terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

'Clichezando' até no título

Eu adoro os clichês. Considero-os fundamentais em muitas situações cotidianas. Para diálogos, para interações, para reflexões próprias. Até para frases de livros, por mais que eu continue chato com isto. Aquele conselho de amigo – ou de inimigo, e até mesmo do chefe. (Só não vale de pai e mãe. Estes já são clichês por natureza). Não gosto de quem olha com certo desprezo para eles. Aquela arrogância de ‘pff, quanto senso comum’. Prefiro a clareza às enrolações tortas de quem diz, diz, diz, e na verdade não fala nada e acaba sendo compreendido só por um par de gente.
Precisei voltar meus pés para o chão – a sola deles, porque de bico é perigoso machucar. É um cuidado necessário à medida que você entra num universo cultural denominado cult (com sinônimo implícito para “sou foda, na cama te esculacho”), seja relacionado a livros, a filmes, a músicas, teatro e tantas outras formas de (?) arte. Mergulhei de cabeça. Meti a cara no mundo e fui fundo. Daí, quando estava lá embaixo – e lá é frio ‘paburro’ – comecei a sentir falta do calor da água rasa. É tão gostoso sentar na areia e deixar a água do mar bater em ti sem te tirar do lugar, né?
 (Ufa, consegui encaixar nesta crônica um clichê menos conhecido).
Saber lidar com clichês me parece sinônimo de leveza. Dar atenção e seriedade demais a coisas tão poucas me parece sinônimo de peso. ‘Tou’ leve. Logo, existo. Não, mentira. Tou leve, logo, tou mais aberto ao mundo. E quando a gente se abre ao mundo, o mundo vem até nós. Puro clichê. E vem me dizer que não é assim, né, Woody Allen? Foi no teu filme “Tudo pode dar certo” que ouvi o personagem Bóris dizer que “Às vezes, um clichê é a melhor forma de expressar algo”. Né?
E foi no livro do suíço Alain de Botton, “Como Proust pode mudar sua vida” (Proust se opunha a expressões usadas com muita frequência. – Azar o dele), no capítulo “Como expressar suas emoções”, que me deparei com isto: “O problema dos clichês não é conter ideias falsas, mas ser articulações superficiais de ótimas ideias”. E daí? Isto é realmente um problema? Isto é um incômodo cult. Problema, a meu ver, é outra coisa. E está bem longe desse preconceito explícito contra expressões superficiais – e aqui nem é preciso discursar sobre o olhar torto direcionado às manifestações artísticas que ficam no raso porque se propõem a ficar no raso. Isto é assunto pr’outra crônica.
Clichês são superficiais, sim. Tão óbvio quanto o sol clarear o dia e a luz clarear a noite. Eu entendo mais – e respeito – quem fica no raso do que quem faz questão de viver submerso. Nível hard só no vídeo-game, pra mim.

ítalo.

(também publicada aqui)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Uma leitura que leva à outra que leva à


              Passei as últimas duas semanas lendo e rabiscando um livro que Rosane me emprestou, “Como Proust pode mudar sua vida”, do suíço Alain de Botton – lendo e rabiscando porque ler pra mim é interação, é diálogo entre livro e leitor, e minha forma de dialogar, nesse caso, é com anotações de canto de página, coisa que Rosane faz também. Acabam por ser no mínimo duas leituras: a do conteúdo do livro e a das anotações do leitor do mesmo.
            (Quando Rosane me empresta um livro é porque a coisa “vai bater”, expressão que utilizo para fazer referência a um encantamento que há entre mim e o livro. Foi assim com “Uma história da leitura”, do Alberto Manguel, livro que se tornou meu guru nos recentes anos de graduação e de produção acadêmica, e foi assim com “As intermitências da morte”, livro que me levou a conhecer a escrita do José Saramago, por quem meu encantamento só aumentou a cada livro dele que li).
            “Como Proust pode mudar sua vida” me assustou tão logo o peguei em mãos. Um susto que vem do meu preconceito com livros de autoajuda. Porém, senti que apenas o título soava estranho, que o conteúdo não tenderia a isto. E não tende mesmo, apesar dos apelos comerciais por ele apresentados, observação atenta do Enzo, que leu o livro após um e-mail que enviei a ele, com dois trechos do mesmo. (É de papo em papo, de trecho em trecho, que a leitura vai se disseminando porraí).
            São nove capítulos nos quais o autor propõe reflexões sobre a vida: relações sociais, amor, sofrimento, leitura - todos a partir da leitura de “Em busca do tempo perdido”, obra-prima de Proust.
            Fiz a leitura dos capítulos de modo bem aleatório. Comecei pelo último, depois fui para o segundo, os dois que mais me interessavam: “Como abandonar os livros” e “Como ler para si mesmo”, uma vez que pensar a leitura e suas possibilidades de práticas e estudos me é algo recorrente.
            Assim, deixei por último o capítulo três, “Como sofrer com sucesso”, e muito nele me incomodou. Proust tinha um modo de viver que tendia ao sofrer, às dores físicas e emocionais. Havia nele a crença de que a felicidade nos torna ignorantes e de que é o sofrer que nos leva ao pensar, ao refletir sobre a vida, logo, a uma sensação de maior controle sobre si mesmo: "De fato, na visão de Proust, só aprendemos realmente alguma coisa quando há um problema, quando sofremos, quando algo não sai como o esperado".
            Não me identifico com este pensar. Há drama em excesso, assim vejo. Tá certo que aprendemos com a dor, com o sofrimento. Que isso muito nos engrandece. Mas daí a cultuar um estado de espírito assim? Isto não me cabe. Da mesma forma que não compactuo com a ideia de que é o sofrer que leva à escrita. É mais um exemplo de dramalhão típico de quem não saiu da infância e quer chamar a atenção com sua própria dor - ou cara de. Parece-me mais falta de equilíbrio esta romantização da vida e da escrita. Prefiro um olhar para o viver que entenda cada ação ao seu redor como uma parte de um aprendizado contínuo, para o qual é necessário algum equilíbrio, um meio que não penda demais nem para uma euforia excessiva, nem para tal romantização do sofrer.            
          Proust pode até ter escrito um livro marcante para a literatura mundial - que eu não li e não sei se um dia lerei - mas não me cativa enquanto pessoa. Pelo menos do pouco que conheci atráves do Botton. Quem sabe em outras vidas, né, Proust?

