sexta-feira, 29 de junho de 2012

twitt fora do twitter #16


"o gol de letra ganhou esse nome quando o machado de assis marcou aos 45 do segundo tempo contra l'academie française"

(e aqui tem muito mais)

ítalo.

sábado, 23 de junho de 2012

A leitura em círculos


            O ato de ler me é objeto de estudo, de um olhar cuidadoso, pesquisador, já há bastante tempo. Não sinto a leitura apenas como simples leitura. Vejo variáveis importantes: que tipo de material é lido, onde se lê, com que finalidade – só para citar poucos exemplos. E é isto que me leva a pensar em pesquisas e oficinas propondo tais inquietações. Foi o que aconteceu em 2010, quando fiz um movimento de círculos de leitura com graduandos em Letras na Univille (mensalmente nos reuníamos para lermos textos de diferentes autores, de diferentes ritmos – e conversarmos a respeito, e até tentarmos produzir escritas a partir do que fora lido), e foi o que fiz este ano (em parceria com o professor Jeison) no projeto Repensando a Leitura, que anualmente acontece no colégio em que leciono, o Bom Jesus/IELUSC (Joinville/SC).
            Foram duas tardes lendo em círculo com os alunos. Lendo e eles ouvindo. Eles lendo e eu ouvindo. Lendo com os olhos, com os ouvidos, com o silêncio. Lendo de forma rápida, de forma lenta. Dando ênfase aos diálogos, às descrições, ao clímax de um texto. E levando os alunos a também produzirem seus textos. A lerem seus textos, buscando a melhor forma de tornar suas histórias bem lidas para quem as ouvisse.
Entendendo que o ato de ler comporta diversas práticas, diferentes sentidos e sujeitos, ser leitor acompanha essa amplitude de ações, de práticas e de sentidos. Ser leitor é, entre outras ações, falar com o texto, criar e recriar sentidos, relacionar o texto a outros já lidos e a situações vividas (intertextualidade). Ser leitor é também compreender as ideologias presentes em cada texto e o fato de um texto nunca apresentar sentidos completos (incompletude). Já dizia Manguel, em seu maravilhoso livro “Uma história da leitura”: “é o leitor que lê o sentido; é o leitor que confere a um objeto, lugar ou acontecimento uma certa legibilidade possível, ou que a reconhece neles; é o leitor que deve atribuir significado a um sistema de signos e depois decifrá-lo”.
A leitura é interação com o mundo e consigo mesmo, num processo de evolução mútua. Enquanto professor, é importante a consciência de que formar leitores significa trabalhar para a conscientização do aluno como um sujeito/cidadão-crítico, ciente de sua capacidade de dialogar com os textos, crente na relatividade das coisas do mundo, na sua liberdade de interpretação de todo e qualquer objeto simbólico com o qual venha a ter contato.
Faz-se necessário pensar o leitor, trazê-lo para o centro, torná-lo interlocutor do texto. Eis a escola como um espaço para isto.
Toda leitura precisa ser ativa.
Tendo uma visão para a leitura sobre diferentes formas de se ler, sejam leituras escritas ou não, não há como estreitar uma definição somente de leitor. A formação de um sujeito leitor é tão determinada pelas condições sociais nas quais se encontra o sujeito, quanto pela própria tomada de iniciativa do mesmo em prol de tal formação. A definição do sujeito leitor passa, antes mesmo da quantidade ou da qualidade de leituras por ele realizadas, pelo acesso que o mesmo tem aos bens da cultura letrada, assim como aos valores e códigos inscritos no universo da leitura. Aí a importância de movimentos como estes, em que são vivenciadas práticas de leitura pouco comuns.
É na interação leitor-texto que a literatura merece ser discutida.

ítalo.

domingo, 17 de junho de 2012

é bonito quando uma vontade bigorna.


