sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Caminhos de uma nova escrita. E de novas possibilidades de leitura.


Uma croniqueta em duas. Assim será. A temática permite.

“O mundo já é apresentado enquanto escrita, o que requer leitura e interpretação”, diz-nos Marisa Lajolo e Regina Zilbermann.

A história da escrita e das línguas está longe de terminar, pois o caráter da escrita é imagético e transitório. Hoje, falamos e escrevemos em português, mas há muito se cogita a criação de uma linguagem universal (uma tentativa foi o Esperanto, no século XIX) para unir todos os povos. A internet pode ajudar nesse processo, mas será possível? O tempo dirá.

            O que temos hoje é quase que um retorno às primeiras formas de escrita registradas pela civilização. E é no espaço virtual que se pode observar esse retorno, essa busca por novas formas de expressões (e, sabe-se, nem tão novas assim).

Tem-se, por exemplo, a escrita fragmentada, enxuta, que pouco diz, mas que muito quer ser entendida. As abreviações são modelos clássicos nisto. Uma escrita mais rápida, mais dinâmica. Apenas um reflexo social. Nesse ritmo alucinado de vida, nada mais natural ao ser humano que registrar de maneira breve, sucinta, econômica aquilo que é anunciado, seja oralmente, seja de forma escrita.

Desde a popularização da internet, durante os anos 90, foram muitas as mudanças nos hábitos de escrita e de comunicação no mundo todo. Primeiro foi o surgimento do e-mail, depois vieram as salas de bate-papo e os comunicadores instantâneos (como ICQ e MSN) e, finalmente, os blogs e as redes sociais (Twitter, Facebook, etc.), hoje tão populares entre os adolescentes quanto diários e papéis de carta um dia já foram. Em meio a essas mudanças, com o advento de novos recursos e de ferramentas comunicacionais, o internetês – nome dado à grafia abreviada utilizada na internet – acabou se desenvolvendo e cristalizando-se à medida que a rede mundial de computadores evoluiu.

É por estes caminhos que a escrita atualmente mais acontece. É por aí que mais se relacionam as pessoas. Através de textos curtos, repletos de espaços de preenchimento aos leitores. Uma escrita que ao mesmo tempo anuncia algo, mas que não diz este algo em sua totalidade. Uma escrita que procura despertar a atenção e o interesse. Mas que não se aprofunda. Prova maior disso é o microblog twitter, ferramenta em que seus usuários escrevem textos de no máximo 140 caracteres (esta é uma frase neste modelo, do “Prova” até “caracteres”). A máxima ‘menos é mais’ nunca fez tanto sentido como nos dias de hoje.

É isto com o que nos deparamos no livro “Das tábuas da lei à tela do computador”, das escritoras Marisa Lajolo e Regina Zilbermann (Editora Ática, 2009). Um cuidado em resgatar toda a história do surgimento do texto escrito, das primeiras formas de expressão do ser humano, e das maneiras de se fazer entender oriundas daquela época.

            (Continua na crônica da semana que vem)

ítalo.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Escrever é dar a cara a tapa


Escrever deveria ser sempre um incômodo.
Incomodar, segundo o Novo Dicionário Aurélio, significa, entre outras coisas, causar incômodo a, importunar, desgostar, irritar.
Escrever deveria ser tudo isso, pois.
Estar incomodado é estar “levemente indisposto, constrangido”, ainda segundo o dicionário. E todo texto deveria incomodar. Incomodar o escritor e o leitor. Deixá-los indispostos, constrangidos diante do que se escreve e do que se lê.
Um incômodo-quase-abjeto, como o sinalizado pelo Tiago Nascimento a mim, no momento em que fez a leitura de um microconto que eu havia postado no facebook. Eis o microconto: “abraçou-a bem forte. para que a faca alcançasse o bebê”. Eis o comentário do Tiago: “ai... e eu comendo um cachorro-quente bem vermelho lendo isto. chocante”. Ao que eu respondi: “não coma enquanto lê”. E ele: “foi tão rápido, tão cortante. Parei no meio da mordida”.
A escrita que provoca uma pausa no leitor. É a leitura que faz levantar a cabeça, proposta pelo Barthes.
Uma das finalidades de todo e qualquer texto, literário ou não, deveria ser esta. Já afirmara o crítico Umberto Eco, em seus “Seis passeios pelo bosque da ficção”, que “o texto é uma máquina preguiçosa que espera muita colaboração da parte do leitor”. E essa colaboração nem sempre deve significar um ato de concordância. Contudo, não significa que deva se tornar rígida e excessivamente discordante.
Um texto cumpre com sua finalidade quando propõe um algo a mais para quem o lê. E para quem o escreve também.
Um algo a mais que reflita num pensar mais elaborado, que signifique um repensar determinado ponto de vista, ou que jogue luz sobre alguns caminhos de compreensão ainda não alcançados.
Uma história ideal não existe. Ela não tem como existir. Porque cada história é muito própria para cada sujeito que a vivencia: agindo, lendo ou escutando. E por ser muito própria a cada um, não pode jamais ser a história ideal para todos. Mas que cada um possa ter e construir sua história ideal.
A minha história ideal não é aquela que ninguém lê. Isto seriam esboços de histórias. As que ninguém lê. A minha história ideal seria aquela em que cada um lesse e sentisse a si mesmo dentro dela. O leitor ideal pode ser aquele que vive o texto. Não aquele que o interpreta.
Se hoje escrevo, é por ler tantas e tantas coisas maravilhosas (e quantas ainda por ler!).
Se hoje escrevo, é porque desenvolvi em mim a pretensão de achar que através de minhas palavras as pessoas também poderiam se sentir tocadas, seja se encontrando em meus rabiscos, seja desenvolvendo uma antipatia pelos mesmos (e consequentemente por mim).
Se hoje escrevo, isso se deve ao trabalho de penso inserido nessa prática. Algo que me alimenta como sujeito. Algo em que acredito que possa alimentar a outros da mesma forma.
Se hoje escrevo é também por acreditar que esse ato possa ser contagioso.
Escrevo porque dói, e porque essa dor é minha fuga. Escrevo para me contradizer e porque ainda não encontrei melhor forma de solidão.

