terça-feira, 24 de dezembro de 2013

fazer poema lá na vila é um brinquedo

e ouvir tuas composições, noel, é tomar conhecimento de um dia-a-dia que um dia foi o rio de janeiro – cidade sensível, irresistível, cidade do amor, cidade mulher – ou, mais precisamente, a vila isabel, tão bem retratada por ti. a tal ponto, meu caro, que resolvi escrever-te uma croniqueta – palavra esta da qual me utilizo para referir-me a meus blábláblás cotidianos, que nem de perto alcançam a riqueza das expressões e dos relatos que tu apresentas em tuas músicas.
registro, então, desde o princípio, que esta será uma crônica-rasgação-de-seda.
e como ser diferente, diante disso: “são paulo dá café / minas dá leite / e a vila isabel dá samba”? é o viés que pega o ouvinte e o leitor no contrapé, que faz dançar os galhos do arvoredo, que faz a lua nascer mais cedo. são teus versos os que fazem isso ao cronicar assim em forma de samba, noel.
samba este que não se aprende no colégio, sabemos, cujas rimas não são ai love you. nem no teu tempo, nem no meu. e porrisso mesmo que tento vezemquando levar aos meus alunos algumas amostras musicais desse gênero tão brasileiro, pensando que talvez eles possam identificar-se com a batida ou com os escritos, que seja. se não pela possibilidade de sentir-se tocado pelos versos, ao menos apresentar-lhes uma composição assim rica: “o sol da vila é triste / samba não assiste / porque a gente implora / sol, pela mor de deus / não vem agora / que as morenas / vão logo embora”.
e ouvindo-te eu aprendi que a vila não quer abafar ninguém, e sim apenas mostrar que faz samba também e que é uma cidade independente, não disposta a tirar patente. é o tal feitiço que há na vila, não é mesmo? lugar onde o que não faltava era conversa de botequim e exigência de um bom atendimento por parte do garçom. aliás, qual foi o resultado do futebol porraí? também não sei vestir casaca, não sou um tipo zero do tipo que não tem tipo, que com todo tipo se parece.
e, tendo ou não cem mil réis, não há quem não cantarole o refrão de “com que roupa?” nos momentos, bastante frequentes, em que ficamos a matutar o que vestir. ah, você sabia o que dizia. ô, se sabia: “quanto a você da aristocracia / que tem dinheiro, mas não compra alegria / há de viver eternamente sendo escrava dessa gente / que cultiva hipocrisia”. machado de assis te aplaudiria, tenho certeza. inclusive, um dia eu gostei de uma vida boêmia. hoje, eu prefiro os amigos. afinal, onde está a honestidade? eis o xis do problema, tal qual estava lá naquela carta que você recebeu: “quem é da boemia / usa e abusa da diplomacia / mas não gosta de ninguém”.
permita-me, noel, para finalizar esta breve conversa, uma pergunta-cretina: paixão não te aniquila? olha que te vejo muito naquele gago apaixonado, hein? mas não vou insistir nesta vereda, não. com paixão não se brinca. é preciso um bocado de respeito pelo sentimento do outro, afinal, “um grande amor tem sempre um triste fim” e “quem suportar uma paixão / sentirá que o samba então / nasce do coração”, como um último desejo.
 
ítalo puccini.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

eu não sei se alguma coisa ainda acontece no meu coração

me larga, não enche, caetano. assim mesmo, com o pronome oblíquo iniciando a oração. foda-se a gramática. foda-se a tua música repleta de vocábulos intelectualoides. a melodia do teu samba não põe ninguém no lugar. e você não pede desculpas. ranzinza.
sai do meu sangue, sanguessuga que só sabe sugar. não me amarra dinheiro, não – aliás, onde queres dinheiro, eu sou paixão. tudo métrica e rima e nunca dor, né? mas a vida é real e é de viés. e vê só que cilada o amor me armou: você. você que não me ensinou a te esquecer. já cheguei a tal ponto de me trocar diversas vezes por você. só pra ver se te encontro. bruto.
eu quero tocar fogo neste apartamento. eu não me arrependo de você.
vagaba, bandida, né? seus vocativos demonstram o arrogante que você sempre foi. narciso e você acham feio o que não é espelho. fonte de mel nos olhos de gueixa blábláblá você é linda, mais que demais. que orgulho de rima, hein? nunca me faça mal? não se preocupe. eu vou viver sem você. eu vou. por que não? e não quero que você venha comigo. a tua presença não entra mais pelos sete buracos da minha cabeça.
alegria, alegria, covarde. odeio você.
você já me sugou todo o meu leite. o leite da sua vaca profana.
eu fui uma mulher – uma cornucópia de mulheres. uma beleza que te aconteceu, caetano. uma tigresa. hoje, com muito ódio no coração. sem conseguir dizer que tudo vai mudar. vou fazer um pedido ao tempo, este senhor tão bonito, compositor de destinos. assim, quando eu tiver saído pra fora do teu círculo – tempo tempo tempo tempo – não serei nem terás sido. afinal, de perto ninguém é normal, não é mesmo? grosso.
não há mais nosso estranho amor.
meu coração se cansou de ter esperança.
quer saber? que tudo mais vá pro inferno, meu bem. respeito muito minhas lágrimas. mas ainda mais minhas risadas. só vou gostar de quem gosta de mim. e não quero com isso dizer que o amor não é bom sentimento. na mão direita tenho uma roseira. no pulso esquerdo o bang-bang. mas meu coração não balança samba de tamborim. aqui, a tristeza é senhora. aqui, solidão apavora. o filho da dor. cretino.
é o sol, é a estrada, é o tempo, é o pé e é o chão.
e eu ainda vou preparar uma outra pessoa. que não será tua. cavalo.
esse laço era, sim, um verso. mas foi tudo perverso. eu é que agora não me deixo mais ficar. não adianta vir com tal abraçaço, de rimas tão óbvias. não acredito mais no seu prometido e cantado “mimar você”. não sou tua neguinha. parece bobagem, mas não era, não. não mais tua menina do anel de lua e estrela. você não mais saberá o que quer e o que pode esta língua. a minha língua. que tantos outros tocarão. boçal.
aqui não há nada fora da ordem. era eu quem tropeçava nos astros desastrada, algo de que você gostava. foi um amor assim delicado. que você pegou e desprezou. és o único culpado. eu era apenas sua mulher. de um cara que me consumia. estúpido.
 
