sexta-feira, 25 de maio de 2012

Esta crônica não é séria


Twitto, logo existo. É mais ou menos assim, uma vez que a forma como esta ferramenta de comunicação social tem sido utilizada direciona para uma sinalização, aos seus seguidores, de onde você está ou do que você está fazendo ou do momento de sua vida pelo qual você está passando. E aqui tal afirmação é feita não de uma forma crítica, e também bastante longe da argumentação vazia de que o twitter serve apenas para ser um chip humano que as pessoas acessam para saberem como você está. Tal ferramenta pode ser muito mais do que isso. E me parece que é.
Tudo acaba dependendo de quem faz uso deste microblog simples e convidativo. (Como tudo na vida. Enfim).
Há, por exemplo, o caso de twittar uma indireta pra alguém e, de repente, este alguém nem mais lhe seguir. Seria como enviar uma carta grosseira pr’uma pessoa – ou bater na porta da casa dela – e ela ter se mudado. Você não ficou sabendo da mudança, nem do unfollow que recebeu.
Eis a democracia do twitter. Você segue e ‘dessegue’ quem quiser e quando quiser. Não há limites, muito menos regras. Esses dias alguém retwittou assim: “esse clima gostoso de twitter que é dar satisfação da sua vida gratuitamente pra algumas dezenas de semi-conhecidos”. E não é? Talvez não, se o uso for somente profissional. Mas deve ser muito legal mesmo ser um profissional no twitter, afinal, já não basta trabalhar oito ou mais horas por dia com alguma seriedade? ~ironia~
Rede social é e precisa ser descontração. Irritar-se com algo que não é do seu agrado é dar tiro no pé. Eu tenho orgulho da minha tl, vivo twittando e retwittando isso. Não sigo alguém porque é amigo e só. Sigo meios de informação, jornalistas ou escritores, e gente aleatória que só twitta ‘porcaria’. Pouco me importo o número de seguidores que tenho ou a quantidade de gente que sigo. Gosto de ler algumas informações soltas e coisas leves, descontraídas. Sigo pelo menos um torcedor de cada time. Daqueles fanáticos, chatos, insuportáveis. Vezemquando, provoco-os. Puramente pra ver o ‘circo pegar fogo’. Tenho esperança de que um dia as pessoas deixem de levar a vida tão a sério. O twitter é uma tentativa.
Tem gente que economiza twitt como se fosse dinheiro. Não compreendo isso. Redes sociais apresentam, como propósito primeiro, a comunicação entre as pessoas, e, em segundo lugar, uma exposição de si mesmo-em-busca-da-fama-perdida, mas tá. Logo, não é através do silêncio que a coisa-vai-andar. Não me refiro a argumentações e blábláblá desnecessário. Cria um blog ou escreve carta/e-mail pra jornal, se quiser apresentar ideias. Refiro-me à troca de figurinhas, coisa rápida, tipo um bate-bola. Mas para isso é preciso saber lidar com as diferenças. Mais: é preciso ter respeito às diferenças. E aí voltamos à liberdade de seguir quem você quiser e pronto.
É uma questão de interesse. Como tudo na vida. Do verbo comer. Afinal, “sem verba não há comida”, diz um twitt perdido porraí. E perdido porque outra característica marcante desta ferramenta é sua brevidade. Puro reflexo dessa contemporaneidade na qual estamos inseridos. Um twitt existe e já deixa de existir na mesma hora. Não foi feito pra durar. (E alguma coisa hoje em dia é feita para durar?). Quer ver, então, acompanhar jogo de futebol por ali. Você lê de tudo: “foi pênalti! Juiz filho da puta! GOL!” e no twitt seguinte, “chupa, globo!”. É muito mais interessante do que acompanhar as emocionantes narrações televisivas.
O twitter, assim como o futebol, não deve ser levado a sério, ensina-nos a vida.

ítalo.

(também publicada aqui) 

terça-feira, 22 de maio de 2012

releituras contos de fadas II

releituras da sexta série a.

