sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O medo que um livro ainda provoca


Em 2009, lembro-me, foram retiradas mais de centenas de milhares de exemplares do livro “Aventuras Provisórias”, do escritor catarinense, radicado em Curitiba, Cristovão Tezza – o, à época, ganhador do maior prêmio de literatura do país, o Jabuti, com o romance “O filho eterno”. Isto devido ao chilique de alguns pais e professores alienados que argumentaram que o livro continha elementos “perigosos” para os adolescentes: alguns palavrões e referência a uma relação sexual. Como se na vida para além dos livros os adolescentes não estivessem em contato com esses “perigos”. Imagino que estes mesmos pais e professores tenham cortado as novelas televisivas de seus filhos e alunos também. Seria o mais coerente.
A falsa moralidade sofre com as diferenças.
Agora, 2012, deparamo-nos com a proibição do uso do livro “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, nas escolas, devido a uma ação, junto ao MEC, do Instituto de Advocacia Racial (Iara), que vê nesta obra a presença de trechos preconceituosos à cor negra.
A literatura era, para Monteiro Lobato, um instrumento de transformação. Literatura, para o maior escritor infantojuvenil que o país já teve, era a própria vida. Foi a partir da vida à sua volta que Lobato construiu sua literatura – tanto a adulta quanto a infantil, esta última alcançando uma repercussão inigualável até os dias de hoje. O Monteiro Lobato homem pouco difere do Monteiro Lobato escritor. Crente de que a literatura representava a vida, em sua obra Lobato deixa claro esta convicção. Seus personagens retratam pessoas próximas, retratam pessoas que existem na vida real, retratam modos de viver e de pensar, retratam uma linguagem que reaproximou o leitor do texto literário, porque coloquial e nem por isso menos inteligente.
Era, o autor, um nacionalista que acreditava na independência do Brasil através da independência econômica, e não era preconceituoso racialmente, como alguns afirmam em função de Negrinha ser apresentada numa posição inferior em sua obra, ou de Dona Benta ser uma empregada doméstica de cor negra. Quando discorria sobre as figuras negras inferiorizadas, ele apenas apresentava uma leitura crítica de uma realidade social da época.
A literatura é tão importante para uma sociedade justamente por permitir aos seus leitores o direito à liberdade de interpretação de um texto, o aprendizado do respeito às diferenças. Porém, ela não tira do leitor aquilo que ele traz dentro de si – no caso, o preconceito. Assim como não existem escritas inocentes, da mesma forma não existem leituras inocentes. “Toda história é uma interpretação de histórias: nenhuma leitura é inocente”, já afirmara o crítico literário Alberto Manguel. Não há como se ler algo sem relacionar a outro algo, ou já lido, ou já ouvido, ou já presenciado. É dessa forma que a leitura, seja ela literária, seja de jornais, revistas, de imagens, ou de qualquer outro meio, enriquece aquele que dela faz uso, desde que devidamente contextualizadas. Ler um livro ajuda a ler o mundo.
O ato de ler pressupõe uma leitura não somente de textos, de palavras escritas. Não somente de imagens ou de sons. Mas sim uma leitura de nós mesmos e daqueles com quem convivemos. Ler é, também e principalmente, saber ler a si mesmo e ao outro com o qual se estabelece uma relação de viver. E cada leitor constrói uma história própria de suas leituras, assim como cada texto apresenta também sua história própria. É preciso saber que a vida não pulsa somente na televisão ou nos best-sellers. Ela está, também, nos livros que provocam o leitor, que propõem um revisitamento às próprias vivências. Ela pulsa da mesma forma nos livros de um Cristovão Tezza, de um Rubem Fonseca, de um Marçal Aquino, de um Dalton Trevisan, de um Monteiro Lobato. Privar alguém de conhecer a vida por este meio é lhe cercear a liberdade de interpretar o mundo no qual está inserido, de aprender com o livro, este elemento de subversão que ainda provoca medo naqueles que querem ter o mundo para si e aos seus olhos como se fosse uma bola de futebol da qual se é dono.

