quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

mensagem de final de ano*

(trecho de "Infinite Jest", de David Foster)

Que algumas pessoas realmente têm cara de roedoras. Que certas pessoas simplesmente não vão gostar de você por mais que você tente. Que por mais que você se ache inteligente, você não verdade é bem menos inteligente que isso. Que você não tem que gostar de uma pessoa pra aprender com ele/ela/isso. Que solidão não é função de se estar só. Que é possível aprender coisas valiosas com um imbecil. Que às vezes os seres humanos simplesmente precisam ficar sentados quietinhos e, tipo, sofrer. Que existe uma coisa chamada bondade, crua, inadulterada, sem-segundas-intenções. Que é possível cair no sono durante um ataque de pânico.
E se concentrar muito em qualquer coisa dá muito trabalho.
Que na verdade um gato fica com uma diarreia violenta se você lhe der leite, ao contrário da imagem popular de gatos e leite. Que é pura e simplesmente mais agradável ficar feliz que ficar puto. Em resumo que 99% da atividade pensante da cabeça consiste de ela própria tentando se fazer borrar de medo. Que o espirro de todo mundo soa diferente. Que precisa muita coragem pessoal pra se deixar parecer fraco. Que nem um único momento individual é em si próprio e por si próprio insuportável.
Que meio que todo mundo se masturba.
E muito, no fim das contas.
Que outras pessoas muitas vezes podem ver coisas a respeito de você que você mesmo não consegue ver, mesmo se essas pessoas forem imbecis. Que tentar dançar sóbrio é coisa totalmente outra. Que certas pessoas sinceramente devotas e espiritualmente avançadas acreditam que o Deus que elas concebem as ajuda a encontrar vagas de estacionamento e lhes dá palpites de números da loteria.
Que baratas são, até certo ponto, algo com que você pode conviver.
Que “aceitação” normalmente é mais questão de fadiga que de qualquer outra coisa. Que, perversamente, normalmente é mais legal querer alguma coisa que ter essa coisa. Que transar com alguém com quem você não se importa te deixa mais sozinho do que não ter nem transado, depois.
Que é permitido sentir falta. 



(da revista cult dez/12)

*ironia não se explica.
_ _ _ _ _ 
ítalo.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

bichos convidados pelo ondjaki - V


em seu "há prendizajens com o xão":


formiga (também chamada de formiguinha): remete para um ser com desnoção de ego. conhece a natureza apenas em estado de labor. dorme em andamento para não perder noites de trabalho.

grilo: pastor de estrelas. embalador de noites. de tanto grilar seus sons, conhece cada curva de um silêncio. bichinho quase inencontrável de dia.



pirilampo: ser que alumia um mundozito de cada vez e ajuda poetas a encontrar iluminossílabos desprovidos de grande significação. (“sabe por que minha luz é tão mínima? é que estou procurar coisas dentro de mim mesmo...”).

polvo:  quando chateado cobre-se de pedregulhos para pôr intervalo na sua tentacular existência. gosta tanto de apalpar que não abdica de pelo menos mil atentáculos. ser solitário de pescoço espreitante. 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O samba engana


            Com o perdão da rima bastante pobre no título, leitor, escreverei esta croniqueta discorrendo (que verbo horrível) sobre a contradição que o samba apresenta aos ouvintes da “boa” música – e aqui o adjetivo boa está entre aspas porque me parece sempre necessária uma reflexão acerca das dualidades bom/mau, mal/bem, entre outras, algo que não farei nestas breves linhas, é claro.
            Conforme canta o Seu Jorge, “o samba taí, o samba tá, tá no sangue daquele que sabe sambar” – e até dos que não sabem, ainda bem. Porque não curte samba só quem samba. Há quem seja apenas um bamba, um alguém que apenas arrisca uma trocada de pernas e uma gingada, quase sempre errando, e nem por isso menos contente.
Mas quem é que se atreve a dizer do que é feito o samba? Os Los Hermanos é que não (e aqui não há nenhum desmerecimento ao conjunto carioca de nome argentino, e sim apenas uma observação: eles não são peritos em samba). Mas compuseram uma beleza de música, com esta indagação acima. E acrescentando que se samba por gostar de alguém. E que um bom samba não tem lugar. E não tem mesmo. Vale fundo de quintal, vale sacada de prédio, vale calçada e vale a romantizada botecagem no bar.
(Só não vale confundir samba com pagode. Assunto pr’uma outra croniqueta).
            Caetano é de cantar que o samba ainda vai nascer, que o samba ainda não chegou, que o samba é pai do prazer e filho da dor, e que desde que o samba é samba é assim: a tristeza é senhora. E é aí que eu retomo o título: o samba engana. Engana porque, ao apresentar um ritmo envolventemente-gostoso, faz o sujeito que é bom da cabeça cair em uma alegria contraditória à letra que está sendo cantada; faz vibrar de alegria o corpo que saracoteia ao som de trem das onze, e que não percebe que não se pode mais ficar um minuto com a pessoa amada, pois, perdendo o trem que dali às onze horas sairá, só amanhã de manhã.
            As mulheres são cantadas em todos os sentidos no samba. Mais do que isso: são cantadas as dores que provocam nos sambistas e compositores – e nos homens em geral. Essas moças tão diferentes, não é mesmo, Chico? Fica fácil embalar-se no ritmo dessa canção, sem atentar-se para a dor da moça que, diferente, está me passando pra trás. Por mais que no fundo ainda me queira bem, ela guarda desdém, a safada. Igual a tantas outras.  
            O samba é aquilo que nos leva a andar com a cabeça já pelas tabelas. Porque um samba leva a uma lembrança - ou a uma cerveja -, que leva a outra, que leva a uma roda de pernas a bambar, que leva a um samba e batem-se panelas e palmas e. E de repente as mãos são erguidas, a voz vai alta e o coração não dá o alerta de que se está cantando “Tu te lembras da partida / Acenaste um pano branco / Mãos ao ar, fala contida / Choro preso em acalanto”.
            Tá legal, eu aceito o argumento de que há também o samba de letra entusiasmada, afinal, como é bom viver e não ter a vergonha de ser feliz, não é mesmo? Assim como faz bem aquele sambinha lento, pra dançar mais abraçado, aquele samba que vem pra curar o abandono, ou até mesmo para torná-lo mais grave. São nossos sambas da benção, lembrando-nos de que a tristeza pode até não ter fim – apesar do ritmo contagiante – e de que, apesar de ser preciso um bocado de tristeza pra fazer um samba com beleza, é melhor ser alegre que ser triste, sim.
E não nos esqueçamos de que não se deve deixar o samba morrer. Não se deve deixar o samba acabar. Por mais que ele doa e engane.