"Branca de Gelo

Era uma vez, uma princesa chamada Branca de Gelo, que tinha uma madrasta que invejava sua beleza. Seu castelo ficava em uma estação de esqui, na Europa.
Sabendo dos planos da madrasta para matá-la e ficar com o trono, Branca de Gelo resolveu fugir. Pegou seu snowboard e foi deslizando com classe pela neve.
- Êpa! - disse Branca de Gelo - Snowboard? Acabei de fazer uma progressiva e tenho hora para fazer as unhas!
- É brincadeira, né? - disse o narrador - É por isso que odeio histórias com princesas!
- Ninguém merece! - Disse Branca de Gelo - A Bela Adormecida tem um príncipe, a Cinderela tem uma carruagem, a Rapunzel tem uma torre só para ela e HELLO! TODAS TÊM FADA MADRINHA!
- Procura o sindicato das princesas, tá? - disse o narrador.
- Falando em sindicato, - retrucou Branca de Gelo - vamos falar sobre o valor do meu cachê?
- É claro... OPS! Foi mal - disse o narrador, empurrando Branca de Gelo montanha abaixo - Nada como uma mãozinha à madrasta. Onde eu estava mesmo?

Fim".

Alunas: Sofia e Hanny.
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"Rapunzel

Era uma vez o Edward mãos de tesoura. Ele queria salvar uma princesa (igual nos contos de fada), mas quando chegou, a princesa estava presa numa torre. Quando a princesa jogou suas tranças, com suas mãos desastradas ele tentou pegá-las... Bem, você já sabe o que aconteceu..."

Alunos: Gustavo e Bruno
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"Era uma vez uma casinha no meio do nada, com sabor de chocolate, com uma bruxa malvada. Fim".

Alunas: Aike e Isabella.
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"O gato de botas

O gato estava calçando suas botas e pisou num inseto, esmagando-o. Sujou as botas e começou a limpá-las. E limpou, limpou, limpou, limpou, limpou, limpou, limpou, limpou, limpou, limpou, limpou, e nunca mais salvou ninguém, pois ficou limpando a bota pelo resto da vida. Fim".

Alunos: Miguel e Mateus.
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"Branca sem neve

Era uma vez uma menina chamada Branca sem Neve. Ela era muito bonita. Por isso, a rainha tinha inveja dela e lhe deu uma maçã envenenada. A menina mordeu e caiu no chão desmaiada.
O príncipe casou com a rainha e nunca apareceu para salvar a menina Branca sem Neve, que ficou desmaiada para sempre. Fim".

Alunas: Maria Fernanda e Eduarda.
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"O patinho muito, muito feio

Era uma vez um patinho muito, muito feio. Ele vivia no meio de outros patos. E ele sofria bullying com esses patos. Ele acreditava que fosse virar um cisne, mas ele virou um pato muito, mas muito feio.
Depois, ele encontrou um homem muito estranho que lhe ofereceu feijões mágicos. E o pato extremamente feio aceitou. Ele comprou-os e desejou ser um cisne, mas na verdade eram simples feijões, então ficou o resto da vida feio. Fim".

Alunos: Guilherme B., Gabriel R. e Gabriel D.
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"Era uma vez três porquinhos...
- Ei! Chapeuzinho Vermelho, você sabe onde estão os três porquinhos?
- Eles estão na casa da minha vó, me esperando para tomar chá.
- Tudo bem, vamos ver se conseguimos continuar esta história. Lobo! Veio salvar esta história?
- Tá bom, vim.
- Você está indo até as casas dos três porquinhos para derrubá-las e para depois comê-los?
- Não.
- Então o que você faz aqui? E para aonde você está indo?
- Eu vou para a casa da vovó, tomar chá com meus amigos.
- Vai, vai, vai.
- Tá, tchau.
- João, o que faz aqui?
- Fugindo do gigante!
- Então continue assim. 
João foi até a casa da vovó e gritou:
- Corram, o gigante está vindo!
Foi o tempo necessário para todos saírem da casa. Então, ela já não mais existia. O gigante chegou e disse:
- Estou muito atrasado para o chá?

Fim.

Alunas: Rafaela e Jaqueline.
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aqui, as releituras da sexta série c. 