ítalo puccini.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

O Modernismo Português e Fernando Pessoa

aproveitando a onda de textos longos, tou aqui pra chutar o pau da barraca.
um extenso artigo - escrito em 2008 - dissecando a poesia de pessoa e seus heterônimos, relacionando ao período literário em questão.
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(um trecho)

Unidade quem sabe Pessoa tenha alcançado, mas também o que se vê são três personalidades que não se complementam em muitos aspectos. O mestre é Caeiro, o Pai, com a sabedoria e a calma invejadas por seus dois irmãos, a quem dá origem: Ricardo Reis, um epicurista triste, de tradição clássica, ligado à mitologia pagã, para quem a emoção podia ser controlada pela razão, e Álvaro de Campos, o mais ligado à tendência futurista, engenheiro formado, de versos fortes, diretos, feitos mais na inspiração do que na arte de criação.

            Refletindo o momento da época – a desestruturação do mundo na 1ª Guerra Mundial, a instabilidade em Portugal pela mudança de regime político, as diferentes formas de expressão cultural apresentadas pelas vanguardas – Fernando Pessoa multiplicou-se em diversos heterônimos, destacando-se os três já citados. As expressões artísticas seguiam o cenário em que se faziam observar. Fragmentavam-se, espalhavam-se em diferentes e inconstantes formas de representar o viver, o pensar e o sentir. Pessoa foi o exemplo mais claro.

            O fato é que sua poesia, seus sentimentos, suas idéas e suas vontades de ser – e, conseqüentemente, de viver – angustiavam-no, como bem sintetizado por Álvaro de Campos:


Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,

Quando mais personalidades eu tiver,

Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,

Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,

Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,

Estiver, sentir, viver, for,              

Mais possuirei a existência total do universo,

Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.

                                                           (Poesias de Álvaro de Campos, 1983, p. 187).

Dessa angústia, então, “nasceram” três personalidades completas, distintas e semelhantes em alguns aspectos, que, se não conseguiram dar ao poeta a unidade buscada, muito próximo disso chegaram.

(na íntegra)

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

crônica – ou ensaio – à la hatoum

não conhecia o milton hatoum cronista. deparei-me com o livro “Um solitário à espreita” e o comprei, fazendo vibrar o prazer, pouco comum a mim, de uma compra inesperada. o título, aliás, é muito condizente com o jeito de ser do autor: um sujeito recluso, pouco midiático e de publicações quase que raras. autor de apenas quatro romances e um livro de contos, com dois deles, “Relato de um certo Oriente” (1999) e “Cinzas do Norte” (2005) foi vencedor do jabuti de melhor romance; com “Órfãos do Eldorado” (2008), segundo colocado no mesmo prêmio; e, com “Dois irmãos” (2000), conquistou o terceiro lugar. quatro romances premiadíssimos, no brasil e no mundo, tendo sido publicado em dezessete países até hoje.
a característica da crônica deste escritor amazonense é a de esticá-la um tanto a mais do que costuma ser comum ao gênero. são crônicas-quase-ensaios, nas quais o autor apresenta um fato cotidiano nos primeiros parágrafos para chegar ao, digamos, ponto-chave do texto, e então abordá-lo por mais algumas tantas linhas. isto na maioria das 94 crônicas que compõem o livro, algo que não diminui sua escrita, pelo contrário: apresentar uma unidade no modo como escreve demonstra segurança e a mim, enquanto leitor, muito satisfaz.
é dessa maneira que o autor desenvolve, por exemplo, “Liberdade em Caiena”, crônica que me despertou a escrever esta com a qual, até aqui, enrolo o leitor. no começo do seu texto, hatoum aborda a dificuldade que tem de lidar com tantas informações em um ritmo tão frenético de tempo, o que o leva a deixar passar a oportunidade de participar de debates, palestras e até encontros entre amigos: “Agora, ao fazer uma faxina na caixa de entrada, notei que havia 122 mensagens não lidas”. deste ponto para chegar ao tema: o convite, recusado pelo autor, por não ver a mensagem em tempo, para ir a caiena, capital da guiana francesa, lugar de muitas lembranças trazidas da infância e de seu avô.
e o que me trouxe a escrever foi esse modo de vida digamos que desacelerado do escritor amazonense, com o qual, a meu ver, muito se pode aprender, uma vez que, atualmente, não somos mais ensinados a viver ligados à tecnologia, e sim o contrário: nascemos imbricados a ela, e precisaríamos, urgentemente, aprendermos a nos desligarmos mais.
algo assim como o que foi proposto pela jornalista eliane brum, quando escreveu uma crônica intitulada “É urgente recuperar o sentido de urgência”, na qual aborda o quanto nos tornamos dependentes do imediatismo, nas diferentes esferas sociais, privando-nos da nossa intimidade em prol de mostrarmo-nos disponíveis a todos a qualquer momento do dia, atitude esta que eu vejo soar como uma pseudo-demonstração de atenção e respeito pelo próximo. assim argumenta brum: “Estamos vivendo como se tudo fosse urgente. Urgente o suficiente para acessar alguém. E para exigir desse alguém uma resposta imediata. Como se o tempo do ‘outro’ fosse, por direito, também o ‘meu’ tempo”.
como se pode ver, são tantas as frases certeiras que convido o leitor a ler a crônica dela na íntegra, (aqui) percebendo, assim, a existência de outras maneiras de viver, oriundas de uma reflexão que envolve principalmente o ato de respeitar a si mesmo nesse emaranhado virtual que nos abraça e do qual não conseguimos, a priori, desgarrarmo-nos, afinal, alerta-nos a escritora, “Viver no tempo do outro – de todos e de qualquer um – é uma tragédia contemporânea”, da qual, parece-me, hatoum tem a mesma consciência.
e é uma forma de preenchermos nosso ego, acrescento. ao mostrarmo-nos dispostos a qualquer momento do dia para sermos interrompidos de diferentes maneiras – sms, ligação telefônica, bate-papo virtual, visita-sem-combinação-prévia – disfarçamos o nosso egoísmo sob a veste falsa de dar atenção ao outro. ao expormos tal disponibilidade, estamos na verdade gritando para que nos procurem, para que nos olhem, para que curtam – o mais rápido possível – aquilo que acabamos de postar. e retribuímos o ato como forma de garantir que ele nos seja devolvido.
é o nosso ato de covardia, sobre o qual escreve o romancista jonathan franzen, num ensaio intitulado “Curtir é covardia” (aqui), no qual o autor apresenta um contraste entre as tendências narcisistas da tecnologia e o problema do amor verdadeiro, uma vez que o amor, este verdadeiro, denuncia a mentira que o mundo tecnoconsumista – e imediatista – exige de nós compreensão: “Se pensarmos nisso em termos humanos, e imaginarmos uma pessoa definida pela ansiedade desesperada de ser curtida, qual é o quadro que vemos? O de uma pessoa sem integridade, descentrada. Em casos mais patológicos, vemos um narcisista – alguém incapaz de tolerar em sua autoimagem as manchas que seriam representadas pela possibilidade de não ser curtida e que portanto busca uma fuga do contato humano ou se dedica a sacrifícios cada vez mais extremos da própria integridade com o intuito de ser curtida”.
o comportamento de milton hatoum e de eliane brum (ela abriu mão do aparelho celular e faz questão de ser contatada somente por e-mail) é aqui apresentado não como referência em termos de relações humano-sociais, e sim como alternativa, eco do que propôs franzen: um comportamento consciente, não-dependente, muito menos falso ou egoísta.
sendo assim, não defendo nesta croniqueta (sim, está muito mais para um ensaio) uma tomada de posição de contrariedade radical. se escrevo sobre este assunto é porque a mim ele ainda se apresenta bastante confuso, tamanha a linha tênue que nos separa de uma dependência e de uma aversão tecnológica e social, ambas atitudes extremistas que trazem consigo muitas perdas ao ser humano. uma vez que somos bebês no contato com essa ultramodernidade na qual estamos inseridos, nada melhor do que o exercício de olharmo-nos dentro deste meio, procurando sempre uma reflexão em prol de melhores atitudes.
 
