terça-feira, 29 de novembro de 2011

De guardar e abrir mão

No final do livro “A Bolsa Amarela”, Raquel, a personagem principal que se torna dona da tal bolsa, abriu mão de um par de vontades que antes a preenchiam – e também a bolsa. É quando ela soltou como se fossem pipas as vontades de ser adulto e de ser menino, mantendo consigo uma só, a de ser escritora, uma vez que esta não mais pesava, porque ela não a deixava engordar: escrevia sempre quando sentia que. Também, deixou voar pelo mundo o galo Afonso e a guarda-chuva, que moravam na bolsa. Ficou nela somente o alfinete de fralda, “para espetar a vontade de escrever, se vier a ficar gorda”.
Aí está, “entreguei” o final  da história. Sem peso na consciência. Ler ou assistir a uma narrativa  já sabendo o seu final não me parece tão estranho quanto o mito criado em torno sugere ser. Interessa-me muito mais o durante, cada frase fisgada, cada sentir compartilhado.
A vida é no durante.
Esta é, das histórias que já li, uma das que mais amo. Releio-a quase que todo ano, e me é sempre um reapaixonar-se. E não cabem porquês disso. É questão de sentir, sacumé?
Sinto-me, por exemplo, muito ligado à Raquel. De quando mais novo querer guardar vontades comigo, carregá-las, enchê-las, deixando-me pesar mesmo. E agora não mais. Minha mochila não está mais cheia de livros, não. Minhas prateleiras começam a ganhar espaço (crônica anterior). Meus projetos de futuro são agora dos ventos dos meus pés, dos caminhos que percorro sem saber bem para aonde ir. Voltar a vida à naturalidade que ela merece é o maior bem que já fiz a mim mesmo. Não nos cabe querer explicar, sim apenas dizer. Há uma diferença aí. Chama-se compartilhar.
Ou abrir mão.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Os livros que dou

“Na verdade, todo livro é invisível até que alguém o leia, entenderam? – explicou o ancião, pacientemente. – Os livros se tornam visíveis à medida que vão sendo lidos. Depois, são postos em estantes ou guardados em armário e tornam a ser invisíveis. O importante é que alguém os leia”.
Eis o trecho final de “O livro invisível”, do escritor Santiago García-Clairac, uma história infantil um tanto quanto rasa, mas que ainda assim apresenta alguns fundos falsos em que se torna possível mergulhar. O recorte acima é um deles.
E casa perfeitamente com um movimento que tem me ocorrido, de fazer com que meus livros-invisíveis-porque-nas-prateleiras se tornem livros-visíveis-porque-lidos-por-outros. E, com isso, alguns bons amigos estão sendo presenteados com histórias que já fizeram parte de mim – e que até continuam fazendo, aqui dentro, não mais como objeto-livro-na-estante.
A Francine ganhou “Fica comigo esta noite?”, a Jozi, “A vida que ninguém vê” e “Cartas para o coração”, o Paulo, “Filosofia em comum”, o Jefy, “Crônicos” e “Trem-Bala”, a Jessin, “Mundo infinito” e “Divã”, a Amanda, “Arranjos para assobio” e “O outro” e o Edu, “Corpo Sutil”. É muito livro, né? Sendo lido por muitas gentes. É preciso algo mais para que a leitura aconteça?
Porque deles os livros vão adiante, depois. Porque a ideia de que nada dura para sempre também serve para objetos, parece-me. E que bom. Assim como os sonhos vêm e os sonhos vão (né, Renato Russo?), os livros vão e os livros vêm. Jefy já tem um para me dar. Amanda me presenteou com outro, “O livro de haicais”, Mário Quintana. E quantos ainda circularão por entre nós? Sem contar aqueles emprestados-e-devolvidos e os emprestados-e-nunca-devolvidos. Há coisas que voltam. Há outras que não.
Desapego é o nome desse movimento? Pode até ser. Contudo, é-me preferível lidar com aquilo que não se nomeia. E não se prende. O mesmo para relações (êita palavra forte!) entre pessoas. Como disse o Fox, certa vez, “As melhores coisas da vida são compostas de vem e vai”.