ítalo.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Ler em partes. E livros por partes. Da casa.



Um dos dez mandamentos (que eu prefiro chamar de direitos) do leitor apresentados pelo Daniel Pennac no seu livro "como um romance" é o de abandonar um livro sem tê-lo lido na íntegra (sim, porque livros também podem ser abandonados mesmo depois de lidos totalmente). E se antes eu sentia uma dor em abandonar algum livro, de uns anos pra cá eu faço isso com a maior facilidade. Antes mesmo de ter feito a leitura dos mandamentos do Pennac. Ainda mais levando em conta a quantidade de livros diferentes nos quais entro (literatura como portas, não é, Enzo?, não como escadas) semanalmente, como leitor-professor, leitor-pesquisador e leitor-leitor que tento ser. 
            O último que abandonei foi “O homem duplicado”, do Saramago. Já são seis os livros lidos do português, e gostei do começo deste livro citado, mas o momento não me foi para tal leitura. Não me está sendo. Há meses. Ler Saramago exige muita concentração. Por dias. Histórias densas e inteligentes. Exigem do leitor. E gosto muito de livros assim. Mas sentir que o meu momento não é para tal livro é uma característica e tanto a se respeitar.
Abandonar livros é exercício prático do ato de ler. Ao menos deveria ser.
            Fisicamente falando, seria como reorganizar os livros nas prateleiras em que estão. Tenho vivido algo assim há três meses, desde que me mudei para um apartamento, para enfim morar sozinho. Na casa da mãe, em meu quarto, para meus livros havia estantes suficientes. Cá no apê a coisa é mais apertada. Resolvi espalhá-los pela casa. Afinal, a casa minha (é uma coisa maravilhosa falar esta frase!). Há, no quarto, uma estante grande, onde está a maioria dos livros. Há, no miúdo corredor, um recuo de parede onde coube uma estante estreita para mais vários livros. E o resto, como fazer? Espalhei prateleiras pelas paredes. E coloquei alguns num criado-mudo improvisado ao lado da cama e outros em cima da mesa da cozinha. Na mesa se come, na mesa se lê.
Mexer em livros, para mim, é mergulhar dentro do que sou e de como me construo, e por lá me perder. Tenho-me sido novo. Essas mudanças são reflexo disso.
Gosto de olhar para meus livros. Gosto de senti-los pelo tato. Gosto de folheá-los e de relembrar o exato momento em que foram lidos ou comprados, sendo que de alguns ainda não conheço seus interiores, seus poros de vida, os espaços entre palavras – e as próprias palavras – que os fazem ser o que são, para as quais construo os significados que me tornam quem sou.
Costumo dar aos livros, em meus escritos e falas, tratamento de como se tivessem personalidades e vidas próprias, pois acredito muito em que eles tenham, sim, suas vidas próprias, suas personalidades que os caracterizam como livros (sem contar as especificidades de gênero às quais eles dão vida e das quais recebem vida). Mais vivos ainda eles se tornam quando em contato com os olhos, a boca, os ouvidos, o tato, e todos os sentidos do ser humano, que a eles dão novos significados, que a partir deles forma-se enquanto ser humano e cidadão social, que sem eles e seus registros (ficcionais ou não) eu, por exemplo, não existiria.

ítalo.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

releituras contos de fadas

li pras minhas crias das 6as séries do colégio bom jesus/ielusc alguns livros que propõem releituras dos contos clássicos: a verdadeira história dos três porquinhos; o patinho realmente feio e outras histórias malucas; que história é essa; e que história é essa 2. com isto, solicitei a eles que produzissem releituras semelhantes às propostas nos livros: recriando não somente as histórias, mas a forma de lidar com a escrita/leitura das mesmas. cá estão algumas que selecionei para apresentar no blog. semana que vem tem mais.
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sexta série c


"Era uma vez a Maria e o João. Saíram para passear e no caminho encontraram uma linda casa...
GATO: EEEI, não está esquecendo de nada?
De doces. Eles nem pensaram duas vezes e...
GATO: O TÍTULO!
NARRADOR: Tá bom, tá bom.