ítalo.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

a arte de empilhar livros e afins







de repente, terapiar sobre o porquê empilho livros e afins pode me ajudar a entender o que me leva a isto. só sei, de antemão, que é algo de que gosto muito.
 
ítalo.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

a escrita como reparação: até que ponto?

até que ponto a escrita dá conta de reparar algo? é o que tenho me perguntado desde que assisti novamente ao filme “Desejo e Reparação”, dirigido por joe wright, baseado no livro “Reparação”, do ian mcewan. e esta indagação se origina no que nos apresenta a narrativa: a escrita de uma história, por parte de uma das personagens, como forma de reparar um erro cometido por ela há muitos anos. então que eu refaço a pergunta: até que ponto a escrita dá conta de reparar, ou seja, consertar um erro? repara a ação já cometida? ou se transforma em uma obsessão? em portugal, por exemplo, o romance saiu intitulado “expiação”, que, de acordo com o dicionário, significa “ato ou efeito de expiar; reparação ou sofrimento pelo qual se expia uma culpa; castigo”. escrever expia o sentimento de culpa? para responder a isso, acredito que seja bom direcionar a questão, especificar este ato de reparar: a quem ele faz referência?

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

faz de conta que

 
“O escuro ainda chorava:
- Sou feio. Não há quem goste de mi.
- Mentira, você é lindo. Tanto como os outros.
- Então por que não figuro nem no arco-íris?
- Você figura no meu arco-íris.
- Os meninos têm medo de mim. Todos têm medo do escuro.
- Os meninos não sabem que o escuro só existe é dentro de nós.
- Não entendo, Dona Gata.
- Dentro de cada um há o seu escuro. E nesse escuro só mora quem lá inventamos. Agora me entende?
- Não estou claro, Dona Gata.
- Não é você que mete medo. Somos nós que enchemos o escuro com nossos medos”.
 
é incrível – e apaixonante – ler histórias para os alunos. se cada leitura feita individualmente já possibilita um estender de interpretações, ler para ser ouvido por variados olhares atentos representa desconhecer limites na criação de sentidos junto a um objeto simbólico.
“o gato e o escuro”, do moçambicano mia couto, é o livro que tou experimentando em sala de aula esta semana. e, a cada nova turma à qual apresento esta história, mais surpreendo-me com a profundidade proposta pelo texto e com o diálogo entre este e as imagens que compõem a obra. e esta surpresa me leva a um mergulho pra dentro de mim mesmo, dos meus medos, do meu escuro.
ler para os outros não é só dar a cara a tapa. é, também, parte do “conhece-te a ti mesmo”, proposto pelo meu amigo nietzsche. é um sair da zona de conforto à que a leitura-enquanto-ato-solitário está associada. e justamente ao nos permitirmos fazer de conta que “o pôr-do-sol fosse um muro” somos capazes de transpor a linha entre o claro o escuro, de encarar o que existe dentro de nós. só assim para reconhecer-se, aceitar-se e, quiçá, crescer enquanto ser humano.
 
