domingo, 29 de setembro de 2013

croniqueta publicada


 
O começo que nasce para morrer
 
As coisas só começam porque um dia terminarão.
Eu gosto desta frase, apesar de não gostar da palavra coisa. Penso-a (a frase, não a coisa) apontando para direções que são várias: início, fim e meio do mundo; início, fim e meio da vida; início, fim e meio de um relacionamento; início, fim e meio de um livro. Há um meio depois do começo e do fim, assim como entre.
A tendência de um começo é a morte instantânea.
Linkando com a literatura, temos: o começo de um texto é aquilo que mais é renegado pelo escritor. É a substância que brota para ser jogada fora. É o apêndice. Nascido para morrer. E mesmo aquele começo – de texto ou qualquer outro começo - que se apresenta a todos como definitivo, aquele começo que ficou definido como o começo de algo, está entregue à mudança constante. Não à morte, mas à mudança. Pois ele nem sempre será lido como o começo que se propôs a ser. Por que não ser lido como uma possibilidade de final, então? Será daí que todo fim é um começo?, uma vez que cada nova leitura pode ser a morte e o enterro da leitura anterior, sugada antes de não mais existir.
Um começo de livro marcante pode ser este: "Na primavera de 1998, Bluma Lennon comprou numa livraria do Soho um velho exemplar dos Poemas de Emily Dickinson, e ao chegar ao segundo poema, na primeira esquina, foi atropelada por um automóvel". É do livro "A casa de papel", do argentino Carlos Maria Domínguez. Ou este: "Nu e cru, eis o facto: apareceu um pénis decepado, em plena Estrada Nacional, à entrada da vila de Tizangara. Era um sexo avulso e avultado. Os habitantes relampejaram-se em face do achado. Vieram todos, de todo lado. Uma roda de gente se engordou em redor da coisa. Também eu me cheguei, parada nas fileiras mais traseiras, mais posto que exposto. Avisado estou: atrás é onde melhor se vê e menos se é visto. Certo é o ditado: se a agulha cai no poço muitos espreitam, mas poucos descem a buscá-la". Do livro “O último voo do flamingo”, do moçambicano Mia Couto. Dois simples começos como estes, que apresentam ações pontuais em tão poucas linhas, que delineiam uma miríade de caminhos na cabeça do sujeito-leitor – que poderão ser alcançados ou não, afinal, cada leitura é uma leitura.
Há, ainda, o começo de “Bonsai”, do chileno Alejandro Zambra: “No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emilia. Digamos que ela se chama ou se chamava Emilia e que ele se chama, se chamava e continua se chamando Julio. Julio e Emilia. No final, Emilia morre e Julio não morre. O resto é literatura:”.
Dois pontos. Como que dizendo ‘agora vou contar a história’. E que o leitor deixe de lado a birra infantil de ‘ah, por favor, não me conte o final’. Há literaturas que se sustentam pelo seu durante. Há literaturas que encantam só pelo começo. Há literaturas que decepcionam principalmente no final.
[Um bom começo também pode ser um caminho para o abismo da decepção].
O começo como morte é a oportunidade de não se estranhar muito o novo começo, o recomeço. E de não sentir muito aquele que não mais existe, porque nada nem ninguém vem para substituir algo ou alguém, mas para acrescentar, para existir a partir daquilo/daquele que não mais.
(jornal notícias do dia, joinville, 28/09/13)
 