‘jack’ somos brasileiros, lenine, permita-me escrever a ti. indagando – e isso é só o começo - quem foi que fez do sapo cantor de lagoa e de ti o leão do norte? como é que faz pra lavar a roupa? e por que deixam a mancha vir comendo pela beira, mais rápida que lancha, inclusive afogando peixe?
e de onde vem a canção, por fim?
a terra gira é para nós todos, a ponte é para ir e voltar, e a gente nunca faz ideia de quem vem lá. de quem vem lá. mas, ao contrário de ti, em muito do que eu faço eu não me lanço sem compromisso. preciso de chão para pisar. tu, do chão para gravar. tou sabendo.
eu não alimento nada duvidoso também, não.
lembro-me de quando éramos uns poetas loucos místicos. de quando éramos tudo o que não era são. lembro-me de que foi quando ela triscou por mim que vim a conhecer-te. de que seus olhos de raio-x cegaram-me de medo. eu também desejo todas elas juntas num só ser. mas tá difícil de encontrar, viu? alguém magra, leve, calma. em que tudo nela seja leve, em que tudo nela chame. alguém com quem seja bom ver o barco da vida virar. uma verba que me pague as despesas do verbo. em que paraíso distante alzira ela espera por mim?
é foda, lenine. é fogo. é a vida sempre em jogo. e ‘inda’ssim o que vale a pena é estar vivo. será que temos algum tempo pra perder? eis o mundo: precário, provisório, perecível. eis aqui dois vivos: impuros, imperfeitos, impermanentes.
é como se eu fosse pro vietnã lutar por algo que não será meu. ecos do ão. os edifícios abandonados, as estradas sem ninguém.
eu também já pensei que tivesse o mundo nas mãos. mas o céu é muito pra quem fica, não é mesmo? querer é muito para a vida. por que então a gente não acredita? parece que é sempre como se estivéssemos ali no fim do corredor. com dois olhos negros a nos encarar. é sempre aquele negócio da gente esperar do mundo e o mundo esperar de nós. a gente enverga mas não quebra. tá certo.
afinal, lenine, o que é que nos interessa?
bom, nego, já deu minha hora e eu não posso ficar. lá vem a barca trazendo o povo pra liberdade que se conquista. cê sabe como é isso da lua chamar e a gente ter de ir pra rua, né? desculpa negar teu convite. hoje eu quero sair só. é coisa de poeta navegar na contra-mão, eu sei. que sambá é também o que eu quero sentir. corra pra beira da praia e ouça o barulho bravio das ondas do mar. me dá um gole de cerveja e o resto deixa pra lá. 

ítalo, relembrando renato, cazuza, baleiro e chico.

domingo, 10 de junho de 2012

tive gêmeos

ei-los.


acho que todos os textos já estiveram cá no blog. significam uma fase minha, de vivência e de escrita - tal qual tudo o que se é escrito e publicado porraí. minha felicidade está em fazer sessenta exemplares, trinta de cada volume. e de dá-los às pessoas. vai rápido, não importa. e não darei dois pra uma só pessoa. quem o receber, receberá somente um. e, se quiser ler o outro, emprestará com alguém. é rapidinha. é fazer o livro circular. livro de estante já tem um monte nesse mundo. 


o meu muito obrigado ao enzo, pelo incentivo, pela ousadia da editora cartoneira, pela paixão.

ítalo.


p.s.: e até saiu no jornal. aqui.

sábado, 9 de junho de 2012

leitura em família. matéria de jornal.

saiu no jornal anotícia - jaraguá do sul/sc, na edição de sexta-feira, 08/06, matéria sobre o exemplo de leitura do meu pai pra mim e de mim pro meu irmão mais novo.

ei-la.



Exemplo do pai para o filho

Além de dividir gosto por leitura, Vilmar e Ítalo escreveram obra biográfica juntos

Uma confirmação de que o hábito da leitura pode ser transmitido de pai para filho está na família Puccini. Apaixonado por livros, Vilmar Puccini Júnior, 55 anos, passou o exemplo ao filho, Ítalo Puccini, 25. Ele via o pai folhear jornais e revistas, sobretudo quando o assunto era esporte. Dos artigos esportivos para os romances foi um pulo e, hoje, Ítalo é professor de literatura e cronista, o que lhe valeu a participação no bate-papo da Feira do Livro de Jaraguá do Sul na última sexta-feira. Tudo convergiu para que Vilmar e Ítalo trabalhassem juntos no livro lançado em 2009 que narra a história do pai e avô Vilmar Puccini, ex-goleiro do time joinvilense Caxias. “A Trajetória de Puccini” hoje está disponível apenas por encomenda.