ítalo.
(também publicada aqui)

12 comentários:

Enzo Potel disse...

Ítalo, a coisa é mais clara do que parece.
O Monteiro Lobato era racista. Ele foi admirador da "eugenia" e achava que podia colocar preconceito de uma forma indireta em sua ficção. As cartas deixam isso bem claro:

Escreve Lobato a Neiva, em 1938: "Um dia se fará justiça ao Ku-Klux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca - mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destrói a capacidade construtiva".

http://bravonline.abril.com.br/materia/monteiro-lobato-e-o-racismo#image=165-capa-racismo-1-g

Mas daí vem a nossa maturidade ou não como leitores. O escritor tem que ser um mártir? Tem que ser um anjo? Tem que ser perfeito? Ele pode ser humano? Podemos aceitar seu lado positivo e negativo, conversar sobre isso, mostrar as coisas e as pessoas e as épocas como elas são?

O problema não está mais nem em Lobato nem no Ministério da Cultura. Eu acho que o problema está no professor.
Alguém tem que saber ensinar.

Inté!

Enzo

Í.ta** disse...

enzón, gostei do que tu trouxe. mas, uma vez que o ministério da educação tem que tirar o livro por conta da ação da iara, isto não cabe primeiro ao professor. depois, se o livro chegar ao professor, aí, sim, torçamos para que tenhamos professores que saibam contextualizar o texto lobatiano. torçamos.

Beverley de Graustark disse...

o jeito é encaminhar tudo pro Ministério da Magia mesmo. kkk

Anônimo disse...

(está faltando a opinião de katherine mansfield sobre o assunto.)

Eduardo Silveira disse...

tá, te falei ontem né na mesa do bar(melhor rede social). Que de fato ele era racista e da incoerência que há no ato de julgar um livro da década de 20 com olhos (valores) do século XXI. A abolição da escravidão no Brasil foi tardia, não me surpreende haver adeptos/simpatizantes da eugenia ou de ideais racistas, mesmo entre os grandes. Lobato foi um visionário por muitos motivos, mas nesse ponto era culturamente atrasado, convenhamos.

Quanto ao papel do professor, concordo com vcs, mas não dá pra deixar na mão deles, vcs sabem. Tem de resolver a pendenga antes de chegar ao professor. Nem todos (a maioria) não tem bagagem pra sustentar suas próprias opiniões sobre o assunto, que dirá mediar uma leitura polêmica com crianças.

O problema que vejo, e sobre o qual ainda não consegui chegar a uma conclusão é da existência/inexistência de "risco" em apresentar a crianças - seres em formação - um material com conteúdo racista. Dessa vez é um caso bem mais complicado do que o episódio tezza.

Nina disse...

Eu fico sinceramente triste com esse tipo de situação. Parece que antecipamos o futuro de Bradbury no imaginário de "Fahrenheit 451". Nossos jovens cada vez mais motivados pela televisão e internet, deixando de lado o bem mais precioso que temos: os livros. E tudo isso por parte dos adultos. Lamentável.

Eduardo disse...

Realmente, nada mais do que falso moralismo.

Proibir Monteiro Lobato no Brasil seria como proibir Mark Twain nos Estados Unidos (Ainda tenho que fazer um texto sobre a relação Twain-Lobato, e como esse gênio americano influenciou nosso gênio brasileiro). O que os livros de ambos autores fazem é retratar a realidade como ela é e usar a linguagem coloquial dentro de uma realidade que era sim racista. Quem lê ambos os autores tem que estar cientes da época que as obras foram produzidas e assim entenderem o contexto. Independente dos valores morais de Monteiro Lobato, seus livros não deveriam ser proibidos por causa disso. É como já citaram, é preciso uma instrução do professor para que os alunos entendam a época, e o porque de tal linguagem racista. Afinal, há quem acredite que alguém de Missouri ou do interior paulista vai, ainda mais em suas respectivas épocas, chamar alguém de "afro-descendente"?

