sábado, 23 de junho de 2012

A leitura em círculos


            O ato de ler me é objeto de estudo, de um olhar cuidadoso, pesquisador, já há bastante tempo. Não sinto a leitura apenas como simples leitura. Vejo variáveis importantes: que tipo de material é lido, onde se lê, com que finalidade – só para citar poucos exemplos. E é isto que me leva a pensar em pesquisas e oficinas propondo tais inquietações. Foi o que aconteceu em 2010, quando fiz um movimento de círculos de leitura com graduandos em Letras na Univille (mensalmente nos reuníamos para lermos textos de diferentes autores, de diferentes ritmos – e conversarmos a respeito, e até tentarmos produzir escritas a partir do que fora lido), e foi o que fiz este ano (em parceria com o professor Jeison) no projeto Repensando a Leitura, que anualmente acontece no colégio em que leciono, o Bom Jesus/IELUSC (Joinville/SC).
            Foram duas tardes lendo em círculo com os alunos. Lendo e eles ouvindo. Eles lendo e eu ouvindo. Lendo com os olhos, com os ouvidos, com o silêncio. Lendo de forma rápida, de forma lenta. Dando ênfase aos diálogos, às descrições, ao clímax de um texto. E levando os alunos a também produzirem seus textos. A lerem seus textos, buscando a melhor forma de tornar suas histórias bem lidas para quem as ouvisse.
Entendendo que o ato de ler comporta diversas práticas, diferentes sentidos e sujeitos, ser leitor acompanha essa amplitude de ações, de práticas e de sentidos. Ser leitor é, entre outras ações, falar com o texto, criar e recriar sentidos, relacionar o texto a outros já lidos e a situações vividas (intertextualidade). Ser leitor é também compreender as ideologias presentes em cada texto e o fato de um texto nunca apresentar sentidos completos (incompletude). Já dizia Manguel, em seu maravilhoso livro “Uma história da leitura”: “é o leitor que lê o sentido; é o leitor que confere a um objeto, lugar ou acontecimento uma certa legibilidade possível, ou que a reconhece neles; é o leitor que deve atribuir significado a um sistema de signos e depois decifrá-lo”.
A leitura é interação com o mundo e consigo mesmo, num processo de evolução mútua. Enquanto professor, é importante a consciência de que formar leitores significa trabalhar para a conscientização do aluno como um sujeito/cidadão-crítico, ciente de sua capacidade de dialogar com os textos, crente na relatividade das coisas do mundo, na sua liberdade de interpretação de todo e qualquer objeto simbólico com o qual venha a ter contato.
Faz-se necessário pensar o leitor, trazê-lo para o centro, torná-lo interlocutor do texto. Eis a escola como um espaço para isto.
Toda leitura precisa ser ativa.
Tendo uma visão para a leitura sobre diferentes formas de se ler, sejam leituras escritas ou não, não há como estreitar uma definição somente de leitor. A formação de um sujeito leitor é tão determinada pelas condições sociais nas quais se encontra o sujeito, quanto pela própria tomada de iniciativa do mesmo em prol de tal formação. A definição do sujeito leitor passa, antes mesmo da quantidade ou da qualidade de leituras por ele realizadas, pelo acesso que o mesmo tem aos bens da cultura letrada, assim como aos valores e códigos inscritos no universo da leitura. Aí a importância de movimentos como estes, em que são vivenciadas práticas de leitura pouco comuns.
É na interação leitor-texto que a literatura merece ser discutida.

ítalo.

Um comentário:

Nina disse...

à medida que leio, torno-me cada vez mais crítica e me percebo nesse processo. Mas acho que leio para me instruir, para me satisfazer, para ter um filme em minha mente, onde eu possar dar rosto aos personagens. Leio por prazer, apenas.
Abraços.