ítalo.

domingo, 29 de setembro de 2013

croniqueta publicada


 
O começo que nasce para morrer
 
As coisas só começam porque um dia terminarão.
Eu gosto desta frase, apesar de não gostar da palavra coisa. Penso-a (a frase, não a coisa) apontando para direções que são várias: início, fim e meio do mundo; início, fim e meio da vida; início, fim e meio de um relacionamento; início, fim e meio de um livro. Há um meio depois do começo e do fim, assim como entre.
A tendência de um começo é a morte instantânea.
Linkando com a literatura, temos: o começo de um texto é aquilo que mais é renegado pelo escritor. É a substância que brota para ser jogada fora. É o apêndice. Nascido para morrer. E mesmo aquele começo – de texto ou qualquer outro começo - que se apresenta a todos como definitivo, aquele começo que ficou definido como o começo de algo, está entregue à mudança constante. Não à morte, mas à mudança. Pois ele nem sempre será lido como o começo que se propôs a ser. Por que não ser lido como uma possibilidade de final, então? Será daí que todo fim é um começo?, uma vez que cada nova leitura pode ser a morte e o enterro da leitura anterior, sugada antes de não mais existir.
Um começo de livro marcante pode ser este: "Na primavera de 1998, Bluma Lennon comprou numa livraria do Soho um velho exemplar dos Poemas de Emily Dickinson, e ao chegar ao segundo poema, na primeira esquina, foi atropelada por um automóvel". É do livro "A casa de papel", do argentino Carlos Maria Domínguez. Ou este: "Nu e cru, eis o facto: apareceu um pénis decepado, em plena Estrada Nacional, à entrada da vila de Tizangara. Era um sexo avulso e avultado. Os habitantes relampejaram-se em face do achado. Vieram todos, de todo lado. Uma roda de gente se engordou em redor da coisa. Também eu me cheguei, parada nas fileiras mais traseiras, mais posto que exposto. Avisado estou: atrás é onde melhor se vê e menos se é visto. Certo é o ditado: se a agulha cai no poço muitos espreitam, mas poucos descem a buscá-la". Do livro “O último voo do flamingo”, do moçambicano Mia Couto. Dois simples começos como estes, que apresentam ações pontuais em tão poucas linhas, que delineiam uma miríade de caminhos na cabeça do sujeito-leitor – que poderão ser alcançados ou não, afinal, cada leitura é uma leitura.
Há, ainda, o começo de “Bonsai”, do chileno Alejandro Zambra: “No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emilia. Digamos que ela se chama ou se chamava Emilia e que ele se chama, se chamava e continua se chamando Julio. Julio e Emilia. No final, Emilia morre e Julio não morre. O resto é literatura:”.
Dois pontos. Como que dizendo ‘agora vou contar a história’. E que o leitor deixe de lado a birra infantil de ‘ah, por favor, não me conte o final’. Há literaturas que se sustentam pelo seu durante. Há literaturas que encantam só pelo começo. Há literaturas que decepcionam principalmente no final.
[Um bom começo também pode ser um caminho para o abismo da decepção].
O começo como morte é a oportunidade de não se estranhar muito o novo começo, o recomeço. E de não sentir muito aquele que não mais existe, porque nada nem ninguém vem para substituir algo ou alguém, mas para acrescentar, para existir a partir daquilo/daquele que não mais.
(jornal notícias do dia, joinville, 28/09/13)
 
ítalo puccini.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

"uma necessidade é um desejo que enlouqueceu"

faz tempo, já, eu lancei uma daquelas perguntas-cretinas a algumas pessoas, por e-mail: “que personagem você gostaria de ser?”. a pergunta advém do gosto que tenho pelo palomar, personagem homônimo do ítalo, o calvino. e como a preguiça é inerente ao ato da escrita, esse remendo de texto ficou por um bom tempo parado, sem que eu tivesse a mínima vontade de mexer nele. até que encontrei o livro “palomar” à venda, depois de anos procurando-o. e isso ocorreu na livraria cultura, em curitiba, aquele aconchego de lugar dividido em três pisos, muito espaçoso, colorido, repleto de livros que aqui por joinville eu não consigo, e onde os que lá trabalham, sem serem chatos, sorriem e conversam com o cliente, procurando atender a todas as necessidades deste.
então, encontrada a obra, reli-a. ‘treli’, na verdade. um livro belíssimo, escrito com uma sutileza que convida o leitor a ler cada texto e, antes de seguir ao próximo, parar e pensar no que acabou de ler. “palomar” é isto, é um livro no qual não se acelera. em que a leitura é ritmada, é cuidadosa como a escrita, em que um segundo de distração coloca em risco uma frase de rara beleza e ironia.
se eu pudesse ser um personagem, eu seria o palomar. por considerar-nos (a ele e a mim ) semelhantes, porém com salutar diferença. o sr. palomar gosta é do silêncio, eu também; gosta do ato de observar, de conjectuar, de pensar, eu também; mas não de dizer, e aqui eu já me vejo diferente dele. não porque eu seja um falante-contínuo, e sim porque muito escrevo do que observo e penso – e sinto. ele não. e é nisso que recai minha grande admiração por ele. pois o sr. palomar pensa, não diz nada, apenas observa, e leva o leitor a um pensar sem medidas, a um pensar muito provavelmente não pensado, a um estado de consciência ainda não atingido. a um silêncio ainda não experimentado.
e aquela tal pergunta-cretina veio-me a partir de uma reflexão, a de que nem sempre a paixão por um personagem vem associada à vontade de sê-lo. é nisto que reside o cuidado em tal resposta. por vezes, a identificação existe, seja pela semelhança ou pela diferença, o que não significa que queiramos abrir mão de quem somos para sermos outro. edu explicita bem isso: “Veja o caso da Emílio do Lobato. Sou apx por ela, mas não queria ser uma boneca, nem viver no sítio do picapau, por mais mágico que fosse. Mas outra criança, a Zazie (de um livro de Raymond Queneau), essa eu gostaria de ser. Por ser tão desbocada e esperta quanto Emília, e pelos amigos e parentes doidíssimos que ela tem em Paris”. o contrário da jozi, apaixonada “uma vez por Rosálio, - o homem mais sensível que já vi - em o Voo da Guará Vermelho, da Maria Valéria Rezende”, o que não significa que ela queria sê-lo. a identificação da jozi é com outras três personagens: macabéa, da hora da estrela da clarice, um pouco palomar também, “mas assumo todas as características da personagem sem nome em Tudo o que você não soube, da Fernanda Young”.
camila pimenta e enzo, ambos de itajaí, responderam e me deixaram ‘boiando’, por não conhecer os personagens citados. e que justificativas as deles! ela: “Eu sou apaixonada pelo João Dias, do livro Aritmética, da Fernanda Yong, e por sinal queria muito ser a América, do mesmo livro... acho toda a história dos dois tão genuína e louca... me arrepio toda.... ai ai ai!!!!”. ele: “Eu gostaria de ser Margaret Schlegel, daquele colosso de livro chamado "Howards End"! Aliás, eu acho que já sou ela.. só que numa trama como aquela é que a gente gira o bombril!”