ítalo.

domingo, 20 de novembro de 2011

o nome disso é vida

eu deveria estar no rio de janeiro agora. hoje. de hoje até domingo que vem. eu deveria, sim. porque fui escolhido por uma comissão avaliadora da unesco para integrar o projeto "a gente é agente", destinado ao trabalho de práticas leitoras, de incentivo à leitura. é coisa grande, sim. é em nível nacional, sim. é um puta negócio!

seria.

se eu não me chamasse ítalo puccini.

sou puccini, assim como um monte de gente. e uma dessas gentes trabalha no setor de cultura da prefeitura de joinville. e o fato de eu e ela termos o mesmo sobrenome - e sermos parentes - simplesmente me impediu de participar do projeto para o qual fui escolhido graças ao meu currículo acadêmico e profissional.

culpa de alguém? óbvio que não!
é uma questão de sina.
se eu tivesse o sobrenome da minha mãe, não aconteceria isso.

gritei pra fora, porque pra dentro faz mal, dizem.
soquei o ar, porque bater em mim mesmo não curto.
chorei de ódio, porque humor negro não me agrada.

o calvin pergunta, e eu faço uso da pergunta dele:
"O mundo é injusto, eu sei, mas por que ele não pode ser injusto a meu favor?"

né?

e continuei respirando. talvez porque seja o mais simples de se fazer.

tipo aquele samba do paulinho da viola que diz:
"faça como um velho marinheiro / que durante o nevoeiro / leva o barco devagar".

aliás, ouvir samba foi a melhor coisa que fiz desde que me deram a notícia.

a vida tem paliativo porraí para lidarmos com isto chamado acaso.

ítalo.

sábado, 19 de novembro de 2011

nossa, nossa

assim você me mata, quintana.
[de desgosto]


"A construção


Eles ergueram a Torre de Babel
para escalar o Céu.
Mas Deus não estava lá!
Estava ali mesmo, entre eles,
ajudando a construir a torre."


(Mário Quintana, "A vaca e o hipogrifo").


í.ta**

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

num mesmo ano



assistir ao djavan, a maria rita e ao lenine,
meu deus,


posso morrer, já?

lenine é puro corpo. ele canta com aquela voz maravilhosa, e joga energia demais com aquele corpo que dança do modo mais envolvente possível. ele faz quebrar tudo. com uma alegria que dá vontade de chorar.

ítalo.

De onde têm vindo as crônicas

Ônibus são progenitores de crônicas. Ao menos para mim. A dificuldade é escrever com eles em movimento, né? Mas ao menos rascunhar ideias é possível. Assim começou essa crônica, por exemplo. Enquanto eu estava sentado num ônibus com destino à rodoviária de Joinville. (Rodoviárias são lugares que me pertencem há muito, tamanho meu ir e vir – e estar – entre elas. Nada mais natural do que surgir ideias de escritas nesses trajetos – e até de concretizá-las).

Tenho andado distraído, impaciente e indeciso. Isso quem canta é o Renato Russo em “Quase sem querer”. Eu tenho é andado com um bloquinho e uma caneta nos bolsos. E anotando montes de coisas. Que ouço por aí, de amigos e de desconhecidos. Tem gente sendo refém da minha mão-com-caneta.

É que tem tanta frase boa sendo dita por aí. Tá certo que é linda a ideia de que elas são soltas para ficarem pelo ar, e não presas (vulgo, anotadas). Mas eu as estou anotando. E as twittando. Sim. E delas têm surgido essas crônicas. De frases que me ocorrem, de frases que ocorrem a alguém próximo a mim. De frases que viram twitts. E então croniquetas.

Eu confio mais em crônicas do queem twitts. Estespara mim são carregados de ironia. E de incompletude. Justamente pelo texto curto que propõem, o não-explicar. E eu gosto muito de explorar as ambiguidades possíveis em 140 caracteres. Uso e abuso das dúvidas que as frases deixam, afinal, cada um faz uma leitura do que lê e do que ouve e do que vê pelo mundo. Então pra quê possíveis explicações?

Estou mais pelo samba do que pela conversa. Explicar algo me traz dor de cabeça. É melhor a gente sentir do que querer saber. Algo meio Clariceano: “Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrarem contato.” Interessa-memais a prática do que a teoria. O ouvir do que o falar (melhor ainda, às vezes, o não-ouvir e o não-falar). Um pouco também, o não-escrever. Porque isso de se respeitar é uma descoberta e tanto.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

poemas

poema de três versos


- eu te amo.

é bonito.
e inútil.

_ _ _ _ _

metade não dá

abri mão do mundo
por mim mesmo.

(juntava e afastava os dedos
da mão direita -
a que escreve e a que vira páginas -

e dali fui me despindo
de tudo o que estava
em mim
e não me pertencia
- pelo menos não neste momento).

sê inteiro
para ser do outro.

melhor ainda:
para ser com o outro.