ítalo.  

terça-feira, 27 de novembro de 2012

não duvides do meu gingado

morena provocadeira - 
pra não dizer assanhada - 
poemizou para questionar
minha capacidade sambística.

ôxe, mas que coragem
disfarçada de querer.
uma provocação que esconde
em si um convite.
um, não. dois.
ambos aceitos, morena.

o primeiro aqui está:
um cadim de versos meus direcionados
ao teu requebrado.
tais vendo-me daí?
tou cá sambando enquanto rabisco - 
aliás, samba e rabisco formam um par,
assim como tua provocação e meu aceite.

nesse momento, a música já vai pela metade
- ouve daí - 
boa parte do salão já foi riscada.
tou vendo-te  só de canto de olho
no meu gingado com a loira da página ao lado.
porém, não te remoas.
ela pode até sambar, mas não (re)quebra.

minha veia poética é causar-lhe ciúmes.

e para satisfazer teu segundo desejo
é preciso que venhas até aqui o sul.
já subi por ti, estamos combinados?
tá mais do que na hora de desceres por
(ou em) mim.

(e o rio de janeiro pode até ser boa pedida,
mas te juro amor eterno até a quarta-feira
somente.
de cinzas).

nesse mundo vasto mundo
aceito conduzir-te num samba meu
- sem compromisso - 
pra fazer-te a língua suar
e queimar
e o pé calejar
de tanto querer.  

ítalo.

em poema-resposta
para moni

terça-feira, 13 de novembro de 2012

levar escritores para a sala de aula


sempre foi prática minha. e hoje pude repeti-la. baita satisfação!

hoje as minhas crias das 6as séries receberam um escritor. encheram-no de cartazes, lindamente desenhados para apresentar ao autor de "a flauta mágica", obra que reconta, com elementos indígenas e amazônicos, a clássica ópera de mozart. puderam perguntar tudo o que queriam sobre esse mistério que é escrever um livro e ser escritor. puderam vivenciar a leitura de uma maneira mais próxima. puderam ter um livro autografado. obrigado, roberto lanznaster. obrigado, alunos.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Você sente saudade de que?

          
Eis que, lendo “A máquina de fazer espanhóis”, do Valter Hugo Mãe, deparei-me com um forte trecho (redundância para a produção deste portuga) em que o personagem-narrador, silva, de 84 anos, descreve a saudade que sente da recém-falecida esposa e lança esta frase: “que a vida era só isto. é só isto, um novo modo de ter saudades, ou de lhes sobreviver”. Então, como me é característico, resolvi dar um alou, via e-mail, a alguns amigos. Um alou bastante singelo. Título do e-mail: perguntinha boba; conteúdo: você sente saudade de que? Como diz uma amiga minha: “de onde tu tiras essas perguntas cretinas?” Pois é.
            Saudade é sentimento pouco presente em uns e outros. Há quem não morra de saudades. E que é cobrado por não demonstrar tal sentimento. E cá fico perguntando-me de que forma se ajeitam na vida os que sentem tal sentir por pessoas de outras nacionalidades, afinal, não é palavra só da língua portuguesa esta saudade? “Mas como sentir saudade de um momento se ele fica grande exatamente pelo momento?” Como? Levando em conta que a falta incorporada ninguém nos tira, talvez.
            Tem gente que leva a saudade até Ilhota, aos sábados pedalando com alguns amigos. Que a leva até os natais em família, “uma festa louca e sem noção”. Assim como há os que sentem saudades “de poucas coisas”. E não as citam. Com justiça. Poucas coisas tais como: do segundo ano do ensino médio; de falar e sentir o cheiro da avó; de cama feita e dos cachorros; de padarias; de amigos; “de pessoas, claro, mas isso falta em todos os lugares”; de ver – com os olhos físicos – o pai; de ter os pais juntos; “dos irmãos também”; de comer empadas com o avô; e do amor. E de amar: amarga que nem jiló.
            Pessoas admiráveis, estas que se escancararam, mesmo que pouco. Saudade de um amor carnal e também de alma, “que a gente insiste em achar que é pra sempre, mas sempre não é e talvez nunca seja. De acordar junto, de às vezes dormir separado”. Sentir falta “de uma possibilidade de carinho que só acredito fazer-se presente num relacionamento amoroso”. Tão corajosas quanto os que dizem não sentir saudades da infância, “porque as alegrias do passado podem ser renovadas”.
            Mas há a saudade da infância em alguns, sim; de jogar futebol – e sinuca –, de comer caranguejo, e até saudade de mim – e das minhas aulas, afinal, aluno bajulador é sempre bem-vindo. Ora veja. Gente que responde enchendo-me o ego: “saudade de olhar pros livros que vêm junto contigo”; da casa de mãe minha – e dos que por lá passam –, do meu cabelo seboso, da minha risada escrota; “vish, tanta coisa”. Sem contar os dizeres da mãe e das tias, estas, sim, justificando a relação familiar e clamando pela minha presença. E até saudade dos primos, estes familiares tão próximos e tão distantes.
            Sendo assim, não satisfeito em provocar, lancei a mesma indagação no facebook e no twitter. E o pessoal resolveu encarar este olhar-pra-dentro. Até saudade de uma morena capixaba apareceu, vinda – esta saudade – de um jaraguaense. Porque a saudade não tem distância, dizem. Até da Hebe Camargo vale. Assim como de si mesma – puta saudade pra doer, hein? Saudade daquilo que ainda não foi vivido; daquilo que já foi e não volta: o primeiro ano da faculdade, por exemplo. Saudade do verão, do mar e da areia da praia; do anjo da guarda; de cheiro de neném; de pessoas distantes e de quando não era preciso estudar para matemática. Justo. Saudade de fim de tarde caminhando pelos canteiros.
            E ainda há os que não responderam. Compreensível. Tanto quanto os que responderam e devolveram a mim a pergunta. Ora, não é pergunta que se responda. (Muito menos com palavras impublicáveis, como uns e outros fizeram). Cabe, sim, finalizar esta croniqueta com um convite: ouvir “brigitte bardot”, do zeca baleiro. A saudade é prego parafuso, não nos esqueçamos.