ítalo puccini.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

"uma necessidade é um desejo que enlouqueceu"

faz tempo, já, eu lancei uma daquelas perguntas-cretinas a algumas pessoas, por e-mail: “que personagem você gostaria de ser?”. a pergunta advém do gosto que tenho pelo palomar, personagem homônimo do ítalo, o calvino. e como a preguiça é inerente ao ato da escrita, esse remendo de texto ficou por um bom tempo parado, sem que eu tivesse a mínima vontade de mexer nele. até que encontrei o livro “palomar” à venda, depois de anos procurando-o. e isso ocorreu na livraria cultura, em curitiba, aquele aconchego de lugar dividido em três pisos, muito espaçoso, colorido, repleto de livros que aqui por joinville eu não consigo, e onde os que lá trabalham, sem serem chatos, sorriem e conversam com o cliente, procurando atender a todas as necessidades deste.
então, encontrada a obra, reli-a. ‘treli’, na verdade. um livro belíssimo, escrito com uma sutileza que convida o leitor a ler cada texto e, antes de seguir ao próximo, parar e pensar no que acabou de ler. “palomar” é isto, é um livro no qual não se acelera. em que a leitura é ritmada, é cuidadosa como a escrita, em que um segundo de distração coloca em risco uma frase de rara beleza e ironia.
se eu pudesse ser um personagem, eu seria o palomar. por considerar-nos (a ele e a mim ) semelhantes, porém com salutar diferença. o sr. palomar gosta é do silêncio, eu também; gosta do ato de observar, de conjectuar, de pensar, eu também; mas não de dizer, e aqui eu já me vejo diferente dele. não porque eu seja um falante-contínuo, e sim porque muito escrevo do que observo e penso – e sinto. ele não. e é nisso que recai minha grande admiração por ele. pois o sr. palomar pensa, não diz nada, apenas observa, e leva o leitor a um pensar sem medidas, a um pensar muito provavelmente não pensado, a um estado de consciência ainda não atingido. a um silêncio ainda não experimentado.
e aquela tal pergunta-cretina veio-me a partir de uma reflexão, a de que nem sempre a paixão por um personagem vem associada à vontade de sê-lo. é nisto que reside o cuidado em tal resposta. por vezes, a identificação existe, seja pela semelhança ou pela diferença, o que não significa que queiramos abrir mão de quem somos para sermos outro. edu explicita bem isso: “Veja o caso da Emílio do Lobato. Sou apx por ela, mas não queria ser uma boneca, nem viver no sítio do picapau, por mais mágico que fosse. Mas outra criança, a Zazie (de um livro de Raymond Queneau), essa eu gostaria de ser. Por ser tão desbocada e esperta quanto Emília, e pelos amigos e parentes doidíssimos que ela tem em Paris”. o contrário da jozi, apaixonada “uma vez por Rosálio, - o homem mais sensível que já vi - em o Voo da Guará Vermelho, da Maria Valéria Rezende”, o que não significa que ela queria sê-lo. a identificação da jozi é com outras três personagens: macabéa, da hora da estrela da clarice, um pouco palomar também, “mas assumo todas as características da personagem sem nome em Tudo o que você não soube, da Fernanda Young”.
camila pimenta e enzo, ambos de itajaí, responderam e me deixaram ‘boiando’, por não conhecer os personagens citados. e que justificativas as deles! ela: “Eu sou apaixonada pelo João Dias, do livro Aritmética, da Fernanda Yong, e por sinal queria muito ser a América, do mesmo livro... acho toda a história dos dois tão genuína e louca... me arrepio toda.... ai ai ai!!!!”. ele: “Eu gostaria de ser Margaret Schlegel, daquele colosso de livro chamado "Howards End"! Aliás, eu acho que já sou ela.. só que numa trama como aquela é que a gente gira o bombril!”

e o gui contini, para finalizar, foi pelo universo infanto: “um personagem que eu gostaria de ser é o "Mortimer", da trilogia "Mundo de Tinta", da maravilhosa Cornelia Funcke.... Personagem o qual tem o poder da leitura, de retirar ou colocar nos (dos) livros pessoas, personagens, dando vida às palavras e tendo uma leitura estupendamente essencial”. e quem é que não tem esse desejo de, vezemquando, fazer saltar das páginas um personagem? escrever esta croniqueta tem um poucomuito disso, e daí vem o título dela, uma frase do osho. é um desejo-leitor. mas bem pode vir a ser uma necessidade-leitora.

ítalo.