sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Escrever é dar a cara a tapa


Escrever deveria ser sempre um incômodo.
Incomodar, segundo o Novo Dicionário Aurélio, significa, entre outras coisas, causar incômodo a, importunar, desgostar, irritar.
Escrever deveria ser tudo isso, pois.
Estar incomodado é estar “levemente indisposto, constrangido”, ainda segundo o dicionário. E todo texto deveria incomodar. Incomodar o escritor e o leitor. Deixá-los indispostos, constrangidos diante do que se escreve e do que se lê.
Um incômodo-quase-abjeto, como o sinalizado pelo Tiago Nascimento a mim, no momento em que fez a leitura de um microconto que eu havia postado no facebook. Eis o microconto: “abraçou-a bem forte. para que a faca alcançasse o bebê”. Eis o comentário do Tiago: “ai... e eu comendo um cachorro-quente bem vermelho lendo isto. chocante”. Ao que eu respondi: “não coma enquanto lê”. E ele: “foi tão rápido, tão cortante. Parei no meio da mordida”.
A escrita que provoca uma pausa no leitor. É a leitura que faz levantar a cabeça, proposta pelo Barthes.
Uma das finalidades de todo e qualquer texto, literário ou não, deveria ser esta. Já afirmara o crítico Umberto Eco, em seus “Seis passeios pelo bosque da ficção”, que “o texto é uma máquina preguiçosa que espera muita colaboração da parte do leitor”. E essa colaboração nem sempre deve significar um ato de concordância. Contudo, não significa que deva se tornar rígida e excessivamente discordante.
Um texto cumpre com sua finalidade quando propõe um algo a mais para quem o lê. E para quem o escreve também.
Um algo a mais que reflita num pensar mais elaborado, que signifique um repensar determinado ponto de vista, ou que jogue luz sobre alguns caminhos de compreensão ainda não alcançados.
Uma história ideal não existe. Ela não tem como existir. Porque cada história é muito própria para cada sujeito que a vivencia: agindo, lendo ou escutando. E por ser muito própria a cada um, não pode jamais ser a história ideal para todos. Mas que cada um possa ter e construir sua história ideal.
A minha história ideal não é aquela que ninguém lê. Isto seriam esboços de histórias. As que ninguém lê. A minha história ideal seria aquela em que cada um lesse e sentisse a si mesmo dentro dela. O leitor ideal pode ser aquele que vive o texto. Não aquele que o interpreta.
Se hoje escrevo, é por ler tantas e tantas coisas maravilhosas (e quantas ainda por ler!).
Se hoje escrevo, é porque desenvolvi em mim a pretensão de achar que através de minhas palavras as pessoas também poderiam se sentir tocadas, seja se encontrando em meus rabiscos, seja desenvolvendo uma antipatia pelos mesmos (e consequentemente por mim).
Se hoje escrevo, isso se deve ao trabalho de penso inserido nessa prática. Algo que me alimenta como sujeito. Algo em que acredito que possa alimentar a outros da mesma forma.
Se hoje escrevo é também por acreditar que esse ato possa ser contagioso.
Escrevo porque dói, e porque essa dor é minha fuga. Escrevo para me contradizer e porque ainda não encontrei melhor forma de solidão.

ítalo.
(também publicada aqui) 

4 comentários:

Beverley de Graustark disse...

lembrei daquele nosso estalo sobre "obrigação". perguntaram numa revista aí: Qual o melhor conselho literário que você já recebeu?
resposta do neil gaiman:

“Termine o que está escrevendo. O que quer que tenha que fazer para terminar, termine.”

Beverley de Graustark disse...

Conselho de José Saramago aos jovens escritores: “Não tenhas pressa e não percas tempo.”

Nina disse...

Toda pessoa que guarda em si o dom da escrita é metáfora de Drummond: pedra no meio do caminho de si.
Incômodo? Quem não é? Mas o que fazer desse posicionamento social é a questão. Por isso escrevemos. Tentamos, ao menos.

Milene Maria disse...

me tocou!