Eduardo Silveira disse...

"Independente dos valores morais de Monteiro Lobato, seus livros não deveriam ser proibidos por causa disso", neste ponto concordo. Céline, por exemplo, era de um anti-semitismo asqueroso e perderíamos romances sensacionais se expurgássemos sua obra. A questão é que estão apontando o preconceito nas obras de Lobato, em trechos, e não apenas na vida pessoal dele.
E além do mais Céline não escrevia pra crianças (gostaria mto que alguém trouxesse ideias quanto a isso, pois aí reside minha dúvida quanto à procedencia ou não dessa polemica, desse impedimento)

Isso do Twain... é um caso bem diferente do Lobato, né? Lobato era um eugenista, oh my! Acho que o Twain se aproxima bem mais disto que íta descreve no post: descrevia a sociedade como era, estratificada e preconceituosa.

Í.ta** disse...

edu´s (rsrs),

eu acredito que o texto seja do leitor. havendo preconceito ou não, isto é do leitor. ele, preconceituoso, assim enxergará o texto. não sendo, saberá ler aquilo como um olhar diferente para o mundo. é a isto que me refiro como falso moralismo. tá no leitor o preconceito.

o fato de serem crianças, aí, sim, exige uma mediação do texto referenciado, uma vez que pode levar, sim, a errôneas interpretações. mas, mesmo que não possamos confiar plenamente nos professores (ou até mesmo nos pais), proibir não é caminho. a meu ver, nunca.

abraços e agradecido pelo papo.

Beverley de Graustark disse...

Gente, venho agora falar de uma gostosa que eventualmente ainda é proibida em alguns colégios dos USA por suposto racismo. Ela. A única. A inalcançável. A pavoa-mãe da literatura norte-americana: Flannery O´Connor.

Assim como o Lobato, não é só a ficção dela que acaba, em alguns momentos, apresentando o negro de um jeito menosprezível... (assim como em alguns momentos ela também mostra brancos de um jeito menosprezível). Mas a postura dela, as frases em cartas e entrevistas e etc.

É que ela achava que as questões da pele eram muito pequenas quando comparadas com as realidades Superiores, o que gerava frases muito ambíguas e sarcásticas.
Por exemplo... acreditando que somente o tempo e a história dariam um jeito no racismo norte-americano, ela disse: "Sabe como a gente faz para resolver o problema do negro nos USA? A gente manda todos eles de volta para a África".

E nunca se engajou em qualquer militância (seja de negros, gays, imigrantes, judeus) porque não tinha dó de ninguém, nem de si mesma.

E aí eu volto a falar: o escritor precisa ser um santo? Ou podemos aceitar sua humanidade?

Í.ta** disse...

né? acho tua pergunta ótema. e a utilizo para colocar em xeque o leitor, não o escritor. que tenha, este leitor, discernimento para ler o texto e construir um sentido próprio, que concorde ou discorde do escritor. e, assim, respeitando o cara, a escrita, a si mesmo.

Eduardo disse...

"Isso do Twain... é um caso bem diferente do Lobato, né? Lobato era um eugenista, oh my! Acho que o Twain se aproxima bem mais disto que íta descreve no post: descrevia a sociedade como era, estratificada e preconceituosa."

Acho que fui mal interpretado, ou melhor, me comuniquei mal. Minhas comparações com Twain e Lobato são pelas suas obras de caráter infantil, o uso da linguagem coloquial, entre outras coisas que Twain fez e revolucionou a literatura americana, mais tarde influenciando Lobato, pelo menos acredito eu.

Não sou grande conhecer da obra de Lobato, infelizmente, mas pelo que já estudei e pela minha leitura dos livros de Twain eles carregam características comuns em suas obras. Já na vida pessoal, é outro caso.

Realmente, a responsabilidade acaba por tornar-se do leitor. Já a situação com crianças é uma questão complicada, é realmente preciso que alguém acompanhe a leitura e consiga instruir a criança.