TÍTULO: A história que o gato só interrompia.


GATO: Esse título não. Esse: João e Maria.
NARRADOR: Mas esse já existe!
GATO: Gostei desse!


TÍTULO: Mas esse já existe.


Era uma vez a Maria e o João. Saíram para passear e no caminho encontraram uma linda casa de doces. Eles nem pensaram duas vezes e se atracaram.


GATO: huuuuum.... que delícia!
NARRADOR: Pelo amor de Deus, para de comer esta página!






(espaço da página comida. imagem acima)








Fim."


Alunas: Gabriela e Ana Luisa
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"Era uma vez três princesas não encantadas. Gostavam de ir à balada dançar e se divertir.


Negona Torrada
Chapeuzinho Esticado
Ressacada


TÍTULO: PRINCESAS NÃO ENCANTADAS


Tudo começou quando as três foram pra balada e beberam muito. Ficaram bêbadas pelo dia seguinte inteiro.


Negona Torrada era Branca de Neve, mas fez bronzeamento demais e torrou.
Chapeuzinho Esticado estava louca e caiu num penhasco, mas sua toca ficou presa em uma rocha e teve de fazer 'bang jump'.
Já Ressacada não acordou. 


Porém, o lobo, procurando a Chapeuzinho, encontrou-a e com um beijo tentou acordá-la, mas desmaiou com o bafo da princesa, tão ácido que queimou o canto da página".


(espaço do canto de página comido. 
imagem acima)


Alunas: Júlia Sehnem, Maria Fernanda e Amanda Gauza.
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"E morreram na floresta para sempre por um assassino mascarado. Fim.
- Mas fim de que? O que aconteceu? O que é isso? Que porcaria é essa?
- Aaaahhhh, o que eu fiz, o word apagou o resto, droga, tenho que escrever de novo.
- Quem é você?
- Eu sou Paulo, o narrador, agora não me atrapalha, tenho que escrever tudo de novo.
- Ok, agora conta a história.
- Obrigue-me, personagem.
- Obrigue-me a te obrigar.
- Obrigue-me a te obrigar a me obrigar.
- Obrigue-me a te obrigar a me obrigar a te obrigar. 
- Obrigue-me a te obrigar a me obrigar a te obrigar a me obrigar.
Fim?"


Aluno: Gabriel.
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"Os dois porquinhos suínos


Tudo começou sem um era uma vez. Dois porcos de origem suína que queriam sair de casa e conseguiram, pois a mãe deles estava dormindo. Eles decidiram construir três casas, uma na praia, outra no campo e a terceira, para a mãe deles, na cidade, para o lobo ficar longe e não pegá-los e derrubar suas casas. Mas não deu certo, pois aconteceram coisas terríveis: a casa da praia foi derrubada por um tsunami e a do campo por um furacão f5. Só a mãezinha sobreviveu. Onde foi parar o lobo? Fim".


Aluno: Rodrigo
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"A bela sempre acordada


Era uma vez uma jovem, chamada Bela, que vivia numa torre. Ela nunca dormia, esperando algum príncipe ir libertá-la. De tanto esperar, foi ficando tão velha que quando o príncipe chegou na torre, não a quis e a deixou lá forever alone. Fim".


Alunas: Larissa, Milena e Amanda Corrêa.
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"Chapeuzineve


