sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O samba engana


            Com o perdão da rima bastante pobre no título, leitor, escreverei esta croniqueta discorrendo (que verbo horrível) sobre a contradição que o samba apresenta aos ouvintes da “boa” música – e aqui o adjetivo boa está entre aspas porque me parece sempre necessária uma reflexão acerca das dualidades bom/mau, mal/bem, entre outras, algo que não farei nestas breves linhas, é claro.
            Conforme canta o Seu Jorge, “o samba taí, o samba tá, tá no sangue daquele que sabe sambar” – e até dos que não sabem, ainda bem. Porque não curte samba só quem samba. Há quem seja apenas um bamba, um alguém que apenas arrisca uma trocada de pernas e uma gingada, quase sempre errando, e nem por isso menos contente.
Mas quem é que se atreve a dizer do que é feito o samba? Os Los Hermanos é que não (e aqui não há nenhum desmerecimento ao conjunto carioca de nome argentino, e sim apenas uma observação: eles não são peritos em samba). Mas compuseram uma beleza de música, com esta indagação acima. E acrescentando que se samba por gostar de alguém. E que um bom samba não tem lugar. E não tem mesmo. Vale fundo de quintal, vale sacada de prédio, vale calçada e vale a romantizada botecagem no bar.
(Só não vale confundir samba com pagode. Assunto pr’uma outra croniqueta).
            Caetano é de cantar que o samba ainda vai nascer, que o samba ainda não chegou, que o samba é pai do prazer e filho da dor, e que desde que o samba é samba é assim: a tristeza é senhora. E é aí que eu retomo o título: o samba engana. Engana porque, ao apresentar um ritmo envolventemente-gostoso, faz o sujeito que é bom da cabeça cair em uma alegria contraditória à letra que está sendo cantada; faz vibrar de alegria o corpo que saracoteia ao som de trem das onze, e que não percebe que não se pode mais ficar um minuto com a pessoa amada, pois, perdendo o trem que dali às onze horas sairá, só amanhã de manhã.
            As mulheres são cantadas em todos os sentidos no samba. Mais do que isso: são cantadas as dores que provocam nos sambistas e compositores – e nos homens em geral. Essas moças tão diferentes, não é mesmo, Chico? Fica fácil embalar-se no ritmo dessa canção, sem atentar-se para a dor da moça que, diferente, está me passando pra trás. Por mais que no fundo ainda me queira bem, ela guarda desdém, a safada. Igual a tantas outras.  
            O samba é aquilo que nos leva a andar com a cabeça já pelas tabelas. Porque um samba leva a uma lembrança - ou a uma cerveja -, que leva a outra, que leva a uma roda de pernas a bambar, que leva a um samba e batem-se panelas e palmas e. E de repente as mãos são erguidas, a voz vai alta e o coração não dá o alerta de que se está cantando “Tu te lembras da partida / Acenaste um pano branco / Mãos ao ar, fala contida / Choro preso em acalanto”.
            Tá legal, eu aceito o argumento de que há também o samba de letra entusiasmada, afinal, como é bom viver e não ter a vergonha de ser feliz, não é mesmo? Assim como faz bem aquele sambinha lento, pra dançar mais abraçado, aquele samba que vem pra curar o abandono, ou até mesmo para torná-lo mais grave. São nossos sambas da benção, lembrando-nos de que a tristeza pode até não ter fim – apesar do ritmo contagiante – e de que, apesar de ser preciso um bocado de tristeza pra fazer um samba com beleza, é melhor ser alegre que ser triste, sim.
E não nos esqueçamos de que não se deve deixar o samba morrer. Não se deve deixar o samba acabar. Por mais que ele doa e engane.

ítalo.  

terça-feira, 27 de novembro de 2012

não duvides do meu gingado

morena provocadeira - 
pra não dizer assanhada - 
poemizou para questionar
minha capacidade sambística.

ôxe, mas que coragem
disfarçada de querer.
uma provocação que esconde
em si um convite.
um, não. dois.
ambos aceitos, morena.

o primeiro aqui está:
um cadim de versos meus direcionados
ao teu requebrado.
tais vendo-me daí?
tou cá sambando enquanto rabisco - 
aliás, samba e rabisco formam um par,
assim como tua provocação e meu aceite.

nesse momento, a música já vai pela metade
- ouve daí - 
boa parte do salão já foi riscada.
tou vendo-te  só de canto de olho
no meu gingado com a loira da página ao lado.
porém, não te remoas.
ela pode até sambar, mas não (re)quebra.

minha veia poética é causar-lhe ciúmes.

e para satisfazer teu segundo desejo
é preciso que venhas até aqui o sul.
já subi por ti, estamos combinados?
tá mais do que na hora de desceres por
(ou em) mim.

