quinta-feira, 3 de outubro de 2013

faz de conta que

 
“O escuro ainda chorava:
- Sou feio. Não há quem goste de mi.
- Mentira, você é lindo. Tanto como os outros.
- Então por que não figuro nem no arco-íris?
- Você figura no meu arco-íris.
- Os meninos têm medo de mim. Todos têm medo do escuro.
- Os meninos não sabem que o escuro só existe é dentro de nós.
- Não entendo, Dona Gata.
- Dentro de cada um há o seu escuro. E nesse escuro só mora quem lá inventamos. Agora me entende?
- Não estou claro, Dona Gata.
- Não é você que mete medo. Somos nós que enchemos o escuro com nossos medos”.
 
é incrível – e apaixonante – ler histórias para os alunos. se cada leitura feita individualmente já possibilita um estender de interpretações, ler para ser ouvido por variados olhares atentos representa desconhecer limites na criação de sentidos junto a um objeto simbólico.
“o gato e o escuro”, do moçambicano mia couto, é o livro que tou experimentando em sala de aula esta semana. e, a cada nova turma à qual apresento esta história, mais surpreendo-me com a profundidade proposta pelo texto e com o diálogo entre este e as imagens que compõem a obra. e esta surpresa me leva a um mergulho pra dentro de mim mesmo, dos meus medos, do meu escuro.
ler para os outros não é só dar a cara a tapa. é, também, parte do “conhece-te a ti mesmo”, proposto pelo meu amigo nietzsche. é um sair da zona de conforto à que a leitura-enquanto-ato-solitário está associada. e justamente ao nos permitirmos fazer de conta que “o pôr-do-sol fosse um muro” somos capazes de transpor a linha entre o claro o escuro, de encarar o que existe dentro de nós. só assim para reconhecer-se, aceitar-se e, quiçá, crescer enquanto ser humano.
 
ítalo.

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