ítalo.
(também publicada aqui) 

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Os últimos começos


            (Título horrível, eu sei. Porém, justifico-o: por ora, assim será. Uma pausa nesta – parece-me: boa – ideia de começos de livros; para não cansar o leitor, a quem agora apresento novas sugestões de livros, vindas de outros amigos):
            A Francine Hellmann enviou o começo de “O estrangeiro”, do Albert Camus: "Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: ‘Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames’. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem. O asilo de velhos fica em Morengo, a oitenta quilômetros de Argel. Assim posso velar o corpo e estar de volta amanhã à noite. Pedi dois dias de licença a meu patrão e, com uma desculpa destas, ele não podia recusar. Mas não estava com um ar muito satisfeito. Cheguei mesmo a dizer-lhe: ‘A culpa não é minha.’”. Com os seguintes fortes dizeres: “Reli alguns começos dos meus livros favoritos e escolhi esse porque o Camus é foda e porque a realidade dói. Sem máscaras, sem romances, às vezes a pessoa não dá a mínima para a morte da mãe e chega mesmo a achar entendiante”. Complementando: “Mas confesso que fiquei em dúvida quando recoloquei os olhos neste”: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.", de Gabriel García Márquez em “Cem anos de solidão”, e explicando: “Não o escolhi porque o achei quase clichê, tanto quanto conhecer Machu Picchu ou amar loucamente. Eu queria fazer as duas coisas e a minha literatura entrega, mas não conte para ninguém (que seja desinteressante)”. 
            E, uma vez que à Franci foi permitido citar dois começos, merece o mesmo direito a Mônica Saraiva, que enviou, além daquele de “Água Viva”, na crônica passada, este de “Divã”, da Martha Medeiros: “Sou eu que começo? Não sei bem o que dizer sobre mim. Não me sinto uma mulher como as outras. Por exemplo, odeio falar sobre crianças, empregadas e liquidações. Tenho vontade de cometer haraquiri quando me convidam para um chá de fraldas e me sinto esquisita à beça usando um lencinho amarrado no pescoço. Mas segui todos os mandamentos de uma boa menina: brinquei de boneca, tive medo do escuro e fiquei nervosa com o primeiro beijo. Quem me vê caminhando na rua, de salto alto e delineador, jura que sou tão feminina quanto as outras: ninguém desconfia do meu hermafroditismo cerebral. Adoro massas cinzentas, detesto cor-de-rosa. Penso como um homem, mas sinto como mulher. Não me considero vítima de nada. Sou autoritária, teimosa e um verdadeiro desastre na cozinha. Peça para eu arrumar uma cama e estrague meu dia. Vida doméstica é para os gatos”. Assim argumentando a segunda escolha: “Porque a Mercedes – a do livro, que é bem diferente da do filme – às vezes é o que eu sou, às vezes o que eu quero ser e, em outras, o que eu mais abomino. Odiar falar sobre crianças e sonhar ter uma pra mim. Ser um pouco homem, porque não preciso deles para o que eu posso fazer só. Preciso deles quando a vontade é além. Porque não consigo fincar raízes na vida doméstica e, ao mesmo tempo, sou um gato, se bem afagada. Porque ela se expõe logo assim, de cara, no primeiro parágrafo. Porque ela está na frente do analista. E porque ela sabe que esse discurso te desconstrói diante do espelho. Porque ela quer sempre os contrários”.
            E, fechando o ‘pacote-de-duas-sugestões’, Eder Alex propôs dois começos. O primeiro: "Quando ele acordava na floresta no escuro e no frio da noite, estendia o braço para tocar a criança adormecida ao seu lado. Noites escuras para além da escuridão e cada um dos dias mais cinzentos do que o anterior. Como o início de um glaucoma frio que apagava progressivamente o mundo. Sua mão subia e descia de leve com cada preciosa respiração", do livro “A estrada”, de Cormac McCarthy, uma vez que “as orações curtas e a secura na linguagem criam um aparente distanciamento entre narrador e personagens que acho maravilhoso na literatura (não é um filho, é ‘a criança’). Se alguma emoção surge dali, não é porque o narrador me disse pra sentir, ele informa o que acontece e eu construo a poesia aqui em mim. Nesse caso, acho bela a imagem de um pai que acorda à noite para conferir se o filho ainda está respirando. É humano, é amor, e o mundo parece querer o contrário de tudo. Quero continuar a leitura para saber quem vai perder”. E o segundo: "Se você não destruiu esta carta no momento em que identificou a letra no envelope, é sinal que a curiosidade é até mais forte do que o ódio. Ou que o ódio necessita de combustível novo. Agora você empalidece, comprimindo suas mandíbulas de lobo, até os lábios desaparecerem, e joga-se sobre estas linhas para saber o que quero de você, depois de sete anos de absoluto silêncio entre nós", do livro “A caixa preta”, do israelense Amós Oz, porque este livro “lança o leitor já de cara na história. Pois, além do trabalho minucioso na lapidação das frases, faz com que a gente se sinta invadindo a correspondência de alguém, sim, somos um bando de cretinos curiosos. Algo está muito errado, há muito ódio e também sua semente primeira, o amor. Por que a vida dessas parece tão devastada? Quero ler as outras cartas”. 
            E que você, leitor, queira ler estes e outros livros.