e o gui contini, para finalizar, foi pelo universo infanto: “um personagem que eu gostaria de ser é o "Mortimer", da trilogia "Mundo de Tinta", da maravilhosa Cornelia Funcke.... Personagem o qual tem o poder da leitura, de retirar ou colocar nos (dos) livros pessoas, personagens, dando vida às palavras e tendo uma leitura estupendamente essencial”. e quem é que não tem esse desejo de, vezemquando, fazer saltar das páginas um personagem? escrever esta croniqueta tem um poucomuito disso, e daí vem o título dela, uma frase do osho. é um desejo-leitor. mas bem pode vir a ser uma necessidade-leitora.

ítalo. 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

quando eu li um poeta ruim:


o fato de sermos
exigentes leitores
nos torna
melhores escritores?

[esta tentativa
- fracassada - 
de poema

mostra que
não]


ítalo.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

livros não salvam o mundo. nem as pessoas.

ambiguidade proposital no título. porque de salvação já basta a bíblia e sua promessa-nunca-cumprida. aliás, está aí um bom exemplo de um livro que amarra a narrativa à autoajuda. que embaralha um realismo ao fantástico e ao romântico. que suscita no leitor esperanças ao mesmo tempo em que o exime de responsabilidades e o cobra de posturas individuais e sociais. enfim, uma contradição exemplar, como todo bom livro deve provocar.
tem uma frase clássica atribuída ao caio graco e ao mário quintana nas esquinas porraí que diz assim “Livros não mudam o mundo. Quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas”.
sim e não.
é cômodo – e eu já fiz isso por demais – atribuir aos livros – e, consequentemente, à leitura e à literatura – a responsabilidade pela mudança de caráter e de comportamento das pessoas. registre-se que uma mudança para melhor, é claro. digo que é cômodo porque me parece que se exime do sujeito uma tomada de atitude que independe dos livros e uma própria formação cognitiva, psicológica e social que da mesma forma não apresenta relação direta com bagagem leitora.
o romantismo é vizinho da utopia. ambos não me agradam muito porque, a meu ver, apresentam uma fugacidade exagerada – na verdade, ambos apresentam o exagero como condição necessária para um olhar o mundo. e este olhar se coloca muito distante de uma possível realidade, lidando apenas com uma idealização da mesma.
os livros não mudam o mundo e os livros não salvam as pessoas. não são remédios como os vendidos nas farmácias. olhar para a literatura dessa forma é torná-la uma religião: a salvação está em deus. a salvação está nos livros. duas visões simplórias. dois movimentos humanos que se eximem de uma responsabilidade sobre si. o fanatismo já está acabando com o futebol há bastante tempo. não precisa acabar com a arte também.
então o que nos leva a ler? depende, primeiramente, o que se lê. posso afirmar que é o contato com outras vidas que me leva à leitura de romances e de contos, assim como é uma aproximação com possibilidades de trabalho com a linguagem que me coloca junto a livros de poemas. é o meu gosto por futebol que me faz ler crônicas futebolísticas, e é meu trabalho como professor e pesquisador que me tornam leitor de livros teóricos. nada disso me salva de algo. apenas me complementa, ajuda-me a tornar-me quem sou, nesse processo, ainda bem, contínuo, ininterrupto.
para amarrar a conversa, um exemplo: diz assim o personagem antônio jorge da silva, do angolano recém-ganhador do prêmio portugal telecom de melhor romance, valter hugo mãe, em seu “a máquina de fazer espanhóis”: “fora uma ingenuidade da minha parte achar que armado com um livro me armara para todos os inimigos do mundo”. retiremos a frase do contexto no qual ela está inserida – um hospício, lugar em que se passa todo o romance citado – para trazê-la a esta discussão: não é armando-se de livros que alguém vencerá seus inimigos. é lindo pensar assim? pode ser. mas não me satisfaz. traz-me medo, a bem dizer. porque ingenuidade em excesso me preocupa. a vocês não?

prefiro o amargo ao doce no modo de olhar o mundo. porque o amargo ao menos me parece propor uma possibilidade de mudança. o doce estabiliza e deixa estar. até azedar.

ítalo. 

quarta-feira, 17 de julho de 2013

o que é a solidão?