(e o rio de janeiro pode até ser boa pedida,
mas te juro amor eterno até a quarta-feira
somente.
de cinzas).

nesse mundo vasto mundo
aceito conduzir-te num samba meu
- sem compromisso - 
pra fazer-te a língua suar
e queimar
e o pé calejar
de tanto querer.  

ítalo.

em poema-resposta
para moni

terça-feira, 13 de novembro de 2012

levar escritores para a sala de aula


sempre foi prática minha. e hoje pude repeti-la. baita satisfação!

hoje as minhas crias das 6as séries receberam um escritor. encheram-no de cartazes, lindamente desenhados para apresentar ao autor de "a flauta mágica", obra que reconta, com elementos indígenas e amazônicos, a clássica ópera de mozart. puderam perguntar tudo o que queriam sobre esse mistério que é escrever um livro e ser escritor. puderam vivenciar a leitura de uma maneira mais próxima. puderam ter um livro autografado. obrigado, roberto lanznaster. obrigado, alunos.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Você sente saudade de que?

          
Eis que, lendo “A máquina de fazer espanhóis”, do Valter Hugo Mãe, deparei-me com um forte trecho (redundância para a produção deste portuga) em que o personagem-narrador, silva, de 84 anos, descreve a saudade que sente da recém-falecida esposa e lança esta frase: “que a vida era só isto. é só isto, um novo modo de ter saudades, ou de lhes sobreviver”. Então, como me é característico, resolvi dar um alou, via e-mail, a alguns amigos. Um alou bastante singelo. Título do e-mail: perguntinha boba; conteúdo: você sente saudade de que? Como diz uma amiga minha: “de onde tu tiras essas perguntas cretinas?” Pois é.
            Saudade é sentimento pouco presente em uns e outros. Há quem não morra de saudades. E que é cobrado por não demonstrar tal sentimento. E cá fico perguntando-me de que forma se ajeitam na vida os que sentem tal sentir por pessoas de outras nacionalidades, afinal, não é palavra só da língua portuguesa esta saudade? “Mas como sentir saudade de um momento se ele fica grande exatamente pelo momento?” Como? Levando em conta que a falta incorporada ninguém nos tira, talvez.
            Tem gente que leva a saudade até Ilhota, aos sábados pedalando com alguns amigos. Que a leva até os natais em família, “uma festa louca e sem noção”. Assim como há os que sentem saudades “de poucas coisas”. E não as citam. Com justiça. Poucas coisas tais como: do segundo ano do ensino médio; de falar e sentir o cheiro da avó; de cama feita e dos cachorros; de padarias; de amigos; “de pessoas, claro, mas isso falta em todos os lugares”; de ver – com os olhos físicos – o pai; de ter os pais juntos; “dos irmãos também”; de comer empadas com o avô; e do amor. E de amar: amarga que nem jiló.
            Pessoas admiráveis, estas que se escancararam, mesmo que pouco. Saudade de um amor carnal e também de alma, “que a gente insiste em achar que é pra sempre, mas sempre não é e talvez nunca seja. De acordar junto, de às vezes dormir separado”. Sentir falta “de uma possibilidade de carinho que só acredito fazer-se presente num relacionamento amoroso”. Tão corajosas quanto os que dizem não sentir saudades da infância, “porque as alegrias do passado podem ser renovadas”.
            Mas há a saudade da infância em alguns, sim; de jogar futebol – e sinuca –, de comer caranguejo, e até saudade de mim – e das minhas aulas, afinal, aluno bajulador é sempre bem-vindo. Ora veja. Gente que responde enchendo-me o ego: “saudade de olhar pros livros que vêm junto contigo”; da casa de mãe minha – e dos que por lá passam –, do meu cabelo seboso, da minha risada escrota; “vish, tanta coisa”. Sem contar os dizeres da mãe e das tias, estas, sim, justificando a relação familiar e clamando pela minha presença. E até saudade dos primos, estes familiares tão próximos e tão distantes.
            Sendo assim, não satisfeito em provocar, lancei a mesma indagação no facebook e no twitter. E o pessoal resolveu encarar este olhar-pra-dentro. Até saudade de uma morena capixaba apareceu, vinda – esta saudade – de um jaraguaense. Porque a saudade não tem distância, dizem. Até da Hebe Camargo vale. Assim como de si mesma – puta saudade pra doer, hein? Saudade daquilo que ainda não foi vivido; daquilo que já foi e não volta: o primeiro ano da faculdade, por exemplo. Saudade do verão, do mar e da areia da praia; do anjo da guarda; de cheiro de neném; de pessoas distantes e de quando não era preciso estudar para matemática. Justo. Saudade de fim de tarde caminhando pelos canteiros.
            E ainda há os que não responderam. Compreensível. Tanto quanto os que responderam e devolveram a mim a pergunta. Ora, não é pergunta que se responda. (Muito menos com palavras impublicáveis, como uns e outros fizeram). Cabe, sim, finalizar esta croniqueta com um convite: ouvir “brigitte bardot”, do zeca baleiro. A saudade é prego parafuso, não nos esqueçamos.