Olá, eu sou a autora, e você deve estar se perguntando: Por que um título tão sem graça, para talvez um pequeno texto mais sem graça ainda?
Bom, a resposta eu não sei. Mas vou tentar falar um pouco sobre essa garota que tem um nome tão ridículo, e que está participando dessa minha história tão chata.
Mas vou ter que falar rápido, porque a folha está acabando, e a ponta do lápis é muito pequena, sem contar que estou começando a sentir algo um pouco quente e molhadinho atrás de mim. Espera um pouco, vou ver o que é. 
Aaaahhhh! Manhêêê! A Sophya mijou no sofá!
Desculpe, é que a minha gatinha fez pipi. 
Bom, vou continuar a contar a história, e tentar esquecer este grande episódio pelo qual eu acabei de passar. 
Tudo começou em um tédio profundo, quando não tinha nada pra fazer e nada pra comer. Então, a dona de não sei que nome, pediu para sua filha, Chapeuzinho, levar para cada um dos sete anões, uma maçã estragada, naquela linda cesta dela, que por sinal é feita de baratas mortas.
No caminho, ela encontrou o lobo jogando pôquer com o caçador. E quando finalmente chegou na casa dos anões, viu que sua avó estava lá, brincando de um pega-pega diferente, e também estava a Rapunzel, e o príncipe, tentando escalar uma árvores de um metro, mas quando conseguiram subir nela, quebrou o galho.
Mas ninguém havia se tocado de que a Chapeuzinho já estava lá. Na verdade, ninguém entendeu porque ela estava fazendo dois personagens: A Chapeuzinho Vermelho e a Branca de Neve. Então, decidiram que daquele dia em diante, ela seria chamada apenas de Chapeuzineve.
Depois disso, toda a história começou de novo, mas de uma forma diferente.
Fim".


Alunas: Michele de Souza, Luana C. e Juliana.
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"A chapeuzinho azul e laranja


Era uma vez uma menina chamada Não Tenho Nome. Ela só se vestia de azul e laranja e a cada dia ela tinha um nome diferente. E começaram a chamá-la de Tia da Esquina. Fim". 


Alunas: Luana S. e Luciane.
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ítalo.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Aspectos linguísticos em "Amar, verbo intransitivo"


Diz a gramática que o verbo “amar” é transitivo direto, ou seja, não exige uma preposição após o seu uso. Quando ama-se, ama-se alguém. (E depois odeia-se, mas tá).  Então por que o título acima? Porque assim Mário de Andrade intitulou uma de suas obras de maior repercussão – junte-se a ela “Pauliceia Desvairada” e “Macunaíma”. Talvez porque quem ama, ama. E pronto. Desnecessárias são as explicações. Enfim.
Há, neste romance de Mário de Andrade, um narrador que propõe ao leitor, desde as primeiras páginas, uma liberdade de interpretação, um pacto que se mantém a partir do pressuposto de que, conforme afirma o crítico Alberto Manguel, em “Uma história da leitura”, “é o leitor que lê o sentido; é o leitor que confere a um objeto, lugar ou acontecimento uma certa legibilidade possível, ou que a reconhece neles; é o leitor que deve atribuir significado a um sistema de signos e depois decifrá-lo”, algo observável neste trecho:
“Se este livro conta 51 leitores sucede que neste lugar da leitura já existem 51 Elzas. É bem desagradável, mas logo depois da primeira cena, cada um tinha a Fräulein dele na imaginação. Contra isso não posso nada e teria sido indiscreto se antes de qualquer familiaridade com a moça, a minuciasse em todos os seus pormenores físicos, não faço isso. Outro mal apareceu: cada um criou Fräulein segundo a própria fantasia, e temos atualmente 51 heroínas pra um só idílio.
51, com a minha, que também vale. Vale, porém não tenho a mínima intenção de exigir dos leitores o abandono de suas Elzas e impor a minha como única de existência real. O leitor continuará com a dele. Apenas por curiosidade, vamos cotejá-las agora. Pra isso mostro a minha nos 35 atuais janeiros dela”.
E assim o Narrador apresenta aos seus 50 leitores – que, sabemos, são tantos mais – a Fräulein, a personagem Elza, permitindo a cada leitor criar sua própria imagem e seu próprio conceito de quem ela é. Com este recurso, Mário de Andrade convida o leitor a imergir ainda mais em sua obra, chegando a um ponto de cumplicidade entre todos: autor, narrador, personagem e leitor.
Mais adiante no romance, há um outro trecho em que o autor conta como a personagem lhe surgiu: “Que mentira, meu Deus! dizerem Fräulein, personagem inventada por mim e por mim construído! não construí coisa nenhuma. Um dia Elza me apareceu, era uma quarta-feira, sem que eu a procurasse. Nem invocasse, pois sou incréu de mesas volantes e de médiuns dicazes”.
Ainda, “Amar, verbo intransitivo” é um romance que penetra fundo na estrutura familiar da burguesia paulistana, sua moral e seus preconceitos, ao mesmo tempo em que trata, em várias passagens, dos sonhos e da adaptação dos imigrantes à agitada Paulicéia.
Em toda a sua obra, Mário de Andrade lutou por uma língua brasileira, que estivesse mais próxima do falar do povo, sendo comum iniciar frases com pronomes oblíquos e empregar as formas “si, quase, guspe” em vez de “se, quase, cuspe”, por exemplo. Os brasileirismos e o folclore tiveram máxima importância para o poeta e romancista, e, além disso, suas poesias, romances e contos revestem-se de uma nítida crítica social, tendo como alvo a alta burguesia e a aristocracia.
Empenhado em pesquisar os elementos mais característicos da identidade nacional, viajou pelo Brasil coletando exemplos de manifestações folclóricas e musicais na tentativa de compreender melhor a essência do país. Chegou a pensar na criação de uma “gramatiquinha da língua brasileira”, que incorporasse os falares regionais e seus neologismos sintáticos. Não o fez efetivamente, mas suas produções apresentam uma provocação linguística vista em poucos autores – principalmente situando no começo do século passado.
 “Quando do aparecimento do livro, Manuel Bandeira justificou o aspecto mais chocante para a época: ‘A linguagem do romance está toda errada. Errada no sentido portuga da gramática que aprendemos em meninos. Do ponto de vista brasileiro, porém, ela é que está certa, a de todos os outros livros é que está errada. Mário se impõe à sistematização de nossos modismos’”. (Telê Porto Ancona Lopez)
Uma vez que é a língua uma realidade essencialmente variável – pelo simples fato de que é utilizada diariamente, e de que tudo o que é utilizado sofre alteração em sua estrutura primeira – podemos pressupor a inexistência de formas ou expressões intrinsecamente erradas. A ideia rasa de textos errados e textos corretos não é cabível como parâmetro (pelo menos, nem sempre), e sim um olhar de adequação – textos mais ou menos adequados, ou mesmo inadequados a determinadas situações. Um olhar linguístico sobre a língua portuguesa, atento ao uso efetivo dos seus falantes, e não aos manuais de gramática. Da teoria à prática, a distância provoca redemoinhos. Assim também no amor, esta impossibilidade transitiva.