(também publicado aqui).

ítalo.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Anatomia das segundas-feiras

Introdução

Só porque cabe a mim escrever às segundas-feiras neste espaço, descaradamente farei uso de uma crônica do Carlos Heitor Cony, tão somente pelo fato dele propor uma reflexão sobre este dia da semana que muitos têm como o início da mesma, quando na verdade sabemos, ou assim nos ensinaram desde as cataqueses da vida, que é no domingo que tudo começa – apesar das contradições que esta informação traz consigo. E justifico o uso de tal crônica pelo fato das aulas terem se iniciado na semana que passou e também por ter sido a semana em que fiz mudança de uma casa prum apê – dois temas que certamente serão cronicados nas próximas semanas, prometo.
Desde já agradeço ao Cony pela crônica – juro que tentei ligação para ele, sem sucesso, então enviei e-mail comunicando do uso (repito a palavra: descarado) que estou fazendo. Salvou-me este domingo à noite que até agora apresentava um quê de desespero por não ter escrevinhado ainda a crônica pro dia de amanhã (que já é hoje para você, leitor).
Por essas e outras que eu digo e reafirmo: ler vem antes de escrever.

Anatomia das segundas-feiras

Nada a ver com o rock homônimo que fez sucesso há tempos. Também não gosto das segundas-feiras e tenho excelentes motivos para isso. É o dia em que todos os chatos do mundo saem das tocas, infestam ruas, montanhas e vales da vida: é uma invasão, um apocalipse now.
Após o fim de semana dedicado a refletir sobre a necessidade de fazerem alguma coisa – já que até então nada fizeram senão aborrecer os outros e a si mesmos – os chatos decidem a cada segunda-feira iniciar o futuro que começa a cada dia, a cada semana e, em especial, a cada segunda-feira.
Essas resoluções nascem da fossa crepuscular dos domingos. Tão logo o Sol se levanta na segunda-feira decisiva (que são todas elas), eis que a turba se ergue dos túmulos da mediocridade existencial e sai à cata das oportunidades, da concretização dos propósitos. É na segunda-feira que todos os que ainda não chegaram lá se repõem em dia com velhos projetos, antigas ambições. Dessa vez vai. Ou melhor, dessa vez vão.
Vão é poluir a vida dos outros. Procuram amigos e ex-amigos, fazem sondagens no mercado, forçam coincidências. Na terça-feira o entusiasmo diminui, acaba na quarta-feira e no resto da semana tudo volta ao que era antes, exceto nas sextas-feiras, quando os mais insistentes buscam reatar os contatos, tentam um replay, uma avaliação das possibilidades ameaçadas na segunda-feira. E forçosamente transferidas para a segunda-feira seguinte.
A sabedoria ancestral dos judeus ensina que não se deve começar nada de importante nas segundas-feiras. É o dia que os antigos dedicaram à Lua, um cadáver astral que rola em torno da gente, inútil e deletério, que serve somente para influenciar as marés e o ciclo menstrual das mulheres.
Por tudo isso, acho que houve engano dos historiadores quando afirmam que Cabral avistou o Brasil num domingo. Deve ter sido numa segunda-feira”. (Carlos Heitor Cony, “Crônicas para ler na escola”, Objetiva, 2009)

(também publicada aqui)

ítalo.