segunda-feira, 7 de outubro de 2013

a escrita como reparação: até que ponto?

até que ponto a escrita dá conta de reparar algo? é o que tenho me perguntado desde que assisti novamente ao filme “Desejo e Reparação”, dirigido por joe wright, baseado no livro “Reparação”, do ian mcewan. e esta indagação se origina no que nos apresenta a narrativa: a escrita de uma história, por parte de uma das personagens, como forma de reparar um erro cometido por ela há muitos anos. então que eu refaço a pergunta: até que ponto a escrita dá conta de reparar, ou seja, consertar um erro? repara a ação já cometida? ou se transforma em uma obsessão? em portugal, por exemplo, o romance saiu intitulado “expiação”, que, de acordo com o dicionário, significa “ato ou efeito de expiar; reparação ou sofrimento pelo qual se expia uma culpa; castigo”. escrever expia o sentimento de culpa? para responder a isso, acredito que seja bom direcionar a questão, especificar este ato de reparar: a quem ele faz referência?


 
reparação
briony tallis, com 13 anos e uma mente muito criativa e imaginativa, acusa robbie, o filho de uma das empregadas que trabalhavam para a família tallis, de ter tentado violentar sexualmente lola, 15, prima de briony, em uma noite – esta que era muito especial, devido à visita do irmão das meninas, leon. tal acusação ocorre quando os primos gêmeos desaparecem durante o jantar e todos se dispersam pela grande propriedade onde reside a família para procurá-los. de fato lola estava sendo violentada, mas não por robbie. porém, briony resolve dizer a todos que tinha visto com seus próprios olhos que havia sido ele.
por que culpá-lo? ciúmes, talvez. egoísmo, como uma tentativa de tornar o dia de alguém tão insuportável quanto fora o seu, repleto de frustrações: uma peça teatral, escrita por ela – para recepcionar o irmão – que não pode ser encenada, por má vontade dos envolvidos (lola e dois primos gêmeos, de dez anos), e duas surpresas desagradáveis, envolvendo sua irmã, cecília, e o próprio robbie: a leitura de um bilhete escrito por robbie para ceci (quero beijar sua boceta molhada) e o flagra no momento em que os dois transavam na biblioteca da casa da família. estava completo o dia de briony. havia motivo, na cabeça da menina, para incriminar o garoto pobre cujos estudos foram bancados pelo pai das meninas.
consequência desses fatos: robbie preso, cecília arrasada, um amor impossibilitado de ser vivido, uma família, a partir de então, dividida.
a narrativa prossegue mostrando robbie nas forças armadas durante a 2ª guerra mundial, o pouco contato entre ele e ceci – através de cartas, como uma forma de manterem viva a paixão interrompida – e briony tentando receber o perdão da irmã, reconhecendo o erro que cometera.
a menina de imaginação ímpar, que muito arriscara a escrita de histórias quando na infância, realiza o sonho de tornar-se escritora, alcançando, inclusive, bastante sucesso com seus livros publicados. e, já idosa, ao lançar seu 21º primeiro romance, ao qual dá o nome de “Reparação”, narra a história de sua vida, assim como da de ceci e de robbie, a partir daquela noite que marcara a vida de todos eles. porém, no seu livro o casal se reencontra após a guerra e pode, enfim, viver uma apaixonada e sincera vida a dois, algo que, na realidade, não ocorre: ele morre na guerra, pouco antes das tropas voltarem ao país, e ela falece, doente. ambos ainda muito jovens.
 