(também publicada aqui)

ítalo.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Destino

"Peguei minha bolsa para fugir na noite mais chuvosa do ano. Pulei a janela, coloquei o capuz, tinha que sair daquele lugar. 
As imagens do homem que mais conviveu comigo, batendo-me, não saem da minha cabeça. Estou com ódio mortal do meu pai.
Cheguei no primeiro ponto de ônibus, e decidi dormir lá, só esta noite, amanhã já acho outro lugar para ficar.
Estava pensando em como me sustentaria. De repente, no meio da escuridão, uma figura estranha apareceu e aos poucos foi tomando forma. Era uma mulher, de meia idade. Perguntou se eu estava perdida e simplesmente desabafei, precisava de alguém para confiar.
Quando estava pensando "O que eu fiz? Estou contando minha vida para uma estranha", ela me ofereceu sua casa para hospedagem. Aceitei. Não teria para aonde ir se não tivesse recebido este convite. 
A mulher abriu o guarda-chuva e fomos para sua casa, conhecendo-nos pouco a pouco.
Chegando lá, deparei-me com muitas outras garotas, pensei que fosse uma hospedeira.
Ela sugeriu que eu fosse para o banho e me deu uma camisola fina, de renda, para vestir. 
Durante o banho, novamente as imagens não paravam de passar pela minha mente.
Ao sair, fui para o quarto que correspondia à chave que a senhora havia me entregado.
Ao abrir a porta, deparei-me com um homem de aparência velha, nu, olhando-me.
Então percebi que aquela casa não abrigava meninas de rua e que estava me deparando com meu primeiro cliente". 

