisão?
- não tendo. não tenho.
- ah, para, tá me zoando, né?
- (silêncio)
- como tu vive, professor?
- (gargalhada)
- a gente faz uma vaquinha pra ti.

- risos.

ítalo puccini

terça-feira, 11 de novembro de 2014

tudo dói, caetano

faço nascer em mim um câncer,
instante no qual
ao outro não perdoo:
exímio rancoroso que sou. 

faço desse sentimento
um sinônimo da arrogância - 
momento em que estufo o peito
e empino o queixo

para mostrar
a inexistência, em mim, da dor:
mentira que alimento diariamente.

ítalo puccini



quarta-feira, 5 de novembro de 2014

sobre como, perante o outro, não somos quem somos enquanto sozinhos


em primeiro lugar, agradeço à crônica por existir, enquanto gênero textual, possibilitando a escritores com criatividade limitada a oportunidade de intitular o próprio texto de uma forma assim confusa.
em segundo lugar, o tema desta croniqueta: há uma temática bastante recorrente na literatura brasileira – e muito provavelmente na mundial também, mas, como não sou conhecedor desta, limito-me a falar daquela – que diz respeito a uma dualidade, talvez tornada clichê justamente devido à recorrência citada: aparência versus essência.
machado de assis, por exemplo, abordou-a em variados romances e contos. a citar, creio que valem os contos “o enfermeiro” e “um homem célebre”, além do romance introdutor do realismo no brasil “memórias póstumas de brás cubas”, afinal, nestas três histórias os personagens – principais e secundários – preocupam-se com o que aparentam aos outros, movendo-se, em busca dessa obsessão, por vezes em caminhos contrários à essência que os constituía.
em “o enfermeiro”, por exemplo, o personagem principal, narrador, após a morte do homem rude de quem cuidava, felisberto, sofre um drama de consciência, intensificado pela herança do enfermo, e a culpa o atormenta, num primeiro instante, ao colocar em dúvida a possibilidade de ficar ou não com tal dinheiro, uma vez que: fora ele quem matara o velho, após uma briga corporal, porém as pessoas, não sabendo da causa mortis, elogiavam-no, por ter aguentado durante tanto tempo cuidar de alguém tão rabugento. já o personagem de “um homem célebre”, pestana, vive e morre frustrado, em função de que, sendo um compositor de polpas, nunca assim se satisfez. queria mais, seu maior desejo era criar obras clássicas. o destino lhe mostra que nascera para aquilo de que não gostava. morre bem com os homens e mal consigo mesmo.
e, continuando a reflexão sobre tal dualidade, vale mencionar dois poemas que, na poesia brasileira, alcançam o ponto alto do assunto: “mal secreto”, de raimundo correia, e “ante um cadáver”, de murilo mundes, sendo que o primeiro, poeta parnasiano, preocupado com o rigor formal do texto, escreve sobre o quanto a necessidade de ser socialmente aceito leva o indivíduo a agir de forma dissumulada:
“Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja a ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!”

enquanto o segundo, poeta modernista, mais afeito à liberdade formal, apresenta um olhar relacionando a aparência ao que há de inútil em nós, e a essência à solidão, afinal, é quando estamos sós que temos a oportunidade de sermos quem de fato somos:
“Quando abandonaremos a parte inútil decorativa do nosso ser ?
Quando nos aproximaremos com fervor da nossa essência,
Partindo nosso pobre pão com o Hóspede
Que está no céu e está próximo a nós?



Para que esperar a morte a fim de nos conhecermos...
É em vida que devemos nos apresentar a nós mesmos.
Ainda agora essas coroas, esses letreiros, essas flores
Impedem de se ver o morto na verdade.
Estendam numa prancha o homem nu definitivo
E o restituam enfim à sua prometida solidão.”

(poemas apresentados na íntegra, cada verso em uma linha, cada estrofe devidamente separada, para que o edu não tenha uma crise existencial).
e é nesse viés em que me encontro – há bastante tempo: de solidão, de estar e querer estar só cada vez mais, de quem foge do outro para tentar alcançar uma compreensão de si mesmo, sendo um modo de agir bastante kamikaze, sem dúvida, do qual não consigo livrar-me até hoje. e haja análise terapêutica para isso, para compreender esta dualidade tão cara a nós, humanos, afinal, uma vez isolados, portanto sinceros – de acordo com as obras e poemas citados – a falta do outro será bastante sentida por nós e, uma vez em contato com os demais, como manter tal essência, sendo que existe dentro de nós um bichinho (qual nome conferimos a ele? ego?), uma carência inata, um desejo de ser visto, falado e bem aceito. como viver, enfim?
apego-me, portanto, à literatura – à identificação com alguns escritos, à tentativa de escrever – da mesma forma que eu poderia abraçar-me à bebida, ou aos encontros sociais. no fundo, são apenas escolhas nossas, atreladas a renúncias. porque abraçar o mundo, ainda bem, não nos é possível.