ítalo. 

domingo, 4 de novembro de 2012

Sempre preferir o difícil



A que? Ao que é fácil (oposição óbvia). Ao que é convencional também.
Tudo o que vive cabe lá (no difícil), diz o Rilke, em um trecho do seu livro “Cartas a um jovem poeta”, de onde vem esta frase-que-agora-é-título-da-croniqueta. Que veio (esta frase) de um despretensioso – porrisso maravilhoso – e-mail do Edu, em que a divagação proposta fazia referência a uma contradição que muitos dizeres pode render: a de sentir-se só e amar o outro. Duas baitas dificuldades. “É bom estar só porque a solidão é difícil. Amar também é bom, porque o amor é difícil”. E por aí continua dando cacetadas, o Rilke.
Como versado pelo Alberto Caeiro, “Pensar incomoda como andar à chuva”, e nos leva a um lugar solitário. Percebe-se, através do pensar – e do sentir que é natural e não forçado – o quanto acabamos por criar necessidades pré-estabelecidas, e não de fato sentidas. Um ato leva ao outro, e eis que nos encontramos, de repente, envoltos em um lugar (físico e cognitivo) com o qual não nos identificamos, e, sim, forçamo-nos a estar. Então mentimos a nós mesmos para agradar a alguéns.
Porque se torna o caminho mais fácil a ser traçado. E não são muitos os que se dispõem a encarar o que é difícil. E não é sempre que se dispõe a encarar o que é difícil. Dá trabalho. Exige. Tira o chão. E como faz pra andar sem ter onde pisar?
É preciso abrir mão de muita vida para viver.
(Se pudéssemos compreender a solidão e o amor, eles se tornariam menores do que nós, talvez. E, não, não iremos compreendê-los; mas, sim, é possível que saibamos como lidar com eles dentro de nós. Sempre cuidando como se em nossas mãos estivesse a bola de vidro com a profecia de nossas vidas (vide Harry Potter, é claro)).
Abrir uma conversa é, muita vezes, melhor do que fechá-la.
Camila, com dois socos, dá continuidade ao assunto: “Amar é uma coisa bastante pensada, é sensatez pura. É equilíbrio”. Enquanto ideal, é. Enquanto prática, como não cair na talvez dualidade amor x paixão? É o equilíbrio-idealizado que se busca na arte de estar só. Momento em que vem o outro dizer camilesco: “Quase nunca se escolhe estar sozinho sem antes se sentir obrigado a estar só”. A gente aprende estando. Ou tentamos aprender, sem garantia de objetivo realizado. Um equilíbrio que pode ser o apresentado por Edu: “Encontrar alguém que também procure amar o outro enquanto trabalha a si próprio”. Não é egoísmo, não é olhar somente para si próprio. O que falta, na verdade, é deixar de olhar somente para o outro, é deixar de buscar no outro um preenchimento para o vazio que tá dentro de cada um.
Acredito que a gente acerta em buscar fazer aquilo de que gostamos. Essa é a maior alegria que nos cabe. Porque a alegria não é somente uma fuga. Pode ser, também, a manifestação do que de mais íntimo expressamos. “Ser humano é também ser alegre”, bem lembra a Milesca. Até mesmo porque a alegria, quando forçada, machuca, né? E, como bem citado por Enzo, “A pessoa mais feliz que eu já conheci só era feliz a maior parte do tempo porque carregava consigo uma infelicidade indelével do passado”. A ausência de parâmetro complica o olhar.
E acredito que caiba esta frase da Flannery, lembrada pelo Enzo, para não fechar esta conversa, e, sim, abri-la ‘inda mais: “Um deus que você pode compreender é menor do que você”.

ítalo. 

twitt fora do twitter #17


porvir é palavra linda. 

ítalo.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

bichos convidados pelo ondjaki - IV

em seu "há prendizajens com o xão":

carochinha: gosta mais de habitar sonhos, mas apareceu.

cuco: um mágico. ser que faz cócegas embalatórias às arves e pode lhes adormecer em alguns segundinhos. tem problemas reumáticos no pescoço. sabe avoar parado.

porco-espinho: nunca casou, só mantém relações sexuais para os enfeites da reprodução. (“e mesmo assim dói; é experiência de se evitar...”).

preguiça: aprendiz na arte de existir ao contrário. grande mestre em ociosidade permanente, bocejo fácil e deliciosa sonolência. evita fazer qualquer mínima coisinha para nunca cair nesse hábito. desconhece o vocábulo “labor”, proclamando que as formigas já trabalham por todos. 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

sobre literatura e terapia


a literatura foi o primeiro caminho que encontrei para olhar cá dentro, para buscar um conhecimento mínimo daquilo que me constituo sendo. a terapia foi o segundo.
enquanto caminho, é mais do que natural um perder-se entre livros e dizeres. acaba sendo natural, em um primeiro momento, apontar para o livro e para o mundo ao redor, e 'esquecer' de ver neles os espelhos que são. 
foram a literatura e a terapia que me levaram a perceber em mim os desajustes antes direcionados à vida e todas suas arestas. 
respeitar-se é aprendizado construído graças a essas duas artes.


