quinta-feira, 23 de maio de 2013

poema do caio



não curto o caio fernando abreu poeta. aleás, curto dele somente o "morangos mofados" e a narrativa infanto "as frangas". mas fuçando esse "poesias nunca publicadas", lançado pela record ano passado, li e reli e treli um poema. e abri mão um pouco dessa minha chatice-leitora, vindo até a gostar do dito cujo. que é este:

"há sempre um dia em que não se morre
porque morrer seria redundância
e reduzida à sua essência mais secreta
a vida continua pulsando porque seria
mais difícil estancá-la que continuar
assim, a seco, coração anoitecido
pela sombra e a soma de todos os desencantos,
[sem rumo algum pelo/sem sentido de todas as coisas]

há sempre um dia em que se tem vontade
de expor aos passantes a chaga aberta,
como os mendigos expõem feridas nas calçadas,
chapéu ao lado, para que nos joguem moedas,
olhares de pena, desprezo ou simplesmente nojo
mas tão difícil mostrar as cicatrizes quando a vida
foi ensinando, lenta, o jogo necessário de escondê-las.

há sempre um dia em que nos perguntamos
fui eu quem me fez assim ou me fizeram?
e a resposta importa pouco, importa nada;
seja qual for, não voltará jamais o que perdeste
em alguma esquina do caminho, não sabes onde,
não sabemos como, e mesmo o choro então é pouco para 
[tua dor
E ainda que compres rosas ou vás ao cinema ou cantes
uma canção qualquer, o que persiste é a morte
com seu roteiro de vermes e distâncias.

no dia seguinte ao dia em que não morremos,
iniciados na tarefa de tecer o inútil
trocamos os lençóis, lavamos o rosto, arrumamos a casa e
[partimos para a rua
sem que ninguém perceba o epitáfio sobre a fronte".

(18 de agosto de 1980)

afinal, quando é que não nos sentimos assim?

ítalo.

4 comentários:

Anônimo disse...

Que bom que voltou a atualizar o blog, Ítalo!

Luiz Guilherme disse...

Que bom que voltou a atualizar o blog, Ítalo!

Beverley de Graustark disse...

Que bom que voltou a atualizar o blog, Ítalo!

Regina Carvalho disse...

Também nunca fui muito fã do Caio, tirando Morangos Mofados... Orientei biografia dele, mais tarde publicada, e a orientanda me deu os livros que eu não tinha. Não refrescou nada...E sabes o que gostei mais, nesta retomada aqui? Tás livre, leve, solto! Parabéns, moirmão! bj