sexta-feira, 31 de maio de 2013

ô, gonzaguinha,

eu apenas queria que você soubesse que aquela alegria ainda está comigo. que a minha ternura não ficou na estrada, que eu me olho bem fundo até o dedão do pé – por isso me gosto muito mais também – e que vou escrevinhar tudo em letras minúsculas, tá? porque acredito que você merece, você merece. e porque me remete a uma conversa mais intimista. de repente, tudo num só parágrafo, que é pra confundir, pra complicar a leitura. tipo suas músicas, estas que tanto nos exigem atenção e cuidado no ouvir. são elas que me sugerem uma intimidade entre nós dois. você também sente, não? aqui, então, tudo vai bem, tudo legal. ou quase. mas tá. o caminho é esse. o lance é colocar um sorriso nos lábios – pagando a prestação ao final do mês –, mesmo que amanhã acabem com o nosso carnaval. até porque é só sonhar que passa. deus tudo vê e deus dará, diz você. eu acho graça. é viver e aprender. e o que importa essa dor feito faca no peito, não é mesmo? um dia ela estanca e a gente dá jeito. agora nas ruas seguimos. ‘inda que às vezes o corpo esteja que é só bagaço, em pé de teimoso que é. é. nós vamos levando este barco – nós, os milhões de palhaços e de arlequins, vozes de um só coração – buscando a felicidade. afinal, quem não quer a alegria e a felicidade, né? sim, nós, os equilibristas da fé, esses grandes artistas da vida. afinal, temo-la inteira nas mãos. porém, confesso a você que não ‘guento mais ouvir que ela devia ser bem melhor e será. caíram num clichê desgraçado esses versos seus, homi. é canção bonita que só, de astral elevado, tudo bem, mas não é uma doce ilusão? tal qual a pureza da resposta das crianças. sabe, prefiro tirar “o que” e ficar com “é”. esta, sim, um soco na boca do estômago. são os socos que nos fazem respirar melhor, já reparô, gonzaga filho? e o fato de a gente querer viver felicidade, e de não conseguirmos, atordoa-nos. e é assim que a gente passa a olhar pra gente, pros cidadãos que somos, pra nação que constituímos. a gente quer viver o nosso amor, porém, e se este não for correspondido? se é amor, deu e recebeu, canta você. ‘tão tá. até mesmo porque quem é que não acredita na alegria de ser? a gente quer tanta coisa na vida, ô, gonzaguinha. a gente quer calor no coração, a gente quer carinho e atenção. assim como a gente deve tanta coisa. com a perna no mundo, resta-nos ir à luta – mesmo que isto signifique ficar parado onde estamos. amanhã ou depois. deixa dilson e vamos nelson, afinal, o homem falou. e o futuro é o que virá, mas e daí? a gente acredita é na rapaziada. que seguramos a batida da vida o ano inteiro. coragem, hein? fazemos parte desse medo coletivo, no qual a fábrica de sonhos acabou. mas quando que foi fundada a escola de samba unidos do pau-brasil mesmo? e por que guarda-sol nunca foi frô? tá vendo como são difíceis as músicas suas? e por isso é que me agradam, é que me convidam a voltar a elas. e já que ninguém é feliz sozinho – nem o pobre, nem o rei – buscamos nossos meios de estarmos entre outros, e às vezes a música é a melhor companhia, ou até mesmo curtir uns bailes da vida. tudo pra tirar a ansiedade do peito, relaxar e gozar. ‘bora, então, levar o samba com união, meu querido? não deixando ninguém atrapalhar a nossa passagem. ôô, eô, eá. o brilho das pessoas é bem maior. um beijo. 

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