quinta-feira, 29 de setembro de 2011

pena de ganso

"Que febre é essa? Trocar, trocar, expressar para além de todo limite. Essa vontade, essa vontade de não ser pedra, nem bicho, deixar nossa passagem marcada, gravar. Gravar o que vai dentro da gente, deixar para que qualquer um, seja quem for, seja quando for, seja onde for, experimente as mesmas coisas da gente ou reconheça, nas coisas da gente, as próprias coisas, e escape, assim, da tristeza enorme de pensar - é só comigo que acontece assim. Poder ler sozinha a folhinha na parede, as páginas do almanaque, o jornal que conta o mundo para o pai, nos domingos. O mundo, que os irmãos também podem ler, quando querem. Quando se lê o mundo, a gente não está mais sozinha - Aurora não sabe dizer a palavra solidão, e não é por isso que não sabe experimentá-la".

livro pena de ganso, de nilma lacerda, página 72.

í.ta**

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Costumamos achar que o mundo nasce com a gente


Escrevo muito, escrevo para deixar escrito.


            Título e epígrafe do livro “Pena de Ganso”, da Nilma Lacerda – com ilustrações do Rui de Oliveira. Livro que eu reli na última semana. Reli porque tô numas de mais reler do que ler. Porque a gente muda tanto que os livros mudam também, e daí que reencontrá-los é muito bom.
            A história de Aurora encanta. Uma menina que deseja aprender a ler e a escrever, em uma época em que não, meninas não tinham esse direito. O que fazer para ajudar Aurora? Será que ao lermos a sua história acabamos por dar a ela vida e possibilidade de realizar o desejo maior que tinha?
            Como leitores, sabemos que “este não é o melhor dos mundos, mas é o que podemos oferecer a ela”. A escrita não acontece sem tintas e o texto não existe sem um leitor. Uma história também não. Um personagem muito menos. Escrever pode ser solidão. A leitura, na maioria das vezes, também. Mas quando se lê e se escreve, quando se está em contato com algum personagem, jamais se está sozinho.
            “Um mundo em que escrever é um processo muito sofisticado, muito difícil. Ter acesso a isso, em certas circunstâncias, é tão ou mais difícil que o próprio aprendizado”.
            Brotar um texto é fazer nascer um mundo. Presunção? Eu diria que necessária. A vida nunca mais é a mesma depois que se conhece um personagem. Um dia na vida é muito. Uma vida não é brincadeira. Afinal, “o que é que acontece entre a tinta, o dedo da gente e um traço? O dedo da gente pode escolher um caminho, ir andando por ele e deixar registrada a marca dessa passagem”.
            E que venha o leitor para desmarcar tudo, desmontar. Dar novos significados. Fazer doer e arder para curar.

ítalo. (também aqui)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

começando maneca



fui começar o "poesia completa", do manoel de barros, que o enzo me deu de presente.

e já parei na "entrada". e pensei em sublinhar alguma coisa daquele texto. mas seria impossível. teria de sublinhar o texto todo. então resolvi colocá-lo aqui. e não sei se vou passar pras páginas seguintes. porque eu acho que a minha vida pode caber nesse texto. 
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"Distâncias somavam a gente para menos. Nossa morada estava tão perto do abandono que dava até para a gente pegar nele. Eu conversava bobagens profundas com os sapos, com as águas e com as árvores. Meu avô abastecia a solidão. A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim: O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz. Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade de pensar. Eu queria que as garças me sonhassem. Eu queria que as palavras me gorjeassem. Então comecei a fazer desenhos verbais de imagens. Me dei bem. Perdoem-me os leitores desta entrada mas vou copiar de mim alguns desenhos verbais que fiz para este livro. Acho-os como os impossíveis verossímeis de nosso mestre Aristóteles. Dou quatro exemplos: 1) É nos loucos que grassam luarais; 2) Eu queria crescer pra passarinho; 3) Sapo é um pedaço de chão que pula; 4) Poesia é a infância da língua. Sei que os meus desenhos verbais nada significam. Nada. Mas se o nada desaparecer a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades". (Manoel de Barros)
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í.ta**

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

twitt fora do twitter #15



"não é a vida como está 
e sim as coisas como são"


pode ser um alívio de esperança
ou um grito de desespero.


ítalo.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

fodidos

"Somos, enfim, o que fazemos para transformar o que somos. A identidade não é uma peça de museu, quietinha na vitrine, mas a sempre assombrosa síntese das contradições nossas de cada dia.
Nessa fé, fugitiva, eu creio. Para mim, é a única fé digna de confiança, porque é parecida com o bicho humano, fodido mas sagrado, e à louca aventura de viver no mundo".


esse eduardo galeano, no texto "celebração das contradições/ 2", no "livro dos abraços", leva-me à palavra. que por si só contradiz. e consequentemente acontece com quem dela faz uso. e que bom que assim é. perfeição de entendimento tornaria o mundo mais caótico do que já é. existimos meio que pela incompletude da linguagem. 


há uma passagem da peça "passport" em que um dos policiais diz ao outro algo mais ou menos assim (porque toda transcrição de fala é imperfeita por natureza): "o que me tranquiliza, chefe, é saber que nessa vida estamos todos fodidos".

e não é assim? 


a sinopse da peça diz: "Tudo acontece em alguma cidade, algum país esquecido. O Oficial e o Soldado exercem suas funções cotidianas sob a ordem dada em outro tempo. E em eterno presente, o Cidadão se vê em alguma cidad, algún país olvidado". a peça, baseada em um texto do dramaturgo venezuelano gustavo ott, explora os limites da linguagem, a incapacidade de comunicação entre as pessoas (de línguas diferentes, mas não só). ela inquieta o leitor que a assiste porque não há o que ser feito numa situação em que duas vozes dialogam cada uma em uma dimensão própria, podemos chamar assim. nós que a assistimos alcançamos essas duas dimensões (quem sabe?), mas não nos cabe intervir. talvez se tornaria, a nossa, apenas uma terceira voz se perdendo entre as outras duas. quanto mais alto o barulho, menos se ouve dele.

mas voltando à frase presente na peça, desde que a assisti duas vezes, ela não me sai da cabeça. e eu vivo a repetindo, às vezes em alto e bom som. como que para internalizá-la mais e mais. e para me sentir mais leve também. porque haja mania grandioloquente de nossa parte em tornar maior aquilo que é tão pouco. 

eu escrevo personagens por aí. dia sim, outro também. vários personagens, às vezes. noutras, grudo-me em um só. sinto-me sempre acompanhado. não só ouço, como também falo. dividimos pedaços de vida. compartilhamos felicidades e frustrações. trilhamos caminhos separados, sim, mas unidos de alguma forma. pela fala. e acreditamos num entendimento mútuo do que falamos entre nós. é melhor assim. por mais que saibamos que entender mesmo a gente continua entendendo só o que queremos dizer e o que queremos ouvir. e o nosso querer não é nosso, no sentido de ser de dois. é um querer de cada um. compartilhados. misturados. mas não tornado um só. 

então que ter essa ciência, de que estamos fodidinhos - graças a deos - no mesmo barco alivia muito a vida. 


é uma forma de nos abraçarmos, talvez. 

ítalo.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

esperei mesmo


"nem passar agosto esperando setembro".

ano passado a postagem foi esta.

este ano é o mesmo vídeo, o mesmo verso,
mas eu de fato esperei.

e olha que vivi em agosto dias e felicidades antes nunca vividos.
mas não dava mais pra aguentar esse mês. longo por demais. 

ainda bem que a gente muda. sempre. 

ítalo.