(Milena e Catherine - 1o ano Ensino Médio Colégio Global)
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a proposta de redação era de escrever um conto com uma temática sem citar a palavra-chave desta temática.


ítalo.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Bob Dylan existe - e um show d' O Rappa é duca!


            E eu o vi de perto. De muito perto. Coisa de dois metros de distância. Quase colado à grade da pista do Pepsi On Stage, em Porto Alegre, na terça-feira 24 de abril. Por uma hora e cinquenta minutos ele esteve à minha frente. E começou cantando Leopard-Skin Pill-Box Hat, do disco Blonde on Blonde - assim como fizera nas outras apresentações nesta recente passagem pelo país – emendando com o hit It's All Over Now, Baby Blue. E na terceira música já veio a gaita de boca. Você não acredita que aquele som exista até que o ouça ao vivo. Você não acredita que aquela pessoa exista até que você a veja com os seus próprios olhos.
Não paro de ouvi-lo já faz muito tempo. Anos e anos. Ouvindo e lendo sobre o ser extremamente tímido e por isso misterioso que pouco se deixa mostrar pela mídia. Inclusive levei o livro autobiográfico “Crônicas – Volume um” para meus alunos do Terceirão, em determinada aula, e foram meses até ele voltar a mim. Uma boa meia dúzia passou a conhecer um pouco mais da vida de Bob, algo que muito me alegrou, imagina senão.
            (Abrindo um parêntese: Porto Alegre é cidade grandimais. E suja demais. Acolheadora, pareceu-me. Bati perna, conheci a ‘Casa do Mário” (Casa de Cultura Mário Quintana) e o aeroporto Salgado Filho (este porque ficava em frente ao local do show). Além do próprio Pepsi On Stage, da rodoviária e de alguns ônibus e táxi’s. Aliás, só em Porto Alegre eu vi um Váxi, uma vaca instalada no meio da rodoviária, com a plaquinha com tal nome sobre ela. Não me perguntem o que significa. Bom, isso tudo meras impressões de quem passou breves 24h por lá).
            Voltando a falar sobre o ser de cabelo-cacheado-parecido-com-o-meu, e de voz rouca, o que não faltaram foram descontração e empolgação: dos fãs, obviamente, da banda, e do próprio Dylan, desmistificando o mito de que não interage com o público. O homem arriscou passinhos de blues, risos tímidos, brincadeiras com os músicos, e até fingiu passar mal, levando por vezes a mão à nuca, fazendo caretas de cansaço e de falta de ar. Vai que é a idade, né? Mas prefiro a ideia de que ele fingiu, de que o bom humor era tanto que até brincou com o público – e com os próprios músicos que faziam expressões de susto e não desgrudavam os olhos dele nesse momento. Pareceu-me tão bem ensaiado quanto a execução das músicas.
Seis dias depois, assisti a um show d’ O Rappa, em Camboriú. E os caras merecem algumas linhas aqui, sim. (Prometo voltar à Literatura na semana que vem. Já chega de futebol e música, eu sei, leitor). Coisa bonita de se viver é um show de uma banda ou de um músico de que você gosta – às vezes até de quem você não conhece muito. A energia compartilhada num local e num momento como estes é inigualável. São sensações e lembranças que se guardam pro resto da vida, sem dúvida. E não sei bem o porquê de estar escrevendo esta crônica, afinal, somente vivendo um show para senti-lo como realmente foi. Mas eu acredito nas palavras e na possibilidade de troca de sentires entre autor e leitor. Enfim, a ‘quebradeira’ proporcionada pelo Rappa foi ducaraleo! Não havia como não pular ensandecidamente, numa mesma vibração, num mesmo tom de voz: o grito. Duas horas e meia de show, roupa encharcada, pernas e braços doloridos, rouquidão, e uma leveza mais eficiente do que a eterna mania de descansar (vulgo, ficar parado).
Uma áurea mítica com o Dylan, um silêncio que precede o esporro com O Rappa. Independente do estilo musical, quando se curte e se está disposto a tal, um show ressignifica muito umas milhares de vidas.
With God On Our Side, Valeu a pena, êê.

ítalo.

(também publicada aqui