segunda-feira, 31 de outubro de 2011

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Uma crônica em duas partes

Ou duas croniquetas em um texto.
Isto porque tenho preferido os textos curtos. Aqueles que dizem e pronto. Tem sido assim na escrita, tem sido assim na fala.
Deparei-me com uma frase atribuída ao Johnny Depp (ele não sabe, mas o dia em que eu me casar, será com ele), rolando no Facebook com uma imagem dele: “Se você acha que ama duas pessoas ao mesmo tempo, escolha a segunda. Porque se você realmente amasse a primeira, não teria uma segunda opção!”. Será? Podemos lembrar do Raulzito aqui, né? “Que ninguém nesse mundo é feliz tendo amado uma vez, uma vez”.
Olha, Depp, se a frase é tua, já temos um problema. Vou repensar a ideia do casório. Porque êta frasezinha ruim. Mas eu acredito que a internet a tenha colocado como tua. E não acredito nenhum pouco nisso de que não se pode amar duas pessoas ao mesmo tempo. Não só acho que é possível, sim, como pra mim é condição natural nossa, de seres humanos. E condição bonita. Porque há algo mais bonito do que amar pessoas? Quem é que não ama os amigos, os de perto e os de longe? E só porque se está relacionando com alguém não se pode amar mais ninguém? Comigo isso não cola e não rola. E jamais se escolhe entre aqueles que você ama.
Eu amo, por exemplo, os meus alunos. É uma forma de amor, não é? E das mais bonitas. Porque me sinto bem pra caramba demonstrando a eles o quanto me sinto bem na presença deles (inclusive nos momentos de esporro geral, sempre necessários).
E amo tanto que compartilho com eles momentos que a mim significam muito: momentos de escrita e de leitura. Possibilidades de criar e de entrar em mundos até então nunca explorados; sequer existidos. Se cada um deles já é um mundo de proporções irreais, imagina o que vem de dentro, as diferentes leituras que brotam por uma sala de aula após a leitura ou a escrita de um texto.
E foi assim que lhes apresentei, nos últimos dias, o Rosamundo, um sujeito cujas distrações distraem até a gente, seus leitores. Personagem do Stanislaw Ponte Preta, Rosamundo é daqueles que entram no apartamento do andar de baixo e só vão se dar conta da distração quando já estão tomando banho e gritando para a mulher trazer a toalha. É, também, daqueles que ligam para a esposa pensando que falam com a amante, e vice-versa. E que erram de casa ao voltar do trabalho. É, na verdade, daqueles que não podem e nem conseguem trabalhar em lugar algum, simplesmente porque é muita distração para se colocar coisas importantes em risco tão iminente.
Rosamundo encanta e conquista. Tipo a leitura. Rosamundo a gente passa a amar porque não há exigência de sentimento, nem de comprometimento. Ama-se quando se deve e se sente bem para isso. Tipo a leitura. Aquela despretensiosa, aquela que vem para preencher, para satisfazer o que há de mais íntimo e mais puro. É quando o personagem se torna nosso. E a gente se ama. Da mesma forma que ama tantos outros. Só que diferente.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

o mundo

Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus.
Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.
- O mundo é isso ­– revelou –. Um montão de gente, um mar de fogueirinhas.
Cada pessoas brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.

Eduardo Galeano, página 13, “O livro dos abraços”. 

sábado, 15 de outubro de 2011

a todos os que sabem(os) amar


quero suar
quero sentir o corpo grudar e colar
sozinho

só de ficar parado

quero as gotas em bicas
do queixo e do cotovelo

quero o beijo que gruda
quero o suor azedo

de vida que pulsa e
se renova.

(também aqui)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

a leitura, quando basta

Há semanas em que ler não basta.
Estou vivendo semanas assim. As últimas duas. Ô dificuldade de leitura! De me concentrar em algo a ponto de conseguir entrar no que estou lendo. Não tem dado certo. No máximo, fico nos poemas do Manoel de Barros, naquele livrão que continuará sendo minha bíblia durante não sei mais quanto tempo. Ainda assim, esse ato de entrar nesse livrão tem se dado de maneira bastante rasa, ocasiando até mesmo choques, como se eu estivesse batendo meu corpo e minha cabeça contra o chão. A leitura que não flui, a leitura que trava, machuca. Tenho percebido.
Há semanas em que ler não basta.
Assim me vem saudades dos dias em que quanto mais eu lesse, mais vontade me vinha de continuar lendo. Saudades de quando a leitura era de mergulhar fundo, de ir e ir e ir cada vez mais. E não se afogar nesse movimento. Porque vinha a pausa, o respirar, o levantar a cabeça. E então o afundar novamente. Quando um livro só não bastava. Era preciso ler duas escritas diferentes num mesmo dia. Sem ideia de complementariedade. Poderiam ser leituras que se opunham, tanto fazia. A cabeça estava tão boa que permitia receber estímulos diferentes e bem assimilá-los.
Leitura pode ser compartilhar algo. Fazer tão bem que se deseja, então, ler para o outro, mostrar, fazer tocar mais alguém – sempre de uma forma diferente. E reler. Um sentimento de felicidade. Faço muito disso. Encaminho textos, indico livros e autores, conto e descrevo o que me deixou sem respirar de emoção. Sem contar quando faço da leitura um presente para alguém, acreditando na identificação da pessoa com o mesmo.
Leitura pode ser silenciar o que vem dentro. O despertar da não-necessidade da fala, do explicar. Pode ser a consciência plena que não precisa ser dita. Um sentimento de felicidade. Em que não há o desejo de compartilhar, e sim o de guardar para si, um relicário.
A leitura vem para preencher. Como vem para fazer transbordar. Sem ela eu não consigo.

(também aqui

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

poema pra dentro


fiz da solidão
morada.

casa de concreto
em quadrado,

formato em que
não me cabem
cantos

ou contornos.

exercício de endurecer
por força da vida.

í.ta**

(também aqui)

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

eu amo a escrita do saramago

"Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe, Dá-me um barco. A casa do rei tinha muitas mais portas, mas aquela era a das petições. Como o rei passava todo o tempo sentado à porta dos obséquios (entenda-se, os obséquios que lhe faziam a ele), de cada vez que ouvia alguém a chamar à porta das petições fingia-se desentendido, e só quando o ressoar contínuo da aldraba de bronze se tornava, mais do que notório, escandaloso, tirando o sossego à vizinhança (as pessoas começavam a murmurar, Que rei temos nós, que não atende), é que dava ordem ao primeiro-secretário para ir saber o que queria o impetrante, que não havia maneira de se calar. Então, o primeiro-secretário chamava o segundo-secretário, este chamava o terceiro, que mandava o primeiro-ajudante, que por sua vez mandava o segundo, e assim por aí fora até chegar à mulher da limpeza, a qual, não tendo ninguém em quem mandar, entreabria a porta das petições e perguntava pela frincha, Que é que tu queres. O suplicante dizia ao que vinha, isto é, pedia o que tinha a pedir, depois instalava-se a um canto da porta, à espera de que o requerimento fizesse, de um em um, o caminho ao contrário, até chegar ao rei. Ocupado como sempre estava com os obséquios, o rei demorava a resposta, e já não era pequeno sinal de atenção ao bem-estar e felicidade do seu povo quando resolvia pedir um parecer fundamentado por escrito ao primeiro-secretário, o qual, escusado seria dizer, passava a encomenda ao segundo-secretário, este ao terceiro, sucessivamente, até chegar outra vez à mulher da limpeza, que despachava sim ou não conforme estivesse de maré".

começo do "conto da ilha desconhecida".
_ _ _ _ _ 
í.ta**