mais uma croniqueta que brota a partir de uma daquelas perguntas-sacanas. e justamente por serem perguntas assim queridas é que as envio aos amigos mais próximos, por acreditar neles, que eles tenham a contribuir com a reflexão proposta.
e tal indagação veio a mim porque tenho reparado que procuro preencher minha solidão com a leitura e a escrita. e que recorro a essas duas práticas pelo fato de elas me possibilitarem uma conversa, uma interação – não necessariamente com outra pessoa, no sentido de ler um escrito de um conhecido ou até mesmo de escrever para alguém próximo. é no sentido de dialogar, ainda que não no mesmo instante, com outra voz, que em algum momento parou para escrever aquilo que eu vim a ler, ou que em algum momento parará para ler o que tou a escrever. (eu, pelo menos, escrevo para ser lido. assumo e defendo este movimento de ir e vir que torna a leitura o que ela é).
o que me ocorreu enquanto elaborava este parágrafo anterior foi que se eu busco a leitura e a escrita para me acompanharem durante minha solidão (porque solidão é período, sempre necessário. mais adiante retomo essa ideia) eu acabo por não me deixar acompanhar apenas por ela, a solidão. parece-me mais uma fuga, já que não tou permitindo-me a ficar de fato sozinho.
estar só não seria não estar interagindo com nada a não ser comigo mesmo?  
essa palavrinha dá caldo, como diz a eliana, minha terapeuta. segundo ela, solidão é um sentimento, e, sendo assim, é subjetivo. “É provável que nossas respostas encontrem eco uma n’outra, algo como um vazio, uma sensação de não pertencimento, de não estar, de desamparo, sensação essa, na maioria das pessoas, localizada no peito”. ela e enzo me fazem pensar naquela solidão sentida mesmo em meio a algum grupo. e edu lembra que não vivemos num deserto, e que, portanto, “temos história, memória afetiva, ligações, compromissos, cultura”, algo similar ao proposto pelo filósofo mário sérgio cortella. como isso é possível? talvez seja o que o david foster escreveu em “infinite jest”: “que solidão não é função de se estar só”. é o não pertencimento.
enzo ainda fala sobre o “estar nada”, defendido por osho, o qual representa aquela solidão que nos leva “pra longe do ego, daquela solidão que precisa de algo, que precisa ser alguém, estar com alguém”. porém, às vezes este “nada” pode ser destrutivo, no sentido de trazer-nos ‘noias’, então que aquilo que vier a preencher tal estado já é salutar: “o nada positivo seria, por exemplo, aquele bem-estar de não sair da cama, amando o dia, a temperatura do ar, a postura que seu corpo alcançou sobre a cama, a paz interior. tomar banho e se perder no tempo. isso é um estado de graça. e, como todo estado de graça, não dura muito tempo. está fadado a falecer, não há como trazê-lo de volta quando você quer”.
enfim. solidão é dinheiro na mão, diz a rafa, cantando paulinho da viola. e a solidão talvez seja um sentimento (é mesmo um sentir?) necessário para alguns momentos da vida porque não considero possível sentir-se só o tempo todo, muito menos nunca sentir-se assim. entretanto, o contrário é o que mais acontece, a fuga desses momentos – que então acabam por serem poucos – nos quais nos sentimos solitários. por que fugimos? talvez pelo fato de a solidão amedrontar. é o que me parece. é poeira tomando assento, como canta o djavan em “açaí”, uma porrada de imagem. e é silêncio, conforme proposto pelo fox, mais uma vez fechando uma croniqueta: “eu continuo com a opinião de que quem melhor pode te responder essa pergunta é uma parede. tudo o que ela não vai te dizer, pois não pode, é exatamente o que você tem que escutar sobre a solidão. o vazio”.
eis a sensação que não nos abandona.

ítalo.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

terça-feira, 9 de julho de 2013

às vezes é no excesso que encontramos alento

o cristovão tezza também é bom nisso de ser cronista. e digo também porque como romancista ele já me ganhou. e cronicando com ele – ou seja, lendo suas crônicas reunidas no livro “um operário em férias” – deparei-me com um cutucão daqueles que nos fazem parar a leitura, sublinhar as linhas e pensar um cadim: “Não é a crise do mundo que faz nascer romancistas e poetas. Eles escrevem porque são eles mesmos que estão em crise – um poderoso sentimento de inadequação, que é a alma da arte, sopra-lhes a primeira palavra, com a qual eles tentam redesenhar o mundo”. e eu sinto a minha tentativa de escrita por aí, pela tentativa de ressignificar o que é vivido.  
há uma veia artística em cada um de nós. o que não significa que a reconheçamos, muito menos que saibamos como explorá-la. há um medo oriundo da arte. de quem a faz e de quem a recebe. um medo provocado pela arte por apenas existir. que talvez não seja medo, e sim estranhamento, uma vez que o novo assusta, nós sabemos. contudo, tememos mas não a largamos. é o canto do pai do mato. atrai-nos para comer nosso coração. e não há maldade nisso. a escolha é nossa de ir até ela, ou de recebê-la quando rompe à nossa frente. e nos incomoda, muito. tira-nos o chão, quebra-nos certezas, ameaça-nos crenças. um rebuliço.
ao mesmo tempo em que é essa coisa tão bonita que canta a elis em “essa mulher”, ser cantora, ser artista. talvez uma eterna inadequação que faz com que brote arte por cada poro.
escrever pra mim, por exemplo, é algo como dar a cara a tapa. é assim que me sinto. é por isso que corro para a escrita. por estar em crise, por sentir-me inadequado, desafinado com o mundo, com as pessoas. por tentar redesenhar esse viver. quase que consertá-lo. porque é importante enfiar o dedo na ferida. deixá-la sangrar. para curar. para dela fazer brotar algo: que seja novo, vivo, intenso, verdadeiro porque de entrega.
e essa escrita que talvez se mostre racional esconde aquilo que dói. esconde o motivo dela existir. dá voltas, permeia, não aprofunda sem que nos permitamos a. no entanto, cutuca e fere, como sendo elemento de cura, se assim a quisermos.
às vezes, penso, é no excesso que encontramos alento. quando a sensação de vazio é tão grande que corremos a preenchê-la: por medo, por fuga, por fraqueza. ser humano é isto. e como é bom dizer que não está tudo bem. que não está mais sendo possível ouvir gonzaguinha, por exemplo, sem que o corpo rasgue por dentro. que a solidão bate mesmo é no momento de preparar um café e de sentar para tomá-lo. suar é sinal de estar vivo, ao menos. é o que dá sentido ao momento de dormir. até que seja possível, então, fazer brotar um texto sem a dor que outrora tomou conta do corpo. será interessante experimentar tal sensação.
assunto pr’uma outra croniqueta, quem sabe, oriunda de outras leituras e vivências.

