domingo, 4 de novembro de 2012

Sempre preferir o difícil



A que? Ao que é fácil (oposição óbvia). Ao que é convencional também.
Tudo o que vive cabe lá (no difícil), diz o Rilke, em um trecho do seu livro “Cartas a um jovem poeta”, de onde vem esta frase-que-agora-é-título-da-croniqueta. Que veio (esta frase) de um despretensioso – porrisso maravilhoso – e-mail do Edu, em que a divagação proposta fazia referência a uma contradição que muitos dizeres pode render: a de sentir-se só e amar o outro. Duas baitas dificuldades. “É bom estar só porque a solidão é difícil. Amar também é bom, porque o amor é difícil”. E por aí continua dando cacetadas, o Rilke.
Como versado pelo Alberto Caeiro, “Pensar incomoda como andar à chuva”, e nos leva a um lugar solitário. Percebe-se, através do pensar – e do sentir que é natural e não forçado – o quanto acabamos por criar necessidades pré-estabelecidas, e não de fato sentidas. Um ato leva ao outro, e eis que nos encontramos, de repente, envoltos em um lugar (físico e cognitivo) com o qual não nos identificamos, e, sim, forçamo-nos a estar. Então mentimos a nós mesmos para agradar a alguéns.
Porque se torna o caminho mais fácil a ser traçado. E não são muitos os que se dispõem a encarar o que é difícil. E não é sempre que se dispõe a encarar o que é difícil. Dá trabalho. Exige. Tira o chão. E como faz pra andar sem ter onde pisar?
É preciso abrir mão de muita vida para viver.
(Se pudéssemos compreender a solidão e o amor, eles se tornariam menores do que nós, talvez. E, não, não iremos compreendê-los; mas, sim, é possível que saibamos como lidar com eles dentro de nós. Sempre cuidando como se em nossas mãos estivesse a bola de vidro com a profecia de nossas vidas (vide Harry Potter, é claro)).
Abrir uma conversa é, muita vezes, melhor do que fechá-la.
Camila, com dois socos, dá continuidade ao assunto: “Amar é uma coisa bastante pensada, é sensatez pura. É equilíbrio”. Enquanto ideal, é. Enquanto prática, como não cair na talvez dualidade amor x paixão? É o equilíbrio-idealizado que se busca na arte de estar só. Momento em que vem o outro dizer camilesco: “Quase nunca se escolhe estar sozinho sem antes se sentir obrigado a estar só”. A gente aprende estando. Ou tentamos aprender, sem garantia de objetivo realizado. Um equilíbrio que pode ser o apresentado por Edu: “Encontrar alguém que também procure amar o outro enquanto trabalha a si próprio”. Não é egoísmo, não é olhar somente para si próprio. O que falta, na verdade, é deixar de olhar somente para o outro, é deixar de buscar no outro um preenchimento para o vazio que tá dentro de cada um.
Acredito que a gente acerta em buscar fazer aquilo de que gostamos. Essa é a maior alegria que nos cabe. Porque a alegria não é somente uma fuga. Pode ser, também, a manifestação do que de mais íntimo expressamos. “Ser humano é também ser alegre”, bem lembra a Milesca. Até mesmo porque a alegria, quando forçada, machuca, né? E, como bem citado por Enzo, “A pessoa mais feliz que eu já conheci só era feliz a maior parte do tempo porque carregava consigo uma infelicidade indelével do passado”. A ausência de parâmetro complica o olhar.
E acredito que caiba esta frase da Flannery, lembrada pelo Enzo, para não fechar esta conversa, e, sim, abri-la ‘inda mais: “Um deus que você pode compreender é menor do que você”.

ítalo. 

3 comentários:

Eduardo Silveira disse...

dorei tudo.

Beverley de Graustark disse...

eu comentei isso antes!! como assim sumiu? cadê a Vanessa que tava em cima de mim?!

Milene Maria disse...

"A um certo modo de olhar, a um jeito de dar a mão, nós nos reconhecemos e a isto chamamos de amor. E então não é necessário o disfarce: embora não se fale, também não se mente, embora não se diga a verdade, também não é mais necessário dissimular. Amor é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor, porque amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusões. Há os que se voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor. E não é prêmio, por isso não envaidece, amor não é prêmio (...)"

:)