segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Anatomia das segundas-feiras

Introdução

Só porque cabe a mim escrever às segundas-feiras neste espaço, descaradamente farei uso de uma crônica do Carlos Heitor Cony, tão somente pelo fato dele propor uma reflexão sobre este dia da semana que muitos têm como o início da mesma, quando na verdade sabemos, ou assim nos ensinaram desde as cataqueses da vida, que é no domingo que tudo começa – apesar das contradições que esta informação traz consigo. E justifico o uso de tal crônica pelo fato das aulas terem se iniciado na semana que passou e também por ter sido a semana em que fiz mudança de uma casa prum apê – dois temas que certamente serão cronicados nas próximas semanas, prometo.
Desde já agradeço ao Cony pela crônica – juro que tentei ligação para ele, sem sucesso, então enviei e-mail comunicando do uso (repito a palavra: descarado) que estou fazendo. Salvou-me este domingo à noite que até agora apresentava um quê de desespero por não ter escrevinhado ainda a crônica pro dia de amanhã (que já é hoje para você, leitor).
Por essas e outras que eu digo e reafirmo: ler vem antes de escrever.

Anatomia das segundas-feiras

Nada a ver com o rock homônimo que fez sucesso há tempos. Também não gosto das segundas-feiras e tenho excelentes motivos para isso. É o dia em que todos os chatos do mundo saem das tocas, infestam ruas, montanhas e vales da vida: é uma invasão, um apocalipse now.
Após o fim de semana dedicado a refletir sobre a necessidade de fazerem alguma coisa – já que até então nada fizeram senão aborrecer os outros e a si mesmos – os chatos decidem a cada segunda-feira iniciar o futuro que começa a cada dia, a cada semana e, em especial, a cada segunda-feira.
Essas resoluções nascem da fossa crepuscular dos domingos. Tão logo o Sol se levanta na segunda-feira decisiva (que são todas elas), eis que a turba se ergue dos túmulos da mediocridade existencial e sai à cata das oportunidades, da concretização dos propósitos. É na segunda-feira que todos os que ainda não chegaram lá se repõem em dia com velhos projetos, antigas ambições. Dessa vez vai. Ou melhor, dessa vez vão.
Vão é poluir a vida dos outros. Procuram amigos e ex-amigos, fazem sondagens no mercado, forçam coincidências. Na terça-feira o entusiasmo diminui, acaba na quarta-feira e no resto da semana tudo volta ao que era antes, exceto nas sextas-feiras, quando os mais insistentes buscam reatar os contatos, tentam um replay, uma avaliação das possibilidades ameaçadas na segunda-feira. E forçosamente transferidas para a segunda-feira seguinte.
A sabedoria ancestral dos judeus ensina que não se deve começar nada de importante nas segundas-feiras. É o dia que os antigos dedicaram à Lua, um cadáver astral que rola em torno da gente, inútil e deletério, que serve somente para influenciar as marés e o ciclo menstrual das mulheres.
Por tudo isso, acho que houve engano dos historiadores quando afirmam que Cabral avistou o Brasil num domingo. Deve ter sido numa segunda-feira”. (Carlos Heitor Cony, “Crônicas para ler na escola”, Objetiva, 2009)

(também publicada aqui)

ítalo.

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