terça-feira, 24 de dezembro de 2013

fazer poema lá na vila é um brinquedo

e ouvir tuas composições, noel, é tomar conhecimento de um dia-a-dia que um dia foi o rio de janeiro – cidade sensível, irresistível, cidade do amor, cidade mulher – ou, mais precisamente, a vila isabel, tão bem retratada por ti. a tal ponto, meu caro, que resolvi escrever-te uma croniqueta – palavra esta da qual me utilizo para referir-me a meus blábláblás cotidianos, que nem de perto alcançam a riqueza das expressões e dos relatos que tu apresentas em tuas músicas.
registro, então, desde o princípio, que esta será uma crônica-rasgação-de-seda.
e como ser diferente, diante disso: “são paulo dá café / minas dá leite / e a vila isabel dá samba”? é o viés que pega o ouvinte e o leitor no contrapé, que faz dançar os galhos do arvoredo, que faz a lua nascer mais cedo. são teus versos os que fazem isso ao cronicar assim em forma de samba, noel.
samba este que não se aprende no colégio, sabemos, cujas rimas não são ai love you. nem no teu tempo, nem no meu. e porrisso mesmo que tento vezemquando levar aos meus alunos algumas amostras musicais desse gênero tão brasileiro, pensando que talvez eles possam identificar-se com a batida ou com os escritos, que seja. se não pela possibilidade de sentir-se tocado pelos versos, ao menos apresentar-lhes uma composição assim rica: “o sol da vila é triste / samba não assiste / porque a gente implora / sol, pela mor de deus / não vem agora / que as morenas / vão logo embora”.
e ouvindo-te eu aprendi que a vila não quer abafar ninguém, e sim apenas mostrar que faz samba também e que é uma cidade independente, não disposta a tirar patente. é o tal feitiço que há na vila, não é mesmo? lugar onde o que não faltava era conversa de botequim e exigência de um bom atendimento por parte do garçom. aliás, qual foi o resultado do futebol porraí? também não sei vestir casaca, não sou um tipo zero do tipo que não tem tipo, que com todo tipo se parece.
e, tendo ou não cem mil réis, não há quem não cantarole o refrão de “com que roupa?” nos momentos, bastante frequentes, em que ficamos a matutar o que vestir. ah, você sabia o que dizia. ô, se sabia: “quanto a você da aristocracia / que tem dinheiro, mas não compra alegria / há de viver eternamente sendo escrava dessa gente / que cultiva hipocrisia”. machado de assis te aplaudiria, tenho certeza. inclusive, um dia eu gostei de uma vida boêmia. hoje, eu prefiro os amigos. afinal, onde está a honestidade? eis o xis do problema, tal qual estava lá naquela carta que você recebeu: “quem é da boemia / usa e abusa da diplomacia / mas não gosta de ninguém”.
permita-me, noel, para finalizar esta breve conversa, uma pergunta-cretina: paixão não te aniquila? olha que te vejo muito naquele gago apaixonado, hein? mas não vou insistir nesta vereda, não. com paixão não se brinca. é preciso um bocado de respeito pelo sentimento do outro, afinal, “um grande amor tem sempre um triste fim” e “quem suportar uma paixão / sentirá que o samba então / nasce do coração”, como um último desejo.
 
ítalo puccini.

Um comentário:

Jaciara da Silva disse...

Precisei ir para a Irlanda ouvir de uma venezuelana que um dia se apaixonara por um carioca e, consequentemente pelo samba, que a música “O Mundo é Um Moinho” foi feita para a filha de Cartola que certa vez havia escolhido a prostituição como partida. Eu, que já havia chorado tantas vezes ouvindo a canção, sorri por dentro e por fora, quase como alguém se se livra de um fardo.