ítalo.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O ato de não-ler


Não mais cabe discutir a importância de uma prática constante da leitura, não só para o desenvolvimento da consciência do ser humano enquanto um cidadão participante de uma sociedade, como também ao desenvolvimento do ser humano que cria uma ideologia, esta que o faz pensar e agir. Entretanto, cabe, sim, um repensar sobre essa prática da leitura. Não-ler também pode ser importante nesse processo de conscientização de si e do mundo.
            É o que propõe o filósofo alemão Schopenhauer, em seu artigo “Sobre a leitura e os livros”, presente no livro “A arte de escrever”, da coleção L&PM POCKET (2005). O autor apresenta um ponto de vista com relação à prática da leitura que, se trazido para os dias atuais, fica em direção oposta ao que tanto se tem discutido sobre a disseminação da prática da leitura.
Schopenhauer defende a ideia de que o ato de não-ler, ou seja, de se ausentar dos livros e, consequentemente, das diversas ideias existentes em outros autores, é uma atitude tão importante quanto o próprio ato da leitura em si. Uma opinião que, se muito divulgada, logo poderia servir de muleta para os aleijados da leitura. Contudo, Schopenhauer explica o porquê de afirmar que o ato de não-ler é tão importante quanto o de ler – a leitura aqui tratada, e pelo filósofo também, sobre a perspectiva dos símbolos gráficos, do texto escrito propriamente dito. Explicação esta que não caberá aos não-leitores como muleta.
O pensador não apresenta a opinião de que não se deve ler nunca, ou de que ler seja algo prejudicial à saúde, física ou mental, das pessoas. O que o filósofo alemão apresenta é que uma leitura livresca, contínua, ininterrupta, impede o sujeito de desenvolver em si uma opinião propriamente sua: “(...) quem lê muito e quase o dia todo, mas nos intervalos passa o tempo sem pensar nada, perde gradativamente a capacidade de pensar por si mesmo – como alguém que, de tanto cavalgar, acabasse desaprendendo a andar”. Sobretudo, o ato de não-ler, para Schopenhauer, significa a oportunidade de o sujeito acomodar em si mesmo as informações recém-obtidas, construindo-as, assimilando-as e acomodando-as em um conhecimento próprio, intrapessoal.
Importante relevar o detalhe das diferenças cruciais existentes entre a época em que Schopenhauer apresentou tal ponto de vista e a época em que atualmente vivemos. São duas realidades muito distintas. Contudo, a opinião do filósofo alemão pode ser interessante justamente em função dessa diferença de cultura e de época, uma vez que hoje em dia o que mais tem sido incentivada é uma maior prática de leitura por parte das pessoas, sem se atentar para o que se tem feito com essas leituras. Ler um material escrito atrás do outro e nada acrescentar a si pode ser tão inútil quanto não ler. Aí a atenção que se deve dar ao dizer de Schopenhauer.
            É preciso cuidado ao construir sentidos a esse não-ler. Proclamar aos quatro cantos que as pessoas não leiam pode ser prejudicial demais numa sociedade em que desculpas para não ler é que não faltam (coitado do tempo, sempre o vilão). Quem muito já leu – e permanece lendo – consegue compreender o quanto essa prática constante da leitura provoca transformações no ser humano. No entanto, sabe-se, quem não tem consigo a prática de leitura bem marcada pode interpretar que o fato de não-ler lhe faz bem, e utilizá-lo como “muleta”, conforme dito no início do texto.
É aquele que tem na leitura uma condição de existência que pode transformar esse não-ler proposto por Schopenhauer em uma atividade reflexiva das leituras que realiza. E somente com muita prática de leitura que se pode construir um significado construtivo para este ‘caminho alternativo’.

ítalo.

domingo, 21 de outubro de 2012

um dos maravilhosos diálogos presentes em alice no país das maravilhas


“A Tartaruga Falsa continuou.
‘Tínhamos a melhor educação... de fato, íamos à escola todo dia...’
‘Eu também ia à escola’, disse Alice; ‘não precisa ficar tão orgulhosa por isso.’
‘Com extras?’ perguntou a Tartaruga Falsa, um pouquinho ansiosa.
‘É’, disse Alice, ‘tínhamos aulas de francês e música.’
‘E de lavanderia?’ insistiu a Tartaruga Falsa.
‘Claro que não!’ indignou-se Alice.
‘Ah! Então a sua escola não era realmente boa’, disse a Tartaruga Falsa num tom de grande alívio. ‘Pois na nossa vinha ao pé da conta ‘Francês, música e lavanderia – extras.’’
‘Com certeza não precisava muito disso’, Alice observou, ‘vivendo no fundo do mar.’
‘Não pude me dar ao luxo de estudar essa matéria’, disse a Tartaruga Falsa com um suspiro. ‘Só fiz o curso regular’.
‘E como era?’ quis saber Alice.
‘Lentura e Estrita, é claro, para começar’, respondeu a Tartaruga Falsa; ‘e depois os diferentes ramos de Aritmética: Ambição, Subversão, Desembelezação e Distração.’
‘Nunca ouvi falar de ‘Desembelezação’’, Alice se atreveu a dizer. ‘O que é?’
O Grifo levantou as duas patas de surpresa: ‘Como? Nunca ouviu falar de desembelezação?’ exclamou. ‘Sabe o que é embelezar, suponho?’
‘Sei’, disse Alice sem muita convicção; ‘significa... tornar... alguma coisa... mais bela.’
‘Nesse caso’, continuou o Grifo, ‘se não sabe o que é desembelezar, você é  uma bobalhona.’
Não se sentindo estimulada a fazer mais nenhuma pergunta sobre aquilo, Alice se virou para a Tartaruga Falsa e disse: ‘Que mais tinha de estudar?’
‘Bem, tínhamos Histeria’, respondeu a Tartaruga Falsa, contando as matérias nas patas, ‘Histeria antiga e moderna, com Marografia; depois Desdém... o professor de Desdém era um congro velho, que ia lá uma vez por semana: ele nos ensinava a Desdenhar, Embolsar e Pingar a Alho.’
‘Como era isso?’ perguntou Alice.
‘Bem, não posso lhe mostrar pessoalmente’, disse a Tartaruga Falsa; ‘estou muito enferrujada. E o Grifo nunca aprendeu.’
‘Não tive tempo’, disse o Grifo, ‘Mas fiz o curso clássico. O professor era um bagrinho, ah, se era.’
‘Nunca estudei com ele...’, comentou a Tartaruga Falsa com um suspiro; ‘ensinava Latido e Emprego, pelo que diziam.’
‘É verdade, é verdade’, foi a vez do Grifo suspirar; e as duas criaturas esconderam a cara nas patas.
‘E quantas horas de aula você tinha por dia?’ indagou Alice, aflita para mudar de assunto.
‘Dez horas no primeiro dia’, disse a Tartaruga Falsa, ‘nove no seguinte, e assim por diante.’
‘Que programa curioso!’ exclamou Alice.
‘Só assim você se prepara para uma carreira: aulas mais rápidas a cada dia’, observou o Grifo.
A ideia era inteiramente nova para Alice e ela refletiu um pouco a respeito antes de fazer mais uma observação: ‘Nesse caso, no décimo primeiro dia era feriado?’
‘Claro que era’, disse a Tartaruga Falsa.
‘E como se arranjavam no décimo segundo?’ Alice insistiu, sôfrega.
‘Chega de falar sobre aulas’, o Grifo interrompeu num tom decidido. ‘Agora conte a ela alguma coisa sobre jogos.’”