ítalo puccini. 

terça-feira, 18 de março de 2014

é preciso aprender a ser só

é preciso aprender a só ser. a andar com fé.
a ser em conjunto também, gil, por mais que no fundo o problema seja só da gente, seja só nosso. reagir é ouvir, o próprio coração e os outros, tão presentes nos tantões de recônditos alcançados pelos versos de tuas canções, nos múltiplos personagens sensivelmente apresentados. não nos incomodemos, afinal, o que a gente pode, pode. o que não pode, explodirá. simples. porque mistério sempre haverá de pintar porraí.
parece ser aquilo que deus deu, aquilo que deus dá. é o que toda menina baiana tem, os muitos que na testa têm o deus sol, os frevos rasgados que fazem dançar e pular, o rei da brincadeira, o que trabalhava na feira, o josé, o joão, o poeta que desfolha a bandeira. boneca de pano e sabugo de milho também são gente. a geleia geral brasileira, como um sinal de que a fé não costuma faiá, mesmo que não queiramos falar com deus.
deus sabe das nossas confissões.
a fé num pedaço de pão, em um cesto de alegrias de quintal. derramar o bálsamo, fazer o canto cantar o cantar, a escrita escrever o escrito. refazendo tudo. também acho que quanto mais purpurina, melhor. realce em nossas vidas, sim. realce. não é obrigado a escutar quem não nos quiser ouvir. o afeto é fogo, quem não dança não fala, assiste a tudo e se cala. água mole, pedra dura, tanto bate que não restará nem pensamento, afinal, tudo agora mesmo poderá estar por um segundo. ê, volta do mundo, camará.
com isso, perguntamo-nos, todos, até onde essa estrada do tempo vai dar, não é mesmo? estrada cujo trilho é feito de um brilho que não tem, que não tem fim. o lance é não se impacientar. o que a gente sente, sente. assim também, há de surgir uma estrela no céu, como rês desgarrada, depois de um recolhimento de abacateiro, aquele ato de recolher-se ao íntimo, de alcançar o que se desconhece dentro de si mesmo. o cérebro eletrônico é mudo, ele manda, mas não anda.  
é tanto de tudo pra gente saber: o que cantar, como andar, aonde ir. o que dizer, o que calar, a quem querer. é tantotudo que ficamos sem jeito. no fundo, no fundo, o problema é só nosso. é o coração dizer não quando a mente tenta levar-nos pra casa do sofrer. é pesado o sonho pra quem não sonha. afinal, a caretice está no medo. o medo está na medula. o segredo está na cura. do medo. quem tem cara tem medo. quem tem medo tem cura. se quiser.

o amor, gil, uma semente de ilusão em um mundo tão desigual. o amor, nascido por metáfora, nascido pra morrer, pra germinar, plantar nalgum lugar, ressuscitar no chão. dura caminhada. por isso mesmo é que haverá mais compaixão, assim esperamos, como a novidade que vem dar à praia, o máximo paradoxo estendido na areia: nós todos podemos pensar que deus existe, ou o contrário. nós todos podemos chorar quando tristes, ou até quando não. só não nos cabe exigir do poeta o conteúdo que vai em sua lata.

ítalo. 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

eu quero, joão nogueira,

        um canto pra anunciar o dia. afinal, ninguém faz samba só porque prefere, e melhor é viver cantando as coisas do coração. o poeta, na verdade, deixa-se levar por uma magia, de onde o verso vem vindo e vem vindo uma melodia, esta que o povo começa a cantar. samba que samba no bole que bole.
       o nome a obra imortaliza.
       um canto pra amenizar a noite. a brisa trazendo a música, que na vida é sempre a luz mais forte. com o seu agradecimento ao wilson, geraldo e noel, uma brisa e uma luz que chegam de repente, com a rapidez de uma estrela cadente, acendendo a mente e o coração, ajudando o mundo a viver em paz. ai, se não fosse o violão.
       uma súplica: que vontade de tocar viola de verdade.
       um canto também contra a tirania. nó na madeira, lenha na fogueira que já vai pegar. a vida é mesmo uma missão, correr da polícia tem que ter coragem: malandro que dorme vai cedo pro céu. o corpo a morte leva. um dia de tristeza, quando falta o velho, e com ele a lembrança do dia em que um chute errado numa bola machucou o dedo.
      um canto para aliviar o pranto. de quem já tanto sofreu. e agora, drummond?, pergunta você, caro joão. que será de josé? se você voltasse, se você escrevesse. se josé pudesse ver a sua face. mas drummond foi mesmo embora, que tristeza, então. e agora, drummond? quem sabe, andar e pilotar um pássaro de aço.
     continuação do poder da criação é você, joão nogueira, você que é madeira. momento em que força nenhuma no mundo interfere, caro mensageiro da música. uma vida ao cantar, um canto para viver. de quem vai assim crescendo e se criando sozinho. ora um bambambam da esquina, ora um poeta de boca beijada pelo verso.
não tema o espelho se quebrar, afinal, olhando seu filho você vê que ele é o espelho do espelho que é você. pois quando o espelho é bom ninguém jamais morreu. todos temos qualquer coisa repetida, um pedaço de quem nos concebeu. a sabiá que nos diga, não é mesmo? que falta faz sua alegria.

