sexta-feira, 8 de junho de 2012

Personagens-leitores


             Bastian e Vítor são dois personagens bastante parecidos de duas narrativas diferentes, porém próximas se analisarmos as trajetórias deles. Bastian e Vítor são dois sonhadores-solitários (creio não ser arriscado afirmar que todo sonhador é solitário) que fazem uso de dois meios diferentes para um mesmo fim: afastar-se da pressão mundana, o que acarreta, consequentemente, num conhecer a si mesmo.
              

Bastian é o personagem principal de “História sem fim”, do alemão Michael Ende, também existente em filme, este dirigido por Wolfgang Petersen. Bastian é o herói de uma narrativa em que retorna ao ponto de onde partiu, fortalecendo-se no durante, nas diversas situações-problema pelas quais passa na aventura que aceita viver (adianta-se aqui, aventura aceita no momento em que ele abre um grande livro que pouco antes “roubara” de um senhor dono de uma livraria antiga).            
O problema inicial do herói Bastian é uma perda. A perda de sua mãe. Perda esta acentuada pela falta de uma relação mais íntima com seu pai, e que reflete no comportamento do menino na escola, local em que se sente também muito abandonado.
Na sequência de situações-problemas que enfrenta na narrativa, Bastian precisa tomar a difícil atitude de se despir de tudo ao que é apegado, ou seja, de se desfazer de seus pertences e de se dispor a enfrentar tal perda (e outras que virão pela frente), devendo levar consigo apenas um amuleto.            
Ainda, em determinados momentos de sua trajetória-de-herói, o menino se depara com outras condições de escolha, nas quais o desapego será bastante sentido novamente. Ele precisa saber fazer uso da sabedoria, escolher entre o bem e o mal, acreditar muito em si, conhecer quem se é, saber perguntar e responder, e ainda, para finalizar, viver dois fortes momentos: uma espécie de ritual de passagem, no qual enfrenta o seu lado escuro da vida, e no qual também vê o filme de sua vida passar, o que desencadeia no outro forte momento, a morte desse seu lado escuro para que o claro que existe em si sobreviva e ele possa retornar para o lugar de onde partiu.            
Este renascer se dá somente quando Bastian toma outra importante decisão: nomear. Não só dar nome a algo, mas dar uma vida nova a este algo (no caso, à princesa do mundo da “Fantasia”). A força da palavra deixa, então, sua marca maior na narrativa.
    
        
Já Vítor é o personagem de “O sofá estampado”, escrito por Lygia Bojunga. Vítor não é herói de um reino (talvez, no máximo, é herói para sua avó e para si mesmo). É excessivamente tímido. Sua própria vida por diversas vezes é colocada em risco em função da sua timidez – sua garganta que o diga, com tantos engasgos vividos.            
O heroísmo de Vítor é ter sobrevivido até o final da história. É ter superado a dor do amor não-correspondido, a vergonha em dizer uma simples palavra, a perda da sua avó, e de ter retornado para sua casa muito mais corajoso, cheio de vida vivida, e engasgando menos ao emitir qualquer opinião sobre algo.            
Assim como Bastian, Vítor sai de um lugar, percorre toda uma história, e retorna para o lugar de onde saiu. Retorna, conforme já dito, mais vivo, mais confiante em si, mais seguro do viver.           
Bastian viveu uma aventura que existia, primeiramente, dentro de um livro. Depois, na medida em que ia lendo, sozinho no sótão da escola, essa aventura passou a existir também no próprio Bastian. A cada palavra, a cada parágrafo, a cada página virada, a cada janela fechada. Vítor, ao contrário de Bastian, viveu uma aventura lendo sua própria história. Mais literalmente, como um tatu, cavoucando sua própria história. Lendo a si mesmo, às suas características, às suas ações e aos seus pensares, a cada buraco cavado com afinco, com gana, com medo e com desejo.
Ambos viveram, sobreviveram, e se depararam com a obrigação de ler a si mesmos à medida que liam os mundos as suas voltas. Dois personagens leitores. Dois corajosos leitores.
A literatura se faz presente em “História sem fim” e “O sofá estampado” porque nelas a esperança, a fantasia e o sonho são permitidos e imensamente explorados. Porque o leitor é aquele proposto por Barthes, que levanta a cabeça ao ler, que se pergunta o que é aquilo que ele está lendo, que se apaixona, que sente, salva, se despe, e que vê sua vida sendo mudada a cada ponto final e início de frase, seja na ficção, seja na vida real.
O “nada” presente em “História sem fim”, que torna eminente a destruição do reino da “Fantasia”, aquela onda de escuro, de gritos, de dor, é o vazio dos dias de hoje no mundo existente no Planeta Terra. E, se naquele mundo o amuleto do menino Atreyu (ou simplesmente Bastian?) era um colar no pescoço, neste mundo-mundano o nosso amuleto para enfrentar este nada, este vazio que nos domina a cada dia, pode ser o livro (particularmente, acredito que o seja). Ele – o livro – pode ser a chave para o renascer, para a nomeação de algo novo, de uma nova vida e de um novo modo de viver esta vida, esta história sem fim. Seria o livro silencioso que cresce em ruídos quando explorado pelo leitor corajoso. Seria não só o livro com páginas já escritas e prontas para a devoração do leitor, mas aquele livro a ser escrito, dia-a-dia, por cada personagem desta ficção que também pode ser a vida.



ítalo.(também publicada aqui).