ítalo.
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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Uma croniqueta feita de começos

            Conforme eu havia prometido, serão duas croniquetas feitas de marcantes-começos-de-livros-para-sujeitos-leitores. Pedi a alguns amigos que me enviassem seus marcantes-começos-de-livros, com breves palavras sobre.
Vamos a eles: (E vá a eles, leitor. Não precisa correr atrás destes livros. Apenas chegue a eles, quem sabe).
Enzo Potel me enviou a primeira frase do conto “Sem lugar para você, meu amor”, de Eudora Welty, que abre o livro “The Bride of the Innisfallen and other stories”: “Eles não se conheciam, assim como não conheciam o lugar em que, lado a lado, estavam sentados para almoçar – os grupos de amigos se juntaram de uma hora para outra quando alguém reconheceu outro alguém no Galatoire. Era um domingo de verão – naquelas horas durante a tarde que parecem desconhecer a existência do tempo em New Orleans”. E as palavras dele sobre a mesma foram as seguintes: “Eu gosto do peso que têm aquelas quatro primeiras palavras antes da vírgula; o leitor precisa carregar aquela noção até o final do conto para entender o quão mágico foi o que esse homem e essa mulher se propuseram a fazer. E, ainda nesse primeiro parágrafo, a cidade de New Orleans ganha um tom de fábula, o que vai ser muito importante para narrar uma experiência que beira quase o nada, o tempo todo, até depois do fim”.
Amanda Corrêa, por sua vez, recorreu à Clarice Lispector e o começo de “A paixão segundo G.H.”: “– estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior. A isso prefiro chamar desorganização, pois não quero me confirmar no que vivi – na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro”. E o quanto este começo a marcou: “É quase um clichê falar em Clarice agora, mas essa leitura foi muito intensa para mim. Discutimos o livro na aula da Taiza e, na mesma noite, eu comecei a ler. Cara, li num soco. Numa noite eu o devorei. Fiquei tomada por essa leitura alguns dias”.
Para Clarice também foi Monica Saraiva, escolhendo o começo de “Água Viva”: “É com uma alegria tão profunda. É uma tal aleluia. Aleluia, grito eu, aleluia que se funde com o mais escuro uivo humano da dor de separação mas é grito de felicidade diabólica. Porque ninguém me prende mais. Continuo com capacidade de raciocínio – já estudei matemática que é a loucura do raciocínio – mas agora quero o plasma – quero me alimentar diretamente da placenta. Tenho um pouco de medo: medo ainda de me entregar pois o próximo instante é o desconhecido. O próximo instante é feito por mim? ou se faz sozinho? Fazemo-lo juntos com a respiração. E com uma desenvoltura de toureiro na arena”. E, justificando: “Porque o livro se justifica no primeiro parágrafo. “Felicidade diabólica” é a pura água viva. É exaltação, é êxtase. Queima. Alimentar-se da placenta é profano. Faz queimar também, feito o bufar do tal touro, do qual não há medo”.
            E, fechando os começos, por ora, Eduardo Silveira mandou-me o de “Foi assim”, de “Natalia Ginzburg: "Disse-lhe: - Diga-me a verdade - e ele disse: - Que verdade? - E desenhava rapidamente algo no seu livrinho de apontamentos e me mostrou o que era: um trem comprido com uma densa nuvem de fumaça preta e ele, que se debruçava na janela e acenava com o lenço. Atirei em seus olhos”. Dizendo, também recordando um dos começos da croniqueta da semana passada: “Gosto por vários motivos. Lembrando o começo de 'Bonsai', este revela logo no começo um dos principais fatos. O maravilhoso é que o fato de saber como termina não tira nem um pouco nossa curiosidade, porque há outras perguntas em aberto. Mas gosto principalmente pela beleza: do trem, imagem sempre bonita, e pelo contraste da paz dele com a raiva dela: por que alguém que faz um desenho tão amável merece levar um tiro nos olhos?”.
            Assim está feito. Quatro convites aos leitores. E mais quatro ou tantos na semana que vem.

