segunda-feira, 10 de outubro de 2011

a leitura, quando basta

Há semanas em que ler não basta.
Estou vivendo semanas assim. As últimas duas. Ô dificuldade de leitura! De me concentrar em algo a ponto de conseguir entrar no que estou lendo. Não tem dado certo. No máximo, fico nos poemas do Manoel de Barros, naquele livrão que continuará sendo minha bíblia durante não sei mais quanto tempo. Ainda assim, esse ato de entrar nesse livrão tem se dado de maneira bastante rasa, ocasiando até mesmo choques, como se eu estivesse batendo meu corpo e minha cabeça contra o chão. A leitura que não flui, a leitura que trava, machuca. Tenho percebido.
Há semanas em que ler não basta.
Assim me vem saudades dos dias em que quanto mais eu lesse, mais vontade me vinha de continuar lendo. Saudades de quando a leitura era de mergulhar fundo, de ir e ir e ir cada vez mais. E não se afogar nesse movimento. Porque vinha a pausa, o respirar, o levantar a cabeça. E então o afundar novamente. Quando um livro só não bastava. Era preciso ler duas escritas diferentes num mesmo dia. Sem ideia de complementariedade. Poderiam ser leituras que se opunham, tanto fazia. A cabeça estava tão boa que permitia receber estímulos diferentes e bem assimilá-los.
Leitura pode ser compartilhar algo. Fazer tão bem que se deseja, então, ler para o outro, mostrar, fazer tocar mais alguém – sempre de uma forma diferente. E reler. Um sentimento de felicidade. Faço muito disso. Encaminho textos, indico livros e autores, conto e descrevo o que me deixou sem respirar de emoção. Sem contar quando faço da leitura um presente para alguém, acreditando na identificação da pessoa com o mesmo.
Leitura pode ser silenciar o que vem dentro. O despertar da não-necessidade da fala, do explicar. Pode ser a consciência plena que não precisa ser dita. Um sentimento de felicidade. Em que não há o desejo de compartilhar, e sim o de guardar para si, um relicário.
A leitura vem para preencher. Como vem para fazer transbordar. Sem ela eu não consigo.

(também aqui

2 comentários:

Andrea de Godoy Neto disse...

Ítalo, que coisa mais linda isso: "Leitura pode ser silenciar o que vem dentro. O despertar da não-necessidade da fala, do explicar. "

o texto é uma delícia de ler.
e é mesmo assim, a leitura salva, acalma, instiga, me ajuda a respirar...

e eu, que há mais de um mês não consigo ler um livro porque meus olhos não deixam, vou me sentindo assim, à mingua, faminta de amansar o meu silêncio...

um beijo pra ti!

Anônimo disse...

Hum... deu até vontade de ler! Bom texto, Ítalo!
Abraços