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O professor: leitor ou não-leitor?


Ana Maria Machado, em artigo presente no livro “Balaio: livros e leituras”, apresenta a importância fundamental da leitura na formação do professor, destacando o agravante de que há um medo por parte do professor de entrar em contato com os livros, “Um objeto estranho e com tal carga simbólica que o ameaça”, consequência de sua má-formação, cada vez mais longe da leitura livresca.
Esta afirmativa abre caminho para uma reflexão sobre o professor enquanto um sujeito-leitor, ou não-leitor.
Relevando o contato diário com diferentes materiais de leitura (livros didáticos, trabalhos dos alunos, comunicados escolares), pode-se classificar o professor como um leitor. No entanto, se o professor não sentir a leitura como uma necessidade para si – e não só como uma exigência burocrático-profissional – ele não passará de um leitor-por-obrigação, e pouco conseguirá contribuir para a formação de novos sujeitos-leitores. Logo, a caracterização do professor como leitor ou não-leitor está relacionada à significância que o próprio professor concerne às atividades que realiza como docente.
Antes de simplesmente inquirir ao professor um julgamento de leitura, há necessidade de descrevê-lo e compreendê-lo em suas práticas, analisando em que situações ele se forma como um sujeito-leitor. Algo defendido por alguns teóricos, de que não se pode afirmar que o professor é um leitor, muito menos, pela sua atividade intelectual, que ele é um não-leitor. É preciso observar o professor sendo um “leitor interditado”. Ou seja, que iniciou um caminho em sua formação, mas que não necessariamente continuo entre livros e materiais de leitura. Onde parou? Por que parou?
É também importante ressaltar as questões que envolvem as condições de acesso e de produção de leitura dos professores. A formação de um sujeito-leitor é tão determinada pelas condições sociais nas quais ele se encontra, quanto pela própria tomada de iniciativa do mesmo em prol de tal formação. Daí sendo muito relevante analisar o que é que o professor lê, quantos livros ele tem condições de adquirir para seu aperfeiçoamento pessoal e profissional, e que tempo sobra para que ele busque a leitura de textos variados.
Vale ressaltar ainda que a definição de um professor leitor ou não-leitor passa, primeiramente, por outra definição: o que é ler ou não-ler? E, levando em conta que o ato de ler engloba diversas outras práticas e modos além de somente a leitura livresca (caracterização burguesa do que é ler), o professor, é, sim, um sujeito-leitor. A variedade aqui está no como o professor lê, ou seja, que sentido ele dá/constrói à própria prática da leitura. A partir desde viés poderá ser concentrando um olhar para o quanto acarretará na formação de novos leitores esta bagagem apresentada pelo educador.
Os caminhos são vários. Os desafios também. Contrariamente à estagnação, é preciso traçá-los.

ítalo. 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Doença do esquecimento literário

            Parece nome de trabalho apresentado em congresso (só não sei se de educação ou de medicina, de tão horrível que é este título). E, para completar o caso, o assunto a ser desenvolvido nesta croniqueta é quase que vexatório. Então, um título fraco vai combinar com o tema.
            Continuo tratando alguns livros como puta.
É isso.
Perdão pela frase. E pela colocação tão abrupta dela no texto. Vou abrandar a situação (ao menos tentar) explicando de onde provém tal dizer.
            Foi Enzo quem uma vez me escreveu esta expressão, digamos, metafórica. Segundo ele, ler um livro e não se lembrar do que foi lido, ou comprar um livro sem recordar-se de que o mesmo você já possui, são modos de tratá-los (os livros) como putas: comeu e não é capaz de recordar que.
            E esta simplória metáfora me leva a trazer à tona o quanto o ato de ler pode ser, muitas vezes, relacionado a alguma conotação sexual – mesmo que inconscientemente. Refiro-me ao ato de ler sem entrar na história proposta por um texto. Não é apontar para narrativas ou poemas que apresentem cenas picantes, e sim focar a possibilidade da relação – quase explícita – a partir das palavras utilizadas para a prática da leitura: devorar e comer um livro, e sentir prazer com a leitura, por exemplo. E, agora, comer um livro (lê-lo) e não guardar na memória tal ato.
            Há quatro meses, comprei “O encontro marcado”, do Fernando Sabino, com a dúvida se eu já não o tinha. Sim, uma edição igual a então recém-comprada já se fazia presente em uma de minhas estantes. Senti vergonha de mim mesmo naquele momento. E tal sentimento se repetiu dois meses depois, quando trouxe para casa, bastante feliz, o exemplar de “Uma ilha chamada livro”, de Heloísa Seixas, comprado a apenas dez reais em uma livraria. E a vergonha foi maior desta última vez, porque eu não tinha ideia de que já havia lido o livro, muito menos de que ele já se encontrava em minha prateleira, e – ato mais grave ainda – muito sublinhado e anotado, por mim mesmo, com um registro de quando a leitura fora feita, há dois anos.
            Tentando atenuar o causo, e também porque me é característico dar livros aos amigos, foi o que fiz com os dois exemplares repetitidos. À Jozi dei o livro da ilha, e o outro, do Sabino, não me recordo a quem. Um vexame atrás do outro. Que somente me leva a desacreditar na literatura – e em mim mesmo, é claro. Esse papo de que a arte não precisa ter utilidade é bem bonito mesmo, mas ela te prega peças; taí o meu relato pra comprovar.
            Aproveito para fechar este breve e desastroso relato com um trecho do livro da Heloísa Seixas, porque o livro todo, repleto de textos curtos e de reflexões sobre as práticas da leitura e da escrita, é muito bonito (mesmo que eu tenha me esquecido de tê-lo lido): “(...) quanta coisa está contida numa página não escrita, numa não página, de um não livro. Afinal, o branco é a soma de todas as cores. As possibilidades são infinitas”. E o esquecimento faz parte delas.

