terça-feira, 9 de julho de 2013

às vezes é no excesso que encontramos alento

o cristovão tezza também é bom nisso de ser cronista. e digo também porque como romancista ele já me ganhou. e cronicando com ele – ou seja, lendo suas crônicas reunidas no livro “um operário em férias” – deparei-me com um cutucão daqueles que nos fazem parar a leitura, sublinhar as linhas e pensar um cadim: “Não é a crise do mundo que faz nascer romancistas e poetas. Eles escrevem porque são eles mesmos que estão em crise – um poderoso sentimento de inadequação, que é a alma da arte, sopra-lhes a primeira palavra, com a qual eles tentam redesenhar o mundo”. e eu sinto a minha tentativa de escrita por aí, pela tentativa de ressignificar o que é vivido.  
há uma veia artística em cada um de nós. o que não significa que a reconheçamos, muito menos que saibamos como explorá-la. há um medo oriundo da arte. de quem a faz e de quem a recebe. um medo provocado pela arte por apenas existir. que talvez não seja medo, e sim estranhamento, uma vez que o novo assusta, nós sabemos. contudo, tememos mas não a largamos. é o canto do pai do mato. atrai-nos para comer nosso coração. e não há maldade nisso. a escolha é nossa de ir até ela, ou de recebê-la quando rompe à nossa frente. e nos incomoda, muito. tira-nos o chão, quebra-nos certezas, ameaça-nos crenças. um rebuliço.
ao mesmo tempo em que é essa coisa tão bonita que canta a elis em “essa mulher”, ser cantora, ser artista. talvez uma eterna inadequação que faz com que brote arte por cada poro.
escrever pra mim, por exemplo, é algo como dar a cara a tapa. é assim que me sinto. é por isso que corro para a escrita. por estar em crise, por sentir-me inadequado, desafinado com o mundo, com as pessoas. por tentar redesenhar esse viver. quase que consertá-lo. porque é importante enfiar o dedo na ferida. deixá-la sangrar. para curar. para dela fazer brotar algo: que seja novo, vivo, intenso, verdadeiro porque de entrega.
e essa escrita que talvez se mostre racional esconde aquilo que dói. esconde o motivo dela existir. dá voltas, permeia, não aprofunda sem que nos permitamos a. no entanto, cutuca e fere, como sendo elemento de cura, se assim a quisermos.
às vezes, penso, é no excesso que encontramos alento. quando a sensação de vazio é tão grande que corremos a preenchê-la: por medo, por fuga, por fraqueza. ser humano é isto. e como é bom dizer que não está tudo bem. que não está mais sendo possível ouvir gonzaguinha, por exemplo, sem que o corpo rasgue por dentro. que a solidão bate mesmo é no momento de preparar um café e de sentar para tomá-lo. suar é sinal de estar vivo, ao menos. é o que dá sentido ao momento de dormir. até que seja possível, então, fazer brotar um texto sem a dor que outrora tomou conta do corpo. será interessante experimentar tal sensação.
assunto pr’uma outra croniqueta, quem sabe, oriunda de outras leituras e vivências.

ítalo.

3 comentários:

Anônimo disse...

Às vezes é na escrita dos outros.

Anônimo disse...

"é assim que me sinto. é por isso que corro para a escrita. por estar em crise, por sentir-me inadequado, desafinado com o mundo, com as pessoas. por tentar redesenhar esse viver. quase que consertá-lo. porque é importante enfiar o dedo na ferida. deixá-la sangrar. para curar. para dela fazer brotar algo: que seja novo, vivo, intenso, verdadeiro porque de entrega.
e essa escrita que talvez se mostre racional esconde aquilo que dói. esconde o motivo dela existir. dá voltas, permeia, não aprofunda sem que nos permitamos a. no entanto, cutuca e fere, como sendo elemento de cura, se assim a quisermos.
às vezes, penso, é no excesso que encontramos alento. quando a sensação de vazio é tão grande que corremos a preenchê-la: por medo, por fuga, por fraqueza. ser humano é isto. e como é bom dizer que não está tudo bem. que não está mais sendo possível ouvir gonzaguinha, por exemplo, sem que o corpo rasgue por dentro. que a solidão bate mesmo é no momento de preparar um café e de sentar para tomá-lo. suar é sinal de estar vivo, ao menos. é o que dá sentido ao momento de dormir. até que seja possível, então, fazer brotar um texto sem a dor que outrora tomou conta do corpo. será interessante experimental tal sensação".

Acho que necessitas do mesmo que o Saramago.

"arranca metade do meu corpo, do meu coração, dos meus sonhos. tira um pedaço de mim, qualquer coisa que me desfaça. me recria, porque eu não suporto mais pertencer a tudo, mas não caber em lugar algum".

Margarida Rodrigues disse...

Aprecio bastante o seu blog e os seus posts. Sempre que posso tenho visitado o mesmo e delicio-me com o que escreve. Até coloquei na barra de favoritos :)

Espero que continue com o bom trabalho.

Cumprimentos

Margarida Fonseca Dias

www.fichiers-de-france.com