ítalo. 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

mini croniqueta (ou: um causo de família)

minha tia me pediu o grande sertão veredas emprestado, imaginando que eu o tivesse. não o tenho, mas tá. aí eu disse a ela que era uma obra dificílima de ser lida, algo que, para minha surpresa, ela não sabia. o desejo dela em ler o livro se deve ao fato de ter ouvido, nos últimos dias, muitas pessoas falando do livro e do autor. então, eu sugeri a ela que começasse pelos contos do "primeiras estórias", para familiarizar-se com a linguagem do bicho, o rosa, ao que ela me respondeu: - eu já tenho mais de cinquenta anos, né, ítalo.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

um poema de hilda, um de drummond, um de maneca: tornando-me leitor

há poemas de que eu gosto eu:
1) não sou capaz de explicar esse gostar,
2) não sou capaz de entendê-los.
e ainda’ssim gosto.
como explicar?


por exemplo este da hilst, a hilda:
“Águas. Onde só os tigres mitigam a sua sede.
Também eu em ti, feroz, encantoada
Atravessei as cercaduras raras
E me fiz máscara, mulher e conjetura.
Águas que não bebi. Crepusculares. Cavas.
Códigos que decifrei e onde me vi mil vezes
Inconexa, parca. Ah, toma-me de novo
Antiquíssima, nova. Como se fosses o tigre
A beber daquelas águas.”

parece-me que há uma profundidade maravilhosa aí, não alcançada por mim, talvez devido ao fato de eu não conseguir respirar lá tão embaixo. metáfora pobre, eu sei. porém sincera, no sentido de que sinto no poema uma escrita a ser admirada, uma verve (palavra estranha) poética que eu, enquanto leitor, ainda não internalizo, quiçá sinto.
talvez faltam-me leituras para isto, algo elementar, uma vez que nossa caminhada como leitores depende de uma coragem para encarar textos novos, difíceis, estranhamente estranhos para aquele nosso momento.
há dez anos, eu lia Drummond na escola e não compreendia como aquilo era considerado boa literatura, algo que me permite, agora sendo professor, entender a revolta de meus alunos diante dos mesmos textos que outrora eu abominava. e hoje eu leio um poema como “a flor e a náusea” e me deleito com tamanha sensibilidade crítica de um poeta cujo desejo era vomitar, através da palavra – ou de uma flor – o enjoo da época vivida, um tempo de fezes e de surdez:


“Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belo, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”

eu hoje sinto essa flor a cada vez que leio este poema. e sinto-a sempre de uma maneira diferente, uma vez que sou um leitor diferente a cada leitura feita.
outro exemplo: a metalinguagem do maneca, o manoel de barros, no “matéria de poesia” não me era compreensível nos primeiros anos da faculdade e, de tanto lê-lo, é-me um poema/livros que, de tão internalizado em mim, com frequência envolvo-o em minhas aulas de literatura e de redação, tentando fazer com que um chevrolet gosmento grude nos meus alunos:


“Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para a poesia

O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia

Terreno de 10×20, sujo de mato – os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia

Um chevrolet gosmento
Coleção de besouros abstêmios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia

As coisas que não levam a nada
têm grande importância

Cada coisa ordinária é um elemento de estima

Cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral

O que se encontra em ninho de joão-ferreira:
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia

As coisas que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia

As coisas que os líquenes comem
- sapatos, adjetivos –
têm muita importância para os pulmões
da poesia

Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia

Os loucos de água e estandarte
servem demais
O traste é ótimo
O pobre-diabo é colosso

Tudo que explique
o alicate cremoso
e o lodo das estrelas
serve demais da conta
Pessoas desimportantes
dão para poesia
qualquer pessoa ou escada

Tudo que explique
a lagartixa de esteira
e a laminação de sabiás
é muito importante para a poesia

O que é bom para o lixo é bom para poesia

Importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
sabe a destroços

As coisas jogadas fora
têm grande importância
- como um homem jogado fora
Aliás, é também objeto de poesia saber
qual o período médio que um homem jogado fora
pode permanecer na Terra
sem nascerem em sua boca
as raízes da escória

As coisas sem importância
são bens de poesia
pois é assim
que um chevrolet gosmento
chega ao poema
e as andorinhas de junho.”

voltando à hilda, li o livro “do desejo” (editora globo) sem sublinhar nenhum verso, sem rabiscar palavra alguma nas laterais das páginas, não compreendendo a maioria dos poemas. e não há desespero em mim, muito menos a triste ideia de tempo perdido. há, sim, este olhar reflexivo que fez brotar esta croniqueta (escrita enquanto a rafa canta, aqui no bar – faz favor, leitor, vai lá e lê a croniqueta anterior).

sendo assim, hilda, eu volto a ti daqui uns anos – no que diz respeito à tua poesia, pois nas crônicas nos entendemos muito bem, entre cascos e carícias (inclusive, esta é uma croniqueta inspirada pelas tuas, ou seja, repleta de versos e poemas) – com tantos livros a mais na minha bagagem leitora. tu me esperarás, eu sei. e o papo será muito bom.

ítalo.