Por causa da profissão, Ítalo chega a ler dois livros por semana e possui um acervo de quase mil exemplares. O pai também sempre tem um na cabeceira e seu gênero preferido é a biografia. Eles confirmam que a bagagem literária foi essencial na hora de se aventurarem na escrita. “Dediquei quatro anos em pesquisas para que o livro pudesse ser escrito. Mas o processo começou muito antes. Todos os livros que já lemos nos ajudaram de alguma forma”, afirma Vilmar.

Além do gosto por leitura, um herdou do outro manias parecidas. Folhear um jornal, por exemplo, só de trás para frente. “Tomei gosto pela leitura vendo o meu pai ler o jornal de trás para frente. Isso a gente faz até hoje. Comecei a ler os jornais, depois a revista “Placar”, procurei livros sobre futebol e, dali para frente, romances. Foi pelo exemplo de casa que comecei a ler”, descreve Ítalo.

Agora, ele trata de repassar o exemplo do pai ao irmão por parte de mãe, Luigi, de nove anos. O menino começou a ler há dois anos e é sempre incentivado. “Desde que ele tem três anos leio com ele. Agora, está começando a ler sozinho mas, ainda sim, procuro sempre ler junto, para que tenha o gosto pela leitura sem ser de forma forçada”, relata Ítalo.

Sobre as novas tecnologias, como os tablets, as opiniões se dividem. Vilmar acredita que nada se compara a folhear um livro. “Para mim, o livro de papel não vai acabar nunca. Tocar no papel e apreciar uma boa leitura não tem preço”, defende. Ítalo é mais aberto à novidade. “No meu caso, que preciso estar sempre com a bolsa cheia de livros, é interessante, o tablet vem para facilitar. Posso carregar mais obras comigo. Claro que tenho uma paixão pelo objeto, mas a tecnologia chega para complementar”, contrapõe.
SAIBA MAIS:
Publicado em edição limitada, “A Trajetória de Puccini” está hoje disponível apenas por encomenda. Quem tiver interesse, pode contatar o autor Ítalo Puccini pelo email italopuccini@yahoo.com.br

Pelo Caxias, Vilmar Puccini foi bicampeão catarinense nos anos 1950. Foi ainda presidente, técnico e goleiro do time da empresa Tigre. Fez 84 anos em maio e mora em Jaraguá com o filho.


sexta-feira, 8 de junho de 2012

Personagens-leitores


             Bastian e Vítor são dois personagens bastante parecidos de duas narrativas diferentes, porém próximas se analisarmos as trajetórias deles. Bastian e Vítor são dois sonhadores-solitários (creio não ser arriscado afirmar que todo sonhador é solitário) que fazem uso de dois meios diferentes para um mesmo fim: afastar-se da pressão mundana, o que acarreta, consequentemente, num conhecer a si mesmo.
              