ítalo. 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

uma ilha chamada livro, heloísa seixas



na croniqueta desta semana eu conto um fato sobre minha relação com este livro. 
até chegar a sexta-feira, então, lanço três pequenos trechos do mesmo:

"a arte é quase sempre a transformação da dor";

"a vida real é às vezes muito maior do que a ficção";

"alguém já disse que quando um leitor se senta para ler um livro, são duas solidões que se encontram".

ítalo. 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Poesia é esse negócio que faz assim, ó




poesia em forma líquida
deve ser bebida ou respirada
em momentos com vagar.
(Ondjaki, “Tu que viste tantas estrelas”)

            Mais uma croniqueta-resenha. Com a sua devida licença, leitor.
            Ondjaki é Angolano. Nascido em Luanda, tem apenas 35 anos, e alguns belos livros publicados. Tenho leitura de dois deles, “Há prendizajens com o xão” e “Avódezanove e o segrdo do soviético”. O prosador e poeta domina a linguagem da forma mais apropriada que se pode ter: reinventa-a. ressignifica-a.
            Começa, por exemplo, seu livro de poemas “Há prendizajens com o xão - o segredo húmido da lesma & outras descoisas” (Pallas, 2011) dedicando algumas palavras-poema a Manoel de Barros, em quem claramente se inspirou para o fazimento deste livro. Diz Ondjaki: “apetece-me chãonhe-ser-me”. É isto ressignificar a palavra. É criar verbo, é criar ação a partir dela. É fazer os animais se verbarem: “libélulas avoam danças / aranhas cospem tranças; / morcegos ralham noites / ursos linguam potes”.
            O chão é o elemento poético de Ondjaki. É no chão que se encontram as formigas – insetos que apresentam “um medonho desconhecimento para egos”. Um chão promovido à almofada, “mas ele sobre nós”. É ao aprendermos a olhar para o chão que podemos aprender a sermos. A chão-nhe-sermos. É do chão que vem o cheiro da terra que rejuvenesce a humanidade. E aprendizagem “é a palavra que, ela sim, ramifica e desramifica uma pessoa; ela enlaça, abraça; mastiga um alguém cuspindo-o a si mesmo, tudo para novas géneses pessoais”.
Prendizajem é saber que “a mosca exagera em / amizades com a merda”. É saber que, de tanto falar, é preciso saber ouvir: “para ser grilo / há que se ter algibeiras / onde também caibam silêncios”. Brilhar por desanonimato. É saber que “ser folha é / nem sempre estar para sol”. E que “bonito é que ela respira”. Porque nem sempre – ou quase nunca – o que a gente espera é o que acontece: “uma mosca parada / pode incomodar uma pessoa”.
É do chão que vem o mundo. Mas “para assistir ao nascimento de uma palavra convém esperar dentro do chão”. 
            Ou correndo por ele. Chutando-o. Rastejando-o. Criando rastros. É o que fazem os meninos de “Avódezanove e o segredo dos soviéticos” (Companhia das letras, 2009) – meninos estes que muito me lembraram os meninos-capitães da areia, do Jorge Amado: porque ingênuos-mas-espertos; porque justiceiros-mas-amorosos.
            Pelas ruas poeirentas da PraiadoBispo, em Luanda – capital da Angola – é que brincam meninos como o EspumaDoMar, Pinduca e Charlita, sem contar o próprio menino-narrador. Brincam em meio a uma agonia: a iminência de se mudarem, forçadamente, dali de onde nasceram e desde então vivem, uma vez que os soviéticos estão a construir um mausoléu que abrigará o corpo do ex-presidente AgostinhoNeto: uma obra descomunal, que parece um enorme foguete de concreto. O que não falta neste cenário de livro são culturas variadas, portugueses, cubanos e soviéticos (reflexo de uma Angola recém-independente). Luanda, um lugar onde “as pessoas morrem sem avisar. Que falta de educação!”, como bem observava a avóCatarina.
            Não bastasse o contexto político-social tão bem apresentado, Ondjaki envolve o leitor em uma linguagem que faz assim, abraça: “O vento deve ter uma casa no tão-longe e está sempre a tentar levar as nuvens para a casa dele, mas isso é uma coisa que eu penso sozinho sem contar a ninguém, porque outras crianças podem me chamar de chanfru e os mais-velhos podem querer me dar remédios para ver se fico bom da cabeça”.
            Uma história toda que “foi num tempo que os mais-velhos chamam de antigamente”. Afinal, “o inchaço do coração / facilita o despalavrear. / a liberdade pode advir / de uma veia”.