ítalo. 

domingo, 4 de novembro de 2012

Sempre preferir o difícil



A que? Ao que é fácil (oposição óbvia). Ao que é convencional também.
Tudo o que vive cabe lá (no difícil), diz o Rilke, em um trecho do seu livro “Cartas a um jovem poeta”, de onde vem esta frase-que-agora-é-título-da-croniqueta. Que veio (esta frase) de um despretensioso – porrisso maravilhoso – e-mail do Edu, em que a divagação proposta fazia referência a uma contradição que muitos dizeres pode render: a de sentir-se só e amar o outro. Duas baitas dificuldades. “É bom estar só porque a solidão é difícil. Amar também é bom, porque o amor é difícil”. E por aí continua dando cacetadas, o Rilke.
Como versado pelo Alberto Caeiro, “Pensar incomoda como andar à chuva”, e nos leva a um lugar solitário. Percebe-se, através do pensar – e do sentir que é natural e não forçado – o quanto acabamos por criar necessidades pré-estabelecidas, e não de fato sentidas. Um ato leva ao outro, e eis que nos encontramos, de repente, envoltos em um lugar (físico e cognitivo) com o qual não nos identificamos, e, sim, forçamo-nos a estar. Então mentimos a nós mesmos para agradar a alguéns.
Porque se torna o caminho mais fácil a ser traçado. E não são muitos os que se dispõem a encarar o que é difícil. E não é sempre que se dispõe a encarar o que é difícil. Dá trabalho. Exige. Tira o chão. E como faz pra andar sem ter onde pisar?
É preciso abrir mão de muita vida para viver.
(Se pudéssemos compreender a solidão e o amor, eles se tornariam menores do que nós, talvez. E, não, não iremos compreendê-los; mas, sim, é possível que saibamos como lidar com eles dentro de nós. Sempre cuidando como se em nossas mãos estivesse a bola de vidro com a profecia de nossas vidas (vide Harry Potter, é claro)).
Abrir uma conversa é, muita vezes, melhor do que fechá-la.
Camila, com dois socos, dá continuidade ao assunto: “Amar é uma coisa bastante pensada, é sensatez pura. É equilíbrio”. Enquanto ideal, é. Enquanto prática, como não cair na talvez dualidade amor x paixão? É o equilíbrio-idealizado que se busca na arte de estar só. Momento em que vem o outro dizer camilesco: “Quase nunca se escolhe estar sozinho sem antes se sentir obrigado a estar só”. A gente aprende estando. Ou tentamos aprender, sem garantia de objetivo realizado. Um equilíbrio que pode ser o apresentado por Edu: “Encontrar alguém que também procure amar o outro enquanto trabalha a si próprio”. Não é egoísmo, não é olhar somente para si próprio. O que falta, na verdade, é deixar de olhar somente para o outro, é deixar de buscar no outro um preenchimento para o vazio que tá dentro de cada um.
Acredito que a gente acerta em buscar fazer aquilo de que gostamos. Essa é a maior alegria que nos cabe. Porque a alegria não é somente uma fuga. Pode ser, também, a manifestação do que de mais íntimo expressamos. “Ser humano é também ser alegre”, bem lembra a Milesca. Até mesmo porque a alegria, quando forçada, machuca, né? E, como bem citado por Enzo, “A pessoa mais feliz que eu já conheci só era feliz a maior parte do tempo porque carregava consigo uma infelicidade indelével do passado”. A ausência de parâmetro complica o olhar.
E acredito que caiba esta frase da Flannery, lembrada pelo Enzo, para não fechar esta conversa, e, sim, abri-la ‘inda mais: “Um deus que você pode compreender é menor do que você”.

ítalo. 

twitt fora do twitter #17


porvir é palavra linda. 

ítalo.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

bichos convidados pelo ondjaki - IV

em seu "há prendizajens com o xão":

carochinha: gosta mais de habitar sonhos, mas apareceu.

cuco: um mágico. ser que faz cócegas embalatórias às arves e pode lhes adormecer em alguns segundinhos. tem problemas reumáticos no pescoço. sabe avoar parado.

porco-espinho: nunca casou, só mantém relações sexuais para os enfeites da reprodução. (“e mesmo assim dói; é experiência de se evitar...”).

preguiça: aprendiz na arte de existir ao contrário. grande mestre em ociosidade permanente, bocejo fácil e deliciosa sonolência. evita fazer qualquer mínima coisinha para nunca cair nesse hábito. desconhece o vocábulo “labor”, proclamando que as formigas já trabalham por todos.