escrita consciente e inconsciente
sem nunca ter sido capaz de escrever sobre o acontecimento que causou, briony consegue fazer isso no último livro, no fim de sua vida, como uma tentativa de reparar o erro que cometera, de ser perdoada pela irmã e pelo filho da empregada, dando a eles, na ficção, a oportunidade de viverem o que em vida não puderam. e eu retomo a pergunta: até que ponto a escrita deste romance, por parte de briony, reparou o erro que ela cometera? a escrita é capaz de tal reparação?
não desenvolvi todo esse texto para alcançar uma resposta. sinto esta questão com muitas variáveis, então que retomo um olhar para o fato: a quem este ato de reparar faz referência? sendo assim, somente com o movimento de colocar-se no lugar do outro para dar conta de responder a isto. e a personagem, tanto no livro quanto no filme, não me pareceu curada da dor da culpa que durante toda a vida esteve com ela, percepção que me leva a pensar no quanto a escrita é apenas paliativa. nunca solução concreta e efetiva para as dores que carregamos conosco, e sim um meio de suportarmo-nos, por mais que tentemos fugir delas a todo custo, pelo tempo que for.
quantas são as vezes em que escrevemos cartas (tá, hoje em dia não mais cartas, e sim e-mails ou mensagens inbox, ou bilhetes ou sms, enfim) com o intuito de nos desculparmos, de reatarmos um elo rompido por algo que causamos? e quando escrevemos para acusar, para gritar aquilo que nos dói, causado, em nossa opinião, pelo outro? é também a escrita como reparação, é também, a meu ver, essa busca – que nos persegue e nós perseguimos – de colocarmos a vida em um trilho equilibrado, envolvendo princípios como justiça, talvez coerência, algo assim.
é o suficiente, tal escrita? ou, ampliando a indagação: em algum momento a escrita nos é suficiente? torço para que não, uma vez que a incompletude nos é necessária. prefiro pensar que escrevemos também como uma forma de conversarmos conosco mesmos e com aqueles que nos leem, de olharmos para o que nos rodeia, de ressignificarmo-nos. daí a possibilidade de alcançarmos o que nos é consciente e inconsciente, ora desejando uma sensação de cura, ora uma de fuga.
por exemplo: tenho desgostado do que escrevo – reconhecendo o quanto isto é um clichê. este não gostar se deve a uma repetição: parece que todo texto meu é o mesmo há mais ou menos três anos. acredito que seja o ritmo de escrita e de leitura que consegui fazer presente em minha escrita – fator importante para quem está engatinhando nesta forma de manifestação artística – entretanto, um vício que pode impedir-me de apresentar algo que a mim seja novo. e esta situação se deve ao fato de que escrevo principalmente – e quase apenas – aquilo que vivo e conscientemente sinto. é uma escrita agarrada às vivências. é uma zona de conforto.
talvez, mais difícil do que criar uma voz narrativa seja liberar-se dela. e o caminho para uma mudança nesta quase crise-existencial-criativa passa por produzir o que não foi vivido, ficcionalizar de fato, ir para além daquilo que penso sobre mim e de como os outros possivelmente me veem. como me disse o enzo, “nesse além você se sabota e é capaz de um novo estilo”. e, de repente, alcanço traumas e culpas que saracoteiam dentro de mim.
inclusive, escreveu-me o enzo sobre “Brilhante”, um conto do qual ele muito gosta, por ter sido o ponto mais alto que ele alcançou, em termos de narrativa não autobiográfica, na opinião dele. e isso em função de ter contado uma história sem contar de si, uma história em que ele se colocou no lugar de uma criança que mata uma outra, em um bairro rural de itajaí. conscientemente, disse eu ao enzo, ele está escrevendo algo sem se apresentar na história, contudo, há muito dele naquela narrativa, assim como há nos poemas quase autobiográficos escritos por ele há alguns anos. fato este que me faz voltar a pensar em briony e em sua escrita-da-história-vivida-por-ela: foi consciente, mas e quanto dessa culpa não esteve presente nos livros anteriores, sem que ela percebesse?
acredito nessa dupla possibilidade, de quem se esconde e se escancara através do texto, como se fosse possível optar por apenas uma forma. não é. mostramo-nos mais do que pressupomos mostrar, da mesma forma que deixamos escondidas características nossas, por mais que tentemos escancará-las. isto porque que é, a escrita, fuga e aproximação. dos outros e, principalmente, de nós mesmos.  
ítalo.

3 comentários:

Beverley de Graustark disse...

Eu to aos poucos compreendendo esse caminho de avessos, de que eu pego vida de outros e recheio com minha vida. às vezes com mais recheio, às vezes menos, mas a busca atual é o menos.

a busca na poesia era o mais, e eu às vezes inventava e nem me dava conta.

eu só preciso parar de discursar sobre isso e respeitar minhas vontades, sem pensar muito nelas! kkk

Beverley de Graustark disse...

Muito relevante essa sua percepção de que os livros da Briony podem ter buscado ANTES a Reparação.
Mas eu acho que não. Ali foi só o Começo. Se ela tivesse vivido mais e escrito mais e TRABALHADO mais o TEMA, possivelmente teria se reparado -- que nem a Virginia Woolf.
A Woolf se recusou a trabalhar a figura da mãe até chegar em seu sétimo livro, Rumo ao Farol. "Depois de escrever esse livro, parei de ser obcecada pela minha mãe. Não ouço mais sua voz". Antes e depois desse livro as figuras maternas não tem qualquer importância. Antes porque havia a incapacidade. Depois porque havia a liberdade.
Isso me faz lembrar uma frase do Faulkner em Absalom, Absalom: "impotência é liberdade".

Logo, se existem outros motivos para se escrever além de qualquer necessidade de reparar algo (e não faltam exemplos nesse mundo) a Briony pode sim ter escrito livros sem qualquer mácula daquele erro, daquela culpa. "Você não é a sua história", me diz a Flannery.

Jaciara da Silva disse...

Muito bom!