sexta-feira, 6 de julho de 2012

Abraçar o sol sob um pé de cebolinha


Sou amante da palavra palavra. Não gosto de pedra, não gosto de árvore, não gosto de asfalto. Palavras feias. Duras como o próprio material a que se referem. Gosto de sono. Gosto do som dela. Gosto de noite e de nuvem (esta parece que me chama sempre que a pronuncio).
Chuva sinto que sorri para mim quando a ouço. Uma relação bastante íntima, de cumplicidade. Arco-íris também sinto que escancara o sorriso quando a encontro. Neste caso, muito em função do próprio formato que o arco-íris adquire no céu, confesso. Diferentemente de mar, por exemplo, que, enquanto elemento da natureza, sou apaixonado por, sinto-o belo e sincero, mas, enquanto palavra, não me transpira a mínima confiança e simpatia, dando-me a impressão de gritar sempre que fala.
Tenho que tomar muito cuidado para não sentir pela palavra o que seu significado apresenta, sei disso. Mas há palavras das quais ainda não consigo dissociar esse gostar delas como estrutura do que elas significam ou representam. Vento, por exemplo, é palavra livre, leve e solta, tal qual o próprio vento é para mim. Já madeira é palavra intransponível. Seca, fria, nem ouso mais me aproximar dela.
Não tenho lá muito apego a palavras que são verbos. Parecem-me sempre irritadiças, incomodadas com algo. Evito pensar nelas. Prefiro ir à procura de palavras mais leves, como azul e travesseiro. Amo viajar na pronúncia de travesseiro. Muito melhor do que dizer cobertor ou escuro. Argh, palavras carrancudas! Linguagem é palavra suave, apaziguadora. Sempre disposta a me dar um minuto de atenção que seja. Parece-me a “mãe de todas”.
Mas é com a palavra palavra que mantenho uma relação secreta e inebriante. Tenho com ela uma paixão escondida, da qual ninguém desconfia, nem jamais saberá. Sabemos guardar segredo, sabemos respeitar a privacidade de cada um, sabemos quando é hora de nos vermos novamente. Aprendemos juntos a empinar pipa em cima de nuvens, a abraçar o sol sob um pé de cebolinha, a roçar os telhados do prédio mais largo da cidade, e não paramos de saltar do alto de um formigueiro ao encontro do sol à meia-noite. Vivemos explorando ao máximo os subterfúgios que só mesmo a palavra pode oferecer. É ali que nos encontramos. É ali que a paixão existe. É por ali que estas linhas são escritas.

(também publicada aqui)

ítalo. 

Um comentário:

Guilherme disse...

Nunca vi tão bom... Na verdade, já vi e sempre vejo, mas este está demais... A interação entre as palavras é tão forte que é como se sentisse-a daqui... Maravilhos!
De palavras como "palavra" tenho até uma afeição... Que assim muito me inspiro nos textos... ABraços