sexta-feira, 13 de abril de 2012

Tenho me falecido leitor

            Preciso matar o Ítalo-leitor que sou. Há muito.
Foi-se mais um livro lido, e faltou novamente aquela pausa para tomar fôlego, sentindo o quanto se está envolvido com a narrativa, com a história. No máximo, alguns bons socos no estômago. Mas não vivo de frases soltas. Não quero livros sublinháveis. Pensei em parar a história pelo começo. Deveria ter feito. Porque foi só. Setenta páginas iniciais em que estive encantado. Dali em diante, acabou-se o encanto, acabou-se o amor. Parei na página duzentos. Faltaram outras setenta. Mas tenho sido um ótimo leitor nisso de abandonar os livros antes de finalizá-los. (Refiro-me a “Ribamar”, do José Castello)
Não quero mais isso. (Abandonar os livros, continuarei. Pennac muito bem me ensinou quando o li, há alguns anos. Nem pensar em abrir mão do mandamento de abandonar um livro quando ele não mais lhe agrada). O que não quero continuar é com essa literatura que se preocupa mais com a linguagem do que com a história. É febre. Pelo menos para mim estava sendo. A procura era somente por livros assim. Li bastante coisa boa, mas me enjoei.
Até mesmo andei escrevendo coisas assim. Tenho a chance de voltar atrás e não publicar. Ou publico com uma nota de rodapé: “Estes escritos são de um Ítalo que não existe mais, que não mais acredita neste tipo de texto”. E não acredito mesmo. A literatura não me tem mais tocado como anteriormente. Tem sido difícil encontrar algo que me faça sentir a vida pulsar. Não recuso a ideia de que talvez falte vida em mim mesmo, daí não haverá livro que me fará encontrar nele o que aqui está ausente. O último que me encantou foi “Capitães da areia”, do Jorge Amado, sobre o qual já escrevi. Mas antes dele não tenho recordação.
“Ribamar” não é livro ruim. Longe disso. O meu nível de exigência está alto, sim. Advém daí, também, meus tiros n’água. Vencedor da 53ª edição do Jabuti, na categoria romance, a narrativa em primeira pessoa faz do leitor um confidente do narrador, este que escreve sobre o fazer de um livro chamado “Ribamar”, feito todinho com pensares do filho sobre o pai (nunca vi tanta referência às obras do Kafka. Enjoam, mas me parece que isto é proposital) e blábláblá.
Agora, esta semana, comecei a ler “Crônica de uma morte anunciada”, do Gabriel García Márquez, por insistência da Monica, amiga leitora e escritora com quem já troquei muitas referências literárias. Tenho uma dívida gigante com ela: “Cem anos de solidão”, também do Márquez. Comecei, então, pelo “Crônica”. E me envolvi demais com as primeiras setenta páginas. Livro longe de se enrolar pela linguagem. Ao contrário. Vai direto à história e pronto. Não tem me levado ao delírio-literário, mas me tem agradado.
Mudar-se enquanto leitor envolve isto de não esperar demais de um livro, e também de recorrer aos clássicos (sempre eles!) em caso de asfixiamento. Taí um assunto cronicável. Os clássicos. Se assim são chamados, motivos há. Cronicarei a respeito na semana que vem. Quem sabe até lá eu já esteja respirando melhor, literariamente falando. 

Um comentário:

Camila F. disse...

acho que te entendo... antes eu também, me encantava muito com a linguagem, aquelas frases de efeito... agora isso já não me cativa tanto numa narrativa. acho importante essa preocupação com a linguagem, mas não só isso.

uma vez ouvi o Antônio Lobo Antunes falar, numa entrevista, que no começo ele escrevia muito assim, até perceber que o livro todo deveria ser uma grande metáfora ( e não cheio delas). apesar de eu nunca ter conseguido ler Lobo Antunes, agora concordo com o que ele diz. alguns autores fazem tanto malabarismo com a linguagem e se preocupam tanto com a forma que esquecem da história, enfim...

inté :-)