í.ta**


(também aqui)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

De músicas e de gentes

E de outras coisas todas que vivemos.
Foi Jozi quem me apresentou uma cantora de São Paulo, de voz doce/suave (parecem-me sinônimos essas duas palavras, neste contexto) que canta músicas calmas com letras ora cotidianas, ora amorosas, ora naturezas. Tiê. Nome de um pássaro. Nome próprio, não artístico, da cantora dos cd´s “Sweet Jardim” (2009) e “A coruja e o coração” (2011).
            Peguei pelo som, grudei, e agora não solto mais. Tem-me acalentado. Tem-me preenchido. Tem-me feito companhia. Tem-me feito silêncio. Tem dormido comigo todas as noites. Tem me levado a dançar. E a querer dançar. E Jozi tem me ensinado a dançar, veja só.
            Música ajuda a silenciar também, não?
            Ouvindo Tiê eu cheguei à Evelyn, que também a ouve, que também a sente, que também. Vive lendo meus escritos, gostando deles, vê se pode?!
            Uma pessoa leva a uma cantora, a uma música, que leva a uma outra pessoa, que leva.
            E foi Philipe quem me trouxe o novo trabalho da Adriana Calcanhotto, “O Micróbio do Samba”, um cd de doze músicas muito sambísticas e de letras que apresentam várias possibilidades de términos de relacionamentos. Pode doer, mas não parece doer. É como eu e Edu conversamos, músicas que propõem desencontros com batidas tão encontros.
Cd este que agora vive a me deixar a sorrir, como diz a primeira música do cd, que muito me lembra a história narrada pelo personagem Boris em “Tudo pode dar certo”, do Woody Allen. Uma música e um filme que apresentam o acaso em seu estado puro: aquilo que ainda bem existe e ainda bem não avisa quando chega. Nem quando vai embora.
            Uma música que leva a um personagem, a um filme, a uma música, a umas gentes.
            “Pode se remoer”, uma crônica de mim para vocês. Para nós todos.
“Assinado eu”. 

ítalo.
(também postado aqui)


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

uma conversa. ou uma resenha.



ou as duas coisas, vá lá.

e começou assim:

@edu_silveira esse 'micróbio do samba', @ita_puccini, é disco muito bonito e um tantão triste, não? há bem mais desencontros do que encontros aqui.

@ita_puccini @edu_silveira eu o estava ouvindo aqui hoje, e me peguei pensando nisso também. em desencontros, mas com batidas tão encontros.

@ita_puccini @edu_silveira não me passa uma ideia de tão tristeza assim, não. parece-me antes uma consciência tranquila dos desencontros.

@edu_silveira @ita_puccini vdd, pq como vc bem disse, a batida é do encontro, um ritmo pra dançar. vc fica rindo do desencontro. acha ele bonito.

@ita_puccini @edu_silveira maravilhoso, bem isso RT @edu_silveira (...) vc fica rindo do desencontro. acha ele bonito.

e continuou assim, aqui, agora.

afinal, "vai que se materializa o meu príncipe dourado, vai que me espera com boas notícias o inesperado", né, calcanhotto? né edu?

Hmmmm, nego do cabelo dourado,
Vamos de conversa. Antes uma risonha do que uma resenha.
o samba é mais um micróbio pra nossa cabeça.

assim nós vivemos a sorrir. e caminhando sambando.

esperando nosso amor eterno. que dure só até quarta-feira.

Vai saber...Ainda não foi aqui que descobri
O que a cuíca é
que pássaro ela era muito antes
se ela chora ou se ri

lembrando que a sua nova namorada é querida, meu bem, mas ela não samba. pai, ela não requebra. aí o azar é seu, sinto muito.

(já reparô?)

Nisso e em outra coisa: pensa que sabe mentir o homem que eu amo. Humpf!

Vai saber... tem de tudo aqui, marchinha de carnaval, samba de barzinho e violão, tem batuque, guitarra, palma com palma.
Só faltou um partido alto, rs.

aqui quem sabe convidemos o chico pr’essa prosa?

Samba do desencontro... que não há quem ‘guente mais lelêzinho
Se bem que há quem ‘guente, sim e goste dum lerê, lero-lero, lorotinha,

Mas isso não é caso nosso. A orgia é nossa, bem, até segunda ordem do acaso.

Quem é que sabe?

Afinal, eu encontrei alguém que só pensa em beijar. Pode se remoer, se penitenciar...

Ah, Esqueça, esqueça, esqueça, esqueça...

ítalo e eduardo.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

como falar dos livros que não lemos?

resposta: copiando a quarta capa deles.

"Axler não conseguia se convencer de que estava louco, tal como não havia conseguido convencer ninguém, nem mesmo a si próprio, de que era Próspero ou Macbeth. Era um louco artificial também. O único papel que conseguia desempenhar era o de alguém que desempenha um papel. Um homem que não está louco interpretando um louco. Um homem estável interpretando um homem arrasado. Um homem controlado interpretando um homem descontrolado".


("A humilhação", Philip Roth).


eu adorei isso. mas não o lerei. ao menos não agora. vou esperar que a vida o coloque à minha frente em outro momento. 


tô adorando isso de abrir mão dos livros também.


ítalo.