sexta-feira, 18 de maio de 2012

Ler em partes. E livros por partes. Da casa.



Um dos dez mandamentos (que eu prefiro chamar de direitos) do leitor apresentados pelo Daniel Pennac no seu livro "como um romance" é o de abandonar um livro sem tê-lo lido na íntegra (sim, porque livros também podem ser abandonados mesmo depois de lidos totalmente). E se antes eu sentia uma dor em abandonar algum livro, de uns anos pra cá eu faço isso com a maior facilidade. Antes mesmo de ter feito a leitura dos mandamentos do Pennac. Ainda mais levando em conta a quantidade de livros diferentes nos quais entro (literatura como portas, não é, Enzo?, não como escadas) semanalmente, como leitor-professor, leitor-pesquisador e leitor-leitor que tento ser. 
            O último que abandonei foi “O homem duplicado”, do Saramago. Já são seis os livros lidos do português, e gostei do começo deste livro citado, mas o momento não me foi para tal leitura. Não me está sendo. Há meses. Ler Saramago exige muita concentração. Por dias. Histórias densas e inteligentes. Exigem do leitor. E gosto muito de livros assim. Mas sentir que o meu momento não é para tal livro é uma característica e tanto a se respeitar.
Abandonar livros é exercício prático do ato de ler. Ao menos deveria ser.
            Fisicamente falando, seria como reorganizar os livros nas prateleiras em que estão. Tenho vivido algo assim há três meses, desde que me mudei para um apartamento, para enfim morar sozinho. Na casa da mãe, em meu quarto, para meus livros havia estantes suficientes. Cá no apê a coisa é mais apertada. Resolvi espalhá-los pela casa. Afinal, a casa minha (é uma coisa maravilhosa falar esta frase!). Há, no quarto, uma estante grande, onde está a maioria dos livros. Há, no miúdo corredor, um recuo de parede onde coube uma estante estreita para mais vários livros. E o resto, como fazer? Espalhei prateleiras pelas paredes. E coloquei alguns num criado-mudo improvisado ao lado da cama e outros em cima da mesa da cozinha. Na mesa se come, na mesa se lê.
Mexer em livros, para mim, é mergulhar dentro do que sou e de como me construo, e por lá me perder. Tenho-me sido novo. Essas mudanças são reflexo disso.
Gosto de olhar para meus livros. Gosto de senti-los pelo tato. Gosto de folheá-los e de relembrar o exato momento em que foram lidos ou comprados, sendo que de alguns ainda não conheço seus interiores, seus poros de vida, os espaços entre palavras – e as próprias palavras – que os fazem ser o que são, para as quais construo os significados que me tornam quem sou.
Costumo dar aos livros, em meus escritos e falas, tratamento de como se tivessem personalidades e vidas próprias, pois acredito muito em que eles tenham, sim, suas vidas próprias, suas personalidades que os caracterizam como livros (sem contar as especificidades de gênero às quais eles dão vida e das quais recebem vida). Mais vivos ainda eles se tornam quando em contato com os olhos, a boca, os ouvidos, o tato, e todos os sentidos do ser humano, que a eles dão novos significados, que a partir deles forma-se enquanto ser humano e cidadão social, que sem eles e seus registros (ficcionais ou não) eu, por exemplo, não existiria.

ítalo.

3 comentários:

Guilherme disse...

Livros sim, são maravilhosos... Adoro e constantemente leio também... Uma maravilhosa viagem nesse mundo de leituras é a questão. Se devemos ou precisamos abandoná-la é a ação. Leituras nos prendem assim como leituras nos distanciam, nos cansam. Para alguns tipos de livros a concentração, a leitura é de um jeito, para outros é de outro. O que vale é o momento em que a interpretação do leitor é válida, plausível. E assim, nós leitores-escritores, vivemos. Não em como mudar... Abraços

Jozi Elen Fleck disse...

Nunca te disse isto: "teu blog não poderia ter outro nome".

Cecilia Nery disse...

Oi Ítalo, bacana essa sua relação com os livros. Quisera ter uma casa só minha para espalhar meus livros também e poder encontrá-los em qualquer canto. Por ora me contento em ter uma pequena estante no meu quarto, onde posso acomodar meus livros, com certo custo, porque o espaço é pequeno para tanta obra linda e boa que tenho. Parabéns pelo blog, já estou seguindo. Bjs.