ítalo.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

vidas que são histórias, traveis

recorro novamente a esse título. a esse dizer. a esse querer de vida que não se acaba. a narrativa é inerente ao ser humano. queremos, sempre, contar histórias nossas, fazermo-nos ouvir perante os outros. assim como queremos, sempre, ouvir histórias contadas por estes outros. a vida são histórias. conhecer histórias é viver. um cruzamento de histórias. costuras de vida. uma palavra é um entrelaçamento de letras. uma história é um entrelaçamento de palavras. e sentires.
a literatura é apenas um dos meios que utilizamos para nos contarmos e para conhecermos mais a nós mesmos por intermédio de personagens aos quais, como leitores que somos, damos vida.
e pensando na vida como história é que eu não paro. pois se eu pudesse escolher um modo de enlouquecer, eu escolheria enlouquecer pela leitura de histórias. escolheria passar a viver como um personagem de um romance que está sendo escrito e lido ao mesmo tempo por alguéns. escolheria ser acompanhado de perto por leitores que me amassem e que me odiassem, que torcessem por mim, que tentassem me ensinar qual caminho seguir.
eu tenho sentido muita falta de ler, em grupos de dois ou mais, histórias de vidas e de  livros. nessa minha vida como personagem eu seria amigo dos personagens do "cordilheira", do daniel galera. e quem sabe eu até viesse à tona, como fazem os personagens da história “coração de tinta”. mas a minha história poderia ser mesmo a história que o cristovão tezza conta no “um erro emocional”. a história do personagem que bate na casa da personagem e lá passa horas conversando sobre o erro emocional que ele cometeu, o de se apaixonar por ela na noite  anterior. maravilhosa narrativa. ela não me sai da cabeça. isso de passar a noite toda a dois, num  apartamento, com pouca conversa – frases pontuais, divagações – mas com muita descrição  psicológica de cada um. eu, como leitor, passei a amá-los à medida que lia suas histórias. seus erros emocionais. afinal, quem é que não cometemos erros emocionais, não é mesmo? e que algo mais furar na própria carne de mexer nisso, de tentar pela fala – e toda a incompletude nela presente – ajeitar o que foi configurado como existência.
essa nossa pretensão humana me seduz também. de para tudo buscarmos uma  explicação lógica e clara a nós. e de sofrermos nessa busca.
assim como lily braun teve sua história contada pelo chico, eu visualizo minha história sendo contada por alguém. e saindo da imaginação e ficando cá na terra (a mafalda é muito linda quando está se balançando num balanço, leve como a vida, e ao parar diz “é só por os pés na terra que acaba a diversão”) é claro que há uma história sendo contada e sendo lida. a gente conta a si mesmo e aos demais. e a gente lê e é lido. e é tudo isso que nos significa. a gente vive dando significado ao mundo, nosso e ao nosso redor. mas minha história também está sendo cantada por aí no ritmo da de lily braun. como num romance, em que eu me pego mais escrevendo do que falando sobre os meus erros emocionais, na vã ilusão de compreendê-los e de ajeitá-los a partir de alguma compreensão.
mas se a gente deixar apagar essa vã ilusão, do que viveremos? é preciso voar para pousar outra vez com os pés na terra. as duas atitudes são pra lá de necessárias. todos  precisamos de alguém para nos chamar de anjo azul. precisamos abusar do scoth, comer e ser comidos, com os olhos e não. precisamos perder a pose e sorrir feliz. desmilinguirmo-nos ao som de blues e do que mais tiver para ouvir. e para sentir.

acho que a gente precisa se permitir a contar mais e ser mais contado. antes, a gente precisa querer mais isso. sem saber mesmo no que vai dar.

ítalo. 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

"cara, foram só móveis"


eu hoje mudei de lugar os móveis do meu quarto. o que antes era dormir de costas para a janela, agora representa encarar o que há lá fora. fazer somar com o que há aqui dentro. ressignificar o dia-a-dia. e, com esse movimento, eu folheei livros enquanto revirava vivências, e assim cheguei ao “vermelho amargo“, do bartolomeu campos de queirós, e a este dizer: “o tempo - capaz de trocar a roupa do mundo“. e os móveis e as lembranças de lugar.

ítalo.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

arte mimética

durante o banho
sentou no colo
e foram pra sauna.

é tão fácil matar o amor.

ítalo.

terça-feira, 25 de junho de 2013

não é impossível ser feliz sozinho, tom.

e desculpe-me se faço do título desta croniqueta um diálogo. veio-me tão forte isso que desejo expor sem cerimônias. algumas frases sabem ser porradas, cabendo-nos, então, bem utilizá-las com esta função. é o caso.
quem é que nunca teve medo de amar, não é mesmo, tom?
o pescador, por exemplo, tem dois amores. um bem na terra, um bem no mar.
às vezes, é saudável ser sozinho, você não acha? até a beleza passa sozinha, a da garota de ipanema. acredito que de conflito o mundo já está repleto, portanto, um cadim de paz é sempre bem vindo. e com isso defendo a ideia de que muitas das relações que estabelecemos com as pessoas causam-nos dores e infelicidades. o que era para ser bom, assim não o é. fundamental é mesmo o amor, sem dúvidas. porém, é possível amar lá de longe, lá do mar, daquilo que não sabemos contar. o que pode levar-nos a relativizar este estar sozinho. isoladamente numa ilha não vivemos, então sozinho não somos. é condição humana básica a interação com outros seres, afinal, até mesmo robinson crusoé criou formas de sentir-se acompanhado na ilha onde esteve por mais de trinta anos. contudo, desassociando-nos da condição de namoro, por exemplo, torna-se possível tal viver. sendo assim, confundindo-me todo e quase vulgarmente falando, dá e não dá para ser feliz sozinho.
há quartas-feiras em que é só jogar a rede. e puxar.
joão ninguém que nos diga.
mudando um pouco de assunto, e ouvindo outra música, no peito dos desafinados também bate um coração, canta você. e eu leio a palavra desafinados para além do significado básico de alguém que não canta afinadamente. desafinado sou eu, muitas vezes grosseiro. desafinado somos nós, humanos incompreensíveis. desafinada é a vida, essa alternância de sentires e razões. e que bom. seria tão mais desgastante se nos mantivéssemos sempre os mesmos, não é? tão irrelevante se todo o dia acertássemos acordes e tons. vezemquando é válido ser vinícius de moraes.
quem não pede perdão nunca é perdoado.
é preciso dizer adeus. à insensatez. ou: ah, insensatez.
é pau, é pedra, é o fim do caminho. é o apito da fábrica de tecidos. ora é o corpo na cama, ora é a lama, é a lama. é a tristeza que não tem fim, a felicidade como a pluma que o vento vai levando pelo ar. que culmina com o medo matando o coração, afinal, é desconcertante rever o grande amor. e se você faz uma canção para esquecer luiza, há quem escreva croniquetas para exorcizar paixões também. minha alma não canta, tom, ela escreve. mesmo que seja um texto assim tão desprovido de energia. como diz uma amiga minha, é que nos falta intimidade, tom. a mim e a ti.