ítalo.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

bichos convidados pelo ondjaki - III


em seu "há prendizajens com o xão":



aranha: em complicada teia, bicha muita simples. contentada com qualquer refeição avindoura, seja um mosquito distraído, um grão de pólen, ou o grandioso infinito. contém inesgotável reservatório de saliva.


raposa: tem muito gosto por agalinhamentos, na via directa do instinto.


borboleta: pratica voos ébrios, mas vive sobriamente. se cheirada liberta o odor da amizade. a partir de suas asas podem ser construídas palavras amarelas.


sapo: vive em ânsias de ser beijado por princesas. acredita em vidas passadas, onde julga ter sido príncipe. mestre de cantoria e sapiência. pratica a perigosa arte de encher balões em suas próprias bochechas. gosta de quebrar silêncios da noite. 

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Chega de terapiar


            Mas não é bem assim.
            Recebi alta na terapia. Depois de quinze meses. Esse lance de que a vida é feita de ciclos é um dos baitas clichês. Escrevi há uns meses sobre o terapiar e também sobre os começos que nascem porque têm um fim. Mas o meu na terapia ainda não chegou – o fim. Oficializada a alta, entrei em um combinado com Eliana para que continuássemos os papos quinzenais, por nos fazerem muito bem, por serem prazerosos e para sentirmos um novo modo de terapiar.
            Tal como a vida, é feita de fases uma terapia. No meu caso, por exemplo, a fase inicial foi de “vamô ver no que vai dar isso”. Eu era um verdadeiro descrente da arte da conversa mediada. Ao ouvir frases como as que hoje eu digo – de que todos deveriam uma vez na vida fazer terapia – eu largava um sonoro “tsss”, acompanhado de um olhar ao mesmo tempo esnobe e desconfiado (quase que sinônimos, neste caso). Cheguei ao ponto de iniciar os primeiros papos dizendo estar lá para ver no que ia dar. E deu muito caldo.
            Os primeiros seis meses foram intensos. O momento das quebras. Às vezes, mais de duas sessões por dia, mais de um dia por semana. É muito louca a consciência que se vai desenvolvendo de si mesmo. Um misto de espanto com uma atitude repulsiva, mas, no fundo, acolhedora. Afinal, como abrir mão daquela luz que você visualiza como o caminho para a tranquilidade almejada? Porém, para alcançar esta luz – mais ainda: para aceitá-la e assumi-la – é preciso um tanto de coragem que a gente não sabe que tem até que faz uso de.
Fazer terapia é dar novos significados aos clichês. É torná-los seus. É trazer o mundo pra si e devolver ao mundo um ‘si’ diferente. Mais sincero e respeitoso.
Os seis meses seguintes foram de reconstrução. De levantar-se e novamente cair. De colar uns cacos e novamente se deixar quebrar. Como diz o Diogo Mainardi em “A queda”, seu livro mais recente, “saber cair tem muito mais valor que saber caminhar”. E nisso de cair está implícito o olhar a si mesmo no chão. O olhar os cacos diante de si. Um espelho perde grande significado depois que se faz terapia.
Terapiar é movimento de fora pra dentro e vice-versa. É pegar os elementos externos, aquilo para onde a gente aponta o dedo e sobre os quais jogamos as culpas do que acontece conosco, e visualizar em cada um deles o tanto que há de si mesmo. Isso do mundo ser um espelho do que trazemos dentro de nós não é só frase de efeito, não. Na terapia isso é passível de percepção. Se você se dispõe a. É preciso querer se quebrar. E, depois, completamente fragilizado, ir juntando os cacos e remodelando não um novo ser, mas sim um ser que sempre esteve presente, apenas não visível. Já havia escrito e repito: Terapiar é o caminho de maior respeito para consigo mesmo. E se respeitar é a base mais sólida que alguém pode ter.
Então que os últimos três meses foram de dar cor e forma e adereços aos tijolinhos colocados nos doze anteriores. Foi momento de encarar novamente aquilo que antes assustava e dos quais se fugia. E agora não mais, uma vez que o quê da vida está cá dentro. Daí que se deparar com uma fala assim da Marisa Monte é oportunidade de fechar esta croniqueta: "Aprendi que, quando falam de mim, fãs e desafetos estão falando de si mesmos, do modo como encaram as relações, os problemas, os sonhos. sirvo apenas de pretexto".
Porque é aprendizado terapêutico: o tédio não está na ausência do que fazer. Está num cansaço interno que a gente projeta sobre algo.

ítalo.
(também publicada aqui) 

domingo, 23 de setembro de 2012

bichos convidados pelo ondjaki - II


em seu "há prendizajens com o xão":


alforreca: uma dançarina. para beijinhos usa ardores. para cor optou por transparência. aprecia boleiar-se na correnteza.

toupeira: abandona escuridões apenas para reuniões florestais. nunca quis intimidade com a luz sendo amante de labirintos obscuros. de tanta pacatez, a toupeira é por vezes esquecida pelos seus próprios familiares, não se importando com isso.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

bichos convidados pelo ondjaki


em seu "há prendizagens com o xão":


abelha: de tanto ouvir zumbido ficou surda. vive de cheiras flores e praticar voolêncios. também sabe voar para trás. no picar residem seus derradeiros orgasmos.

urso: um desatento pisador de flores. (“nem é por mal; para mim as flores servem é para alcatifar o mundo...”). 

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O medo que um livro ainda provoca