Bastian é o personagem principal de “História sem fim”, do alemão Michael Ende, também existente em filme, este dirigido por Wolfgang Petersen. Bastian é o herói de uma narrativa em que retorna ao ponto de onde partiu, fortalecendo-se no durante, nas diversas situações-problema pelas quais passa na aventura que aceita viver (adianta-se aqui, aventura aceita no momento em que ele abre um grande livro que pouco antes “roubara” de um senhor dono de uma livraria antiga).            
O problema inicial do herói Bastian é uma perda. A perda de sua mãe. Perda esta acentuada pela falta de uma relação mais íntima com seu pai, e que reflete no comportamento do menino na escola, local em que se sente também muito abandonado.
Na sequência de situações-problemas que enfrenta na narrativa, Bastian precisa tomar a difícil atitude de se despir de tudo ao que é apegado, ou seja, de se desfazer de seus pertences e de se dispor a enfrentar tal perda (e outras que virão pela frente), devendo levar consigo apenas um amuleto.            
Ainda, em determinados momentos de sua trajetória-de-herói, o menino se depara com outras condições de escolha, nas quais o desapego será bastante sentido novamente. Ele precisa saber fazer uso da sabedoria, escolher entre o bem e o mal, acreditar muito em si, conhecer quem se é, saber perguntar e responder, e ainda, para finalizar, viver dois fortes momentos: uma espécie de ritual de passagem, no qual enfrenta o seu lado escuro da vida, e no qual também vê o filme de sua vida passar, o que desencadeia no outro forte momento, a morte desse seu lado escuro para que o claro que existe em si sobreviva e ele possa retornar para o lugar de onde partiu.            
Este renascer se dá somente quando Bastian toma outra importante decisão: nomear. Não só dar nome a algo, mas dar uma vida nova a este algo (no caso, à princesa do mundo da “Fantasia”). A força da palavra deixa, então, sua marca maior na narrativa.
    
        
Já Vítor é o personagem de “O sofá estampado”, escrito por Lygia Bojunga. Vítor não é herói de um reino (talvez, no máximo, é herói para sua avó e para si mesmo). É excessivamente tímido. Sua própria vida por diversas vezes é colocada em risco em função da sua timidez – sua garganta que o diga, com tantos engasgos vividos.            
O heroísmo de Vítor é ter sobrevivido até o final da história. É ter superado a dor do amor não-correspondido, a vergonha em dizer uma simples palavra, a perda da sua avó, e de ter retornado para sua casa muito mais corajoso, cheio de vida vivida, e engasgando menos ao emitir qualquer opinião sobre algo.            
Assim como Bastian, Vítor sai de um lugar, percorre toda uma história, e retorna para o lugar de onde saiu. Retorna, conforme já dito, mais vivo, mais confiante em si, mais seguro do viver.           
Bastian viveu uma aventura que existia, primeiramente, dentro de um livro. Depois, na medida em que ia lendo, sozinho no sótão da escola, essa aventura passou a existir também no próprio Bastian. A cada palavra, a cada parágrafo, a cada página virada, a cada janela fechada. Vítor, ao contrário de Bastian, viveu uma aventura lendo sua própria história. Mais literalmente, como um tatu, cavoucando sua própria história. Lendo a si mesmo, às suas características, às suas ações e aos seus pensares, a cada buraco cavado com afinco, com gana, com medo e com desejo.
Ambos viveram, sobreviveram, e se depararam com a obrigação de ler a si mesmos à medida que liam os mundos as suas voltas. Dois personagens leitores. Dois corajosos leitores.
A literatura se faz presente em “História sem fim” e “O sofá estampado” porque nelas a esperança, a fantasia e o sonho são permitidos e imensamente explorados. Porque o leitor é aquele proposto por Barthes, que levanta a cabeça ao ler, que se pergunta o que é aquilo que ele está lendo, que se apaixona, que sente, salva, se despe, e que vê sua vida sendo mudada a cada ponto final e início de frase, seja na ficção, seja na vida real.
O “nada” presente em “História sem fim”, que torna eminente a destruição do reino da “Fantasia”, aquela onda de escuro, de gritos, de dor, é o vazio dos dias de hoje no mundo existente no Planeta Terra. E, se naquele mundo o amuleto do menino Atreyu (ou simplesmente Bastian?) era um colar no pescoço, neste mundo-mundano o nosso amuleto para enfrentar este nada, este vazio que nos domina a cada dia, pode ser o livro (particularmente, acredito que o seja). Ele – o livro – pode ser a chave para o renascer, para a nomeação de algo novo, de uma nova vida e de um novo modo de viver esta vida, esta história sem fim. Seria o livro silencioso que cresce em ruídos quando explorado pelo leitor corajoso. Seria não só o livro com páginas já escritas e prontas para a devoração do leitor, mas aquele livro a ser escrito, dia-a-dia, por cada personagem desta ficção que também pode ser a vida.



ítalo.(também publicada aqui).