o importante é deixar o índio vivo. é fazer o passarim pousar. 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

ô, gonzaguinha,

eu apenas queria que você soubesse que aquela alegria ainda está comigo. que a minha ternura não ficou na estrada, que eu me olho bem fundo até o dedão do pé – por isso me gosto muito mais também – e que vou escrevinhar tudo em letras minúsculas, tá? porque acredito que você merece, você merece. e porque me remete a uma conversa mais intimista. de repente, tudo num só parágrafo, que é pra confundir, pra complicar a leitura. tipo suas músicas, estas que tanto nos exigem atenção e cuidado no ouvir. são elas que me sugerem uma intimidade entre nós dois. você também sente, não? aqui, então, tudo vai bem, tudo legal. ou quase. mas tá. o caminho é esse. o lance é colocar um sorriso nos lábios – pagando a prestação ao final do mês –, mesmo que amanhã acabem com o nosso carnaval. até porque é só sonhar que passa. deus tudo vê e deus dará, diz você. eu acho graça. é viver e aprender. e o que importa essa dor feito faca no peito, não é mesmo? um dia ela estanca e a gente dá jeito. agora nas ruas seguimos. ‘inda que às vezes o corpo esteja que é só bagaço, em pé de teimoso que é. é. nós vamos levando este barco – nós, os milhões de palhaços e de arlequins, vozes de um só coração – buscando a felicidade. afinal, quem não quer a alegria e a felicidade, né? sim, nós, os equilibristas da fé, esses grandes artistas da vida. afinal, temo-la inteira nas mãos. porém, confesso a você que não ‘guento mais ouvir que ela devia ser bem melhor e será. caíram num clichê desgraçado esses versos seus, homi. é canção bonita que só, de astral elevado, tudo bem, mas não é uma doce ilusão? tal qual a pureza da resposta das crianças. sabe, prefiro tirar “o que” e ficar com “é”. esta, sim, um soco na boca do estômago. são os socos que nos fazem respirar melhor, já reparô, gonzaga filho? e o fato de a gente querer viver felicidade, e de não conseguirmos, atordoa-nos. e é assim que a gente passa a olhar pra gente, pros cidadãos que somos, pra nação que constituímos. a gente quer viver o nosso amor, porém, e se este não for correspondido? se é amor, deu e recebeu, canta você. ‘tão tá. até mesmo porque quem é que não acredita na alegria de ser? a gente quer tanta coisa na vida, ô, gonzaguinha. a gente quer calor no coração, a gente quer carinho e atenção. assim como a gente deve tanta coisa. com a perna no mundo, resta-nos ir à luta – mesmo que isto signifique ficar parado onde estamos. amanhã ou depois. deixa dilson e vamos nelson, afinal, o homem falou. e o futuro é o que virá, mas e daí? a gente acredita é na rapaziada. que seguramos a batida da vida o ano inteiro. coragem, hein? fazemos parte desse medo coletivo, no qual a fábrica de sonhos acabou. mas quando que foi fundada a escola de samba unidos do pau-brasil mesmo? e por que guarda-sol nunca foi frô? tá vendo como são difíceis as músicas suas? e por isso é que me agradam, é que me convidam a voltar a elas. e já que ninguém é feliz sozinho – nem o pobre, nem o rei – buscamos nossos meios de estarmos entre outros, e às vezes a música é a melhor companhia, ou até mesmo curtir uns bailes da vida. tudo pra tirar a ansiedade do peito, relaxar e gozar. ‘bora, então, levar o samba com união, meu querido? não deixando ninguém atrapalhar a nossa passagem. ôô, eô, eá. o brilho das pessoas é bem maior. um beijo. 

quinta-feira, 23 de maio de 2013

poema do caio



não curto o caio fernando abreu poeta. aleás, curto dele somente o "morangos mofados" e a narrativa infanto "as frangas". mas fuçando esse "poesias nunca publicadas", lançado pela record ano passado, li e reli e treli um poema. e abri mão um pouco dessa minha chatice-leitora, vindo até a gostar do dito cujo. que é este:

"há sempre um dia em que não se morre
porque morrer seria redundância
e reduzida à sua essência mais secreta
a vida continua pulsando porque seria
mais difícil estancá-la que continuar
assim, a seco, coração anoitecido
pela sombra e a soma de todos os desencantos,
[sem rumo algum pelo/sem sentido de todas as coisas]

há sempre um dia em que se tem vontade
de expor aos passantes a chaga aberta,
como os mendigos expõem feridas nas calçadas,
chapéu ao lado, para que nos joguem moedas,
olhares de pena, desprezo ou simplesmente nojo
mas tão difícil mostrar as cicatrizes quando a vida
foi ensinando, lenta, o jogo necessário de escondê-las.

há sempre um dia em que nos perguntamos
fui eu quem me fez assim ou me fizeram?
e a resposta importa pouco, importa nada;
seja qual for, não voltará jamais o que perdeste
em alguma esquina do caminho, não sabes onde,
não sabemos como, e mesmo o choro então é pouco para 
[tua dor
E ainda que compres rosas ou vás ao cinema ou cantes
uma canção qualquer, o que persiste é a morte
com seu roteiro de vermes e distâncias.

no dia seguinte ao dia em que não morremos,
iniciados na tarefa de tecer o inútil
trocamos os lençóis, lavamos o rosto, arrumamos a casa e
[partimos para a rua
sem que ninguém perceba o epitáfio sobre a fronte".

(18 de agosto de 1980)

afinal, quando é que não nos sentimos assim?

ítalo.