ítalo.

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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O começo que nasce para morrer


As coisas só começam porque um dia terminarão.
Eu gosto desta frase, apesar de não gostar da palavra coisa. Penso-a (a frase, não a coisa) apontando para direções que são várias: início, fim e meio do mundo; início, fim e meio da vida; início, fim e meio de um relacionamento; início, fim e meio de um livro. Há um meio depois do começo e do fim, assim como entre.
A tendência de um começo é a morte instantânea.
Linkando com a literatura, temos: o começo de um texto é aquilo que mais é renegado pelo escritor. É a substância que brota para ser jogada fora. É o apêndice. Nascido para morrer. E mesmo aquele começo – de texto ou qualquer outro começo - que se apresenta a todos como definitivo, aquele começo que ficou definido como o começo de algo, está entregue à mudança constante. Não à morte, mas à mudança. Pois ele nem sempre será lido como o começo que se propôs a ser. Por que não ser lido como uma possibilidade de final, então? Será daí que todo fim é um começo?, uma vez que cada nova leitura pode ser a morte e o enterro da leitura anterior, sugada antes de não mais existir.
Um começo de livro marcante pode ser este: "Na primavera de 1998, Bluma Lennon comprou numa livraria do Soho um velho exemplar dos Poemas de Emily Dickinson, e ao chegar ao segundo poema, na primeira esquina, foi atropelada por um automóvel". É do livro "A casa de papel", do argentino Carlos Maria Domínguez. Ou este: "Nu e cru, eis o facto: apareceu um pénis decepado, em plena Estrada Nacional, à entrada da vila de Tizangara. Era um sexo avulso e avultado. Os habitantes relampejaram-se em face do achado. Vieram todos, de todo lado. Uma roda de gente se engordou em redor da coisa. Também eu me cheguei, parada nas fileiras mais traseiras, mais posto que exposto. Avisado estou: atrás é onde melhor se vê e menos se é visto. Certo é o ditado: se a agulha cai no poço muitos espreitam, mas poucos descem a buscá-la". Do livro “O último voo do flamingo”, do moçambicano Mia Couto. Dois simples começos como estes, que apresentam ações pontuais em tão poucas linhas, que delineiam uma miríade de caminhos na cabeça do sujeito-leitor – que poderão ser alcançados ou não, afinal, cada leitura é uma leitura.
Há, ainda, o começo de “Bonsai”, do chileno Alejandro Zambra: “No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emilia. Digamos que ela se chama ou se chamava Emilia e que ele se chama, se chamava e continua se chamando Julio. Julio e Emilia. No final, Emilia morre e Julio não morre. O resto é literatura:”.
Dois pontos. Como que dizendo ‘agora vou contar a história’. E que o leitor deixe de lado a birra infantil de ‘ah, por favor, não me conte o final’. Há literaturas que se sustentam pelo seu durante. Há literaturas que encantam só pelo começo. Há literaturas que decepcionam principalmente no final.
[Um bom começo também pode ser um caminho para o abismo da decepção].
O começo como morte é a oportunidade de não se estranhar muito o novo começo, o recomeço. E de não sentir muito aquele que não mais existe, porque nada nem ninguém vem para substituir algo ou alguém, mas para acrescentar, para existir a partir daquilo/daquele que não mais.
Sendo assim, peço licença ao leitor – e também o convido – para, nas duas próximas semanas, acompanhar neste espaço começos de textos/histórias/livros marcantes para alguns sujeitos-leitores. Duas croniquetas feitas só de começos. Sem final, sem meio. Fragmentos, estilhaços, possibilidades de start para novas leituras.
A conferir.

ítalo.
(também publicada aqui)