Em 2009, lembro-me, foram retiradas mais de centenas de milhares de exemplares do livro “Aventuras Provisórias”, do escritor catarinense, radicado em Curitiba, Cristovão Tezza – o, à época, ganhador do maior prêmio de literatura do país, o Jabuti, com o romance “O filho eterno”. Isto devido ao chilique de alguns pais e professores alienados que argumentaram que o livro continha elementos “perigosos” para os adolescentes: alguns palavrões e referência a uma relação sexual. Como se na vida para além dos livros os adolescentes não estivessem em contato com esses “perigos”. Imagino que estes mesmos pais e professores tenham cortado as novelas televisivas de seus filhos e alunos também. Seria o mais coerente.
A falsa moralidade sofre com as diferenças.
Agora, 2012, deparamo-nos com a proibição do uso do livro “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, nas escolas, devido a uma ação, junto ao MEC, do Instituto de Advocacia Racial (Iara), que vê nesta obra a presença de trechos preconceituosos à cor negra.
A literatura era, para Monteiro Lobato, um instrumento de transformação. Literatura, para o maior escritor infantojuvenil que o país já teve, era a própria vida. Foi a partir da vida à sua volta que Lobato construiu sua literatura – tanto a adulta quanto a infantil, esta última alcançando uma repercussão inigualável até os dias de hoje. O Monteiro Lobato homem pouco difere do Monteiro Lobato escritor. Crente de que a literatura representava a vida, em sua obra Lobato deixa claro esta convicção. Seus personagens retratam pessoas próximas, retratam pessoas que existem na vida real, retratam modos de viver e de pensar, retratam uma linguagem que reaproximou o leitor do texto literário, porque coloquial e nem por isso menos inteligente.
Era, o autor, um nacionalista que acreditava na independência do Brasil através da independência econômica, e não era preconceituoso racialmente, como alguns afirmam em função de Negrinha ser apresentada numa posição inferior em sua obra, ou de Dona Benta ser uma empregada doméstica de cor negra. Quando discorria sobre as figuras negras inferiorizadas, ele apenas apresentava uma leitura crítica de uma realidade social da época.
A literatura é tão importante para uma sociedade justamente por permitir aos seus leitores o direito à liberdade de interpretação de um texto, o aprendizado do respeito às diferenças. Porém, ela não tira do leitor aquilo que ele traz dentro de si – no caso, o preconceito. Assim como não existem escritas inocentes, da mesma forma não existem leituras inocentes. “Toda história é uma interpretação de histórias: nenhuma leitura é inocente”, já afirmara o crítico literário Alberto Manguel. Não há como se ler algo sem relacionar a outro algo, ou já lido, ou já ouvido, ou já presenciado. É dessa forma que a leitura, seja ela literária, seja de jornais, revistas, de imagens, ou de qualquer outro meio, enriquece aquele que dela faz uso, desde que devidamente contextualizadas. Ler um livro ajuda a ler o mundo.
O ato de ler pressupõe uma leitura não somente de textos, de palavras escritas. Não somente de imagens ou de sons. Mas sim uma leitura de nós mesmos e daqueles com quem convivemos. Ler é, também e principalmente, saber ler a si mesmo e ao outro com o qual se estabelece uma relação de viver. E cada leitor constrói uma história própria de suas leituras, assim como cada texto apresenta também sua história própria. É preciso saber que a vida não pulsa somente na televisão ou nos best-sellers. Ela está, também, nos livros que provocam o leitor, que propõem um revisitamento às próprias vivências. Ela pulsa da mesma forma nos livros de um Cristovão Tezza, de um Rubem Fonseca, de um Marçal Aquino, de um Dalton Trevisan, de um Monteiro Lobato. Privar alguém de conhecer a vida por este meio é lhe cercear a liberdade de interpretar o mundo no qual está inserido, de aprender com o livro, este elemento de subversão que ainda provoca medo naqueles que querem ter o mundo para si e aos seus olhos como se fosse uma bola de futebol da qual se é dono.

ítalo.
(também publicada aqui)

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Caminhos de uma nova escrita. E de novas possibilidades de leitura.


(Finalizando – momentaneamente – esta conversa, esta croniqueta).
É isto com o que nos deparamos no livro “Das tábuas da lei à tela do computador”, das escritoras Marisa Lajolo e Regina Zilbermann (Editora Ática, 2009). Um cuidado em resgatar toda a história do surgimento do texto escrito, das primeiras formas de expressão do ser humano, e das maneiras de se fazer entender oriundas daquela época.
Seguindo este caminho, como não poderia deixar de ser, ainda mais se levando em conta que a leitura, sem a escrita, não faria sentido, sendo a recíproca a maior prova da afirmação, as autoras apresentam ao leitor um panorama das diversas possibilidades de leitura com as quais hoje nos confrontamos, sejam, estas possibilidades, em termos da ação do ato de ler, quanto no que diz respeito às ferramentas utilizadas para estas leituras – exemplo do meio digital Ipad, um recurso de leitura que armazena vários e vários livros em uma tela um pouco menor do que um notebook.
Assim sendo, também, com o conceito de escrita, uma vez que a escrita mais disseminada pelo meio virtual demonstra um movimento de retomar a escrita desde sua invenção: através de sinais, de caricaturas, os hoje chamados emoticons. Bastam ser observadas expressões escritas para designar sentimentos, como                     :(             :)          *--*     ^.^       =D       =P       ¬¬       =O       =B      
Os emoticons [fusão das palavras inglesas emotion, "emoção", com icon, "ícone"] são amplamente utilizados por internautas para expressar humor e sentimentos durante troca de mensagens. Além disso, a maioria dos atuais comunicadores instantâneos já consegue decodificar essas combinações tipográficas e traduzi-las por equivalentes pictóricos, alguns inclusive com movimentos animados, de modo que ao digitar :) a seqüência se transforme imediatamente no desenho de uma "carinha feliz", assim J.
Esta aproximação muito grande entre tecnologia e escrita e leitura impõe ao ser humano, ao mesmo tempo em que permite a ele, uma capacitação para bem fazer uso de recursos como estes em prol de sua comunicação. Comunicação esta que a cada dia sofre interferências e alterações, seja na maneira oral, seja no modo verbal-escrito de se expressar. Conforme dizer das autoras, a escrita gira em órbitas da oralidade, enquanto que a leitura recompõe a unidade perdida entre as duas ações anteriores.
Estar alheio a essa contínua transformação é o mesmo que se alienar socialmente. Neste mundo não-linear, neste ritmo de vida que também não segue em linha reta e definida, não teria como ser diferente no que diz respeito às formas de comunicação e de interação. Temos um conhecimento não mais preso a uma página impressa ou a uma parede. Toda leitura, de todo e qualquer movimento, torna-se uma escrita em potencial, uma nova possibilidade de pensar e de agir e de se fazer ouvir.

ítalo.
(também publicada aqui)