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A função do leitor. Ou: fazendo bater


            Às vezes eu inicio uma aula lendo. Algo bem aleatório mesmo. Acho super válido. (Tornar a leitura um hábito, algo mecânico e repetitivo, não considero interessante). Gosto da leitura pela leitura. Sem cobranças posteriores. Quem pegar, pegou. Quem não pegar, numa próxima pode ser. Ou não. Toda leitura é questão de tempo.
Fazendo bater. Acho que é isso que acontece quando eu levo um livro para os meus alunos. Para ler com os meus alunos. Acho que rola dentro de mim, quase no inconsciente, um querer que eles se batam. Os livros e os alunos. Que eles colidam, entrem em choque mesmo. Em todos os sentidos. Porque a leitura precisa marcar. Porque a vida precisa ser marcada pelas leituras. Senão não é leitura. Senão não pode ser vida.
Dias desses, li isto daqui:

" A função do leitor

Quando Lucia Peláez era pequena, leu um romance escondida. Leu aos pedaços, noite após noite, ocultando o livro debaixo do travesseiro. Lucia tinha roubado o romance da biblioteca de cedro onde seu tio guardava os livros preferidos.
Muito caminhou Lucia, enquanto passavam-se os anos. Na busca de fantasmas caminhou pelos rochedos sobre o rio Antióquia, e na busca de gente caminhou pelas ruas das cidades violentas.
Muito caminhou Lucia, e ao longo de seu caminhar ia sempre acompanhada pelos ecos daquelas vozes distantes que ela tinha escutado, com seus olhos, na infância.
Lucia não tornou a ler aquele livro. Não o reconheceria mais. O livro cresceu tanto dentro dela que agora é outro, agora é dela".

(Eduardo Galeano, página 20 de "O livro dos abraços").

Daí você lê, fecha o livro, olha pr’aquelas carinhas miúdas que devolvem o olhar para você como que dizendo "tá, e daí?". E então você devolve a pergunta "tá, e daí?". E o melhor de tudo é o silêncio que fica. Essencial para se tocar a aula adiante. Até quem sabe, no meio dela, ser interpelado por uma pergunta: "Quem inventou a escada, professor, queria subir ou queria descer?". 
E aí, eu acho, você sente que muita coisa nessa vida vale toda uma existência.
A leitura e toda sua individualidade poderiam abrir espaço para a leitura e toda sua possibilidade de ser vivida-compartilhada, não é mesmo? Ler com os ouvidos e ler com os demais são práticas que se escondem no cotidiano, inclusive de uma escola, de uma sala de aula. E que pedem para ser encontradas, minuciosamente, nos cantos de solidão pelas quais se espreitam.
Mergulho, então, nos livros e nas histórias que me levaram a subir e a descer escadas e a querer torná-los lidos por mais pessoas. Em alguns muitos que hoje em dia leio para a guriada, sentindo que eles (os livros) podem ser caminhos para eles (os alunos) dentro deles mesmos. Podem ser portas nas quais eles entrem e façam moradia. Em uma bolsa amarela, por exemplo, em um sofá estampado, em uma distância entre as coisas, em um livro invisível.
Umas das minhas maiores conquistas tem se tornado recorrente. É ouvir toda semana dos alunos, assim que eu entro em sala, a pergunta: Vai ler pra gente hoje, professor? A pergunta por si só basta. Mas a ela e à resposta que dou, vem acompanhado um comentário tão maravilhoso quanto. Se digo “não, hoje não será possível, há bastante coisas a produzirmos, conteúdo e afins”, o desalentado “aaaah” quase me faz mudar de ideia e esquecer do planejado para aquela aula. Se digo “sim, e será agora”, o rápido movimento que a turma faz de logo silenciar para ouvir o que tenho a ler me faz pensar que só aquilo já basta. Às vezes o ato de ler tem uma importância menor do que os movimentos oriundos de tal prática. A vida significando pelas arestas. Das margens para o centro. E voltando às margens.
Não se pode andar só pra frente.
Um texto precisa do leitor para existir. A leitura precisa ser compartilhada para existir.

ítalo.

(também publicada aqui)