sexta-feira, 11 de maio de 2012

Aspectos linguísticos em "Amar, verbo intransitivo"


Diz a gramática que o verbo “amar” é transitivo direto, ou seja, não exige uma preposição após o seu uso. Quando ama-se, ama-se alguém. (E depois odeia-se, mas tá).  Então por que o título acima? Porque assim Mário de Andrade intitulou uma de suas obras de maior repercussão – junte-se a ela “Pauliceia Desvairada” e “Macunaíma”. Talvez porque quem ama, ama. E pronto. Desnecessárias são as explicações. Enfim.
Há, neste romance de Mário de Andrade, um narrador que propõe ao leitor, desde as primeiras páginas, uma liberdade de interpretação, um pacto que se mantém a partir do pressuposto de que, conforme afirma o crítico Alberto Manguel, em “Uma história da leitura”, “é o leitor que lê o sentido; é o leitor que confere a um objeto, lugar ou acontecimento uma certa legibilidade possível, ou que a reconhece neles; é o leitor que deve atribuir significado a um sistema de signos e depois decifrá-lo”, algo observável neste trecho:
“Se este livro conta 51 leitores sucede que neste lugar da leitura já existem 51 Elzas. É bem desagradável, mas logo depois da primeira cena, cada um tinha a Fräulein dele na imaginação. Contra isso não posso nada e teria sido indiscreto se antes de qualquer familiaridade com a moça, a minuciasse em todos os seus pormenores físicos, não faço isso. Outro mal apareceu: cada um criou Fräulein segundo a própria fantasia, e temos atualmente 51 heroínas pra um só idílio.
51, com a minha, que também vale. Vale, porém não tenho a mínima intenção de exigir dos leitores o abandono de suas Elzas e impor a minha como única de existência real. O leitor continuará com a dele. Apenas por curiosidade, vamos cotejá-las agora. Pra isso mostro a minha nos 35 atuais janeiros dela”.
E assim o Narrador apresenta aos seus 50 leitores – que, sabemos, são tantos mais – a Fräulein, a personagem Elza, permitindo a cada leitor criar sua própria imagem e seu próprio conceito de quem ela é. Com este recurso, Mário de Andrade convida o leitor a imergir ainda mais em sua obra, chegando a um ponto de cumplicidade entre todos: autor, narrador, personagem e leitor.
Mais adiante no romance, há um outro trecho em que o autor conta como a personagem lhe surgiu: “Que mentira, meu Deus! dizerem Fräulein, personagem inventada por mim e por mim construído! não construí coisa nenhuma. Um dia Elza me apareceu, era uma quarta-feira, sem que eu a procurasse. Nem invocasse, pois sou incréu de mesas volantes e de médiuns dicazes”.
Ainda, “Amar, verbo intransitivo” é um romance que penetra fundo na estrutura familiar da burguesia paulistana, sua moral e seus preconceitos, ao mesmo tempo em que trata, em várias passagens, dos sonhos e da adaptação dos imigrantes à agitada Paulicéia.
Em toda a sua obra, Mário de Andrade lutou por uma língua brasileira, que estivesse mais próxima do falar do povo, sendo comum iniciar frases com pronomes oblíquos e empregar as formas “si, quase, guspe” em vez de “se, quase, cuspe”, por exemplo. Os brasileirismos e o folclore tiveram máxima importância para o poeta e romancista, e, além disso, suas poesias, romances e contos revestem-se de uma nítida crítica social, tendo como alvo a alta burguesia e a aristocracia.
Empenhado em pesquisar os elementos mais característicos da identidade nacional, viajou pelo Brasil coletando exemplos de manifestações folclóricas e musicais na tentativa de compreender melhor a essência do país. Chegou a pensar na criação de uma “gramatiquinha da língua brasileira”, que incorporasse os falares regionais e seus neologismos sintáticos. Não o fez efetivamente, mas suas produções apresentam uma provocação linguística vista em poucos autores – principalmente situando no começo do século passado.
 “Quando do aparecimento do livro, Manuel Bandeira justificou o aspecto mais chocante para a época: ‘A linguagem do romance está toda errada. Errada no sentido portuga da gramática que aprendemos em meninos. Do ponto de vista brasileiro, porém, ela é que está certa, a de todos os outros livros é que está errada. Mário se impõe à sistematização de nossos modismos’”. (Telê Porto Ancona Lopez)
Uma vez que é a língua uma realidade essencialmente variável – pelo simples fato de que é utilizada diariamente, e de que tudo o que é utilizado sofre alteração em sua estrutura primeira – podemos pressupor a inexistência de formas ou expressões intrinsecamente erradas. A ideia rasa de textos errados e textos corretos não é cabível como parâmetro (pelo menos, nem sempre), e sim um olhar de adequação – textos mais ou menos adequados, ou mesmo inadequados a determinadas situações. Um olhar linguístico sobre a língua portuguesa, atento ao uso efetivo dos seus falantes, e não aos manuais de gramática. Da teoria à prática, a distância provoca redemoinhos. Assim também no amor, esta impossibilidade transitiva.

(também publicada aqui)

ítalo.

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